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CRÔNICA
Muambeiro
de luxo
É
só pensar em viajar que começam
os pedidos dos amigos
Walcyr
Carrasco
Fui
viajar para o exterior há pouco tempo. Mal comentei meus
planos, começaram os pedidos. Amigos encomendaram CDs, camisetas,
blusas, eletrônicos. Antes de embarcar, já me sentia
cansado, pensando no peso das malas. A empregada pediu:
O senhor me traz uma lembrancinha?
Tentei
explicar:
Olha, eu não sou Papai Noel indo para o Pólo Norte
buscar as renas.
Adiantou?
Ela fechou a cara, ofendidíssima.
Mas é só para mim!
Esse
é o problema quando a gente viaja. Cada amigo, cada pessoa
que convive com a gente sente-se especial. É verdade, todas
têm um lugar em meu coração. Mas não
em minha mala! Certa vez uma amiga bateu as pestanas, pedindo:
Você me traz um perfume?
Quis
ser original. Em uma loja parisiense encontrei um líquido
à base de violeta. O rótulo garantia que a fórmula
era antiga, da época de Maria Antonieta. Trouxe, feliz da
vida. Quando abrimos, tinha um cheiro pavoroso de creolina. Minha
amiga nem conseguiu agradecer. A tal fórmula antiga era do
tempo em que ninguém tomava banho. Os perfumes eram muito
mais fortes. Em outra ocasião, um amigo que viajava comigo
recebeu a incumbência de comprar um tênis bem maior
que a média. Assisti ao coitado se debatendo de cidade em
cidade em busca do tal tênis. Acabou deixando de visitar o
Museu Picasso, em Barcelona, para revirar uma loja de departamentos.
Pior, nem encontrou. Na volta, o amigo magoou-se.
Não trouxe o tênis? Bem que você podia ter se
esforçado um pouco!
Desta
vez, o pior dos meus dramas foi um baralho de tarô, usado
para ler passado, presente, futuro e alternativas. Pedido de um
amigo místico. Fui a Budapeste, Viena e Praga. Comecei a
procurar na primeira cidade. Indicaram uma loja. Fui, só
havia baralho normal. Em outra, em outra... Somente em Viena descobri
que a palavra tarock designa o baralho de jogar cartas. Por isso
sempre me indicavam a loja errada. E eu andava quilômetros!
Meu amigo lamentou-se:
É que eu queria fazer uma coleção...
Na
peça Como Encher um Biquíni Selvagem, de Miguel
Falabella, há uma piada perfeita. A certa altura, a protagonista
se queixa:
Quando um parente viaja, só traz chaveirinho.
Acha
que é presente porcaria. Pode? Ganha o presente e ainda reclama.
É o caso: ninguém se satisfaz com a tal "lembrancinha".
Todo mundo quer do bom e do melhor. Suspirei. Mas não pude
escapar. Fiz a lista. Esquecer alguém é um problema.
Evitei os tais chaveirinhos. Comprei CDs. Camisetas. Moedeiras.
Ursinhos. Sabonetinhos artesanais. Velas. As malas, abarrotadas.
Acabei na fila de inspeção da alfândega. Suava.
Como provar que não era um muambeiro de CDs? Um traficante
de camisetas? Continuo suando, à medida que chegam as faturas
dos cartões de crédito. E quando sou espetado pelo
acupunturista.
Espera
aí. O que tem a ver a acupuntura com a viagem? O peso das
malas arrebentou meu ciático. Cada vez que encontro um amigo,
tenho vontade de atirar um CD na cabeça dele.
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