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19 de fevereiro de 2003
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CIDADE

A Moema que decola

O bairro é líder em lançamentos imobiliários
de alto padrão

Registra a menor taxa de homicídios da cidade

Uma de cada quatro pessoas da região tem
diploma universitário

Seus moradores são os vice-campeões de
consumo

Quinze bares foram inaugurados ali nos
últimos dois anos

Alessandro Duarte e Marcella Centofanti


Heudes Regis


Veja também
Os atrativos do bairro

Até meados da década de 70, o bairro de Moema era conhecido por suas ruas com nomes de pássaros e de tribos indígenas, por alguns restaurantes alemães, umas pizzarias e um punhado de barulhentas casas de samba. Tudo começou a mudar a partir de 1976, com a inauguração do Shopping Ibirapuera. O crescimento do vizinho Itaim e da região da Berrini, na década seguinte, acelerou essa transformação. Hoje, Moema é considerado por especialistas um dos bairros com melhor qualidade de vida de São Paulo. "Trata-se da área com menos desigualdade da capital", afirma a secretária municipal de Assistência Social, Aldaíza Sposati, coordenadora de um trabalho que mapeou a exclusão na cidade. "Sua população é formada basicamente por classe média alta, não existem favelas e há boa oferta de serviços públicos." Segundo a consultoria Urban Systems, o distrito, que inclui a Vila Nova Conceição e o Jardim Luzitânia, apresenta a maior concentração de moradores pertencentes à classe A (56,5% dos chefes de família ganham mais de 4.000 reais) e a menor quantidade de pessoas de classe E (renda mensal inferior a 400 reais). Outras estatísticas reforçam essa condição privilegiada. Seus moradores são, empatados com os dos Jardins, os de maior nível de escolaridade. Dos 70.000 paulistanos que vivem lá, 24% têm diploma universitário. Também contam com a menor taxa de homicídios da metrópole. Em 1999, foram registrados 4,11 assassinatos para cada 100.000 habitantes. A média do município é dezesseis vezes maior.


Fotos Heudes Regis
Regis
Eduardo Guedes, 28 anos
(na foto, com a namorada, Marcela)
Há quanto tempo mora lá: 16 anos
Atuação no bairro: é dono da sorveteria Stuppendo, a mais conhecida do pedaço
Moema para mim é: "Um dos poucos lugares onde ainda se encontram esquinas com jeito de cidade do interior"
Mariana Vieira, 14 anos
Há quanto tempo mora lá: desde que nasceu
Atuação no bairro: foi eleita miss Moema no ano passado
Moema para mim é: "Uma comodidade. Tudo fica muito perto. Posso visitar meus amigos e ir a barzinhos sem pedir carona para minha mãe"

Apesar de Moema não ter o luxo dos Jardins nem as imponentes mansões do Morumbi, essas características fazem com que as construtoras invistam pesado em suas ruas planas. O bairro está em quarto lugar em número de lançamentos imobiliários (atrás de Morumbi, Butantã e Tatuapé), mas é o recordista no segmento de imóveis de alto padrão. Entre os prédios que começaram a ser erguidos no ano passado, 75% tinham apartamentos de quatro dormitórios, avaliados em 750.000 reais. "As mudanças em São Paulo fizeram com que Moema ficasse localizada num ponto estratégico", diz o consultor Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp). "É cercada por grandes avenidas e está próxima da Rodovia dos Imigrantes, do centro, do aeroporto e do Parque do Ibirapuera." Um levantamento elaborado pela Escopo Geomarketing concluiu que de nenhum outro bairro se chega tão rápido a todos os principais pólos empresariais de São Paulo (Paulista, centro, Itaim, Berrini e Chácara Santo Antônio). Muitos moradores se deslocam com símbolos de uma parcela da classe média ascendente: pick-ups e jipões importados. Moema tem a maior frota de Mitsubishi Pajero Sport e de Dodge Dakota da cidade, além da segunda maior de Jeep Grand Cherokee.

Heudes Regis
Lygia Horta, 73 anos
Há quanto tempo mora lá: 48 anos
Atuação no bairro: é presidente da Associação dos Moradores e Amigos de Moema
Moema para mim é: "Uma microcidade independente dentro de São Paulo. Aqui tem de tudo"


Heudes Regis
Daniela Barros, 26 anos
Há quanto tempo mora lá: desde que nasceu
Atuação no bairro: incentiva tanto seus vizinhos quanto amigos que moram em outras regiões a utilizar somente os serviços do bairro
Moema para mim é: "Uma tranqüilidade. Não há preço que pague poder sair na rua sem ficar se preocupando com a segurança"


No comércio, predominam os pequenos negócios. Butiques e restaurantes caros são raridades – a grande exceção é a Daslu, na Vila Nova Conceição –, mas paulistanas de todos os cantos buscam os calçados vendidos na Avenida Bem-Te-Vi. A principal loja, a Shoestock, aberta há catorze anos pelas irmãs Lucíola e Márcia Fabrício, recebe aos sábados mais de 1.000 clientes. Os bufês infantis também fervilham. Passam de trinta, sempre com a agenda lotada e carros atravancando o trânsito nas alamedas. À noite, os centros de agitação – bem menores, é certo, do que em outros pontos da capital – são as choperias e os botecos (veja quadro). Uma atração à parte é a Rua Normandia. Ali fica o Normandia Street Shopping, um conjunto de 54 casas em estilo europeu. A maioria abriga lojas de decoração e de presentes. No Natal, tudo é enfeitado com bonecos gigantescos de Papai Noel, luzes e até neve artificial. A forte presença do comércio permite que muita gente consiga morar e trabalhar no bairro. É o caso do empresário Lupércio Fernandes de Moraes, sócio-diretor do Fran's Café, que vive a apenas três quarteirões de seu escritório. Moraes deixou o Ipiranga e mudou-se para Moema há dez anos. Encantou-se. "É um bairro de conveniência, para quem não quer perder tempo", afirma. "Há uma mistura equilibrada de lazer, residência e trabalho." O gelataio Eduardo Guedes, de 28 anos, fez questão de instalar em Moema, onde mora desde a adolescência, a primeira loja de sua sorveteria, a Stuppendo. "Aqui ainda se encontram esquinas com jeito de cidade do interior", diz ele.


