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19 de janeiro de 2005
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O DNA da moda

Cada um com sua coleção, o pai Reinaldo
Lourenço, a mãe Gloria Coelho e o filho
Pedro Lourenço atraem nesta semana
os holofotes da São Paulo Fashion Week

Marcella Centofanti

 
Fotos Jorge Bispo
Pedro, Gloria e Reinaldo: 1 800 novas peças por ano


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Leia entrevista com
Pedro Lourenço
Fotos dos desfiles da família da moda na temporada de 2004

A precocidade dos três é uma coisa, assim, de pele. Ou melhor, de sangue. A mineira Gloria Coelho arriscou seus primeiros modelos aos 17 anos. Ao lado de duas amigas, fazia camisetas e bijus para vender na escola. Ainda na adolescência, Reinaldo Lourenço chamava atenção em Presidente Prudente, sua cidade natal, no interior do estado, usando looks que ele mesmo inventava. Filho único dos estilistas casados há vinte anos, o paulistano Pedro Lourenço superou os pais no quesito prematuridade. Aos 7 anos, tomava aulas de modelagem e promovia desfiles em casa e na fábrica da mãe, com direito a passarela, manequins e styling. Hoje, aos 14, prepara-se para a sua quarta participação na vitrine mais cintilante da moda brasileira, a São Paulo Fashion Week. Na 18ª edição do evento, que começa nesta quarta-feira (19), vai lançar uma grife com seu próprio nome.

Não há outra família tão fashion na cidade. Gloria é considerada uma arquiteta de roupas pela complicada operação que desenvolve na modelagem, recorte e sobreposição dos tecidos. E sem comprometer o caimento impecável. Com 53 anos, trinta deles dedicados à moda, é uma papisa das passarelas. Reinaldo, onze anos mais novo, ganhou reconhecimento sobretudo pela alta qualidade de suas camisas e blazers. Engatinhando para definir seu estilo, Pedro por enquanto faz roupas mais para se exercitar do que para vender. Juntos, eles desenvolvem quase 1 800 itens por ano. Muitos deles vão parar em guarda-roupas estrelados. As atrizes Alinne Moraes, Camila Pitanga, Malu Mader e Débora Bloch e a escritora Fernanda Young são fãs das criações de Gloria. A atriz Mariana Ximenes, a apresentadora Xuxa e a primeira-dama Marisa Letícia vestem Reinaldo Lourenço. A atriz Deborah Secco e a top Jeísa Chiminazzo já saíram por aí com modelitos de Pedro.

Eles estão presentes em pontos nobres de São Paulo. As grifes de Gloria (Gloria Coelho, G e Carlota Joakina) são vendidas nos shoppings Iguatemi e Morumbi e numa loja no trecho chique da Bela Cintra, onde parte das araras trará dentro de algumas semanas a nova coleção de Pedro. Reinaldo estabeleceu-se em um endereço vizinho da mesma rua. Além disso, o casal dispõe de sessenta pontos-de-venda em multimarcas espalhadas pelo país. A cada troca de estação, pequenas remessas são enviadas para países como Estados Unidos, Líbano, China e Portugal. Apesar dessa globalização e do preço que cobram – uma saia Gloria Coelho custa em média 500 reais; um vestido de festa da G, por volta de 800; e um blazer de Reinaldo Lourenço, 1.200 reais –, o clã garante que está longe de colocar a tesoura na sombra. "Não falo em faturamento para não decepcionar minhas clientes", desconversa Gloria, que, como o marido, tem uma certa dificuldade para lidar com números e dinheiro.

Vaidosíssimos, mesmo para os padrões da egolatria do universo da moda, pai, mãe e filho cuidam para manter um visual que apenas na aparência é casual, quase despojado. Tudo está nos trinques, com cada detalhe milimetricamente estudado. Gloria adora maquiagem preta nos olhos e batom de cor escura nos lábios generosos, herdados por Pedro. Calça sapatos bicudos ou galochas dois números a mais que o seu. "Dá mais agilidade para caminhar", explica. Invariavelmente veste preto porque acredita que a cor emagrece. Pela mesma razão, só usa saias. Reinaldo também é adepto dos tons escuros. No caso dele, por considerar elegante. Desde que começou a ver sinais de calvície aderiu ao corte escovinha, meio punk. Usa tênis de cano alto, botas ou coturnos. Jeans baixos, que deixam a cueca à mostra, e com a barra maior que o necessário, são os prediletos de Pedro.

