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Ivan
Angelo
Cabeças
duras
Quando
um não quer, dois não teimam
Quem
ainda não ouviu esta acusação:
Ai, meu Deus, como você é teimoso!
Podem
escrever: quem chama uma pessoa de teimosa tenta teimosamente
convencê-la de alguma coisa ou se recusa a aceitar o
que ela afirma. Parece claro, mas essa verdade não
entra em certas cabeças. A teimosia não tem
um lado só, tem dois: o de quem insiste e o de quem
resiste. O burro empaca porque o carroceiro teima em obrigá-lo
a andar. Se uma das partes desiste, acaba-se a teima. Então,
não discuta, leitor: um teimoso depende basicamente
de outro para existir, como uma topada depende de um obstáculo.
Coisa
diferente é defender a razão, atitude muitas
vezes confundida com teimosia. Mas... não será?
Por exemplo, uma pessoa insiste em que Memorial de Aires
é um romance de Machado de Assis, enquanto a outra
repete que é de José Saramago. A primeira estará
com a razão se chamar a segunda de teimosa? E esta
não terá razão se fizer o mesmo, só
porque sua afirmação não é a verdadeira?
Quem finca pé no que é certo não é
teimoso? A outra pessoa teima é com igual certeza de
que está certa, embora não esteja. Uma coisa
é a teima, outra é a verdade. A primeira pessoa
estará com a razão, mas não será
menos teimosa. Não é, entretanto, uma simples
criatura empacada; defende um princípio, uma fé,
uma certeza, uma verdade. Giordano Bruno sustentou sua verdade
perante a Inquisição e morreu queimado; Galileu
Galilei desdisse o que disse e salvou-se.
Muitos
se tornaram heróis por ter a cabeça dura. Insistiram
em ficar quando os outros correram ou desistiram. Quem pode
dizer que não foi por teimosia que Moisés conseguiu
tirar os escravos hebreus do Egito? Quantas vezes teve de
insistir com o faraó, quantas pragas teve de rogar
para que o povo de Jeová pudesse partir? E Gandhi,
era um teimoso ou não era? Não foi teimando
que conseguiu tirar a Índia dos ingleses e devolvê-la
aos indianos?
Todas
essas preocupações me acometem por causa de
um sobrinho, bebê de 2 anos. Temo, na verdade, a sina
dos cabeçudos cotidianos, aqueles folclóricos.
Há casos na família que justificam receios.
Um tio
morou dois anos debaixo de uma árvore no quintal, agüentando
chuva, frio e sujeira de coruja porque o pai dele sentenciou
que ou ele dormia no quarto com o avô ou não
dormiria em lugar nenhum dentro da casa. Só foi para
o quarto quando o avô morreu. Outro tio, irmão
desse, brigou com o padre da cidade, jurou que nunca mais
falaria com ele. Confessava-se e comungava na cidade vizinha.
Morreu sem extrema-unção, murmurando "antes
o inferno, prefiro o inferno!" Conta-se que uma parenta deles
exclamou uma vez:
Nunca mais piso naquela sala!
Era uma
passagem para os dormitórios e a cozinha, e pelo resto
da vida ela deu a volta por fora da casa para ir ao quarto,
ao banheiro, à cozinha, debaixo de chuva ou de sol.
Sumiram os detalhes, ficou a jura terrível.
É
conhecido em São Paulo o caso do homem que subiu em
uma árvore ameaçada de corte pela prefeitura
e ficou lá, dias, apoiado pela imprensa, com o fim
de impedir que ela fosse derrubada. Conseguiu, virou herói
por um dia.
Teimosos
são capazes de atos mesquinhos ou de gestos de grandeza.
O sobrinho que citei acima ainda é muito pequeno para
uma coisa ou outra. Estudo os sinais. Quando param de insistir
para ele comer legumes, ele come; não se senta se é
obrigado; puxa o rabo do cão "n" vezes, apesar das
mordidas; basta falar "não faça" para ele fazer;
põem-lhe uma roupa, ele tira, vinte vezes; quando diz
"não", nem chocolate resolve.
Não
sei se devo me preocupar ou me alegrar, se teremos na família
um Gandhi ou mais um tio maluco.
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