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19 de abril de 2006
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RELIGIÃO

Budismo é pop

Dalai Lama vem dar palestras com
ingressos que custam 120 reais
e já estão esgotados

Rodrigo Brancatelli

 
Carolina Godefroid
Templo budista Zu Lai, em Cotia: o maior da América Latina


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A maioria dos ingressos para as apresentações custa 120 reais, o equivalente a quatro lugares no camarote superior da Sala São Paulo para assistir a um concerto da Orquestra Sinfônica do Estado ou quase duas idas a O Fantasma da Ópera. Quer dizer, custavam. Colocadas à venda em 10 de março, as entradas evaporaram das bilheterias em menos de uma semana. O evento em questão não é um megashow, como o das bandas U2 e Oasis, mas uma palestra com uma venerável figura de 70 anos, com aparência frágil e fala mansa, que prega a compaixão, o desapego e a paciência. Apesar de não ser nenhum astro do rock, o líder espiritual Dalai Lama, prêmio Nobel da Paz em 1989, é, sim, um pop star. Considerado na religião budista como a reencarnação do próprio Buda da Compaixão, ele passará por São Paulo com sua turnê mundial entre os dias 27 e 29 para participar de conferências no Templo Zu Lai (em Cotia, na região metropolitana), no Anhembi e no Ginásio do Ibirapuera. Ao todo, 13 500 pessoas ouvirão seus ensinamentos sobre saúde e espiritualidade ao vivo. A procura foi tanta que a organização providenciou telões para que mais gente pudesse participar do encontro. Para acompanhar a transmissão, pagam-se 70 reais. Também esses ingressos estão quase no fim.

 

Gustavo Bartolini: aulas das 6 às 23 horas e viagem para Taiwan

O Dalai Lama ("Oceano de Sabedoria", em palavras dos idiomas mongol e tibetano) nasceu no Tibete, província fincada na Cordilheira do Himalaia e anexada à China. É um dos símbolos mais conhecidos da religião criada há cerca de 2.500 anos pelo príncipe Sidarta Gautama, na Índia. O budismo não tem um deus único, pecados, muito menos explicações sobre a origem do universo. O que vale é praticar o bem. Essa doutrina se disseminou por toda a Ásia, sempre se moldando às culturas locais – no Japão, por exemplo, herdou certa rigidez do xintoísmo, enquanto a encarnação tibetana foi influenciada pelas práticas xamânicas. O boom no Ocidente, no entanto, só aconteceu nos anos 90. Atualmente há 3 milhões de budistas praticantes nos Estados Unidos, entre eles os atores Richard Gere e Jennifer Lopez (um estudo de 2004 mostra ainda que 25 milhões de pessoas consideram que a religião influencia sua espiritualidade). No Brasil, são cerca de 250.000 – 70% no estado de São Paulo. O radialista Heródoto Barbeiro, a vereadora e jornalista esportiva Soninha e a atriz Cláudia Raia fazem parte do grupo. Mais do que uma religião, o budismo virou um estilo de vida. Com a ajuda da doutrina, executivos tentam lidar melhor com a pressão, atletas buscam aumentar a concentração e estudantes driblam o stress. É esse o caso das alunas de administração Constance Zahn, Carolina Vieira e Ana Beatriz Cardim, que procuram no Templo Zu Lai uma espécie de válvula de escape para os problemas do dia-a-dia. "Sou católica, mas me interesso pela filosofia do budismo", diz Constance, de 22 anos. "Eu quero ser uma pessoa zen", conta Carolina, de 23. "O budismo ajuda a lidar melhor com nossas dúvidas e inseguranças."

 

Carolina, Ana Beatriz e Constance: meditação

O Templo Zu Lai – que recebe todo mês 12.000 pessoas, a maioria curiosos sobre a religião, como as estudantes – é o maior da América Latina. Essa construção suntuosa de 10.000 metros quadrados na região da Granja Viana, a 28 quilômetros da Praça da Sé, é inspirada nos palácios da dinastia Tang, que governou a China entre os séculos VII e X. Custou cerca de 10 milhões de reais. Os telhados recurvados e as dezenas de estátuas de Buda, entre as quais uma de jade de 4 toneladas, foram importados de Taiwan. Ao lado de cursos de meditação, artesanato e culinária vegetariana, funciona ali uma faculdade gratuita de budismo. Diariamente, das 6 às 23 horas, um grupo de onze estudantes tem aulas de inglês, chinês, história, princípios do darma (conjunto de ensinamentos budistas), primeiros contatos com os sutras (textos sagrados da religião), tai chi chuan e kung fu. Só podem sair do templo duas vezes por mês, para visitar parentes. No fim do segundo ano letivo, os melhores alunos são mandados a Taiwan para completar os estudos e podem virar monges. Um dos estudantes é Gustavo Bartolini, de 23 anos, que já cursou artes plásticas na Universidade de São Paulo, trabalhou como videomaker e fez teatro amador. "O budismo tem um lado pop, que atrai desde católicos até judeus, mas também tem uma face rígida, séria, que exige muita dedicação", afirma Bartolini. "Claro que foi um choque para a minha mãe, pois tive de largar tudo, até o namoro", explica. "Mas é bom fazer uma mudança brusca assim na vida. É nesses momentos que você acaba se conhecendo de verdade."

     
   
 
 
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