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20 de abril de 2005
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EDUCAÇÃO

Recreio sem fim

Nada de horários nem de provas.
Na Lumiar, os alunos decidem
como irão aprender

Rodrigo Brancatelli

 
Heudes Régis
Crianças desenham no quintal: os professores são médicos, chefs e atores

Três alunos munidos de canetinhas coloridas desenham uma árvore amarela com frutas roxas na parede recém-pintada da escola Lumiar, na Bela Vista. A professora observa a brincadeira e repreende as crianças: "Não, não, não! Canetinha é ruim, usem o giz de cera". No casarão da década de 1930 que abriga a sede da escola, não é estranho ver os professores rabiscando as paredes, brincando de pega-pega ou jogando Banco Imobiliário. A Lumiar é a primeira representante brasileira de um movimento mundial chamado de "escola democrática". Lá não existem salas de aula nem lição de casa, tampouco separação por faixa etária – as próprias crianças, de 2 a 12 anos, ditam as regras. Querem ter aula de kung fu ou russo? Pode. Fazer biscoitos e assistir a desenhos a tarde inteira? Pode também. Jogar videogame, molhar os colegas com uma mangueira e desenhar uma árvore amarela na parede? Tudo bem, ainda mais se for com o giz de cera.

"De longe, parece uma grande bagunça, mas existe uma metodologia planejada por mais de três anos", diz a socióloga Helena Singer, diretora da escola. "Todas as atividades, mesmo as que parecem simples brincadeira, fazem parte da experiência do ensino." Financiada pelo empresário Ricardo Semler – que revolucionou sua empresa, a Semco, com uma gestão descentralizada e depois ganhou fama ao contar a experiência no best-seller Virando a Própria Mesa –, a instituição foi aberta em 2003 com vagas para 24 crianças. Hoje, tem o dobro de alunos. Para o segundo semestre, há planos de receber estudantes do ensino médio.


Mario Rodrigues
O educador Vicente Concilio e Caroline Gomes, de 11 anos: jogos


"Nossa proposta é preparar as crianças para a vida", afirma Helena. "Elas se tornam responsáveis por suas escolhas." Assim que chega à escola, a criança é recebida por um educador. Ele será uma espécie de guia, responsável por acompanhar de perto o desenvolvimento de um grupo de, no máximo, doze alunos. As aulas propriamente ditas são ministradas por profissionais das mais diversas áreas – psicólogos, chefs de cozinha, atores, médicos, arqueólogos... Eles desenvolvem pequenos projetos interdisciplinares que duram três meses. Matemática, por exemplo, pode ser ensinada na cozinha, enquanto se mede a quantidade de fermento para fazer um bolo.

A idéia de fazer uma "escola democrática" surgiu na década de 1920, na Inglaterra, com o Colégio Summerhill. Algumas experiências parecidas chegaram a ser aplicadas por aqui, mas nunca com a liberdade vista na Lumiar. As crianças são convidadas a participar até das assembléias trimestrais da escola. Na última discussão, decidiram mudar a cor das paredes para verde e contratar uma antropóloga especialista em cultura colombiana para dar aulas de espanhol. Outro pilar do projeto é a socialização dos estudantes. Cerca de 10% deles têm bolsa total e outros 60% ganham descontos – o restante paga mensalidade de 1.000 reais. Isso quer dizer que no mesmo grupo estão filhos de famílias de classe média alta e de representantes do movimento dos sem-teto. "Desde que as diretrizes do Ministério da Educação sejam seguidas, as instituições são livres para escolher qual método querem usar", afirma o educador Arlindo Queiroz, coordenador do MEC. "Mas um modelo alternativo precisa incitar o aluno a aprender. Nem toda metodologia inovadora é necessariamente boa."

 

Os métodos da escola

• Os alunos podem chegar e sair na hora em que quiserem. E só aparecem na escola se quiserem.

• Eles devem participar de todas as decisões que envolvem a gestão do colégio. São os estudantes que decidem quando e como aprender.

• Não há separação por série ou faixa etária.

• A convivência entre crianças de classes sociais distintas é incentivada. Cerca de 70% dos alunos têm bolsa de estudo total ou parcial.

• O educador que acompanha o desenvolvimento dos alunos é responsável por um grupo de, no máximo, doze deles.

• Não há professores formais. As aulas são ministradas por chefs de cozinha, psicólogos, atores...

     
   
 
 
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