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PÁSCOA
Coelhinhos paulistanos
Amargo, ao leite, crocante, branco,
com recheio ou folhado a ouro...
Na época do ano em que mais se
come chocolate, especialistas criam
variedades irresistíveis. Vai um bombom?
Marcella Centofanti
Fotos de Fernando Moraes
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| Boa parte dos chocolateiros não
consegue passar um dia sequer sem comer ao menos um bombom.
Pois há quem nunca tenha provado o que faz. Em 1998,
Andressa Vasconcellos (à esq.) prometeu nunca
mais colocar chocolate na boca. É sua sócia Cristina
Almeida quem testa as delícias da Saint Phylippe, que
vão de ovinhos de 100 gramas (29,96 reais) a um inacreditável
ovo com cacau da Tanzânia, Java ou República Dominicana,
que leva folhas de ouro comestíveis e pesa 2 quilos (800
reais, na foto) |
Minifábricas de chocolates,
comandadas por ágeis e sorridentes coelhinhos, parecem brotar
em cada esquina de São Paulo nesta época do ano. Em
forma de ovos, bombons, pirulitos e bonecos, os chocolates enfeitam
vitrines e fazem o paulistano cair em tentação. Às
vésperas da Páscoa, um batalhão de chefs amadores
veste o avental e transforma a cozinha de casa numa pequena indústria
de perdições. No meio deles, há um grupo de
profissionais que se especializou em fazer do chocolate uma arte.
Embalagens caprichadas, formatos que lembram esculturas e matéria-prima
da melhor qualidade compõem esses produtos de primeira linha.
Durante o ano todo, os chefs criam delícias que satisfazem
chocólatras em casamentos, festas de aniversário ou
em um simples cafezinho de fim de tarde. Mas é nesta época
que eles buscam inspiração para reinventar modelos,
cores e recheios. Não é necessário ser expert
para perceber a diferença evidente entre uma marca artesanal
classe A e outra de padrão industrial. "Um pedaço
de chocolate medíocre gruda na boca e deixa gosto de manteiga
de cacau", explica Braulio Pasmanik, colunista de gastronomia da
revista Gula. "Ao comer um bom, você sente sobretudo
o cacau e identifica nuances no sabor." Cheiro, brilho e frescor
também são elementos indispensáveis a um chocolate
inesquecível. Na Chocolat du Jour, por exemplo, nenhuma das
trufas expostas nas vitrines de seus três endereços
(Jardins, Itaim Bibi e Shopping Iguatemi) foi produzida na véspera
todas, como diz o nome da grife, são do próprio
dia. Nos últimos cinco anos, seu chocolate foi considerado
o campeão paulistano da categoria pelo júri da edição
especial O Melhor da Cidade, de Veja São Paulo.
A inconfundível caixinha de metal dourada é uma de
suas marcas registradas.
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| Há cinco anos
consecutivos eleito o melhor
chocolate pelo júri da edição especial
O Melhor da Cidade, de Veja São Paulo,
a Chocolat du Jour foi fundada em 1987 por Claudia
Landmann (à dir.), que hoje tem a filha
Patricia como parceira. A joaninha, lançamento
desta Páscoa, pesa 200 gramas e custa 89 reais
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Criada em 1987, a empresa ganhou
seu atual perfil após a abertura das importações,
no início dos anos 90. "Eu não conseguia resultados
excepcionais apenas com a matéria-prima brasileira", diz
a proprietária e fundadora Claudia Landmann. Hoje, seus bombons
misturam ingredientes nacionais e importados, mesma alquimia utilizada
pela especialista Pati Piva. "O brasileiro gosta de doce bem melado",
afirma Pati, que vende suas tentadoras criações no
Empório Santa Maria e na Daslu, endereços que pertencem
respectivamente a seus cunhados Otávio Piva e Eliana Tranchesi.
