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RELIGIÃO
Budismo é pop
Dalai Lama vem dar palestras com
ingressos que custam 120 reais
e já estão esgotados
Rodrigo Brancatelli
Carolina Godefroid
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| Templo budista Zu Lai, em Cotia: o maior da
América Latina |
A maioria dos ingressos para as apresentações
custa 120 reais, o equivalente a quatro lugares no camarote superior
da Sala São Paulo para assistir a um concerto da Orquestra
Sinfônica do Estado ou quase duas idas a O Fantasma da
Ópera. Quer dizer, custavam. Colocadas à venda
em 10 de março, as entradas evaporaram das bilheterias em
menos de uma semana. O evento em questão não é
um megashow, como o das bandas U2 e Oasis, mas uma palestra com
uma venerável figura de 70 anos, com aparência frágil
e fala mansa, que prega a compaixão, o desapego e a paciência.
Apesar de não ser nenhum astro do rock, o líder espiritual
Dalai Lama, prêmio Nobel da Paz em 1989, é, sim, um
pop star. Considerado na religião budista como a reencarnação
do próprio Buda da Compaixão, ele passará por
São Paulo com sua turnê mundial entre os dias 27 e
29 para participar de conferências no Templo Zu Lai (em Cotia,
na região metropolitana), no Anhembi e no Ginásio
do Ibirapuera. Ao todo, 13 500 pessoas ouvirão seus ensinamentos
sobre saúde e espiritualidade ao vivo. A procura foi tanta
que a organização providenciou telões para
que mais gente pudesse participar do encontro. Para acompanhar a
transmissão, pagam-se 70 reais. Também esses ingressos
estão quase no fim.
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| Gustavo Bartolini: aulas das 6 às 23
horas e viagem para Taiwan |
O Dalai Lama ("Oceano de Sabedoria", em palavras
dos idiomas mongol e tibetano) nasceu no Tibete, província
fincada na Cordilheira do Himalaia e anexada à China. É
um dos símbolos mais conhecidos da religião criada
há cerca de 2.500 anos pelo príncipe Sidarta Gautama,
na Índia. O budismo não tem um deus único,
pecados, muito menos explicações sobre a origem do
universo. O que vale é praticar o bem. Essa doutrina se disseminou
por toda a Ásia, sempre se moldando às culturas locais
no Japão, por exemplo, herdou certa rigidez do xintoísmo,
enquanto a encarnação tibetana foi influenciada pelas
práticas xamânicas. O boom no Ocidente, no entanto,
só aconteceu nos anos 90. Atualmente há 3 milhões
de budistas praticantes nos Estados Unidos, entre eles os atores
Richard Gere e Jennifer Lopez (um estudo de 2004 mostra ainda que
25 milhões de pessoas consideram que a religião influencia
sua espiritualidade). No Brasil, são cerca de 250.000
70% no estado de São Paulo. O radialista Heródoto
Barbeiro, a vereadora e jornalista esportiva Soninha e a atriz Cláudia
Raia fazem parte do grupo. Mais do que uma religião, o budismo
virou um estilo de vida. Com a ajuda da doutrina, executivos tentam
lidar melhor com a pressão, atletas buscam aumentar a concentração
e estudantes driblam o stress. É esse o caso das alunas de
administração Constance Zahn, Carolina Vieira e Ana
Beatriz Cardim, que procuram no Templo Zu Lai uma espécie
de válvula de escape para os problemas do dia-a-dia. "Sou
católica, mas me interesso pela filosofia do budismo", diz
Constance, de 22 anos. "Eu quero ser uma pessoa zen", conta Carolina,
de 23. "O budismo ajuda a lidar melhor com nossas dúvidas
e inseguranças."
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| Carolina, Ana Beatriz e Constance: meditação
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O Templo Zu Lai que recebe todo mês
12.000 pessoas, a maioria curiosos sobre a religião, como
as estudantes é o maior da América Latina.
Essa construção suntuosa de 10.000 metros quadrados
na região da Granja Viana, a 28 quilômetros da Praça
da Sé, é inspirada nos palácios da dinastia
Tang, que governou a China entre os séculos VII e X. Custou
cerca de 10 milhões de reais. Os telhados recurvados e as
dezenas de estátuas de Buda, entre as quais uma de jade de
4 toneladas, foram importados de Taiwan. Ao lado de cursos de meditação,
artesanato e culinária vegetariana, funciona ali uma faculdade
gratuita de budismo. Diariamente, das 6 às 23 horas, um grupo
de onze estudantes tem aulas de inglês, chinês, história,
princípios do darma (conjunto de ensinamentos budistas),
primeiros contatos com os sutras (textos sagrados da religião),
tai chi chuan e kung fu. Só podem sair do templo duas vezes
por mês, para visitar parentes. No fim do segundo ano letivo,
os melhores alunos são mandados a Taiwan para completar os
estudos e podem virar monges. Um dos estudantes é Gustavo
Bartolini, de 23 anos, que já cursou artes plásticas
na Universidade de São Paulo, trabalhou como videomaker e
fez teatro amador. "O budismo tem um lado pop, que atrai desde católicos
até judeus, mas também tem uma face rígida,
séria, que exige muita dedicação", afirma Bartolini.
"Claro que foi um choque para a minha mãe, pois tive de largar
tudo, até o namoro", explica. "Mas é bom fazer uma
mudança brusca assim na vida. É nesses momentos que
você acaba se conhecendo de verdade."
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