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19 de março de 2003
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CRÔNICA

A cachoeira

Como salvar a natureza sem
se afogar num mar de burocracia

Walcyr Carrasco

Nada me provoca maior sentimento de impotência do que a cachoeira logo atrás da minha casa de campo, na Granja Viana. Casa de campo é modo de dizer. Morei no condomínio muito tempo. Quando voltei a viver em um lugar mais central, passou a ser usada só nos fins de semana. A cachoeira fica em uma reserva florestal, nos fundos. Quando comprei o terreno, há quase vinte anos, havia uma trilha ali. Famílias inteiras iam tomar banho nas pedras. A cachoeira tem exatamente a altura de uma pessoa. Perfeita para alguém ficar de pé, embaixo, com a água batendo nos ombros. Mais adiante, sempre havia pescadores. E ninguém saía de anzol vazio.

A proximidade da floresta me tirou o medo dos animais selvagens. Aprendi que as cobras não ficam à espera da gente para dar o bote, embora sempre seja bom usar um par de botas. Ouvi, muitas vezes, o som de patas em disparada. Um dia deparei com uma coruja estática no portão do vizinho. Deve ter se acomodado de noite! Foi pega de surpresa com o raiar do sol. Passou o dia paralisada, os olhos iguais a dois pratos, de tão arregalados. Uma vez encontrei, caída na varanda, uma borboleta (ou o nome correto será mariposa?), com enormes asas cinza imitando justamente os olhos de uma coruja. Um desenho perfeito, com assustadoras pupilas negras. Imaginei a borboleta pousando bem calma em um galho, enquanto seus possíveis predadores fugiriam aterrorizados. Estava seca. Dei de presente ao meu filho, explicando o que era mimetismo. Ele ficou tão entusiasmado quanto com um videogame, e guardamos a borboleta dentro de um livro.

Passei a alimentar três pacas que vinham todas as tardes, gulosas, ao fundo do portão. Certo dia, ouvi o som de tiros, e duas delas apareceram feridas. Fiz uma denúncia ao Ibama. Um delegado veio investigar. Meu cachorro também teve suas experiências. Por duas vezes, atacou porcos-espinhos. Ficou idêntico a uma enorme almofada de alfinetes!

Há algum tempo, notei uma espuma branca no rio. Tinha um perfume gostoso. Mas industrial. Não me importei. Os meses foram passando, e o rio tornou-se cada vez mais sujo. Nunca mais ouvi os gritos de crianças brincando no fim de semana. A trilha foi sendo coberta pelo mato. Outro dia fui até lá e precisei usar o facão.

Também nunca mais encontrei um sapo na varanda. As pacas sumiram. O rio poluído envenenou os bichos da floresta. Peixe, nem pensar! Soube que, além dos dejetos industriais, muitas casas ao longo do caminho ligaram seus esgotos diretamente no rio. Não estou falando de populações carentes. Mas de condomínios elegantes, de residências espaçosas e com piscina. É um pedaço de Mata Atlântica que foi sendo perdido, devastado, a 16 quilômetros do centro da capital. Eu e vários moradores já nos reunimos, conversamos. Tentamos descobrir maneiras de salvar o rio. As leis tão rígidas que proíbem cortar uma árvore parecem inócuas quando uma reserva inteira está em perigo, já que não se pode responsabilizar uma única pessoa. A cada tentativa, percebe-se que se chegou a lugar nenhum. Existem entidades, departamentos, órgãos, mas nunca consegui descobrir como encaminhar o caso sem me perder em um mar de burocracia.

É por isso que falei do meu sentimento de inutilidade. Sou incapaz de salvar minha cachoeira. Mais triste ainda é saber que não é a única. Fala-se muito em salvar as florestas. Enquanto isso, pequenos e preciosos trechos de mata continuam sendo destruídos e nossos animais, envenenados.

 

         
     
 
 
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