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PERFIL O rosto
por trás da máscara Ele não dá
autógrafos na rua, mas já foi aplaudido por 2 milhões
de espectadores em musicais no Brasil e no México. A partir de
quinta, Saulo Vasconcelos estrela O Fantasma da Ópera. Mais
uma vez, estará irreconhecível em cena Mônica
Santos
Fotos Mario Rodrigues  | Rodrigues
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| Vasconcelos, à paisana e como o atormentado Fantasma:
dois meses de ensaios, dez horas por dia, e nenhum copo de cerveja |
Na próxima
quinta-feira, Dia de Tiradentes, quando se abrirem as cortinas do Teatro Abril,
os paulistanos estarão diante de um fenômeno. Começa ali a
longa temporada de O Fantasma da Ópera, que estreou há dezenove
anos em Londres e detém o título de musical mais assistido de todos
os tempos, com 52 milhões de espectadores em 21 países de nove diferentes
idiomas. Atualmente, o espetáculo ocupa palcos nos quatro cantos do mundo,
de Londres a Nova York, da Cidade do Cabo, na África do Sul, a Xangai,
na China. Para trazer a montagem a São Paulo, onde ficará em cartaz
pelo menos até abril de 2006, foram investidos 10 milhões de dólares,
um recorde nacional. O autor desse estrondoso sucesso internacional é o
inglês Andrew Lloyd Webber, um craque do gênero, também autor
de Cats, visto por 18 milhões de pessoas durante uma temporada de
21 anos encerrada em 2002. Sua fórmula, feita de cenários suntuosos,
melodias de fácil memorização All I Ask of You,
hit de O Fantasma da Ópera, é daquelas canções
que todos já ouviram em algum lugar e embalam até casamentos ,
figurinos irretocáveis, elencos afinados e muitos efeitos especiais, pega
em cheio a platéia. Para completar, há a bem amarrada trama melodramática
em torno do desfigurado e atormentado gênio da música apaixonado
pela corista Christine que assombra a Ópera de Paris no fim do século
XIX. O Fantasma da Ópera
é a quinta superprodução trazida pela CIE Brasil, subsidiária
do grupo mexicano Corporación Interamericana de Entretenimiento, que transformou
a cena teatral paulistana. A cidade, que abriga o que há de melhor no país
em produções teatrais, a partir de 2000 se tornou referência
nacional para as obras musicadas. Juntas, O Beijo da Mulher Aranha (2000),
Les Misérables (2001), A Bela e a Fera (2002) e Chicago
(2004) encantaram 1,3 milhão de pessoas. De quebra, estimularam a formação
de um time de especialistas. Produções desse nível precisam
de mais de uma centena de profissionais para funcionar. São maquinistas,
contra-regras, costureiras, técnicos de som e luz, músicos e, claro,
atores que sabem cantar, ou cantores que sabem representar. Foi atraído
por esse filão que o brasiliense Saulo Vasconcelos, principal nome do elenco
de 37 atores e dezenove músicos de O Fantasma da Ópera, desembarcou
na cidade.
Mario Rodrigues  |
Ed Viggiani  | João
Caldas  |
| Os três sucessos da carreira de Vasconcelos:
O Fantasma da Ópera, Les Misérables (na foto, à esq.)
e A Bela e a Fera. Longas sessões de maquiagem e figurinos pesados
transformam o ator nos famosos personagens da Broadway | Aos
31 anos, Vasconcelos é o mais bem-sucedido ator brasileiro de musicais,
aplaudido por 2 milhões de espectadores em quatro montagens da CIE. Sua
exitosa trajetória não começou por aqui, mas na Cidade do
México, justamente no papel que ele volta a interpretar agora. Há
seis anos, o ator soube de uma audição para a peça Rent
em São Paulo. Veio para cá e, temeroso da acirrada concorrência,
resolveu turbinar seu currículo com participações (falsas)
em Chorus Line, Grease e O Fantasma da Ópera. Só não
foi desmascarado porque, apesar de nunca ter atuado nessas montagens, estudou-as
por quase uma década e estava com boa parte do repertório na ponta
da língua. Não se acanhou quando um dos membros da banca lhe pediu
para apresentar um número de O Fantasma. Ele estava aqui em busca
de um protagonista para a montagem mexicana do musical, depois de procurar em
cinco países. "Achei que fosse uma brincadeira e fiquei arrasado ao ser
reprovado para Rent", lembra Vasconcelos. Três meses depois, mudou-se
para a Cidade do México e tornou-se o mais jovem Fantasma da história,
aos 25 anos. Lá, conheceu a stage manager (algo como gerente de
palco) Leslie Pierce, uma mexicana com quem se casaria dois anos mais tarde.
