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ESTILO O
DNA da moda Cada um com sua coleção,
o pai Reinaldo Lourenço, a mãe Gloria Coelho e o filho Pedro
Lourenço atraem nesta semana os holofotes da São Paulo Fashion
Week Marcella Centofanti Fotos
Jorge Bispo
 | | Pedro,
Gloria e Reinaldo: 1 800 novas peças por ano |
A precocidade
dos três é uma coisa, assim, de pele. Ou melhor, de sangue. A mineira
Gloria Coelho arriscou seus primeiros modelos aos 17 anos. Ao lado de duas amigas,
fazia camisetas e bijus para vender na escola. Ainda na adolescência, Reinaldo
Lourenço chamava atenção em Presidente Prudente, sua cidade
natal, no interior do estado, usando looks que ele mesmo inventava. Filho único
dos estilistas casados há vinte anos, o paulistano Pedro Lourenço
superou os pais no quesito prematuridade. Aos 7 anos, tomava aulas de modelagem
e promovia desfiles em casa e na fábrica da mãe, com direito a passarela,
manequins e styling. Hoje, aos 14, prepara-se para a sua quarta participação
na vitrine mais cintilante da moda brasileira, a São Paulo Fashion Week.
Na 18ª edição do evento, que começa nesta quarta-feira
(19), vai lançar uma grife com seu próprio nome. Não
há outra família tão fashion na cidade. Gloria é considerada
uma arquiteta de roupas pela complicada operação que desenvolve
na modelagem, recorte e sobreposição dos tecidos. E sem comprometer
o caimento impecável. Com 53 anos, trinta deles dedicados à moda,
é uma papisa das passarelas. Reinaldo, onze anos mais novo, ganhou reconhecimento
sobretudo pela alta qualidade de suas camisas e blazers. Engatinhando para definir
seu estilo, Pedro por enquanto faz roupas mais para se exercitar do que para vender.
Juntos, eles desenvolvem quase 1 800 itens por ano. Muitos deles vão parar
em guarda-roupas estrelados. As atrizes Alinne Moraes, Camila Pitanga, Malu Mader
e Débora Bloch e a escritora Fernanda Young são fãs das criações
de Gloria. A atriz Mariana Ximenes, a apresentadora Xuxa e a primeira-dama Marisa
Letícia vestem Reinaldo Lourenço. A atriz Deborah Secco e a top
Jeísa Chiminazzo já saíram por aí com modelitos de
Pedro. Eles estão presentes em pontos nobres
de São Paulo. As grifes de Gloria (Gloria Coelho, G e Carlota Joakina)
são vendidas nos shoppings Iguatemi e Morumbi e numa loja no trecho chique
da Bela Cintra, onde parte das araras trará dentro de algumas semanas a
nova coleção de Pedro. Reinaldo estabeleceu-se em um endereço
vizinho da mesma rua. Além disso, o casal dispõe de sessenta pontos-de-venda
em multimarcas espalhadas pelo país. A cada troca de estação,
pequenas remessas são enviadas para países como Estados Unidos,
Líbano, China e Portugal. Apesar dessa globalização e do
preço que cobram uma saia Gloria Coelho custa em média 500
reais; um vestido de festa da G, por volta de 800; e um blazer de Reinaldo Lourenço,
1.200 reais , o clã garante que está longe de colocar a tesoura
na sombra. "Não falo em faturamento para não decepcionar minhas
clientes", desconversa Gloria, que, como o marido, tem uma certa dificuldade para
lidar com números e dinheiro. Vaidosíssimos,
mesmo para os padrões da egolatria do universo da moda, pai, mãe
e filho cuidam para manter um visual que apenas na aparência é casual,
quase despojado. Tudo está nos trinques, com cada detalhe milimetricamente
estudado. Gloria adora maquiagem preta nos olhos e batom de cor escura nos lábios
generosos, herdados por Pedro. Calça sapatos bicudos ou galochas dois números
a mais que o seu. "Dá mais agilidade para caminhar", explica. Invariavelmente
veste preto porque acredita que a cor emagrece. Pela mesma razão, só
usa saias. Reinaldo também é adepto dos tons escuros. No caso dele,
por considerar elegante. Desde que começou a ver sinais de calvície
aderiu ao corte escovinha, meio punk. Usa tênis de cano alto, botas ou coturnos.
