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20 de abril de 2005
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O rosto por trás da máscara

Ele não dá autógrafos na rua, mas já foi
aplaudido por 2 milhões de espectadores
em musicais no Brasil e no México. A partir
de quinta, Saulo Vasconcelos estrela O
Fantasma da Ópera.
Mais uma vez,
estará irreconhecível em cena

Mônica Santos


Fotos Mario Rodrigues
Rodrigues
Vasconcelos, à paisana e como o atormentado Fantasma: dois meses de ensaios, dez horas por dia, e nenhum copo de cerveja


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Making of do espetáculo, vídeo e entrevistas

Na próxima quinta-feira, Dia de Tiradentes, quando se abrirem as cortinas do Teatro Abril, os paulistanos estarão diante de um fenômeno. Começa ali a longa temporada de O Fantasma da Ópera, que estreou há dezenove anos em Londres e detém o título de musical mais assistido de todos os tempos, com 52 milhões de espectadores em 21 países de nove diferentes idiomas. Atualmente, o espetáculo ocupa palcos nos quatro cantos do mundo, de Londres a Nova York, da Cidade do Cabo, na África do Sul, a Xangai, na China. Para trazer a montagem a São Paulo, onde ficará em cartaz pelo menos até abril de 2006, foram investidos 10 milhões de dólares, um recorde nacional. O autor desse estrondoso sucesso internacional é o inglês Andrew Lloyd Webber, um craque do gênero, também autor de Cats, visto por 18 milhões de pessoas durante uma temporada de 21 anos encerrada em 2002. Sua fórmula, feita de cenários suntuosos, melodias de fácil memorização – All I Ask of You, hit de O Fantasma da Ópera, é daquelas canções que todos já ouviram em algum lugar e embalam até casamentos –, figurinos irretocáveis, elencos afinados e muitos efeitos especiais, pega em cheio a platéia. Para completar, há a bem amarrada trama melodramática em torno do desfigurado e atormentado gênio da música apaixonado pela corista Christine que assombra a Ópera de Paris no fim do século XIX.

O Fantasma da Ópera é a quinta superprodução trazida pela CIE Brasil, subsidiária do grupo mexicano Corporación Interamericana de Entretenimiento, que transformou a cena teatral paulistana. A cidade, que abriga o que há de melhor no país em produções teatrais, a partir de 2000 se tornou referência nacional para as obras musicadas. Juntas, O Beijo da Mulher Aranha (2000), Les Misérables (2001), A Bela e a Fera (2002) e Chicago (2004) encantaram 1,3 milhão de pessoas. De quebra, estimularam a formação de um time de especialistas. Produções desse nível precisam de mais de uma centena de profissionais para funcionar. São maquinistas, contra-regras, costureiras, técnicos de som e luz, músicos e, claro, atores que sabem cantar, ou cantores que sabem representar. Foi atraído por esse filão que o brasiliense Saulo Vasconcelos, principal nome do elenco de 37 atores e dezenove músicos de O Fantasma da Ópera, desembarcou na cidade.


Mario Rodrigues
Ed Viggiani
João Caldas
Os três sucessos da carreira de Vasconcelos: O Fantasma da Ópera, Les Misérables (na foto, à esq.) e A Bela e a Fera. Longas sessões de maquiagem e figurinos pesados transformam o ator nos famosos personagens da Broadway

Aos 31 anos, Vasconcelos é o mais bem-sucedido ator brasileiro de musicais, aplaudido por 2 milhões de espectadores em quatro montagens da CIE. Sua exitosa trajetória não começou por aqui, mas na Cidade do México, justamente no papel que ele volta a interpretar agora. Há seis anos, o ator soube de uma audição para a peça Rent em São Paulo. Veio para cá e, temeroso da acirrada concorrência, resolveu turbinar seu currículo com participações (falsas) em Chorus Line, Grease e O Fantasma da Ópera. Só não foi desmascarado porque, apesar de nunca ter atuado nessas montagens, estudou-as por quase uma década e estava com boa parte do repertório na ponta da língua. Não se acanhou quando um dos membros da banca lhe pediu para apresentar um número de O Fantasma. Ele estava aqui em busca de um protagonista para a montagem mexicana do musical, depois de procurar em cinco países. "Achei que fosse uma brincadeira e fiquei arrasado ao ser reprovado para Rent", lembra Vasconcelos. Três meses depois, mudou-se para a Cidade do México e tornou-se o mais jovem Fantasma da história, aos 25 anos. Lá, conheceu a stage manager (algo como gerente de palco) Leslie Pierce, uma mexicana com quem se casaria dois anos mais tarde.

