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21 de janeiro de 2004
ESPECIAL
CRÔNICA
   

CRÔNICA

Paulistano adotivo

Ivan Angelo


Fico pensando: por onde foi que São Paulo me pegou? Já contei que não sou daqui, que cheguei num dezembro de 38 anos atrás, meio tombado para um lado com o peso da mala carregada de incertezas.

Capital dez vezes maior que a minha, habitada por gente que andava mais depressa do que era costume na minha terra, e pedindo passagem; de caras com traços e cores bem mais variados; de vozes com sílabas tônicas deslocadas (mãiê!, Antoniô!) e consoantes como o "t" e o "r" soando muito puras; cidade de clima úmido, de névoas, de mais apelos, ruídos, ofertas, exigências, perigos, ordem, disciplina – mais tudo –, São Paulo dava trabalho aos que chegavam.

Eu não sabia, ou esqueci, que naquela década 60% das pessoas que moravam na capital tinham vindo de outras cidades, outros Estados, outros países. Não, eu não estava sozinho na minha perplexidade, talvez muitos dos que cruzavam comigo também hesitassem nas esquinas. Porque ir era complicado. Ruas labirínticas, ia-se para o norte pensando que para lá ficava o sul. Faltavam pontos de referência, ou a casa era grande demais para a gente se sentir em casa. Havia quartos escuros...

Obras, muitas obras no caminho dos anos. Avenidas, elevados, metrô, marginais, vias expressas... Até hoje a cidade se constrói e se destrói, sem nunca ficar pronta, sem guardar seu passado, escamoteando-se, retirando da paisagem casas, prédios, ruas inteiras, até rios. Olhava e pasmava. E percebia desordens aflorando na paisagem da ordem: favelas, construções clandestinas, camelôs, moradores de rua. Desordem e progresso.

Então, o que foi que me pegou?

Estaria sendo pretensioso se dissesse que foram os teatros, ou os numerosos cinemas. Que foram as bibliotecas, a vida cultural, os museus, a vibração profissional, os botecos, as cruzadas de pernas, os violões, os restaurantes, as feiras, os festivais. Ou as indústrias, o comércio, os bancos, a riqueza.

Tenho um amigo mineiro que passou anos praguejando contra a cidade. Um dia foi morar em Paris, que achava a delícia das delícias. Fui visitá-lo há alguns anos e ele me disse a certa altura da madrugada e da segunda garrafa de vinho: "Sabe que eu sinto uma saudade danada de São Paulo?". E ouvi de um pernambucano que vive em Berkeley, nos EUA: "São Paulo é um chip na minha cabeça".

A primeira vez que percebi que já "pertencia" a São Paulo foi quando me surpreendi comovido com a canção Sampa, que Caetano gravou em 1978: "Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João". Aquela maneira de ver a qualidade pelo ângulo do defeito me revelou o que eu próprio sentia. O que notamos como defeito pode significar o maior esforço. É como enxergar no ato de mancar não a falha, mas o esforço de andar. A canção captou o resultado de um gigantesco mutirão, sem o orgulho bairrista, o tom ufanista. Percebi: a poderosa São Paulo me pegava pelas coisas mínimas.

Detalhes. Rostos rústicos cobiçando ferramentas nas vitrines do centro. Volutas barrocas num frontão de casa antiga. Caprichosa pirâmide de tomates na feira, quando o feirante poderia simplesmente entorná-los na banca. Traços art déco em casas de bairros de um tempo em que a classe média ainda buscava estilo. Silvo inesperado de amolador de facas. Médico de branco dando consultas a mendigos na Avenida Paulista. Estrela de televisão comprando sapatos no shopping, sem assédio. Música de passarinhos, ainda e apesar. Uma pizza, um certo chope, uma coxinha, um bauru. Florista onde parecia improvável. Um miserável bradando na Sé: "Aqui ninguém morre de fome!".

Miudezas assim, somadas ao que a cidade tem de mundano e espetacular, transformaram o esperançoso migrante em paulistano por adesão e adoção.

         
     
 
 
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