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CIDADE
A
Moema que decola
O bairro é líder em lançamentos imobiliários
de alto padrão
Registra a menor taxa de homicídios da cidade
Uma de cada quatro pessoas da região tem
diploma universitário
Seus moradores são os vice-campeões de
consumo
Quinze bares foram inaugurados ali nos
últimos dois anos
Alessandro
Duarte e Marcella Centofanti
Heudes Regis
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Até
meados da década de 70, o bairro de Moema era conhecido por
suas ruas com nomes de pássaros e de tribos indígenas,
por alguns restaurantes alemães, umas pizzarias e um punhado
de barulhentas casas de samba. Tudo começou a mudar a partir
de 1976, com a inauguração do Shopping Ibirapuera.
O crescimento do vizinho Itaim e da região da Berrini, na
década seguinte, acelerou essa transformação.
Hoje,
Moema é considerado por especialistas um dos bairros com
melhor qualidade de vida de São Paulo. "Trata-se da área
com menos desigualdade da capital", afirma a secretária municipal
de Assistência Social, Aldaíza Sposati, coordenadora
de um trabalho que mapeou a exclusão na cidade. "Sua população
é formada basicamente por classe média alta, não
existem favelas e há boa oferta de serviços públicos."
Segundo a consultoria Urban Systems, o distrito, que inclui a Vila
Nova Conceição e o Jardim Luzitânia, apresenta
a maior concentração de moradores pertencentes à
classe A (56,5% dos chefes de família ganham mais de 4.000
reais) e a menor quantidade de pessoas de classe E (renda mensal
inferior a 400 reais). Outras estatísticas reforçam
essa condição privilegiada. Seus moradores são,
empatados com os dos Jardins, os de maior nível de escolaridade.
Dos 70.000 paulistanos que vivem lá,
24% têm diploma universitário. Também contam
com a menor taxa de homicídios da metrópole. Em 1999,
foram registrados 4,11 assassinatos para cada 100.000
habitantes. A média do município é dezesseis
vezes maior.
Fotos Heudes Regis
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Regis
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Eduardo
Guedes, 28
anos
(na foto, com a namorada, Marcela)
Há quanto tempo mora lá: 16
anos
Atuação no bairro: é
dono da sorveteria Stuppendo, a mais conhecida do pedaço
Moema para mim é: "Um dos
poucos lugares onde ainda se encontram esquinas com jeito de
cidade do interior" |
Mariana
Vieira, 14
anos
Há quanto tempo mora lá:
desde que nasceu
Atuação no bairro:
foi eleita miss Moema no ano passado
Moema para mim é: "Uma comodidade.
Tudo fica muito perto. Posso visitar meus amigos e ir a barzinhos
sem pedir carona para minha mãe" |
Apesar
de Moema não ter o luxo dos Jardins nem as imponentes mansões
do Morumbi, essas características fazem com que as construtoras
invistam pesado em suas ruas planas. O bairro está em quarto
lugar em número de lançamentos imobiliários
(atrás de Morumbi, Butantã e Tatuapé), mas
é o recordista no segmento de imóveis de alto padrão.
Entre os prédios que começaram a ser erguidos no ano
passado, 75% tinham apartamentos de quatro dormitórios, avaliados
em 750.000 reais. "As mudanças em São
Paulo fizeram com que Moema ficasse localizada num ponto estratégico",
diz o consultor Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira
de Estudos de Patrimônio (Embraesp). "É cercada por
grandes avenidas e está próxima da Rodovia dos Imigrantes,
do centro, do aeroporto e do Parque do Ibirapuera." Um levantamento
elaborado pela Escopo Geomarketing concluiu que de nenhum outro
bairro se chega tão rápido a todos os principais pólos
empresariais de São Paulo (Paulista, centro, Itaim, Berrini
e Chácara Santo Antônio). Muitos moradores se deslocam
com símbolos de uma parcela da classe média ascendente:
pick-ups e jipões importados. Moema tem a maior frota de
Mitsubishi Pajero Sport e de Dodge Dakota da cidade, além
da segunda maior de Jeep Grand Cherokee.