Além do talento vocal, o baritenor (expressão usada para designar os cantores capazes de alcançar tanto as notas agudas quanto as graves) reúne outros ingredientes que o credenciam para os musicais. É disciplinado, tem raciocínio rápido e faz o tipo galã: alto (1,88 metro), forte (100 quilos) e bonitão. Tais atributos o ajudaram nas audições de Les Misérables, em que fez o inflexível inspetor Javert, e A Bela e a Fera, no papel da Fera que vira príncipe na cena final. No ano passado, Vasconcelos voltou ao México, novamente em Les Misérables. Antes, disputou o papel do advogado Billy Flynn na montagem brasileira de Chicago. Acabou preterido em favor de Daniel Boaventura, outro ator requisitado para musicais e que dividiu o palco de A Bela e a Fera com Vasconcelos. "Os dois são excelentes, mas cada um na sua praia", diz o maestro Miguel Briamonte, que já trabalhou com ambos e está à frente da orquestra na atual montagem no Teatro Abril. "Saulo tem uma formação mais erudita, enquanto Daniel é mais jazz."


Fotos Mario Rodrigues
Atividades fora do palco: aulas de expressão corporal e malhação para manter a forma

Apesar de ter feito papéis importantes, dificilmente alguém o reconhece na rua. Em Les Misérables, a maquiagem de vinte minutos e a peruca o envelheciam. Em A Bela e a Fera, levava uma hora para se transformar no feioso personagem. O figurino pesava 25 quilos e lhe rendeu uma hérnia de disco. "É uma ferida de guerra que carrego com orgulho", diz. Agora, no Fantasma, a história se repete. O ator chegará duas horas antes das apresentações para, após uma sessão de cola, cosméticos e afins, ficar com o rosto totalmente deformado. E ainda usará a indefectível máscara. Apesar de não revelar os números de seu contrato, estima-se que Vasconcelos receba em torno de 10.000 reais por mês. Antes de virar uma estrela dos musicais, ele trabalhou como bancário, comprou e vendeu videogames usados e foi representante da Amway, empresa americana cujo sistema de vendas se baseia no boca-a-boca. Nas horas vagas, tocava uma bateria velha em uma banda de rock. Pensou em ser químico, cursou um semestre de faculdade e desistiu. Aconteceu o mesmo quando entrou em engenharia civil. Já o curso de economia, ele jura que teria terminado não tivesse conhecido o Coro Sinfônico Comunitário da Universidade de Brasília. "De uma hora para outra, troquei o rock pelas missas de Beethoven. E adorei."

Em 1994, após se apresentar com o coro da universidade no Carnegie Hall, em Nova York, decidiu mergulhar de vez na música. Integrava oito corais e investia todo o dinheiro ganho em aulas particulares de matemática, física e química em cursos de teatro, piano e canto. "Era o mais dedicado dos meus alunos", lembra o ator e barítono Sandro Christopher, atualmente radicado no Rio de Janeiro. "Se eu pedia para vir com duas músicas ensaiadas, ele aparecia com quatro." Nos últimos dois meses, Vasconcelos dedicou-se exclusivamente aos ensaios de O Fantasma da Ópera. Foram dez horas por dia, de terça a domingo. A partir da próxima semana, com a peça nos trilhos, pretende retomar sua rotina, da qual faz parte o trabalho de professor. Na escola OperÁria, na Mooca, ele ensina expressão corporal e canto. E quer voltar a pegar firme nos exercícios físicos. "Odeio, mas é essencial para meu trabalho", diz o ator, fã de churrascarias, de bolo prestígio e do bufê de saladas e antepastos da cantina Famiglia Mancini. "Minha maior preocupação é evitar bebidas alcoólicas enquanto estou em cartaz", afirma. "Qualquer copo de cerveja compromete meu desempenho no dia seguinte."

