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19 de março de 2003
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COMPORTAMENTO

Eles não perdem uma

De casamentos estrelados a coquetéis
promocionais, os festeiros de carteirinha
comparecem a até
três baladas por noite
e fazem a alegria dos fotógrafos de plantão.
A efervescência social da cidade colabora:
são pelo menos dez eventos "colunáveis"
por semana

Marcella Centofanti e Valéria França


Luciana Prezia/AE
Gianecchini e Gabi, no Baretto: ele é "assalariado" e ela, "intelectual"


Flavia Vitoria/AE
Patrícia de Sabrit: "Seleciono os convites para não ganhar fama de arroz-de-festa"

A semana passada não foi das mais agitadas no quesito acontecimento social. Ainda assim, o arquiteto João Armentano deu o ar da graça na segunda-feira na inauguração de um centro de juventude israelita, no jantar de homenagem ao artista plástico Fábio Cardoso, na terça, na abertura da Gift Fair, no Expo Center Norte, e na exposição Arte e Ser Mulher, no Clube Paineiras, na quinta. Como recebe cerca de dez convites por dia, alguns foram parar no lixo. Armentano engrossa o time de paulistanos que não perdem uma festa na cidade. Vão a praticamente tudo, de casamentos estrelados a coquetéis promocionais. Para dar conta de tanta badalação, normalmente adotam o lema dos três "esses" do falecido Aparício
Basílio da Silva, uma das figuras mais conhecidas do society paulistano: surgir, sorrir e sumir! Com essa tática e seus ternos azul-marinho, o empresário chegava a ir a quatro eventos por noite. "Depois de uma hora, qualquer um perde o encanto", ensina Armentano. "Em eventos comerciais, a fórmula realmente é dizer 'oi' e 'tchau'", concorda a socialite e arquiteta Cristiane Saddi.

Luciana Prezia/AE
Mariane du Bois, Mion e Armentano no jantar de Lu Alckmin: olho em novos negócios

É verdade que a efervescência social da cidade aumentou – hoje acontecem pelo menos dez eventos "colunáveis" por semana –, mas os motivos que levam pessoas como João Armentano e Cristiane Saddi a circular com tal assiduidade são os mesmos da época do bon vivant Aparício. Para o convidado negociante, por exemplo, cada festa é uma possibilidade de fisgar novos clientes. "Foi assim que conheci Celso Loducca", conta Armentano, que acabou planejando o escritório de 800 metros quadrados do publicitário, no Brooklin. Para o aspirante à fama, um evento estrelado é a chance de aparecer nas revistas de celebridades e, para o arroz-de-festa assalariado, a oportunidade de engordar a conta com cachês que chegam a 20.000 reais. "São ocasiões favoráveis para fortificar relações e parcerias já existentes", diz o figurinha carimbada e apresentador Marcos Mion.

Lili Martins/AE
A VJ Didi, o amigo Marcelo Sebá e o marido dela, Fred, em evento da Diesel, na segunda (10): só sorrisos


Ilustração Negreiros
O negociante
Cada evento é uma chance de fisgar novos clientes ou de resgatar antigos contatos. Entre um sorriso e outro, assim como quem não quer nada, sempre acaba tirando o cartão de visita do bolso.


Quaisquer que sejam as primeiras e segundas intenções dos festeiros, aparência leve e sobrenome pesado são garantias de uma vaguinha nas inconstantes listas dos promoters, as figuras que decidem quem participa ou não das festas. "Damos preferência aos bonitos, jovens e magros", admite a paulistana Ana Carvalho Pinto, dona de um mailing com 8 000 nomes. O caso da empresária Lucília Diniz é emblemático. Apesar do sobrenome, só passou a ser lembrada pelos organizadores depois de emagrecer 60 quilos. "Esses eventos agora fazem parte do meu propósito de vida: mostrar que estou sarada e sadia", diz ela, que comparece a três lugares por noite e, como numa história da carochinha, virou uma das queridinhas dos promoters.