Heudes Regis
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Lygia
Horta, 73
anos
Há quanto tempo mora lá:
48 anos
Atuação no bairro:
é presidente da Associação dos Moradores
e Amigos de Moema
Moema para mim é: "Uma
microcidade independente dentro de São Paulo. Aqui tem
de tudo" |
Heudes Regis
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Daniela
Barros,
26 anos
Há quanto tempo mora lá:
desde que nasceu
Atuação no bairro:
incentiva tanto seus vizinhos quanto amigos que moram em outras
regiões a utilizar somente os serviços do bairro
Moema para mim é: "Uma tranqüilidade.
Não há preço que pague poder sair na rua
sem ficar se preocupando com a segurança" |
No comércio, predominam os pequenos negócios. Butiques
e restaurantes caros são raridades a grande exceção
é a Daslu, na Vila Nova Conceição , mas
paulistanas de todos os cantos buscam os calçados vendidos
na Avenida Bem-Te-Vi. A principal loja, a Shoestock, aberta há
catorze anos pelas irmãs Lucíola e Márcia Fabrício,
recebe aos sábados mais de 1.000 clientes.
Os bufês infantis também fervilham. Passam de trinta,
sempre com a agenda lotada e carros atravancando o trânsito
nas alamedas. À noite, os centros de agitação
bem menores, é certo, do que em outros pontos da capital
são as choperias e os botecos (veja
quadro). Uma atração à
parte é a Rua Normandia. Ali fica o Normandia Street Shopping,
um conjunto de 54 casas em estilo europeu. A maioria abriga lojas
de decoração e de presentes. No Natal, tudo é
enfeitado com bonecos gigantescos de Papai Noel, luzes e até
neve artificial. A forte presença do comércio permite
que muita gente consiga morar e trabalhar no bairro. É o
caso do empresário Lupércio Fernandes de Moraes, sócio-diretor
do Fran's Café, que vive a apenas três quarteirões
de seu escritório. Moraes deixou o Ipiranga e mudou-se para
Moema há dez anos. Encantou-se. "É um bairro de conveniência,
para quem não quer perder tempo", afirma. "Há uma
mistura equilibrada de lazer, residência e trabalho." O gelataio
Eduardo Guedes, de 28 anos, fez questão de instalar em Moema,
onde mora desde a adolescência, a primeira loja de sua sorveteria,
a Stuppendo. "Aqui ainda se encontram esquinas com jeito de cidade
do interior", diz ele.
Rogerio Montenegro
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| O
bufê Splash Blue: trinta endereços com agenda cheia |
Rogerio Montenegro
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| A
Rua Normandia, em dezembro: atração natalina |
Graças
às facilidades e ao alto poder aquisitivo, os moradores de
Moema fazem compras como poucos. O índice de consumo de seus
moradores é o segundo maior da cidade. Perde, por muito pouco,
para o Jardim Paulista. De acordo com uma pesquisa conduzida pela
consultoria Target Marketing, quem vive em Moema gasta, em média,
10.703 dólares por ano, três vezes
mais do que a média paulistana. Boa parte desse dinheiro
fica por ali mesmo. "Faço compras, vou ao cabeleireiro e
à academia sem sair do bairro", diz a modelo e atriz Daniela
Barros, namorada do publicitário Roberto Justus. "Só
preciso ir mais longe para visitar Roberto, que mora no Morumbi."
A estudante Mariana Vieira, de 14 anos, eleita no ano passado Miss
Moema em um concurso promovido pelo Shopping Ibirapuera, aponta
essa como a principal vantagem da região. "Faço tudo
a pé", alegra-se Mariana. "Vou à casa dos meus amigos
e a barzinhos sem depender da carona de minha mãe."
