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CRÔNICA
Empadinhas de praia
Walcyr Carrasco
Passei alguns dias no Litoral Norte. Sol quase
o tempo inteiro. Mergulhei em protetor solar fator 50 um
creme grosso que aderiu aos meus pêlos. Com a areia grudada
no corpo, fiquei semelhante a um golfinho à milanesa. Abri
os braços e declamei:
Isto sim é vida!
Apesar da coceira nas pernas. Na praia, a
obrigação é ser otimista. Um vulto branco aproximou-se.
Era meu velho amigo Bob. Abraçamo-nos. Apresentou a mulher,
as filhas, a sobrinha e a cunhada Sílvia. Mineira. Ela pediu:
Bob, você me ajuda a fazer as
contas para ver quanto lucrei?
Lucrar? Aqui a gente só gasta!
surpreendi-me.
Estou fazendo empadinhas e vendendo
na praia!
Adorei a idéia.
Quero provar!
Apareceu na manhã seguinte com uma
cesta tão pesada que quase deslocava o ombro. Comprei quatro
empadas, de tamanho generoso, com a intenção magnânima
de estimulá-la. Enfiei as quatro na boca, rapidamente, uma
após a outra. Lambi os beiços. A de frango era magnífica!
Sou louco por salgadinhos. Empadas e coxinhas
bem-feitas, tem coisa melhor? Houve um tempo em que achei que o
hambúrguer e o fast food iriam derrotar os salgadinhos. Coisa
nenhuma. Os salgadinhos conseguem estar presentes tanto nos botecos
como nas grandes festas. Empadinhas, especialmente, combinam com
praia. Forram o estômago para o almoço tardio.
Talvez não engordem tanto, são
assadas! refleti, otimista.
Sílvia saiu e voltou com outra cesta.
Dali a pouco tinha vendido tudo!
Faço todo tipo de comida. Mas
estou pensando em me mudar para São Paulo e me especializar
em empadas contou.
Minhas pupilas, dois cifrões. Já
pensava em me tornar sócio. Estimulei:
As grandes multinacionais tiveram um
início parecido. O McDonald's, por exemplo. Começou
com alguém fazendo um bom hambúrguer.
Bem, eu só pensava em fazer
umas empadas... defendeu-se ela.
Você vai ficar rica! decidi.
Deixei para fazer a proposta de sociedade
mais tarde. Eu me via enchendo as praias de empadas do Norte ao
Sul do país. Ela no forno e eu contabilizando os lucros!
Um amigo, ao lado, contou da mãe de um amigo de um amigo:
Vive de fazer empadas e coxinhas. O
pai vende na praia, em Santos.
Conheço uma mocinha que vende
pamonha. Ficou rica! acrescentou outro.
No dia seguinte, Sílvia voltou com
mais empadas. Foi para perto dos rochedos. Quando abriu a boca para
oferecer, uma argentina furiosa surgiu das pedras.
Yo vendo acá! Mis empanadas!
Aquele era ponto dela.
Mas a praia é livre.
disse a mineira.
Livre o escambau! avisou um
vendedor de amendoim. Não quero ver você na
minha frente.
Você tem licença?
agitou-se uma vendedora de sanduíches.
Eu não, mas você também
não tem!
Sou caiçara, tenho direito adquirido!
revidou a outra, que era ruiva e de caiçara tinha
apenas o namorado, um surfista.
São só umas empadinhas
lamentou-se Sílvia.
Todos se insurgiram. Por causa das empadinhas,
a freguesia das empanadas, sanduíches, amendoim torradinho
e outras preciosidades estava se reduzindo. Nervosa, a "argentina"
perdeu o sotaque que era falso, mas ajudava a vender empanadas.
Jogo você e as empadinhas no
mar!
A mineira assustou-se. Restringiu seu campo
de ação aos mais próximos. Nem formulei a idéia
de sociedade. Uma futura multinacional das empadinhas terminou ali,
na areia.
Ficou a pergunta-surpresa da empadeira:
Quem loteou a praia?
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