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CRÔNICA
Fama fácil
Walcyr Carrasco
Recebi,
faz algum tempo, recados insistentes. Nas mensagens telefônicas,
um nome desconhecido, de uma cidade do interior. Um dia a figura
me encontrou.
Quero ser escritor ou ator. Preciso
que me ajude disse a voz de um garoto.
Que idade você tem?
Catorze anos.
Assumi tom paternal.
O ideal é você estudar
bastante, ler muito...
Ah, livro não é comigo!
Todo mundo diz que eu tenho jeito para ser famoso.
Você é novo, deve se dedicar...
Quem sabe uma faculdade?
Já escrevi três novelas,
todas muito boas. Melhores que as suas.
Suspirei. Não adiantava aconselhar, pelo
visto.
Ninguém começa com novelas.
Por que não escreve uma peça de teatro e monta com
seus colegas, na escola?
Você não entendeu. Quero
ser famoso.
Sinto muito. Vá estudar. Boa
sorte.
Do outro lado, um grito.
Você vai se arrepender, quando
eu for um sucesso!
É incrível o número de
pessoas que me procuram em busca de glória rápida.
Como autor de novelas, acho normal atrair pessoas interessadas no
mundo da televisão. Só me espanto com a quantidade
de gente que ambiciona fama a qualquer preço. Sem nenhum
amor pelo teatro, pela literatura, pelo cinema. Pelo que, enfim,
faria parte da profissão. Recentemente, conheci um rapaz
de alta classe média, curso universitário concluído.
Queria ser roteirista. Dei o aviso de sempre.
Para escrever bem, é preciso
ler muito.
Prefiro música.
Por que não tenta ser DJ?
Prometeu dedicar-se aos clássicos. Semanas
depois me procurou com um texto. Não gosto de analisar a
produção alheia. Salvo quando dou cursos, o que é
raro. Adoro literatura. Faço o possível para dedicar
meu tempo livre às obras que realmente quero desfrutar. Quase
abri uma exceção. Avisei:
Só pego seu texto se você
estiver lendo algum livro.
Ah, estou sim. Um ótimo.
Qual o nome?
Ih... esqueci!
Devolvi o calhamaço. Há quem me ligue
a cobrar. Como tenho secretária eletrônica, ela atende.
Ouço pedidos desesperados:
Por favor, me ajude a realizar um sonho!
Quero aparecer na televisão!
Ainda tenho de pagar o interurbano!
Se vou a um evento, alguém sempre me entrega
uma foto. Posso estar em uma festa, jantar, palestra. No Orkut,
já botei um aviso: não estou à caça
de talentos. Inútil. Todos os dias, várias pessoas
pedem papel. Até figuração. Nunca respondo.
Raramente sou abordado por profissionais. No fim do ano entro na
mira de vendedores de loja, personal trainers, parentes distantes.
Todos querendo participar do Big Brother! Quando explico
não ter nada a ver com a seleção, ganho cara
amarrada!
Boa parte da culpa é dos pais. Há
anos, estive, para meu susto, na seleção da novela
Chiquititas, do SBT. A fila dobrava o quarteirão.
A maioria absoluta das meninas de 6, 9 anos estava de bustiê,
umbigo de fora, microssaia. Eu pensava: "No que pensam mães
que vestem uma menina assim?" O teste era honestíssimo. Havia
que cantar e dançar. Quase todas as garotinhas interpretavam
Na Boquinha da Garrafa, hit da época. Era a senha
para a candidata ser reprovada.
Vira só imitação,
sem criatividade explicou a responsável pelos testes.
Saí chocado. Foi terrível ver as garotinhas
rebolando como starlets!
A glória implica um padrão de vida
mais elevado. Não nego. Pouca gente compreende que a fama
deve resultar de um trabalho sério. Buscar o sucesso pelo
sucesso resulta em amargura. O sonho transforma-se em pesadelo.
E impede a pessoa de descobrir sua verdadeira vocação.
e-mail: walcyr@abril.com.br
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