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CRÔNICA Engordamos
Ivan Ângelo Comemoramos
nesta semana o Dia do Índio e o do Descobrimento do Brasil. Descobriu-se
o que não estava coberto, deu-se um dia a quem fora dono de seus dias.
Na época distante em que todo dia era dia
de índio não havia pequenos guaranis finando-se de desnutrição,
como hoje. E não havia obesos, certamente não havia nativos pesando
110, 180, 200 quilos. A proporção de obesos urbanos constatada recentemente
pelo IBGE alarmou a mídia e excitou políticos. Comentaristas ruidosos
aproveitaram a deixa e levantaram a polêmica, apregoaram a estatística
do peso médio nacional e passaram a negar a outra ponta, a da desnutrição.
É como a renda per capita. Ela não quer dizer que cada brasileiro
ganha cerca de 9.700 reais por ano. A média nos deu foi a gordura per capita.
Sem querer entrar no mérito, vale lembrar
que já fomos um continente de esbeltos, antes da colonização.
Os desbravadores do Brasil e das Américas falam de índios de corpos
esguios, fortes e nus. O primeiro observador, Pero
Vaz de Caminha, em 1500, descreve homens da terra, "mancebos e de bons corpos",
"tão dispostos, tão bem-feitos e galantes com suas tinturas", que
não "comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa
semente e fruitos", e "com isto andam tais e tão rijos e tão nédios
que o não somos nós tanto", ou seja, mais musculosos e de pele mais
lustrosa do que eles, portugueses. O navegador
Américo Vespúcio, no seu livro Quatro Navegações,
de 1507, diz que todos, "homens e mulheres, quer andando quer correndo, são
leves e velozes", uns atletas ("vimos que as mulheres, sem nenhum apoio, percorriam
a nado duas léguas de mar"), que têm "o corpo belo, elegante e bem
proporcionado, e não se lhes pode ver nenhum defeito", e as mulheres, mesmo
as que tiveram filhos, "se mostram inteiras e firmes, como se nunca tivessem parido".
Conquistadores que entraram pelo sul do continente
e avançaram até o nosso oeste toparam com guerreiros fortes, habilíssimos
combatentes. Viram saúde. O alemão Ulrico Schmidl chegou às
terras do Pantanal em meados do século XVI e fala de índias "formosas",
"belas", homens e mulheres "altos e grandes". Outros, como os franceses Jean de
Léry e André de Thevet e o alemão Hans Staden, descrevem
corpos semelhantes em seus relatos. No entanto,
um século depois, quando o pintor holandês Albert Eckhout pintou
os índios aculturados no Nordeste dominado por Maurício de Nassau,
entre 1637 e 1644, estes já eram roliços, macios, tinham barriga.
Que aconteceu? O Brasil já era grande produtor mundial de açúcar
de cana. E de cachaça. Consumiam açúcar os índios
mais próximos do litoral colonizado? Bebiam pinga? Que mudou na dieta deles?
Nos hábitos? Avancemos mais um século,
para o sertão de Mato Grosso. No nosso faroeste, o naturalista luso-brasileiro
Alexandre Rodrigues Ferreira encontrou em 1791 guerreiros altos, "espadaúdos
e quadrados, com os peitos largos e fornidos, o ventre plano, o dorso e os braços
musculosos". Hoje morrem por lá de desnutrição as crianças
guaranis. Os homens, que já não caçam, não pescam,
não plantam, não guerreiam, caem bêbados pelas estradas. Que
aconteceu? Voltando, e sem querer ferir individualidades,
lembro, apenas lembro, que este já foi um continente de esbeltos, atléticos,
e que vale a pena pensarmos um pouco em tudo isso, nos que se alimentam bem e
nos que se alimentam mal, nesta semana propícia. |