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CRÔNICA
Os
bonitões
As
mulheres são mesmo mais
vaidosas que os homens?
Walcyr
Carrasco
Outro
dia, depois de uma palestra, uma garota aproximou-se com um dos
meus livros, aberto. Mostrou minha foto sorridente na orelha. Com
a mais horripilante inocência infantil, ela perguntou:
Quantos anos o senhor tinha quando tirou essa fotografia?
Tive vontade de torcer as orelhas da pestinha. Achava não
ter mudado nada, absolutamente nada, nos últimos quinze anos.
Enquanto tentava sorrir como se a idade não importasse, eu
ouvi a amiguinha concordar:
Nossa, aqui ele estava bem mais moço!
Assumi que estava chegando à idade madura quando meus pêlos
começaram a brotar como capim embaixo de chuva. Primeiro
nas sobrancelhas. Já eram cerradas. Subitamente, saltaram
que nem as antenas de um inseto. Depois, oh!, nas pontas das orelhas.
Passei a barbear os lóbulos. Na seqüência, para
fora do nariz. No peito, já dava para fazer trancinhas. Sempre
tive uma certa barriga. Horrorizei-me quando um amigo ironizou:
Foi ao Ceasa hoje?
Não, por quê?
Parece que comprou uma melancia.
Corri a um cirurgião plástico, meu conhecido. Exibi
a dita-cuja esperançosamente.
Se fosse possível eliminar a sua barriga, eu tirava
a minha primeiro diagnosticou.
A dura explicação: o abdome masculino tende a se espalhar.
A banha não é localizada, do tipo que se arranca com
uma lipo. E o queixo? E o rosto?
O ideal é você emagrecer. Depois conserta.
Bem, esse é o problema. Emagrecer! Olhei no espelho. Um fio
de cabelo branco. Arranquei. No dia seguinte nasceram uns vinte!
Passei a observar os outros integrantes da manada. Antes, homem
que pintava o cabelo jamais confessava. Hoje, executivo faz reflexo.
Há quem opte por um exagerado tom acaju. O crânio parece
acarpetado. Outro dia tive uma reunião com um corretor imobiliário.
Seu topete era tão arranjado quanto um bolo de aniversário.
Uma amiga que me acompanhava observou:
No mínimo, duas horas de escova.
Já percebi, em festas, senhores de terno e gravata com uma
discreta camada de pancake. Quer dizer, não tão discreta,
pois deu para notar. Das unhas nem se fala. Algumas são idênticas
a espelho!
E os produtos? Certo diretor de empresa, quando viaja, esvazia o
frigobar do hotel para guardar a artilharia de rejuvenescimento.
Hidratantes, anti-rugas, vitaminas, o escambau. Na visita à
fazenda de um amigo, sofreu um grande prejuízo. Outro hóspede
devorou um pote de creme caríssimo pensando que era iogurte.
Tomei coragem. Entrei em uma loja de shopping à procura dos
artefatos de guerra. O vendedor me explicou:
Este você aplica de manhã, com movimentos circulares.
Este, em torno dos olhos. Este, na hora de dormir. Este...
E no pescoço?
Olhe, no pescoço não adianta muito.
Olhe, no pescoço não adianta muito.
Que adianta eu ficar com o rosto de um bebê e o pescoço
igual a uma jaca?
Senhor, é melhor do que se tornar uma jaca por inteiro.
Ou um abacaxi.
Diante da ameaça, comprei os produtos. Coloquei-os na pia.
Olho para eles todos os dias. Não me animo. Ah, que preguiça!
Acabei me rendendo ao xampu de camomila. Segundo garantiram, o cabelo
ganha tons dourados. É verdade. Estou usando-o há
um mês. Na semana passada me perguntaram:
Você anda pintando o cabelo?
Neguei. Recebi de volta um sorriso descrente. É o que dá.
Não foi preciso uma gota de tinta para ganhar a fama. Que
importa? Nada como a passagem dos anos para a gente se render a
certas preocupações. Vamos ser justos. A falada vaidade
feminina perde de longe, quando um homem se preocupa com a aparência.
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