Fotos Julio Vilela
lela
João Paulo Diniz em seu aniversário: presença de amigos como Huck


Ilustração Negreiros
O herdeiro
Tem um sobrenome de peso, que determina sua presença nas melhores festas da cidade. Normalmente faz o estilo low profile, como se não estivesse nem notando os flashes.


Como eles detêm os convites para alguns dos melhores eventos e para algumas das mais generosas bocas-livres de São Paulo, o assédio sobre esses profissionais é enorme (veja quadro). A principal missão deles é conseguir reunir convidados de vários estilos, dos intelectuais aos mauricinhos. O apresentador Jô Soares, o empresário Antônio Ermírio de Moraes e a modelo Gisele Bündchen são uma espécie de sonho de consumo dos promoters, já que raramente dão as caras. Tem ainda o time dos endinheirados-gatos, caso de João Paulo Diniz, Ricardo Mansur, Álvaro Garnero, Alexandre Accioly, Luciano Huck e Alexandre Iódice – só para citar alguns. Eles aparecem com maior freqüência, mas são bem seletivos na escolha da balada. "Ir a qualquer lugar desgasta a imagem", explica o publicitário Roberto Justus, que na fase pós-Eliana passou a freqüentar apenas um evento por semana.


Julio Vilela
Ricardo Mansur: figura disputada após romance com Gisele Bündchen

No caso dos atores e atrizes globais, não sobra muita alternativa ao patrocinador do evento. "Sem hotel, passagem e cachê eles não saem de casa", diz a promoter Marina Renault. O ator Reynaldo Gianecchini, por exemplo, cobra até 20.000 reais para ficar duas horas numa festa. Pela metade desse valor, Daniela Cicarelli, a modelo da hora, circula sorridente pelo salão. Candidatos à celebridade, os ex-participantes do Big Brother Brasil são o terror dos promoters. "Definitivamente, eles não têm nada a somar às minhas festas", afirma o produtor Cacá Ribeiro. "No meu aniversário, o Kleber, o Bambam, que eu nem conhecia, apareceu levando mais três bicões", reclama Alicinha Cavalcanti, dona de quatro celulares e uma agenda poderosa. "Vou às festas grandes mesmo sem ganhar porque é preciso aparecer", explica Caetano Zonaro, que teve passagem-relâmpago na primeira versão do programa.

Ilustrações Negreiros
iros
O aposentado
Na juventude foi rei (ou rainha) e, em respeito aos dias de glória, seu nome ainda consta nas listas de convidados vip.
O intelectual
Pode estar acima do peso, não usar decotes nem roupas de grife. Seu prestígio vem do sucesso profissional ou da fama de inteligente.

Famosos ou não, os loucos por um flash têm algumas regrinhas básicas a seguir. A atriz Patrícia de Sabrit adota a mais potente delas: veste roupas decotadas, exuberantes e de grife. "Adoro peças femininas e sensuais", diz, citando como preferido o vestido rosa da Iódice que ela está usando na foto de capa desta reportagem. Também gosta das roupas da Donna Karan, principalmente dos terninhos acinturados. "Recebo tantos convites que, para não acabar com a fama de arroz-de-festa, sou obrigada a selecioná-los bem", afirma a loirinha de 27 anos.

