Direto da horta

Restaurantes investem em produção própria
para oferecer verduras e temperos mais frescos

Lúcia Monteiro

 
Fotos Renato Chaui
Depois de passarem um mês na estufa (1) de uma fazenda no sul de Minas, as mudas de alface americana são plantadas no campo irrigado, onde ficam mais cinco semanas (2). Logo após a colheita, 100 cabeças de alface e outras 25 hortaliças viajam em caminhão refrigerado (3). Na mesma noite começa sua distribuição pelas dez filiais da rede Galeto's. São servidas na mesa de saladas e acompanham pratos como o baby galeto (4)

Do campo à mesa do restaurante, as folhas de alface percorrem um longo caminho. Colhidas de manhã cedo, num dos 150 municípios que fornecem produtos agrícolas para a Ceagesp, chegam a viajar 200 quilômetros em caminhões não refrigerados. Na central de abastecimento de São Paulo, ficam em boxes também não refrigerados por até nove horas, esperando pelos compradores. Quando chegam aos restaurantes, são lavadas, guardadas e servidas, em geral, no dia seguinte. Para oferecer verduras mais frescas e saborosas, alguns desses estabelecimentos resolveram encurtar esse processo. Criaram hortas próprias em fazendas, como as da rede Galeto's, do Le Coq Hardy e do Empório Santa Maria, ou em espaços menores, dentro da cidade. Nos pequenos canteiros construídos numa praça triangular cedida pelo Condomínio Cetenco Plaza, em plena Avenida Paulista, nascem manjericão, alecrim, salsão, louro e capim-limão para o restaurante Spot. "O gosto é maravilhoso e dá prazer colher na hora esses temperos", afirma Maria Helena Guimarães, uma das sócias. "E o melhor: o ambiente fica perfumado."

Para os restaurantes, a mudança significa economia. Sem intermediários e com menos desperdício, o preço final fica mais baixo. A exceção é o Empório Santa Maria. Os orgânicos da Quinta do Empório Santa Maria. Os orgânicos da Quinta do Lago, em Itatiba, que abastece o restaurante do luxuoso supermercado, custam o dobro dos demais. "Com sementes importadas, as minicenouras e os minirrabanetes têm sabor concentrado", afirma o chef executivo do Santa Maria, Joël Ruiz. Transportadas em caminhões com ar condicionado, as verduras não se estragam nem murcham no caminho. Nas fazendas que produzem para o Galeto's, o Le Coq Hardy e o Santa Maria, as estufas protegem as folhagens do mau tempo. "Elas ficam até 100% mais caras quando chove muito", observa o economista da Ceagesp Flávio Luís Godas. "A produção direta foi a solução para manter um padrão de qualidade e de preço o ano inteiro", explica o agrônomo Walter Magalhães da Silva, diretor de suprimentos do Galeto's.


O canteiro de alecrim do Spot: cultivado em plena Paulista

A rede começou a experiência há três anos, com seis produtos, na Fazenda Paraguai, no sul de Minas Gerais, a 220 quilômetros da capital paulista. O local foi escolhido por ter uma nascente, o que garante água livre de contaminação. Hoje, em 14 hectares cultivados, são plantados três tipos de alface, quatro de tomate, cenoura, pepino e beterraba. Graças à parceria, foi possível oferecer, no bufê de saladas, uma variedade de radicchio menos amarga, a baby rúcula, que, colhida antes do tempo, tem sabor suave e textura macia, além de chicória frisée e ciboulette, uma espécie de cebolinha francesa. Como estão na moda, esses itens são concorridíssimos na Ceagesp – e seus preços vão às alturas. "No Ceasa, cada semana as coisas têm um gosto diferente", diz Magalhães. Para o consumidor, as vantagens da produção direta são a garantia de produtos com um mesmo padrão de aparência e sabor.

"As hortaliças frescas têm paladar e textura muito melhores", afirma o crítico de gastronomia Josimar Mello. "Isso vale principalmente para as ervas. Conforme o tempo passa, seu aroma diminui e é preciso aumentar a quantidade para ter o mesmo resultado." Esse é o segredo do sucesso da horta de Vincenzo Ondei, dono do Le Coq Hardy, que começou de brincadeira em 1998. Ele plantou alguns temperos em seu sítio, em Itupeva. Hoje em dia, dezesseis variedades de ervas e verduras hidropônicas (cultivadas na água e não na terra e, por isso, sem necessidade de defensivos) ocupam todos os 10 hectares da propriedade. Sua produção, além de atender ao restaurante, é vendida em supermercados de primeira linha, como a Casa Santa Luzia.

 

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