Rogerio Montenegro
O bufê Splash Blue: trinta endereços com agenda cheia


Rogerio Montenegro
A Rua Normandia, em dezembro: atração natalina

Graças às facilidades e ao alto poder aquisitivo, os moradores de Moema fazem compras como poucos. O índice de consumo de seus moradores é o segundo maior da cidade. Perde, por muito pouco, para o Jardim Paulista. De acordo com uma pesquisa conduzida pela consultoria Target Marketing, quem vive em Moema gasta, em média, 10.703 dólares por ano, três vezes mais do que a média paulistana. Boa parte desse dinheiro fica por ali mesmo. "Faço compras, vou ao cabeleireiro e à academia sem sair do bairro", diz a modelo e atriz Daniela Barros, namorada do publicitário Roberto Justus. "Só preciso ir mais longe para visitar Roberto, que mora no Morumbi." A estudante Mariana Vieira, de 14 anos, eleita no ano passado Miss Moema em um concurso promovido pelo Shopping Ibirapuera, aponta essa como a principal vantagem da região. "Faço tudo a pé", alegra-se Mariana. "Vou à casa dos meus amigos e a barzinhos sem depender da carona de minha mãe."

Heudes Regis
Salão da cantina Don Pepe di Napoli: símbolo gastronômico


Heudes Regis
Fachada da Shoestock: 1 000 clientes aos sábados

Moema começou a ser urbanizada em 1913, com um loteamento chamado Sítio da Traição (o nome vem do córrego que banhava o trecho por onde passa a Avenida dos Bandeirantes). Na década de 30, virou um bairro fabril. Indústrias têxteis trouxeram imigrantes russos, lituanos e alemães. Até 1965, a vila operária manteve-se no bairro. Só em 1987 o nome atual foi oficializado. A advogada Lygia Horta acompanhou as mudanças. Ela trocou a Aclimação por Moema ao se casar, há 48 anos. "Quando vim para cá, não havia esgoto, nem água encanada, nem ruas pavimentadas, nem iluminação pública", lembra. "Chamavam a região de Fazendinha." Lygia testemunhou, nas décadas de 70 e 80, o crescente interesse das construtoras pelos terrenos grandes, planos e baratos. "Quem vendeu as propriedades se arrependeu", afirma. Há dezesseis anos, Lygia foi uma das fundadoras da Associação dos Moradores e Amigos de Moema (Amam). As maiores brigas de Lygia são contra o Aeroporto de Congonhas. Ela luta para que o aeroporto funcione em horários mais limitados e que o tráfego aéreo diminua consideravelmente. Por dia, são 600 pousos e decolagens. Nos horários de pico, um avião a cada três minutos sobrevoa os prédios. O chef Allan Vila Espejo, proprietário da cantina Don Pepe di Napoli, mora em uma cobertura na Rua Pintassilgo e diz que as aeronaves passam a poucos metros de seu teto. "Estou aqui há vinte anos e não me acostumei com o ronco das turbinas", conta Espejo. "Mas aprendi a conviver com ele."

Arquivo pessoal
Heudes Regis
Esquina das ruas Canário e Rouxinol: os sobrados da década de 60 (à esq.) deram lugar à verticalização nos anos 80

 

Noite com fôlego novo

Otávio Canecchio

Heudes Regis
As torres de chope da Joan Sehn: 66 anos de história

Depois de entrar em baixa durante a década de 90, a vida noturna de Moema ganhou novo fôlego nos últimos anos. Pelas travessas da Avenida Ibirapuera começaram a pipocar dezenas de bares ajeitadinhos, com chope gelado e muita gente bonita. Diferentemente da vizinha e barulhenta Vila Olímpia, a badalação no bairro não vai até altas horas, pois quase não existem casas noturnas no pedaço. Mesmo assim, rola uma ferveção intensa. O ponto alto são os barzinhos inaugurados de três anos para cá, como o Manoel & Juaquim, o Elephante, o Mercedes Café, o John & Jack...

As boas opções, no entanto, não se restringem aos endereços recentes. Quase na esquina com a Avenida Santo Amaro fica o botequim Original, eleito o melhor chope paulistano pelo júri de Veja São Paulo na edição O Melhor da Cidade de 2002. Já os saudosistas encontram um pouco de história na Avenida Lavandisca. Ali, no número 765, funciona a choperia Joan Sehn, inaugurada em 1937 por um austríaco e considerada a mais antiga da cidade. Os despojados batem cartão no Bar do Giba, um autêntico pé-sujo, que frita um pastelzinho para ser devorado de joelhos. Perto de lá, o concorrido Bar do Juarez serve uma suculenta picanha no réchaud. Difícil é conseguir uma mesa para prová-la. Os casais preferem ir aos charmosos Garoa e Café Journal. Para os fãs da boa música, o destino são as casas de show Bourbon Street e DirecTV Music Hall. Enfim, um único bairro para diferentes tipos de público.

         
     
 
 
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