Donos do pedaço

Do ditador ao democrático, os 35 000
síndicos da cidade estão cada vez mais
distantes da figura do velhinho aposentado

Valéria França

 
Ilustrações Negreiros
O SÍNDICO DEMOCRÁTICO
Tem experiência administrativa. Envolvente e simpático, consegue o apoio e a ajuda dos moradores. Faz pesquisas de opinião, pede idéias e integra os condôminos


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Quem são eles
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Quarta-feira. Oito e meia da noite. Salão de festas com poucas cadeiras desocupadas. O quórum da assembléia não é dos mais baixos. Afinal, chegou o dia de escolher quem, durante dois anos, dará as cartas no condomínio. Ninguém se candidata. Até que um morador resolve acelerar o "sofrimento" coletivo e sugere o nome de um vizinho que encontrou, no máximo, meia dúzia de vezes no elevador – mas lhe parece responsável. O restante do grupo adere rapidamente à idéia. É assim, com um empurrãozinho e quase por acaso, que 63% dos síndicos são eleitos e transformam-se na autoridade máxima dos 30.000 prédios residenciais de São Paulo. A falta de interesse pela função não chega a ser surpresa para o 1,4 milhão de famílias que moram em apartamentos na cidade. Todo mundo sabe como pode ser desgastante cuidar dos interesses alheios. A novidade é que o perfil do síndico mudou. Hoje, metade dos síndicos da capital são mulheres (veja quadro). Há cinco anos elas eram apenas 30%, de acordo com uma pesquisa da Toledo & Associados, encomendada pela Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (Aabic). Sua figura está cada vez mais distante daquele senhor aposentado que assumia o condomínio por ter tempo de mais e paciência de menos.

 
SÍNDICO CHATO
Em geral está na terceira idade e tem mania de perfeição. Fica de olho em tudo. Sem jogo de cintura, leva as regras do condomínio ao pé da letra

O que se vê por aí, segundo o levantamento, são paulistanos em idade produtiva (49% têm menos de 50 anos) organizando a vida do prédio. São médicos, engenheiros, comerciantes, funcionários públicos ou donas-de-casa que deparam com o desafio e, acreditem, acabam gostando dele – 87% querem a segunda gestão. "Além dos benefícios, eles ocupam uma posição de destaque que não querem perder", explica José Roberto Graiche, presidente da Aabic. Em alguns casos, os síndicos têm a vantagem de não pagar o condomínio. Outros recebem salário para resolver conflitos entre os moradores, estar em dia com a manutenção do edifício e cuidar da parte burocrática: fundos de reserva, balancetes, despesas gerais e gastos com funcionários... É verdade que hoje ficou mais fácil entender tudo isso. Boa parte conta com a ajuda de administradoras. Na web, há sites especializados com dicas para quem está começando (www.ocondominio.com.br; www.uol.com.br/sindico; www.secovi-sp.com.br). Nas livrarias, a literatura técnica foi substituída por guias práticos de fácil compreensão. O Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi) criou o Disque-Síndico ( 5591-1218). O serviço recebe mais de 1.000 ligações por mês. Isso sem contar os e-mails e as consultas pessoais na sede da Vila Mariana.

 
Fotos Rogério Montenegro
Bancária aposentada, Ada está há sete anos no comando do prédio de 216 apartamentos na Nove de Julho: providencia enterros, dá conselhos e oferece docinhos e refrigerante nas assembléias Gomiero, síndico de áreas comuns do Parque Residencial Aclimação: além de colocar em ordem as piscinas, a garagem e o jardim, incentiva cursos de alfabetização para os faxineiros

Para os mais interessados, há cursos específicos. Além do Secovi, as Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) oferecem aulas de administração em condomínios. Nada de vestibular. Em 42 horas, cerca de 150 alunos recebem noções básicas de contabilidade e dicas de como ter uma gestão de sucesso. "O síndico é a figura-chave. Ele pode harmonizar a vida do prédio ou transformá-la em um inferno", diz a professora Rosely Schwartz, autora do livro Revolucionando o Condomínio. Consultora em administração de empresas, ela virou especialista no tema de tanto fazer pesquisas para tirar as dúvidas de seus clientes. Depois de visitar 150 prédios, Rosely descobriu e classificou os tipos de síndico mais comuns. Deparou com o ditador, que centraliza o trabalho e não leva em conta a opinião de ninguém. Mas teve a sorte de encontrar o democrático, que com alguma experiência administrativa envolve os moradores e recebe muita ajuda (veja ilustrações ao longo desta reportagem).