Dentro do mundinho, esse culto ao preto, o charme enigmático e a aparência sisuda lhes renderam o apelido de "Família Adams", numa referência aos esquisitos personagens do cinema americano. "Eu adoro a Família Adams, mas aqui em casa sou a única de estilo gótico", diz Gloria. Longe das passarelas, Gloria, Reinaldo e Pedro levam uma vida comum. Criam quatro cachorros (Eugênio, Bárbara, Tommy e Doug) no quintal da casa com três pavimentos no Jardim Paulistano, adoram assistir aos capítulos da novela Senhora do Destino e nos fins de semana vão à Praia de Santiago, em São Sebastião, onde têm uma casa. Viajam para o exterior, em geral, apenas para pesquisar moda e se consultar com um médico em Paris, duas vezes por ano. Gloria e Reinaldo se esforçam para que Pedro não seja visto como um geniozinho. Querem que ele tenha uma rotina de adolescente e que os holofotes não subam à sua cabeça. Bem, se resistir não terá saído ao pai. O garoto, grandão para a idade (1,80 metro), vai bem na escola, sem ser um dos primeiros da classe. Duas vezes por semana, faz aulas de reforço. Um quadro enorme da modelo Isabeli Fontana enfeita uma das paredes de seu quarto. "Eu gostaria que ele passasse a infância e a adolescência se divertindo com os amigos, mas ele insiste em fazer roupas", afirma Gloria.

A casa dos Lourenço vira de pernas para o ar nas semanas que antecedem a São Paulo Fashion Week. Às vésperas do evento, quando todos estão agitados com os últimos detalhes dos desfiles, haja cabala para apaziguar os nervos. Há dois anos, eles tornaram-se adeptos da tradição mística hebraica que procura explicar os segredos da formação do universo e ensina métodos para controlar sentimentos como ansiedade, raiva e inveja. Católica de formação, Gloria freqüenta cerimônias de Shabat. No pulso esquerdo, usa uma pulseira de lã vermelha, amuleto cabalístico para espantar o mau-olhado. Nos momentos de dúvida, o casal consulta seus quatro astrólogos (o dia da entrevista com Gloria foi determinado pela melhor posição dos astros, tal como ela faz para decidir o horário dos desfiles). Reinaldo cria suas coleções de acordo com as fases da Lua – começa na nova e termina na minguante. Pedro é o menos ligado. "Até gosto de astrologia, mas não como meus pais, que não vivem sem", diz.

Reinaldo e Gloria gostariam de ter tido mais filhos. Mas a cegonha só chegou quando já haviam desistido de tratamentos médicos e não voltou a visitá-los. Ela engravidou na França, após seis anos de casamento. Os dois se conheceram no réveillon de 1980, em Presidente Prudente. Gloria conta que, naquela noite, uma taça se quebrou porque Reinaldo a encarava fixamente. Ele, então com 18 anos, mudou-se para São Paulo no ano seguinte para trabalhar como seu assistente. Gloria já era uma estilista respeitada, com seis anos à frente da G. Depois de ter passado pelos cursos de Marie Rucki, do Studio Berçot, de Paris, promovidos pela Rhodia, ela deixou o estilo pop do início da carreira e começou a produzir coleções mais elaboradas. "O casamento deles vai além do convencional", diz a consultora de moda e amiga Costanza Pascolato. "É uma relação de profunda admiração."

Nos primeiros tempos do casamento, suas coleções tinham toques semelhantes. Hoje, assumem características próprias. Na próxima sexta-feira, Gloria vai exibir na Bienal 41 looks com o tema "medieval street love". Em seguida, na Faap, Reinaldo apresenta sua coleção inspirada, diz ele, nas cortinas da Ópera de Paris. No dia anterior, terão um compromisso especial. Pedro mostrará 24 peças com referências de hip hop e motocross. Papai e mamãe, claro, estarão na apertada platéia de 120 lugares para aplaudir de pé sua melhor criação.

 

"As pessoas é que me acham excêntrico"  

Reinaldo Lourenço, paulista, 42 anos

Como você define moda?
É o jeito como as pessoas se comunicam e se expressam.  

