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CRÔNICA
Paulistano
adotivo
Ivan
Angelo
Fico
pensando: por onde foi que São Paulo me pegou? Já
contei que não sou daqui, que cheguei num dezembro de 38
anos atrás, meio tombado para um lado com o peso da mala
carregada de incertezas.
Capital dez vezes maior que a minha, habitada por gente que andava
mais depressa do que era costume na minha terra, e pedindo passagem;
de caras com traços e cores bem mais variados; de vozes com
sílabas tônicas deslocadas (mãiê!, Antoniô!)
e consoantes como o "t" e o "r" soando muito puras; cidade de clima
úmido, de névoas, de mais apelos, ruídos, ofertas,
exigências, perigos, ordem, disciplina mais tudo ,
São Paulo dava trabalho aos que chegavam.
Eu não sabia, ou esqueci, que naquela década 60% das
pessoas que moravam na capital tinham vindo de outras cidades, outros
Estados, outros países. Não, eu não estava
sozinho na minha perplexidade, talvez muitos dos que cruzavam comigo
também hesitassem nas esquinas. Porque ir era complicado.
Ruas labirínticas, ia-se para o norte pensando que para lá
ficava o sul. Faltavam pontos de referência, ou a casa era
grande demais para a gente se sentir em casa. Havia quartos escuros...
Obras, muitas obras no caminho dos anos. Avenidas, elevados, metrô,
marginais, vias expressas... Até hoje a cidade se constrói
e se destrói, sem nunca ficar pronta, sem guardar seu passado,
escamoteando-se, retirando da paisagem casas, prédios, ruas
inteiras, até rios. Olhava e pasmava. E percebia desordens
aflorando na paisagem da ordem: favelas, construções
clandestinas, camelôs, moradores de rua. Desordem e progresso.
Então, o que foi que me pegou?
Estaria sendo pretensioso se dissesse que foram os teatros, ou os
numerosos cinemas. Que foram as bibliotecas, a vida cultural, os
museus, a vibração profissional, os botecos, as cruzadas
de pernas, os violões, os restaurantes, as feiras, os festivais.
Ou as indústrias, o comércio, os bancos, a riqueza.
Tenho um amigo mineiro que passou anos praguejando contra a cidade.
Um dia foi morar em Paris, que achava a delícia das delícias.
Fui visitá-lo há alguns anos e ele me disse a certa
altura da madrugada e da segunda garrafa de vinho: "Sabe que eu
sinto uma saudade danada de São Paulo?". E ouvi de um pernambucano
que vive em Berkeley, nos EUA: "São Paulo é um chip
na minha cabeça".
A primeira vez que percebi que já "pertencia" a São
Paulo foi quando me surpreendi comovido com a canção
Sampa, que Caetano gravou em 1978: "Alguma coisa acontece
no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga
e a Avenida São João". Aquela maneira de ver a qualidade
pelo ângulo do defeito me revelou o que eu próprio
sentia. O que notamos como defeito pode significar o maior esforço.
É como enxergar no ato de mancar não a falha, mas
o esforço de andar. A canção captou o resultado
de um gigantesco mutirão, sem o orgulho bairrista, o tom
ufanista. Percebi: a poderosa São Paulo me pegava pelas coisas
mínimas.
Detalhes. Rostos rústicos cobiçando ferramentas nas
vitrines do centro. Volutas barrocas num frontão de casa
antiga. Caprichosa pirâmide de tomates na feira, quando o
feirante poderia simplesmente entorná-los na banca. Traços
art déco em casas de bairros de um tempo em que a classe
média ainda buscava estilo. Silvo inesperado de amolador
de facas. Médico de branco dando consultas a mendigos na
Avenida Paulista. Estrela de televisão comprando sapatos
no shopping, sem assédio. Música de passarinhos, ainda
e apesar. Uma pizza, um certo chope, uma coxinha, um bauru. Florista
onde parecia improvável. Um miserável bradando na
Sé: "Aqui ninguém morre de fome!".
Miudezas assim, somadas ao que a cidade tem de mundano e espetacular,
transformaram o esperançoso migrante em paulistano por adesão
e adoção.
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