Caminhada e alongamento no Morumbi: receita para integrar 352 famílias

Omissão, prepotência, arrogância e falta de transparência na administração do dinheiro comunitário são as reclamações mais comuns contra os síndicos. Por isso, saber escolhê-los é fundamental (veja dicas ). Não foi o que aconteceu no Edifício Itaimbé, nos Jardins, onde a vida pacata dos moradores, em grande parte aposentados, virou uma aventura policial desde que a gestão mudou de mãos. Eles entraram na Justiça contra o síndico Wagner Loyola Borba, acusado de superfaturamento nas reformas do prédio e omissão dos balancetes. No 78º DP, na Rua Estados Unidos, há três boletins de ocorrência contra Borba. Segundo os documentos, o síndico teria retido e aberto as correspondências dos que não o apóiam. "Ele ameaçou uma vizinha de 82 anos. Disse a ela que se cuidasse porque os elevadores são velhos e podem cair", conta a condômina Marian Dorothy Templar Hart.

 
Ilustrações Negreiros
O OCUPADO
Só convoca reuniões ocasionais e tem pouco tempo para os problemas do prédio. Depende do zelador para saber o que acontece lá dentro

No Parque Residencial Aclimação, a administração é tão democrática que ali foi criado o síndico de áreas comuns. O engenheiro Luís Antônio Gomiero, de 55 anos, cuida da manutenção e organização da garagem, das duas piscinas, da sauna, do jardim e do lixo reciclável. Montou uma comissão composta de moradoras, que planeja cursos como o de ikebana. Apoiou a iniciativa das professoras aposentadas de alfabetizar o pessoal da faxina. "Isso não quer dizer que não temos problemas", diz Gomiero. Fica difícil imaginar um condomínio que não enfrente, ainda que em menor proporção, três probleminhas básicos: garagem, cachorros e crianças. O Botticelli, na Pompéia, encontrou um jeito diferente de resolver este último. Para diminuir a bagunça e envolver 45 crianças e adolescentes nas questões do edifício de oitenta apartamentos, foi inventado o cargo de síndico mirim. "Eles viviam correndo pela portaria, pisavam na grama e quebravam os brinquedos", lembra o síndico Marcos Balduin Rodrigues. Eleito pela garotada, Lucas Lanzeoni Sedrão, de 12 anos, organiza campeonatos, faz reivindicações em nome da turma e comandará a coleta de lixo reciclável duas vezes por semana.

 
O INTERESSADO
É o novato. Nunca pensou em se candidatar, mas foi empurrado para o cargo. Procura o máximo de informações para fazer uma boa gestão

Quando sobra dinheiro no caixa do condomínio, há quem prefira contratar um profissional. Esse foi o caminho escolhido pelos moradores do São Giorgio, prédio de alto padrão, com cinco apartamentos dúplex e um tríplex, nos Jardins, onde a taxa de manutenção mensal é de 2.400 reais. Ter um estranho no comando, no entanto, nem sempre agrada. "Optamos por um rodízio. Todos são obrigados a passar pelo cargo", diz a economista Rita de Cássia Mendes de Oliveira, que acaba de assumir a função no Saint-Paul de Vence. O edifício tem apenas treze apartamentos. "Nossa sorte é que os proprietários são empresários aptos a assumir a função", explica Rita.

 
O DITADOR
Dá duro, faz o que quer, não delega nada e não liga para a opinião dos vizinhos. Usa o cargo para favorecer os "aliados"

Quanto maior o conjunto residencial, mais complicada é sua administração. Cartão-postal de São Paulo, o Edifício Copan justifica o clichê de que se trata de uma cidade: tem 1.160 apartamentos e 5.000 habitantes distribuídos em seis blocos. Os apartamentos variam de 29 a 214 metros quadrados. Na década passada, os blocos menores do prédio projetado por Oscar Niemeyer abrigavam pontos de prostituição e de tráfico de drogas. O Copan foi recuperado a duras penas. Seu síndico é remunerado. Ganha cerca de 2.000 reais por mês. Há nove anos no comando, o químico Affonso Celso de Oliveira providenciou reformas elétricas, hidráulicas e de fachada. Teve o apoio da polícia para tirar os traficantes e proibiu a prostituição. Nesse caso, seu êxito vem de uma postura enérgica e antipática. "Quando o morador não se adapta às regras, faço de tudo para ele se mudar", diz Oliveira.


