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CRÔNICA
A
cachoeira
Como
salvar a natureza sem
se afogar num mar de burocracia
Walcyr
Carrasco
Nada
me provoca maior sentimento de impotência do que a cachoeira
logo atrás da minha casa de campo, na Granja Viana. Casa
de campo é modo de dizer. Morei no condomínio muito
tempo. Quando voltei a viver em um lugar mais central, passou a
ser usada só nos fins de semana. A cachoeira fica em uma
reserva florestal, nos fundos. Quando comprei o terreno, há
quase vinte anos, havia uma trilha ali. Famílias inteiras
iam tomar banho nas pedras. A cachoeira tem exatamente a altura
de uma pessoa. Perfeita para alguém ficar de pé, embaixo,
com a água batendo nos ombros. Mais adiante, sempre havia
pescadores. E ninguém saía de anzol vazio.
A proximidade da floresta me tirou o medo dos animais selvagens.
Aprendi que as cobras não ficam à espera da gente
para dar o bote, embora sempre seja bom usar um par de botas. Ouvi,
muitas vezes, o som de patas em disparada. Um dia deparei com uma
coruja estática no portão do vizinho. Deve ter se
acomodado de noite! Foi pega de surpresa com o raiar do sol. Passou
o dia paralisada, os olhos iguais a dois pratos, de tão arregalados.
Uma vez encontrei, caída na varanda, uma borboleta (ou o
nome correto será mariposa?), com enormes asas cinza imitando
justamente os olhos de uma coruja. Um desenho perfeito, com assustadoras
pupilas negras. Imaginei a borboleta pousando bem calma em um galho,
enquanto seus possíveis predadores fugiriam aterrorizados.
Estava seca. Dei de presente ao meu filho, explicando o que era
mimetismo. Ele ficou tão entusiasmado quanto com um videogame,
e guardamos a borboleta dentro de um livro.
Passei a alimentar três pacas que vinham todas as tardes,
gulosas, ao fundo do portão. Certo dia, ouvi o som de tiros,
e duas delas apareceram feridas. Fiz uma denúncia ao Ibama.
Um delegado veio investigar. Meu cachorro também teve suas
experiências. Por duas vezes, atacou porcos-espinhos. Ficou
idêntico a uma enorme almofada de alfinetes!
Há algum tempo, notei uma espuma branca no rio. Tinha um
perfume gostoso. Mas industrial. Não me importei. Os meses
foram passando, e o rio tornou-se cada vez mais sujo. Nunca mais
ouvi os gritos de crianças brincando no fim de semana. A
trilha foi sendo coberta pelo mato. Outro dia fui até lá
e precisei usar o facão.
Também nunca mais encontrei um sapo na varanda. As pacas
sumiram. O rio poluído envenenou os bichos da floresta. Peixe,
nem pensar! Soube que, além dos dejetos industriais, muitas
casas ao longo do caminho ligaram seus esgotos diretamente no rio.
Não estou falando de populações carentes. Mas
de condomínios elegantes, de residências espaçosas
e com piscina. É um pedaço de Mata Atlântica
que foi sendo perdido, devastado, a 16 quilômetros do centro
da capital. Eu e vários moradores já nos reunimos,
conversamos. Tentamos descobrir maneiras de salvar o rio. As leis
tão rígidas que proíbem cortar uma árvore
parecem inócuas quando uma reserva inteira está em
perigo, já que não se pode responsabilizar uma única
pessoa. A cada tentativa, percebe-se que se chegou a lugar nenhum.
Existem entidades, departamentos, órgãos, mas nunca
consegui descobrir como encaminhar o caso sem me perder em um mar
de burocracia.
É
por isso que falei do meu sentimento de inutilidade. Sou incapaz
de salvar minha cachoeira. Mais triste ainda é saber que
não é a única. Fala-se muito em salvar as florestas.
Enquanto isso, pequenos e preciosos trechos de mata continuam sendo
destruídos e nossos animais, envenenados.
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