Além do talento vocal, o baritenor
(expressão usada para designar os cantores capazes de alcançar tanto
as notas agudas quanto as graves) reúne outros ingredientes que o credenciam
para os musicais. É disciplinado, tem raciocínio rápido e
faz o tipo galã: alto (1,88 metro), forte (100 quilos) e bonitão.
Tais atributos o ajudaram nas audições de Les Misérables,
em que fez o inflexível inspetor Javert, e A Bela e a Fera, no papel
da Fera que vira príncipe na cena final. No ano passado, Vasconcelos voltou
ao México, novamente em Les Misérables. Antes, disputou o
papel do advogado Billy Flynn na montagem brasileira de Chicago. Acabou
preterido em favor de Daniel Boaventura, outro ator requisitado para musicais
e que dividiu o palco de A Bela e a Fera com Vasconcelos. "Os dois
são excelentes, mas cada um na sua praia", diz o maestro Miguel Briamonte,
que já trabalhou com ambos e está à frente da orquestra na
atual montagem no Teatro Abril. "Saulo tem uma formação mais erudita,
enquanto Daniel é mais jazz."
Fotos Mario Rodrigues  |
| Atividades fora do palco: aulas de expressão
corporal e malhação para manter a forma |  |
Apesar de ter feito papéis
importantes, dificilmente alguém o reconhece na rua. Em Les Misérables,
a maquiagem de vinte minutos e a peruca o envelheciam. Em A Bela e a Fera,
levava uma hora para se transformar no feioso personagem. O figurino pesava 25
quilos e lhe rendeu uma hérnia de disco. "É uma ferida de guerra
que carrego com orgulho", diz. Agora, no Fantasma, a história se
repete. O ator chegará duas horas antes das apresentações
para, após uma sessão de cola, cosméticos e afins, ficar
com o rosto totalmente deformado. E ainda usará a indefectível máscara.
Apesar de não revelar os números de seu contrato, estima-se que
Vasconcelos receba em torno de 10.000 reais por mês. Antes de virar uma
estrela dos musicais, ele trabalhou como bancário, comprou e vendeu videogames
usados e foi representante da Amway, empresa americana cujo sistema de vendas
se baseia no boca-a-boca. Nas horas vagas, tocava uma bateria velha em uma banda
de rock. Pensou em ser químico, cursou um semestre de faculdade e desistiu.
Aconteceu o mesmo quando entrou em engenharia civil. Já o curso de economia,
ele jura que teria terminado não tivesse conhecido o Coro Sinfônico
Comunitário da Universidade de Brasília. "De uma hora para outra,
troquei o rock pelas missas de Beethoven. E adorei."
Em 1994, após se apresentar com o coro da universidade no Carnegie Hall,
em Nova York, decidiu mergulhar de vez na música. Integrava oito corais
e investia todo o dinheiro ganho em aulas particulares de matemática, física
e química em cursos de teatro, piano e canto. "Era o mais dedicado dos
meus alunos", lembra o ator e barítono Sandro Christopher, atualmente radicado
no Rio de Janeiro. "Se eu pedia para vir com duas músicas ensaiadas, ele
aparecia com quatro." Nos últimos dois meses, Vasconcelos dedicou-se exclusivamente
aos ensaios de O Fantasma da Ópera. Foram dez horas por dia, de
terça a domingo. A partir da próxima semana, com a peça nos
trilhos, pretende retomar sua rotina, da qual faz parte o trabalho de professor.
Na escola OperÁria, na Mooca, ele ensina expressão corporal e canto.
