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20 de abril de 2005
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Engordamos

Ivan Ângelo

Comemoramos nesta semana o Dia do Índio e o do Descobrimento do Brasil. Descobriu-se o que não estava coberto, deu-se um dia a quem fora dono de seus dias.

Na época distante em que todo dia era dia de índio não havia pequenos guaranis finando-se de desnutrição, como hoje. E não havia obesos, certamente não havia nativos pesando 110, 180, 200 quilos. A proporção de obesos urbanos constatada recentemente pelo IBGE alarmou a mídia e excitou políticos. Comentaristas ruidosos aproveitaram a deixa e levantaram a polêmica, apregoaram a estatística do peso médio nacional e passaram a negar a outra ponta, a da desnutrição. É como a renda per capita. Ela não quer dizer que cada brasileiro ganha cerca de 9.700 reais por ano. A média nos deu foi a gordura per capita.

Sem querer entrar no mérito, vale lembrar que já fomos um continente de esbeltos, antes da colonização. Os desbravadores do Brasil e das Américas falam de índios de corpos esguios, fortes e nus.

O primeiro observador, Pero Vaz de Caminha, em 1500, descreve homens da terra, "mancebos e de bons corpos", "tão dispostos, tão bem-feitos e galantes com suas tinturas", que não "comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e fruitos", e "com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto", ou seja, mais musculosos e de pele mais lustrosa do que eles, portugueses.

O navegador Américo Vespúcio, no seu livro Quatro Navegações, de 1507, diz que todos, "homens e mulheres, quer andando quer correndo, são leves e velozes", uns atletas ("vimos que as mulheres, sem nenhum apoio, percorriam a nado duas léguas de mar"), que têm "o corpo belo, elegante e bem proporcionado, e não se lhes pode ver nenhum defeito", e as mulheres, mesmo as que tiveram filhos, "se mostram inteiras e firmes, como se nunca tivessem parido".

Conquistadores que entraram pelo sul do continente e avançaram até o nosso oeste toparam com guerreiros fortes, habilíssimos combatentes. Viram saúde. O alemão Ulrico Schmidl chegou às terras do Pantanal em meados do século XVI e fala de índias "formosas", "belas", homens e mulheres "altos e grandes". Outros, como os franceses Jean de Léry e André de Thevet e o alemão Hans Staden, descrevem corpos semelhantes em seus relatos.

No entanto, um século depois, quando o pintor holandês Albert Eckhout pintou os índios aculturados no Nordeste dominado por Maurício de Nassau, entre 1637 e 1644, estes já eram roliços, macios, tinham barriga. Que aconteceu? O Brasil já era grande produtor mundial de açúcar de cana. E de cachaça. Consumiam açúcar os índios mais próximos do litoral colonizado? Bebiam pinga? Que mudou na dieta deles? Nos hábitos?

Avancemos mais um século, para o sertão de Mato Grosso. No nosso faroeste, o naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira encontrou em 1791 guerreiros altos, "espadaúdos e quadrados, com os peitos largos e fornidos, o ventre plano, o dorso e os braços musculosos". Hoje morrem por lá de desnutrição as crianças guaranis. Os homens, que já não caçam, não pescam, não plantam, não guerreiam, caem bêbados pelas estradas. Que aconteceu?

Voltando, e sem querer ferir individualidades, lembro, apenas lembro, que este já foi um continente de esbeltos, atléticos, e que vale a pena pensarmos um pouco em tudo isso, nos que se alimentam bem e nos que se alimentam mal, nesta semana propícia.

     
   
 
 
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