Marina Malheiros/AE
Lucília Diniz: mais magra e mais convidada


Confirmar com antecedência a presença também é regra valiosa. Repassar o convite, como costuma fazer o restaurateur Rogério Fasano, não cai bem. O ator Márcio Garcia ganhou a antipatia dos donos das listas por ter o hábito de, quando convidado, aparecer com mais quatro ou cinco amigos a tiracolo. Pior ainda ficou a situação do ator Roger Gobeth, que tentou várias vezes jogar uma conversinha nos porteiros para entrar de bico. "Sou o Touro da Malhação", dizia ele, na danceteria Sirena, em Maresias, referindo-se ao papel que interpretava na novela juvenil. Esse tipo de mico é previsível em eventos concorridos. Em alguns casos, chega a existir na cidade um mercado paralelo de convites. Há três anos, numa festa da Audi, no Campo de Marte, cambistas vendiam entradas por 150 reais. A festa de encerramento da São Paulo Fashion Week, há um ano e meio, na Galeria Prestes Maia, não foi muito diferente. Quem quisesse participar tinha de pagar 100 reais.


Ilustrações Negreiros
iros
O assalariado
É famoso, mas sua aparição está sempre ligada a algum tipo de acordo comercial. Ele ganha cachê, passagem aérea ou estada gratuita.
O aspirante
Tem de ser necessariamente bonito, jovem e malhado. Candidato à fama, é capaz de provocar fatos só para aparecer. Nessa categoria estão os ex-participantes do Big Brother Brasil e da Casa dos Artistas.

A veterana Marina de Sabrit (mãe de Patrícia) costuma receber ligações de desconhecidos ávidos por saber como se faz para entrar para o seleto grupo dos vips. "Alguns me oferecem dinheiro em troca de um roteiro descolado", diz Marina. "Ter amizades influentes é o primeiro passo." Mas, segundo ela, o fundamental mesmo é ter alguma qualidade que ressalte no meio da multidão. "Na minha época, era mais fácil ser notada. Era a única que fazia o gênero loira burra", conta Marina. "Hoje, há milhares de mulheres assim."

Luciana Prezia/AE
Daniela e Roberto Justus: "Ir a qualquer lugar desgasta a imagem"

Mesmo em uma situação tão invejável (quem não gostaria de comer e beber bem e desfrutar a presença de beldades?), tem festeiro de carteirinha que não admite ser tachado como tal. Para alguns ainda soa como um termo pejorativo. Na década passada, boa parte dos baladeiros não tinha atividade profissional. Eram pessoas que podiam dormir de madrugada e acordar tarde todos os dias. Chiquinho Scarpa, que já foi um playboy desse tipo, não perdia uma noitada. Chegava a cobrar 2.000 dólares para aparecer em festas que não fossem promovidas por amigos pessoais ou que não lhe dissessem respeito diretamente. Para não pegar mal, costumava justificar-se dizendo que o dinheiro ia para um fundo beneficente. Agora está na categoria do que os promoters impiedosos chamam de "aposentado" – na juventude foi rei e, em respeito aos dias de glória, seu nome ainda consta na lista de convidados. "Recebo uns dois convites por dia, mas vou a apenas um evento por semana", diz. "As festas não têm o mesmo brilho." O sumiço do conde não abalou os colunistas sociais. Afetou mesmo o orçamento de Manoel, seu passador oficial de camisas e ternos. "Há dez anos, ele vinha três vezes por semana. Hoje, só uma."

Flavia Vitoria/AE
A ex-apresentadora Babi: sucesso nas colunas sociais já foi maior

 

O sobe-e-desce das listas

Quem são, de acordo com os promoters, os
queridinhos
e os excluídos do momento

Os dez mais Os dez menos

Gisele Bündchen
Ricardinho Mansur
Daniela Cicarelli
Luana Piovani
João Paulo Diniz
Hebe Camargo
Kaká
Marília Gabriela
Lucília Diniz
Raí

Paulo Vilhena
Mari Alexandre
Luigi Baricelli
Thyrso (ex-Big Brother)
Alexandre Frota
Tato, do Falamansa
Mylla Christie
Márcio Garcia
Roger Gobeth
Oscar Magrini

 

Os dez mandamentos do
convidado profissional

1º- Estar sempre em forma. Gordos, com exceção dos intelectuais, não são bem-vindos.

2º- Confirmar com antecedência a presença ou ausência no evento.