Qual é a sua maior fonte de inspiração?
As ruas, as pessoas. Reparo em tudo o tempo todo. Adoro brechós e feiras livres.  

Por que quase sempre você se veste de preto?
É uma cor clássica, imponente e bonita. Mas eu estou cada vez menos de preto.  

Conviver com mulher e filho estilistas atrapalha ou ajuda?
Ajuda, menos na época dos desfiles. É complicado ter três pessoas tensas dentro de casa.  

Você se acha esquisito?
Não, sou contemporâneo e livre, sem preconceitos para me vestir. As pessoas é que me acham excêntrico. Mas isso faz parte do papel do estilista. Ninguém quer ver um estilista muito normal, né?  

Qual a sua grife preferida: G, Gloria Coelho, Carlota Joakina, Reinaldo Lourenço ou Pedro Lourenço?
Pedro, obviamente.

 

"Tenho sensibilidade diferente na moda"  

Gloria Coelho, mineira, 53 anos

Como você define moda?
É a fotografia de cada época, comportamento, temperatura... Tudo o que está em volta da gente. Você reconhece uma década pela moda.  

Qual é a sua maior fonte de inspiração?
Livros, filmes e a vida.  

Por que quase sempre você se veste de preto?
Porque me deixa anulada, sem interferir no ambiente. E emagrece.  

Conviver com marido e filho estilistas atrapalha ou ajuda?
A troca de experiências ajuda. O ponto desfavorável é que de vez em quando você não quer falar de moda e tem gente falando de moda 24 horas por dia.  

Você se acha esquisita?
Graças a Deus. Todo mundo é diferente um do outro. Tenho um gosto excêntrico para me vestir. Mas na realidade eu sou supernormal, só tenho uma sensibilidade diferente na moda.  

Qual a sua grife preferida: G, Gloria Coelho, Carlota Joakina, Reinaldo Lourenço ou Pedro Lourenço?
Ah, Pedro.

 

"Eu quero ser mais esquisito"

Renata Ursaia
Pedro Lourenço, paulistano, 14 anos


Como você define moda?
Moda é a pessoa ter um diferencial na hora de se vestir no dia-a-dia, mas sem querer ser a mais louca do mundo.  

Qual é a sua maior fonte de inspiração?
Livros e, principalmente, imagens de motocross, que eu adoro. Desde uma luva até a moto.  

Por que quase sempre você se veste de preto?
É mais fácil de usar. Mas o mais legal são os tons escuros e os falsos brancos, cores que te deixam em dúvida para saber qual é.  

Conviver com pai e mãe estilistas atrapalha ou ajuda?
Ajuda. Cada um sempre tem uma informação nova. O ruim é que às vezes um vai atrás da idéia do outro. 

Você se acha esquisito?
Eu quero ser esquisito, mas acabo não conseguindo por causa dos outros. Isso vai passar, com certeza. Um dos meus objetivos para 2005 é me vestir do jeito que quero, e não de acordo com a opinião dos outros.  

Qual a sua grife preferida: G, Gloria Coelho, Carlota Joakina, Reinaldo Lourenço ou Pedro Lourenço?
Cada um tem seu estilo e seu público. As marcas são todas ótimas. A minha ainda está vindo, espero que as pessoas gostem.

 

As criações do clã

Reinaldo Lourenço

 
Vestido preto vazado feito de lã fria: para amenizar o calor Especialista em camisas: esta, sem mangas, tem estampa de folhagem verde

 

Gloria Coelho

 
Linha medieval: macacão inspirado em armadura militar Bermuda e blusa de algodão, com sandálias de tiras amarradas no tornozelo: referências de mitologia e motocross

 

Pedro Lourenço

 
Capa de cashmere e calça de gabardine com couro: confecção trabalhosa Coleção "Esgrima", de 2003: imaginativa, mas pouco vendável

 

Fora da passarela

 
Fotos arquivo pessoal
Reinaldo e Pedro, aos 6 meses: a cegonha demorou a chegar


Claus C. Meyer
Tuca Reis
O casal, em 1990: gravidez em Paris A família, em 1993: há vinte anos no Jardim Paulistano


Na festa de aniversário de 4 anos: fã de fantasia Reinaldo com duas modelos e Gloria (de óculos): início como assistente da futura mulher

     
   
 
 
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