E quer voltar a pegar firme nos exercícios físicos. "Odeio, mas
é essencial para meu trabalho", diz o ator, fã de churrascarias,
de bolo prestígio e do bufê de saladas e antepastos da cantina Famiglia
Mancini. "Minha maior preocupação é evitar bebidas alcoólicas
enquanto estou em cartaz", afirma. "Qualquer copo de cerveja compromete meu desempenho
no dia seguinte." Ele vive com Leslie
e o mini-schnauzer "Pepe" em um apartamento alugado na Bela Vista, próximo
do Teatro Abril. Modesto, o lugar quase não tem espaço para acomodar
seus videogames, que no momento estão no camarim do teatro, os 200 DVDs
e os 1.000 CDs. Em seu CD-player até se ouvem musicais e obras eruditas,
mas há muito rock pesado, de Rush a Iron Maiden, passando por Angra, Kiss,
Pearl Jam... Os tempos de baterista são revividos em uma banda de amigos.
É quando extravasa a rebeldia que nem de longe pode transparecer na voz
de seu angustiado e sedutor personagem.
O Fantasma da
Ópera (150min, com intervalo). 7 anos.
Teatro Abril (1.527 lugares). Avenida Brigadeiro Luís Antônio,
411, Bela Vista,
6846-6060. Quarta a sexta, 21h; sábado, 17h e 21h; e domingo, 16h e 20h.
R$ 65,00 a R$ 180,00 (qua. a sex.); R$ 75,00 a R$ 200,00 (sáb. e dom.).
Bilheteria: 12h/20h (seg. e ter.); a partir das 12h (qua. a dom.). Cc.: D, M e
V. Cd.: R e V. Fnac, TM. www.teatroabril.com.br.
Estréia prometida para quinta (21). |
| O Fantasma
da Ópera no mundo...
52 milhões de espectadores 21 países
7 200 sessões na Broadway desde 1988 50 prêmios
...e no Brasil
10 milhões de dólares
de investimentos 37 atores e 19 músicos 125
quilos de gelo-seco por sessão 100 toneladas de cenários
e figurinos (só o lustre pesa 450 quilos) 160 perucas,
187 vestimentas, 100 chapéus e 100 pares de
sapatos 60 profissionais nos bastidores |
| O espetáculo que ninguém
vê
Fotos Mario Rodrigues  |
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| O argentino Christian Gruaz, que cria as
máscaras do personagem principal, a sala de perucas e o lustre de 450 quilos:
detalhes da produção milionária | A
aventura teve início em 11 de janeiro, quando catorze carretas começaram
a estacionar no Teatro Abril. Traziam, num total de 100 toneladas, todo o material
necessário para a milionária montagem brasileira de O Fantasma
da Ópera. Os números impressionam: 160 perucas, 100 chapéus,
187 vestimentas, 100 pares de sapatos, 21 cenários... E também o
gigantesco lustre de 450 quilos que, no mais aguardado momento do musical, despenca
do teto para o centro do palco em apenas quatro segundos. Semanas depois desembarcaram
na cidade vinte profissionais vindos do México, dos Estados Unidos e da
Inglaterra. São diretores, maquiadores, técnicos, enfim, gente tarimbada
e que conhece cada detalhe da cartilha do autor, o inglês Andrew Lloyd Webber.
Seja em São Paulo, seja na Broadway ou em qualquer outro lugar do mundo,
nada pode ser mudado. Depois da estréia, os estrangeiros vão embora
e nas coxias ainda permanecem sessenta brasileiros essenciais para cada apresentação.
À mexicana Geneviève
Petitpierre coube ensinar às costureiras e lavadeiras truques como banhos
de vodca para higienizar os figurinos mais pesados. Além de treinar um
profissional para transformar o ator Saulo Vasconcelos no desfigurado gênio
da música, o argentino Christian Gruaz vai deixar um estoque de máscaras
prontas. Ele é a única pessoa autorizada a confeccioná-las.
Cada uma dura, no máximo, dez sessões. "Se precisar de mais, eu
mando depois", avisa. Outras oito pessoas aprenderam a cuidar das perucas. Vão
passar o dia todo lavando, penteando e fazendo pequenos reparos nos adereços
usados pelos atores. Há ainda chapeleiros, sapateiros, técnicos
de som, maquinistas... Enfim, um batalhão de profissionais que, nos bastidores,
protagoniza um espetáculo longe dos olhos do público. |
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