Ele vive com Leslie e o mini-schnauzer "Pepe" em um apartamento alugado na Bela Vista, próximo do Teatro Abril. Modesto, o lugar quase não tem espaço para acomodar seus videogames, que no momento estão no camarim do teatro, os 200 DVDs e os 1.000 CDs. Em seu CD-player até se ouvem musicais e obras eruditas, mas há muito rock pesado, de Rush a Iron Maiden, passando por Angra, Kiss, Pearl Jam... Os tempos de baterista são revividos em uma banda de amigos. É quando extravasa a rebeldia que nem de longe pode transparecer na voz de seu angustiado e sedutor personagem.

 
O Fantasma da Ópera (150min, com intervalo). 7 anos. Teatro Abril (1.527 lugares). Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista, 6846-6060. Quarta a sexta, 21h; sábado, 17h e 21h; e domingo, 16h e 20h. R$ 65,00 a R$ 180,00 (qua. a sex.); R$ 75,00 a R$ 200,00 (sáb. e dom.). Bilheteria: 12h/20h (seg. e ter.); a partir das 12h (qua. a dom.). Cc.: D, M e V. Cd.: R e V. Fnac, TM. www.teatroabril.com.br. Estréia prometida para quinta (21).

 

O Fantasma da Ópera no mundo...

52 milhões de espectadores
21 países
7 200 sessões na Broadway desde 1988
50 prêmios

...e no Brasil

10 milhões de dólares de investimentos
37 atores e 19 músicos
125 quilos de gelo-seco por sessão
100 toneladas de cenários e figurinos (só o lustre pesa 450 quilos)
160 perucas, 187 vestimentas, 100 chapéus e 100 pares de sapatos
60 profissionais nos bastidores

 

O espetáculo que ninguém vê

Fotos Mario Rodrigues
O argentino Christian Gruaz, que cria as máscaras do personagem principal, a sala de perucas e o lustre de 450 quilos: detalhes da produção milionária

A aventura teve início em 11 de janeiro, quando catorze carretas começaram a estacionar no Teatro Abril. Traziam, num total de 100 toneladas, todo o material necessário para a milionária montagem brasileira de O Fantasma da Ópera. Os números impressionam: 160 perucas, 100 chapéus, 187 vestimentas, 100 pares de sapatos, 21 cenários... E também o gigantesco lustre de 450 quilos que, no mais aguardado momento do musical, despenca do teto para o centro do palco em apenas quatro segundos. Semanas depois desembarcaram na cidade vinte profissionais vindos do México, dos Estados Unidos e da Inglaterra. São diretores, maquiadores, técnicos, enfim, gente tarimbada e que conhece cada detalhe da cartilha do autor, o inglês Andrew Lloyd Webber. Seja em São Paulo, seja na Broadway ou em qualquer outro lugar do mundo, nada pode ser mudado. Depois da estréia, os estrangeiros vão embora e nas coxias ainda permanecem sessenta brasileiros essenciais para cada apresentação.

À mexicana Geneviève Petitpierre coube ensinar às costureiras e lavadeiras truques como banhos de vodca para higienizar os figurinos mais pesados. Além de treinar um profissional para transformar o ator Saulo Vasconcelos no desfigurado gênio da música, o argentino Christian Gruaz vai deixar um estoque de máscaras prontas. Ele é a única pessoa autorizada a confeccioná-las. Cada uma dura, no máximo, dez sessões. "Se precisar de mais, eu mando depois", avisa. Outras oito pessoas aprenderam a cuidar das perucas. Vão passar o dia todo lavando, penteando e fazendo pequenos reparos nos adereços usados pelos atores. Há ainda chapeleiros, sapateiros, técnicos de som, maquinistas... Enfim, um batalhão de profissionais que, nos bastidores, protagoniza um espetáculo longe dos olhos do público.

 

As mulheres do Fantasma


Fotos João Caldas
das
Kiara Sasso (à esq.) e Sara Sarres (à dir.) alternam-se como a corista Christine, paixão do protagonista: atrizes cantam treze números e ficam quase o tempo todo em cena


Mario Rodrigues
A stage manager Leslie, mulher de Vasconcelos na vida real: ela faz o check-list dos bastidores e dá as deixas para som, luz e cenografia

 

     
   
 
 
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