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19 de abril de 2006
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CRÔNICA

Fama fácil

Walcyr Carrasco

Recebi, faz algum tempo, recados insistentes. Nas mensagens telefônicas, um nome desconhecido, de uma cidade do interior. Um dia a figura me encontrou.

– Quero ser escritor ou ator. Preciso que me ajude – disse a voz de um garoto.

– Que idade você tem?

– Catorze anos.

Assumi tom paternal.

– O ideal é você estudar bastante, ler muito...

– Ah, livro não é comigo! Todo mundo diz que eu tenho jeito para ser famoso.

– Você é novo, deve se dedicar... Quem sabe uma faculdade?

– Já escrevi três novelas, todas muito boas. Melhores que as suas.

Suspirei. Não adiantava aconselhar, pelo visto.

– Ninguém começa com novelas. Por que não escreve uma peça de teatro e monta com seus colegas, na escola?

– Você não entendeu. Quero ser famoso.

– Sinto muito. Vá estudar. Boa sorte.

Do outro lado, um grito.

– Você vai se arrepender, quando eu for um sucesso!

É incrível o número de pessoas que me procuram em busca de glória rápida. Como autor de novelas, acho normal atrair pessoas interessadas no mundo da televisão. Só me espanto com a quantidade de gente que ambiciona fama a qualquer preço. Sem nenhum amor pelo teatro, pela literatura, pelo cinema. Pelo que, enfim, faria parte da profissão. Recentemente, conheci um rapaz de alta classe média, curso universitário concluído. Queria ser roteirista. Dei o aviso de sempre.

– Para escrever bem, é preciso ler muito.

– Prefiro música.

– Por que não tenta ser DJ?

Prometeu dedicar-se aos clássicos. Semanas depois me procurou com um texto. Não gosto de analisar a produção alheia. Salvo quando dou cursos, o que é raro. Adoro literatura. Faço o possível para dedicar meu tempo livre às obras que realmente quero desfrutar. Quase abri uma exceção. Avisei:

– Só pego seu texto se você estiver lendo algum livro.

– Ah, estou sim. Um ótimo.

– Qual o nome?

– Ih... esqueci!

Devolvi o calhamaço. Há quem me ligue a cobrar. Como tenho secretária eletrônica, ela atende. Ouço pedidos desesperados:

– Por favor, me ajude a realizar um sonho! Quero aparecer na televisão!

Ainda tenho de pagar o interurbano!

Se vou a um evento, alguém sempre me entrega uma foto. Posso estar em uma festa, jantar, palestra. No Orkut, já botei um aviso: não estou à caça de talentos. Inútil. Todos os dias, várias pessoas pedem papel. Até figuração. Nunca respondo. Raramente sou abordado por profissionais. No fim do ano entro na mira de vendedores de loja, personal trainers, parentes distantes. Todos querendo participar do Big Brother! Quando explico não ter nada a ver com a seleção, ganho cara amarrada!

Boa parte da culpa é dos pais. Há anos, estive, para meu susto, na seleção da novela Chiquititas, do SBT. A fila dobrava o quarteirão. A maioria absoluta das meninas de 6, 9 anos estava de bustiê, umbigo de fora, microssaia. Eu pensava: "No que pensam mães que vestem uma menina assim?" O teste era honestíssimo. Havia que cantar e dançar. Quase todas as garotinhas interpretavam Na Boquinha da Garrafa, hit da época. Era a senha para a candidata ser reprovada.

– Vira só imitação, sem criatividade – explicou a responsável pelos testes.

Saí chocado. Foi terrível ver as garotinhas rebolando como starlets!

A glória implica um padrão de vida mais elevado. Não nego. Pouca gente compreende que a fama deve resultar de um trabalho sério. Buscar o sucesso pelo sucesso resulta em amargura. O sonho transforma-se em pesadelo. E impede a pessoa de descobrir sua verdadeira vocação.

e-mail: walcyr@abril.com.br

     
   
 
 
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