| |
|
|
 |
|
ANIMAIS
Vida
de cão
O
drama dos mais de 200 000 cachorros
abandonados
na cidade. Sessenta deles
são mortos por dia
Erika
Sallum
A
vida de Jade mudou completamente quando sua família decidiu
trocar a casa por um apartamento. De uma hora para outra, acabaram
o conforto, os carinhos e as regalias. Acostumada a ser o centro
das atenções, de repente ela viu-se presa em uma cela,
cercada de estranhos. Sem entender direito o que estava acontecendo,
passou dias tristes deitada num canto. Parou de comer, emagreceu,
ficou doente. Não fosse por um grupo de pessoas que decidiu
ajudá-la, hoje estaria morta. Jade é uma husky siberiana,
mas poderia ser uma poodle, rottweiler, fila ou vira-lata. Assim
como ela, dezenas de cachorros são abandonados diariamente
em São Paulo, apesar de isso ser um crime previsto em lei
federal. Calcula-se que os cães sem dono já passem
dos 200.000 somente na capital. São
animais largados em ruas, parques e praças, muitos deles
ainda filhotes. "É um fenômeno tipicamente urbano",
diz Marco Ciampi, presidente da Associação Humanitária
de Proteção e Bem-Estar Animal (Arca Brasil). "Para
acabar com a solidão das grandes cidades, as pessoas decidem
ter um bicho de estimação. Depois de um tempo, enjoam
e se livram dele, como um objeto que não querem mais."
Mario Rodrigues
 |
| Os
sadios sobrevivem e, com sorte, são adotados novamente, como
a husky Jade, que a estudante Juliana foi buscar no CCZ de Diadema
|
A história de Jade teve um final feliz por ela ser de raça,
uma raridade entre os cães abandonados quase todos
vira-latas, pelos quais pouca gente se interessa. No seu caso, o
antigo dono decidiu deixá-la no Centro de Controle de Zoonoses
(CCZ) de Diadema, que sacrifica animais, ainda que sadios. É
uma perversidade: ali, só sobrevivem aqueles que arranjam
logo um novo lar. Os outros morrem com injeção letal.
Indignados, os responsáveis pela seção municipal
da União Internacional Protetora dos Animais entraram com
uma representação no Ministério Público
contra a matança dos saudáveis. O CCZ de Diadema não
fala sobre o assunto e proíbe que se fotografe seu corredor
da morte. "Para salvar Jade, tivemos de agir rápido", conta
a dona-de-casa Sueli Ferrari, que deu a cadela à filha Juliana,
depois de ter se desfeito de seu weimaraner alguns anos atrás.
"Fiquei com peso na consciência. Resolvi, então, adotar
um cachorro em vez de comprá-lo num pet shop." A decisão,
aliás, rendeu uma boa economia: um filhote husky custa, em
média, de 300 a 1.000 reais, dependendo
do pedigree.
Mario Rodrigues
 |
| Muitos
donos largam seus animais nas ruas. Alguns vão parar no Centro
de Controle de Zoonoses, que sacrifica os doentes ou idosos
|
Em São Paulo, são recolhidos diariamente cerca de
sessenta cachorros abandonados. Diferentemente de Diadema, o Centro
de Controle de Zoonoses da capital sacrifica apenas os animais doentes
ou muito idosos. A equipe de veterinários seleciona os sadios
e mais dóceis para a adoção. Apesar de vacinados,
vermifugados e castrados, esses cães custam a arrumar uma
casa. Enquanto aguardam um novo dono, ficam em celas separadas.
Quando alguém se aproxima das grades, eles logo abanam o
rabo e exibem sua carência no olhar, numa cena comovente,
como se soubessem que podem sair dali caso agradem ao visitante.
"Estamos lhes dando uma segunda chance", diz Rita Garcia, diretora
do CCZ. Para adotar um deles, basta levar um comprovante de residência,
CIC e RG, além de pagar uma taxa de 11,10 reais. Os veterinários
realizam uma pequena entrevista com os interessados. Na tentativa
de acabar com essa onda de abandono, o CCZ também desenvolve
um programa em colégios e ONGs para conscientizar a população
da importância da posse responsável. O objetivo é
levar as pessoas a refletir antes de pegar um bicho, que terá
de ser cuidado até o fim da vida. "Um animal precisa de muito
amor", afirma Rita. "Somente quando todos pararem de abandoná-los
é que deixaremos de sacrificar tantos cachorros inocentes."
|
Posse
responsável
Luis Gomes
 |
Reflita
bem antes de adquirir um bicho de estimação.
Leve em conta que um cão vive, em média, doze
anos e que, só com as primeiras vacinas, são
gastos cerca de 200 reais.
Informe-se
sobre as características de cada raça. Um husky
(como o da foto ao lado), por exemplo, normalmente
é independente e pouco companheiro.
Antes
de ir a um pet shop, pense na possibilidade de adotar um cachorro
sem dono. No Centro de Controle de Zoonoses de São
Paulo, há em média quarenta cães à
espera de um novo lar.
Jamais
abandone seu animal na rua. Isso é crime previsto em
lei federal. Se não puder mais criá-lo, arrume
uma nova e adequada casa para ele viver.
|
Centro
de Controle de Zoonoses –
Rua Santa Eulália, 86, Santana,
6224-5500 |
|