Em sua pequena fábrica, localizada no Morumbi, o aroma inconfundível
contagia toda a vizinhança. O ovo responsável por
pelo menos 50% das vendas leva recheio de brigadeiro (igual ao que
todo mundo faz em casa, sem nenhum segredo). "Temos um longo caminho
a percorrer antes de gostar de chocolate amargo", acredita ela.
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| O francês Fabrice
Le Nud, da Douce France, entende como poucos das propriedades
do chocolate. Seu conhecimento se reflete no alto nível
dos produtos (o de 475 gramas, com recheio pelo lado
de fora, sai por 85 reais). Avesso a invencionices,
não faz cascas recheadas nem usa embalagens
coloridas |
Entre os gourmets, é quase
unanimidade considerar os amargos, com maior porcentagem de cacau,
como os melhores. "São mais leves e menos gordurosos", aponta
o chef Fabrice Le Nud, da Douce France, que fabrica bombons com
até 70% de cacau. Aos 42 anos, oito deles no Brasil, o francês
da Normandia fala com a autoridade de poucos sobre as propriedades
do chocolate. Seu conhecimento se reflete no alto nível de
seus doces. Le Nud pode ser considerado um purista, avesso a grandes
inovações. Não usa produto nacional ("Questão
de qualidade"), não faz cascas recheadas ("Um modismo grosseiro")
e não reveste os ovos com embalagens coloridas ("O consumidor
deve ver o que vai comer"). Por serem menos açucarados, seus
chocolates fazem sucesso entre consumidores de origem oriental,
que representam cerca de 30% de sua clientela.
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| Cerca de 50% dos ovos
que Pati Piva pretende vender nesta Páscoa
têm recheio de brigadeiro. "O brasileiro gosta
de doce bem melado", explica. Este ovo ao leite
pintado com chocolate branco, de 620 gramas,
custa 84 reais |
"Depois da chegada dos importados,
a exigência do paulistano passou a ser muito maior", diz Paula
de Lima Azevedo, dona da marca Sweet Brazil. Fundada há vinte
anos, a empresa sediada na Vila Olímpia começou como
tantas outras desta reportagem: na cozinha de casa. "Eu brincava
de fazer ovo de Páscoa de madrugada", lembra Paula, que emprega
trinta pessoas em sua fábrica artesanal e espera vender 1
tonelada de chocolate neste feriado. Ela importa toda a sua matéria-prima
da Bélgica, país considerado pela maioria dos especialistas
o melhor produtor internacional de chocolate. Viciada em comer o
que faz, Paula consumia ao menos cinco bombons por dia até
o ano passado. Hoje, com medo de desenvolver diabetes, ela se sacrifica
e consegue passar duas semanas sem botar uma única trufa
na boca.
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| Responsável pela
cozinha da Le Vin Pâtisserie, o francês Henri
Shaeffer trabalha apenas com matéria-prima belga. Entre
suas criações mais originais estão chocolates
coloridos e o ovo de 900 gramas com gavetinhas (que não
abrem nem fecham, diga-se), à venda por 185 reais
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Mas, pasmem, há entre
esses superchocolateiros quem não tenha sequer provado um
de seus próprios bombonzinhos. Sócia da Saint Phylippe,
aberta no ano passado, Andressa Vasconcellos não sabe o gosto
de nenhum deles. Há oito anos, ela fez a promessa de nunca
mais comer chocolate na vida. "Doce era minha paixão", conta.
Andressa e sua sócia, Cristina Almeida, trabalham apenas
com produtos de origem belga e vendem seus chocolates na Enoteca
Fasano e no Empório Santa Maria. As embalagens discretas
e elegantes impressionam, assim como o surpreendente bombom diet.
Perfeito para os diabéticos, é uma pegadinha para
quem pensa ingerir menos calorias. Embora esse chocolate não
tenha açúcar, sua taxa de gordura é ainda maior
que a do ao leite. "Não existe uma versão light",
afirma Cristina. "Todas são gordurosas."
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| Com a ajuda de apenas
uma pessoa na cozinha, a chocolateira Renata Arassiro
espera produzir 500 quilos de ovos e coelhos nesta época.
Ela inventou uma escultura de 500 gramas com
folha de ouro comestível (136 reais). Seu repertório
inclui bombons recheados com capim-santo, manjericão
e caipirinha |
Do exterior, o chocolate chega
em pastilhas. O amargo contém pasta de cacau, manteiga de
cacau, açúcar e lecitina de soja (elemento que dá
a liga). O chocolate ao leite leva também leite desidratado.
Aos fãs do tipo branco, um aviso: não é considerado
chocolate. "Ele não tem o ingrediente mais importante, a
pasta de cacau", explica o chef Henri Shaeffer, da Le Vin Pâtisserie.
Em sua terceira Páscoa à frente da marca, Shaeffer
inventou ovos coloridos e outro decorado com gavetinhas fixas. Todos
são feitos com a marca belga Callebaut, uma das mais famosas
do mundo. Trata-se do mesmo produto importado pela chocolateira
Renata Arassiro, que comercializa seus doces na Casa Santa Luzia.
Com a ajuda de apenas uma pessoa na cozinha, ela espera vender 500
quilos de chocolate neste mês. Para transformar a pastilha
belga num ovo, usa uma derretedeira especial. "A técnica
de banho-maria não funciona tão bem, pois a água
entra em contato com a massa", diz. Renata mescla chocolates com
diferentes porcentagens de cacau para criar versões mais
ou menos adocicadas. Neste ano, ela apostou em recheios com ervas
como capim-santo e manjericão. Há, ainda, um bombom
de caipirinha e, claro, as opções tradicionais. Humm...
que tal uma mordida?
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| Paula de Lima Azevedo,
dona da marca Sweet Brazil, começou a trabalhar com chocolate
há vinte anos, durante uma Páscoa. "Eu fazia ovos
de madrugada para ganhar dinheiro", conta ela, que hoje emprega
trinta pessoas em sua fábrica artesanal, na
Vila Olímpia. O ovo de 395 gramas, com taquinhos
de golfe comestíveis, sai por 89 reais |
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MITOS E VERDADES
SOBRE O CHOCOLATE
Faz bem ao coração?
Em termos. O chocolate amargo é rico em flavonóides,
substâncias que impedem o acúmulo de placas de
gordura nas artérias. Também possui grande quantidade
de polifenol, antioxidante que combate a hipertensão.
Mas, se for consumido em grande quantidade (mais de dois bombons
por dia), pode aumentar o colesterol.
Dá espinha?
Mito. Embora muitas pessoas se queixem do aparecimento
de acne depois de devorar uma caixa de bombons, estudos científicos
atestam que seu surgimento é fruto de descontrole na
produção hormonal.
Deixa a pessoa feliz?
Verdade. O açúcar estimula a produção
de serotonina no cérebro, neurotransmissor responsável
pelas sensações de prazer e bem-estar.
Pode causar alergia?
Verdade. Pode acontecer. As reações mais
comuns são na pele. Há quem sinta desconforto
digestivo e respiratório. Muitas vezes a alergia se
deve ao leite.
Vicia?
Em termos. Rico em ingredientes como a teobromina e
a cafeína, que funcionam como estimulantes, o chocolate
pode viciar. Mas acredita-se que a dependência atinja
somente pessoas predispostas.
Dá dor de cabeça?
Em termos. Por ter substâncias que dilatam os
vasos sanguíneos, ele pode acentuar crises de enxaqueca.
Engorda?
Em termos. Chocolate é um alimento extremamente
calórico. Um bombonzinho sem recheio tem 90 calorias,
a mesma quantidade de uma banana média ou de uma barra
de cereal. Comer um ou outro, tudo bem. Mas substituir comidas
mais saudáveis e menos calóricas por chocolate
pode ser um problema.
Fontes: Tânia Rodrigues
e Mônica Beyruti, nutricionistas
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