Publicidade
 
 

 
 
 


19 de junho de 2002
TURISMO
NEGÓCIOS
SERVIÇO
POLÍCIA
COMPORTAMENTO
AS BOAS COMPRAS
TERRAÇO PAULISTANO
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

CRÔNICA

Muambeiro de luxo

É só pensar em viajar que começam
os pedidos dos amigos

Walcyr Carrasco


Fui viajar para o exterior há pouco tempo. Mal comentei meus planos, começaram os pedidos. Amigos encomendaram CDs, camisetas, blusas, eletrônicos. Antes de embarcar, já me sentia cansado, pensando no peso das malas. A empregada pediu:

– O senhor me traz uma lembrancinha?

Tentei explicar:

– Olha, eu não sou Papai Noel indo para o Pólo Norte buscar as renas.

Adiantou? Ela fechou a cara, ofendidíssima.

– Mas é só para mim!

Esse é o problema quando a gente viaja. Cada amigo, cada pessoa que convive com a gente sente-se especial. É verdade, todas têm um lugar em meu coração. Mas não em minha mala! Certa vez uma amiga bateu as pestanas, pedindo:

– Você me traz um perfume?

Quis ser original. Em uma loja parisiense encontrei um líquido à base de violeta. O rótulo garantia que a fórmula era antiga, da época de Maria Antonieta. Trouxe, feliz da vida. Quando abrimos, tinha um cheiro pavoroso de creolina. Minha amiga nem conseguiu agradecer. A tal fórmula antiga era do tempo em que ninguém tomava banho. Os perfumes eram muito mais fortes. Em outra ocasião, um amigo que viajava comigo recebeu a incumbência de comprar um tênis bem maior que a média. Assisti ao coitado se debatendo de cidade em cidade em busca do tal tênis. Acabou deixando de visitar o Museu Picasso, em Barcelona, para revirar uma loja de departamentos. Pior, nem encontrou. Na volta, o amigo magoou-se.

– Não trouxe o tênis? Bem que você podia ter se esforçado um pouco!

Desta vez, o pior dos meus dramas foi um baralho de tarô, usado para ler passado, presente, futuro e alternativas. Pedido de um amigo místico. Fui a Budapeste, Viena e Praga. Comecei a procurar na primeira cidade. Indicaram uma loja. Fui, só havia baralho normal. Em outra, em outra... Somente em Viena descobri que a palavra tarock designa o baralho de jogar cartas. Por isso sempre me indicavam a loja errada. E eu andava quilômetros! Meu amigo lamentou-se:

– É que eu queria fazer uma coleção...

Na peça Como Encher um Biquíni Selvagem, de Miguel Falabella, há uma piada perfeita. A certa altura, a protagonista se queixa:

– Quando um parente viaja, só traz chaveirinho.

Acha que é presente porcaria. Pode? Ganha o presente e ainda reclama. É o caso: ninguém se satisfaz com a tal "lembrancinha". Todo mundo quer do bom e do melhor. Suspirei. Mas não pude escapar. Fiz a lista. Esquecer alguém é um problema. Evitei os tais chaveirinhos. Comprei CDs. Camisetas. Moedeiras. Ursinhos. Sabonetinhos artesanais. Velas. As malas, abarrotadas. Acabei na fila de inspeção da alfândega. Suava. Como provar que não era um muambeiro de CDs? Um traficante de camisetas? Continuo suando, à medida que chegam as faturas dos cartões de crédito. E quando sou espetado pelo acupunturista.

Espera aí. O que tem a ver a acupuntura com a viagem? O peso das malas arrebentou meu ciático. Cada vez que encontro um amigo, tenho vontade de atirar um CD na cabeça dele.

         
     
 
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | VEJA Noite São Paulo
copyright © 2002 . Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados