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20 de novembro de 2002
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Os bonitões

As mulheres são mesmo mais
vaidosas que os homens?

Walcyr Carrasco


Outro dia, depois de uma palestra, uma garota aproximou-se com um dos meus livros, aberto. Mostrou minha foto sorridente na orelha. Com a mais horripilante inocência infantil, ela perguntou:

– Quantos anos o senhor tinha quando tirou essa fotografia?

Tive vontade de torcer as orelhas da pestinha. Achava não ter mudado nada, absolutamente nada, nos últimos quinze anos. Enquanto tentava sorrir como se a idade não importasse, eu ouvi a amiguinha concordar:

– Nossa, aqui ele estava bem mais moço!

Assumi que estava chegando à idade madura quando meus pêlos começaram a brotar como capim embaixo de chuva. Primeiro nas sobrancelhas. Já eram cerradas. Subitamente, saltaram que nem as antenas de um inseto. Depois, oh!, nas pontas das orelhas. Passei a barbear os lóbulos. Na seqüência, para fora do nariz. No peito, já dava para fazer trancinhas. Sempre tive uma certa barriga. Horrorizei-me quando um amigo ironizou:

– Foi ao Ceasa hoje?

– Não, por quê?

– Parece que comprou uma melancia.

Corri a um cirurgião plástico, meu conhecido. Exibi a dita-cuja esperançosamente.

– Se fosse possível eliminar a sua barriga, eu tirava a minha primeiro – diagnosticou.

A dura explicação: o abdome masculino tende a se espalhar. A banha não é localizada, do tipo que se arranca com uma lipo. E o queixo? E o rosto?

– O ideal é você emagrecer. Depois conserta.

Bem, esse é o problema. Emagrecer! Olhei no espelho. Um fio de cabelo branco. Arranquei. No dia seguinte nasceram uns vinte!

Passei a observar os outros integrantes da manada. Antes, homem que pintava o cabelo jamais confessava. Hoje, executivo faz reflexo. Há quem opte por um exagerado tom acaju. O crânio parece acarpetado. Outro dia tive uma reunião com um corretor imobiliário. Seu topete era tão arranjado quanto um bolo de aniversário. Uma amiga que me acompanhava observou:

– No mínimo, duas horas de escova.

Já percebi, em festas, senhores de terno e gravata com uma discreta camada de pancake. Quer dizer, não tão discreta, pois deu para notar. Das unhas nem se fala. Algumas são idênticas a espelho!

E os produtos? Certo diretor de empresa, quando viaja, esvazia o frigobar do hotel para guardar a artilharia de rejuvenescimento. Hidratantes, anti-rugas, vitaminas, o escambau. Na visita à fazenda de um amigo, sofreu um grande prejuízo. Outro hóspede devorou um pote de creme caríssimo pensando que era iogurte.

Tomei coragem. Entrei em uma loja de shopping à procura dos artefatos de guerra. O vendedor me explicou:

– Este você aplica de manhã, com movimentos circulares. Este, em torno dos olhos. Este, na hora de dormir. Este...

– E no pescoço?

– Olhe, no pescoço não adianta muito.

– Olhe, no pescoço não adianta muito.

– Que adianta eu ficar com o rosto de um bebê e o pescoço igual a uma jaca?

– Senhor, é melhor do que se tornar uma jaca por inteiro. Ou um abacaxi.

Diante da ameaça, comprei os produtos. Coloquei-os na pia. Olho para eles todos os dias. Não me animo. Ah, que preguiça!

Acabei me rendendo ao xampu de camomila. Segundo garantiram, o cabelo ganha tons dourados. É verdade. Estou usando-o há um mês. Na semana passada me perguntaram:

– Você anda pintando o cabelo?

Neguei. Recebi de volta um sorriso descrente. É o que dá. Não foi preciso uma gota de tinta para ganhar a fama. Que importa? Nada como a passagem dos anos para a gente se render a certas preocupações. Vamos ser justos. A falada vaidade feminina perde de longe, quando um homem se preocupa com a aparência.

         
     
 
 
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