Rogério Montenegro

Lucas e Cauê, síndico e subsíndico mirim: a dupla cuida dos interesses de 45 crianças e adolescentes de um edifício na Pompéia


O apoio dos proprietários é fundamental para que uma gestão dê certo. Não é raro uma assembléia ser cancelada por falta de quórum. "O segredo é integrar os moradores", afirma o economista Paulo Roberto Uehara, 47 anos. Síndico do Condomínio Edifício Alto do Morumbi, com 352 apartamentos, ele criou um programa de caminhadas matinais que ganhou muitos adeptos. "Conseguimos aumentar nosso corpo diretivo de quatro para oito conselheiros", diz Uehara. Falante e autoritária, a bancária aposentada Ada Maria Marangoni encontrou outra solução: serve docinhos, café e refrigerante nas reuniões do condomínio. "Nossas assembléias viraram uma festa", orgulha-se ela, responsável pelo Edifício 28 de Agosto, um conjunto de seis blocos com um total de 216 apartamentos na Avenida Nove de Julho. Ada vai além para conquistar o eleitorado. Providencia enterros, chama a ambulância quando necessário e dá o ombro para as vizinhas com problemas amorosos. "É muito importante lembrar que o cargo de síndico é transitório", diz. "Imagine só o que é conviver com os vizinhos depois de ter sido arrogante e prepotente."

 
O PROFISSIONAL
Muitas vezes trabalha em uma administradora e tem amplo conhecimento sobre as leis. Ganha, em média, cinco salários mínimos
Ilustração Negreiros

 

Os prefeitos de três pequenas cidades

Fotos Rogério Montenegro
Vilma Peramezza, 60 anos, há catorze cuidando de 240 escritórios, um centro comercial e oitenta apartamentos do Conjunto Nacional: "O mais trabalhoso é o residencial, o Edifício Guayupiá". Lá foi criada uma estrutura especial para atender às necessidades dos residentes, em sua maioria da terceira idade. Eles têm um office-boy e um gerente, que resolvem problemas de manutenção interna dos apartamentos. O condomínio custa 1 500 reais.

Affonso Celso de Oliveira, 62 anos, morador e síndico do Edifício Copan, organiza a convivência de 5 000 moradores e administra as áreas comuns de 1 160 apartamentos: "As pessoas têm dificuldade de obedecer às regras". Ele ganha cerca de 2 000 reais por mês pelo cargo, que ocupa há nove anos. Comanda um batalhão de 109 funcionários. Precisa até de um walkie-talkie para passar ordens. O condomínio varia de 96 a 350 reais.

Maria Senhora Silva Lima, 30 anos, síndica do Cingapura da Avenida Ricardo Jafet, administra 320 apartamentos. "Tirei a favela dos fundos e em seu lugar, hoje, temos uma quadra." Faz pequenas reformas nas áreas comuns. O condomínio é de 25 reais.

 

 FIQUE DE OLHO

Na hora de eleger
Analise bem a personalidade do candidato. Quando ele chega ao poder, algumas de suas características podem se potencializar. Prefira o sociável e comunicativo.
Pergunte se ele tem um plano de administração.
Procure saber como ele trata a família e os empregados da própria casa.
Noções de administração e leis de condomínio contam pontos.

Depois da eleição
A transparência é uma regra de ouro: veja se ele chama os condôminos para reuniões, consulta o conselho para as decisões mais importantes e apresenta as contas de forma que todos entendam. Do contrário, cobre.
O síndico jamais deve deixar de atender um morador. Faça com que suas opiniões e reclamações sejam levadas em conta.
Sugira a realização de pesquisas de opinião. Elas são importantes para o síndico entender melhor as necessidades do condomínio.
Verifique se o prédio executa pequenos reparos e as obras necessárias nas áreas comuns. A manutenção em dia ajuda a valorizar o imóvel.

 

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