Jeans baixos, que deixam a cueca à mostra, e com a barra maior que o necessário,
são os prediletos de Pedro. Dentro do mundinho,
esse culto ao preto, o charme enigmático e a aparência sisuda lhes
renderam o apelido de "Família Adams", numa referência aos esquisitos
personagens do cinema americano. "Eu adoro a Família Adams, mas aqui em
casa sou a única de estilo gótico", diz Gloria. Longe das passarelas,
Gloria, Reinaldo e Pedro levam uma vida comum. Criam quatro cachorros (Eugênio,
Bárbara, Tommy e Doug) no quintal da casa com três pavimentos no
Jardim Paulistano, adoram assistir aos capítulos da novela Senhora do
Destino e nos fins de semana vão à Praia de Santiago, em São
Sebastião, onde têm uma casa. Viajam para o exterior, em geral, apenas
para pesquisar moda e se consultar com um médico em Paris, duas vezes por
ano. Gloria e Reinaldo se esforçam para que Pedro não seja visto
como um geniozinho. Querem que ele tenha uma rotina de adolescente e que os holofotes
não subam à sua cabeça. Bem, se resistir não terá
saído ao pai. O garoto, grandão para a idade (1,80 metro), vai bem
na escola, sem ser um dos primeiros da classe. Duas vezes por semana, faz aulas
de reforço. Um quadro enorme da modelo Isabeli Fontana enfeita uma das
paredes de seu quarto. "Eu gostaria que ele passasse a infância e a adolescência
se divertindo com os amigos, mas ele insiste em fazer roupas", afirma Gloria.
A casa dos Lourenço vira de pernas para
o ar nas semanas que antecedem a São Paulo Fashion Week. Às vésperas
do evento, quando todos estão agitados com os últimos detalhes dos
desfiles, haja cabala para apaziguar os nervos. Há dois anos, eles tornaram-se
adeptos da tradição mística hebraica que procura explicar
os segredos da formação do universo e ensina métodos para
controlar sentimentos como ansiedade, raiva e inveja. Católica de formação,
Gloria freqüenta cerimônias de Shabat. No pulso esquerdo, usa uma pulseira
de lã vermelha, amuleto cabalístico para espantar o mau-olhado.
Nos momentos de dúvida, o casal consulta seus quatro astrólogos
(o dia da entrevista com Gloria foi determinado pela melhor posição
dos astros, tal como ela faz para decidir o horário dos desfiles). Reinaldo
cria suas coleções de acordo com as fases da Lua começa
na nova e termina na minguante. Pedro é o menos ligado. "Até gosto
de astrologia, mas não como meus pais, que não vivem sem", diz.
Reinaldo e Gloria gostariam de ter tido mais filhos.
Mas a cegonha só chegou quando já haviam desistido de tratamentos
médicos e não voltou a visitá-los. Ela engravidou na França,
após seis anos de casamento. Os dois se conheceram no réveillon
de 1980, em Presidente Prudente. Gloria conta que, naquela noite, uma taça
se quebrou porque Reinaldo a encarava fixamente. Ele, então com 18 anos,
mudou-se para São Paulo no ano seguinte para trabalhar como seu assistente.
Gloria já era uma estilista respeitada, com seis anos à frente da
G. Depois de ter passado pelos cursos de Marie Rucki, do Studio Berçot,
de Paris, promovidos pela Rhodia, ela deixou o estilo pop do início da
carreira e começou a produzir coleções mais elaboradas. "O
casamento deles vai além do convencional", diz a consultora de moda e amiga
Costanza Pascolato. "É uma relação de profunda admiração."
Nos primeiros tempos do casamento, suas coleções
tinham toques semelhantes. Hoje, assumem características próprias.
Na próxima sexta-feira, Gloria vai exibir na Bienal 41 looks com o tema
"medieval street love". Em seguida, na Faap, Reinaldo apresenta sua coleção
inspirada, diz ele, nas cortinas da Ópera de Paris. No dia anterior, terão
um compromisso especial. Pedro mostrará 24 peças com referências
de hip hop e motocross. Papai e mamãe, claro, estarão na apertada
platéia de 120 lugares para aplaudir de pé sua melhor criação.