Heudes Regis
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| Salão
da cantina Don Pepe di Napoli: símbolo gastronômico
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Heudes Regis
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| Fachada
da Shoestock: 1 000 clientes aos sábados |
Moema
começou a ser urbanizada em 1913, com um loteamento chamado
Sítio da Traição (o nome vem do córrego
que banhava o trecho por onde passa a Avenida dos Bandeirantes).
Na década de 30, virou um bairro fabril. Indústrias
têxteis trouxeram imigrantes russos, lituanos e alemães.
Até 1965, a vila operária manteve-se no bairro. Só
em 1987 o nome atual foi oficializado. A advogada Lygia Horta acompanhou
as mudanças. Ela trocou a Aclimação por Moema
ao se casar, há 48 anos. "Quando vim para cá, não
havia esgoto, nem água encanada, nem ruas pavimentadas, nem
iluminação pública", lembra. "Chamavam a região
de Fazendinha." Lygia testemunhou, nas décadas de
70 e 80, o crescente interesse das construtoras pelos terrenos grandes,
planos e baratos. "Quem vendeu as propriedades se arrependeu", afirma.
Há dezesseis anos, Lygia foi uma das fundadoras da Associação
dos Moradores e Amigos de Moema (Amam). As maiores brigas de Lygia
são contra o Aeroporto de Congonhas. Ela luta para que o
aeroporto funcione em horários mais limitados e que o tráfego
aéreo diminua consideravelmente. Por dia, são 600
pousos e decolagens. Nos horários de pico, um avião
a cada três minutos sobrevoa os prédios. O chef Allan
Vila Espejo, proprietário da cantina Don Pepe di Napoli,
mora em uma cobertura na Rua Pintassilgo e diz que as aeronaves
passam a poucos metros de seu teto. "Estou aqui há vinte
anos e não me acostumei com o ronco das turbinas", conta
Espejo. "Mas aprendi a conviver com ele."
Arquivo pessoal
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Heudes Regis
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| Esquina
das ruas Canário e Rouxinol: os sobrados da década de 60 (à
esq.) deram lugar à verticalização nos anos 80 |
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Noite
com fôlego novo
Otávio
Canecchio
Heudes Regis
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| As
torres de chope da Joan Sehn: 66 anos de história |
Depois
de entrar em baixa durante a década de 90, a vida noturna
de Moema ganhou novo fôlego nos últimos anos.
Pelas travessas da Avenida Ibirapuera começaram a pipocar
dezenas de bares ajeitadinhos, com chope gelado e muita gente
bonita. Diferentemente da vizinha e barulhenta Vila Olímpia,
a badalação no bairro não vai até
altas horas, pois quase não existem casas noturnas
no pedaço. Mesmo assim, rola uma ferveção
intensa. O ponto alto são os barzinhos inaugurados
de três anos para cá, como o Manoel & Juaquim,
o Elephante, o Mercedes Café, o John & Jack...
As boas opções, no entanto, não se restringem
aos endereços recentes. Quase na esquina com a Avenida
Santo Amaro fica o botequim Original, eleito o melhor chope
paulistano pelo júri de Veja São Paulo
na edição O Melhor da Cidade de 2002.
Já os saudosistas encontram um pouco de história
na Avenida Lavandisca. Ali, no número 765, funciona
a choperia Joan Sehn, inaugurada em 1937 por um austríaco
e considerada a mais antiga da cidade. Os despojados batem
cartão no Bar do Giba, um autêntico pé-sujo,
que frita um pastelzinho para ser devorado de joelhos. Perto
de lá, o concorrido Bar do Juarez serve uma suculenta
picanha no réchaud. Difícil é conseguir
uma mesa para prová-la. Os casais preferem ir aos charmosos
Garoa e Café Journal. Para os fãs da boa música,
o destino são as casas de show Bourbon Street e DirecTV
Music Hall. Enfim, um único bairro para diferentes
tipos de público.
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