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19 de fevereiro de 2003
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ANIMAIS

Vida de cão

O drama dos mais de 200 000 cachorros
abandonados
na cidade. Sessenta deles
são mortos por dia

Erika Sallum

A vida de Jade mudou completamente quando sua família decidiu trocar a casa por um apartamento. De uma hora para outra, acabaram o conforto, os carinhos e as regalias. Acostumada a ser o centro das atenções, de repente ela viu-se presa em uma cela, cercada de estranhos. Sem entender direito o que estava acontecendo, passou dias tristes deitada num canto. Parou de comer, emagreceu, ficou doente. Não fosse por um grupo de pessoas que decidiu ajudá-la, hoje estaria morta. Jade é uma husky siberiana, mas poderia ser uma poodle, rottweiler, fila ou vira-lata. Assim como ela, dezenas de cachorros são abandonados diariamente em São Paulo, apesar de isso ser um crime previsto em lei federal. Calcula-se que os cães sem dono já passem dos 200.000 somente na capital. São animais largados em ruas, parques e praças, muitos deles ainda filhotes. "É um fenômeno tipicamente urbano", diz Marco Ciampi, presidente da Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal (Arca Brasil). "Para acabar com a solidão das grandes cidades, as pessoas decidem ter um bicho de estimação. Depois de um tempo, enjoam e se livram dele, como um objeto que não querem mais."

Mario Rodrigues
Os sadios sobrevivem e, com sorte, são adotados novamente, como a husky Jade, que a estudante Juliana foi buscar no CCZ de Diadema


A história de Jade teve um final feliz por ela ser de raça, uma raridade entre os cães abandonados – quase todos vira-latas, pelos quais pouca gente se interessa. No seu caso, o antigo dono decidiu deixá-la no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Diadema, que sacrifica animais, ainda que sadios. É uma perversidade: ali, só sobrevivem aqueles que arranjam logo um novo lar. Os outros morrem com injeção letal. Indignados, os responsáveis pela seção municipal da União Internacional Protetora dos Animais entraram com uma representação no Ministério Público contra a matança dos saudáveis. O CCZ de Diadema não fala sobre o assunto e proíbe que se fotografe seu corredor da morte. "Para salvar Jade, tivemos de agir rápido", conta a dona-de-casa Sueli Ferrari, que deu a cadela à filha Juliana, depois de ter se desfeito de seu weimaraner alguns anos atrás. "Fiquei com peso na consciência. Resolvi, então, adotar um cachorro em vez de comprá-lo num pet shop." A decisão, aliás, rendeu uma boa economia: um filhote husky custa, em média, de 300 a 1.000 reais, dependendo do pedigree.


Mario Rodrigues
Muitos donos largam seus animais nas ruas. Alguns vão parar no Centro de Controle de Zoonoses, que sacrifica os doentes ou idosos


Em São Paulo, são recolhidos diariamente cerca de sessenta cachorros abandonados. Diferentemente de Diadema, o Centro de Controle de Zoonoses da capital sacrifica apenas os animais doentes ou muito idosos. A equipe de veterinários seleciona os sadios e mais dóceis para a adoção. Apesar de vacinados, vermifugados e castrados, esses cães custam a arrumar uma casa. Enquanto aguardam um novo dono, ficam em celas separadas. Quando alguém se aproxima das grades, eles logo abanam o rabo e exibem sua carência no olhar, numa cena comovente, como se soubessem que podem sair dali caso agradem ao visitante. "Estamos lhes dando uma segunda chance", diz Rita Garcia, diretora do CCZ. Para adotar um deles, basta levar um comprovante de residência, CIC e RG, além de pagar uma taxa de 11,10 reais. Os veterinários realizam uma pequena entrevista com os interessados. Na tentativa de acabar com essa onda de abandono, o CCZ também desenvolve um programa em colégios e ONGs para conscientizar a população da importância da posse responsável. O objetivo é levar as pessoas a refletir antes de pegar um bicho, que terá de ser cuidado até o fim da vida. "Um animal precisa de muito amor", afirma Rita. "Somente quando todos pararem de abandoná-los é que deixaremos de sacrificar tantos cachorros inocentes."

 

Posse responsável

Luis Gomes


Reflita bem antes de adquirir um bicho de estimação. Leve em conta que um cão vive, em média, doze anos e que, só com as primeiras vacinas, são gastos cerca de 200 reais.

Informe-se sobre as características de cada raça. Um husky (como o da foto ao lado), por exemplo, normalmente é independente e pouco companheiro.

Antes de ir a um pet shop, pense na possibilidade de adotar um cachorro sem dono. No Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo, há em média quarenta cães à espera de um novo lar.

Jamais abandone seu animal na rua. Isso é crime previsto em lei federal. Se não puder mais criá-lo, arrume uma nova e adequada casa para ele viver.

 

Centro de Controle de Zoonoses Rua Santa Eulália, 86, Santana, 6224-5500
         
     
 
 
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