"As
pessoas é que me acham excêntrico"
 | | Reinaldo
Lourenço, paulista, 42 anos |
Como você
define moda? É o jeito como as pessoas
se comunicam e se expressam. Qual é
a sua maior fonte de inspiração? As ruas, as pessoas. Reparo
em tudo o tempo todo. Adoro brechós e feiras livres.
Por que quase sempre você se veste de preto? É
uma cor clássica, imponente e bonita. Mas eu estou cada vez menos de preto.
Conviver com mulher e filho estilistas
atrapalha ou ajuda? Ajuda, menos na época dos desfiles. É
complicado ter três pessoas tensas dentro de casa. Você
se acha esquisito? Não, sou contemporâneo e livre, sem preconceitos
para me vestir. As pessoas é que me acham excêntrico. Mas isso faz
parte do papel do estilista. Ninguém quer ver um estilista muito normal,
né? Qual a sua grife preferida:
G, Gloria Coelho, Carlota Joakina, Reinaldo Lourenço ou Pedro Lourenço? Pedro,
obviamente. |
"Tenho
sensibilidade diferente na moda"
 | | Gloria
Coelho, mineira, 53 anos |
Como você
define moda? É a fotografia de cada época,
comportamento, temperatura... Tudo o que está em volta da gente. Você
reconhece uma década pela moda. Qual
é a sua maior fonte de inspiração? Livros, filmes
e a vida. Por que quase sempre você
se veste de preto? Porque me deixa anulada, sem interferir no ambiente.
E emagrece. Conviver com marido e filho
estilistas atrapalha ou ajuda? A troca de experiências ajuda. O ponto
desfavorável é que de vez em quando você não quer falar
de moda e tem gente falando de moda 24 horas por dia. Você
se acha esquisita? Graças a Deus. Todo mundo é diferente
um do outro. Tenho um gosto excêntrico para me vestir. Mas na realidade
eu sou supernormal, só tenho uma sensibilidade diferente na moda.
Qual a sua grife preferida: G, Gloria Coelho,
Carlota Joakina, Reinaldo Lourenço ou Pedro Lourenço? Ah,
Pedro. |
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"Eu
quero ser mais esquisito"
Renata Ursaia  |
| Pedro Lourenço, paulistano, 14 anos |
Como você define moda? Moda é a pessoa ter um diferencial
na hora de se vestir no dia-a-dia, mas sem querer ser a mais louca do mundo.
Qual é a sua maior fonte de inspiração? Livros
e, principalmente, imagens de motocross, que eu adoro. Desde uma luva até
a moto. Por que quase sempre você
se veste de preto? É mais fácil de usar. Mas o mais legal
são os tons escuros e os falsos brancos, cores que te deixam em dúvida
para saber qual é. Conviver com
pai e mãe estilistas atrapalha ou ajuda? Ajuda. Cada um sempre tem
uma informação nova. O ruim é que às vezes um vai
atrás da idéia do outro. Você
se acha esquisito? Eu quero ser esquisito, mas acabo não conseguindo
por causa dos outros. Isso vai passar, com certeza. Um dos meus objetivos para
2005 é me vestir do jeito que quero, e não de acordo com a opinião
dos outros. Qual a sua grife preferida:
G, Gloria Coelho, Carlota Joakina, Reinaldo Lourenço ou Pedro Lourenço? Cada
um tem seu estilo e seu público. As marcas são todas ótimas.
A minha ainda está vindo, espero que as pessoas gostem. |
As
criações do clã Reinaldo
Lourenço  | Vestido
preto vazado feito de lã fria: para amenizar
o calor |  | Especialista
em camisas: esta, sem mangas, tem estampa de folhagem verde |
Gloria
Coelho  | Linha
medieval: macacão inspirado em armadura militar |  | Bermuda
e blusa de algodão, com sandálias de tiras amarradas no tornozelo:
referências de mitologia e motocross |
Pedro
Lourenço  | Capa
de cashmere e calça de gabardine com couro: confecção trabalhosa
|  | Coleção
"Esgrima", de 2003: imaginativa, mas pouco vendável |
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