3º- Nunca repassar o convite. Os organizadores acabam sabendo e odeiam essa prática.

4º- Beber com moderação.

5º- Respeitar o traje exigido no convite e caprichar na produção – de preferência, decotes e brilhos.

6º- Maneirar nos atrasos. Se for uma festa, meia hora pega bem. No caso de um evento, 45 minutos.

7º- Ir embora antes que o lugar se esvazie.

8º- Ter uma conversa leve, agradável e animada. Assuntos como viagem, cinema e teatro são infalíveis.

9º- Circular pela festa e demonstrar intimidade com os outros famosos.

10º- Mandar um e-mail de agradecimento no dia seguinte para os organizadores ou donos da festa.

 

Os alvos de um arroz-de-festa

Heudes Regis
Alicinha e Marina Renault: 12 000 nomes na agenda

Suas agendas gordas estão recheadas com contatos de celebridades, empresários e figurinhas da moda. É possível contar nos dedos das mãos o número de promoters responsáveis pelos grandes acontecimentos da cidade. Para elaborar uma lista de 500 convidados, por exemplo, ganham cerca de 5.000 reais – numa conta rápida, 10 reais por nomezinho. Em média, cada um chega a fazer quinze eventos por mês. O nome deles sempre aparece em destaque nos convites e acaba funcionando como uma grife, uma espécie de garantia de festa descolada. Explicitamente, cada organizador cultiva seu clubinho, o que talvez explique a sensação de mesmice nas colunas sociais e revistas de celebridades. Alicinha Cavalcanti formou um time de artistas e globais. Empresários endinheirados e socialites são o forte do mailing da paulistana Ana Carvalho Pinto. Nos eventos de Fernanda Barbosa, não faltam jovens playboys e belas patricinhas e, nos do quarentão Cacá Ribeiro, modernosos e descolados.

Para liberar um convite, os promoters são bombardeados com e-mails e telefonemas. Há os que recorrem ao amigo do amigo convidado e até oferecem dinheiro. No dia seguinte aos eventos, não raro os organizadores são acordados com entregas de flores, caixas de bombons e cartões de felicitações. Adoram presentinhos, mas dizem desconfiar do remetente dependendo do tamanho da lembrancinha. "Já recebi jóias caras e devolvi", diz Marina Renault. "Não é a melhor forma de me convencer a incluir alguém no mailing", ensina ela, que empilha no armário mais de trinta pares de sapato. Para dar conta do assédio, Marina tem dois celulares e troca o número dos aparelhos a cada três meses. Às vésperas de festas grandes, conta com uma pessoa só para atendê-los. Na hora de negar um convite, todos precisam ter a desenvoltura de Gisele Bündchen nas passarelas. "Peço desculpa e digo que a festa é do cliente, e não minha", revela Alicinha. No ano passado, na comemoração de seu aniversário de 40 anos, essa artimanha não funcionou. Foram 2.600 convidados, "apenas" 800 a mais do que esperava.

 

As dicas dos festeiros de carteirinha

"É preciso se destacar na multidão. Na minha época, era a única que fazia o gênero loira burra. Hoje, há milhares de mulheres assim."
MARINA DE SABRIT,
socialite

"Não dá para ficar a noite inteira nos eventos. Tem de saber a hora certa de chegar e de ir embora."
FELIPE VENANCIO,
DJ

"Se estiver de mau humor, nem saia de casa. Nas festas, é necessário estar de bem com a vida e ser simpático o tempo todo."
LUCÍLIA DINIZ,
empresária

"Programas culturais são melhores para a imagem. Em eventos comerciais, a fórmula é dizer 'oi' e 'tchau'."
CRISTIANE SADDI,
socialite

"Tudo bem que festa é um lugar para fazer contatos, mas não chegue ao extremo de distribuir cartões."
JOÃO ARMENTANO,
arquiteto

         
     
 
 
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