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21 de maio de 2003
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CRÔNICA

Frio

Dias de perfeito inverno no
outono anteciparam prazeres

Ivan Angelo

Tenho sido um observador encantado da relação muito particular do paulistano com o frio. Percebo um como que íntimo prazer nas pessoas quando se comunicam nas ruas aparentemente queixando-se: "Está frio, não?" Têm os olhos brilhantes, as bochechas coradas, o nariz úmido e um maldisfarçado sorriso. Por que disfarçado? É como se não fosse correto sentir prazer com aquilo que pode estar incomodando outras pessoas. Sutil delicadeza paulistana.

Em pleno outono, tivemos na semana passada uma oferta de perfeitos dias de inverno, secos, de luz intensa, céu límpido e azul, sol no ponto de apenas aquecer, poluição expulsa pelos ventos e temperaturas bem baixas. Foi um ensaio, uma amostra, e os paulistanos, entre deliciados e apreensivos, acenavam a cabeça uns para os outros como um comentário: já imaginou quando for o inverno de verdade?

Eles têm um certo orgulho do seu frio. Não todos os vinte milhões que vivem no planalto, mas os paulistanos clássicos têm. Eles o incluem entre as suas tipicidades: a pizza, a pressa, as fábricas, o sotaque, as roupas, os negócios; e às vezes entre os seus problemas: o trânsito, o transporte, a superpopulação, a ingovernabilidade. O frio é uma das caras de São Paulo.

Uma das faces com que a capital paulista é vista de fora. Sempre dizem: "Ai, lá faz muito frio!" Do Centro-Sul para cima, a acomodação dos paulistanos ao frio é considerada mais uma esquisitice local.

O verão é mais justo com os pobres. Frio é para pessoas em melhores condições de vida. Os solidários sabem disso, e oferecem sopa ou chocolate quente nas esquinas, fazem campanhas do agasalho, tentam ajudar. Assim podem desfrutar sem culpas os seus prazeres de inverno.

Os que vieram do Norte e Nordeste não suportam baixas temperaturas. Um escritor de Manaus que tentou viver em São Paulo migrou para o Rio, justificando-se: "Amazonense congela a 25 graus". Com ele concorda inteiramente um migrante pernambucano, amigo meu, que no fim de fevereiro já começa a dar sinais de angústia com o clima. No Rio, os cariocas irritam-se a partir do mês de abril, esperam o inverno com apreensão, embora ele não seja nem um pouco rigoroso por lá. Muitos dos que se queixam não estão preparados para ele, nem espiritualmente, nem materialmente.

Os paulistanos clássicos aprenderam a lidar com o frio em séculos de adaptação. Conhecimentos novos foram trazidos por levas de europeus imigrantes. Hábitos, curtições, charmes, tecnologias, equipamentos, confortos. É o espetáculo desse aprendizado particular, num país de raízes sul-americana, mediterrânea e africana, que me encanta nas ruas e nas casas.

No inverno antecipado da semana passada, voltaram a circular os casacões, um ou outro com lembranças de naftalina. Lãs coloridas em tons pastel, saias longas, echarpes, pashminas, estolas, meias, blusas, coletes reassumiram suas funções. Mulheres de botas altas pisotearam olhares nas avenidas e nos shoppings. Pinturas estilosas e protetoras desenharam novas linhas nos rostos femininos. Nas salas de jantar e nos restaurantes ressurgiram as fondues e raclettes, com sua lava amarelada a provocar ansiedades. Sopas fumegantes reapareceram nas mesas para dar seu recado de aconchego. Lareiras crepitaram. E o vinho tinto voltou a celebrar acordos e agradáveis anuências.

É assim em todo inverno, antecipado ou próprio. Até que, cansadas, as pessoas começam a pensar nas delícias e nos incômodos do próximo verão.

         
     
 
 
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