Publicidade
 

 
 


19 de janeiro de 2005
ESTILO
EVENTO
CIDADE
CONSUMO
BARES
DEZ MOTIVOS PARA...
AS BOAS COMPRAS
MISTÉRIOS DA CIDADE
TERRAÇO PAULISTANO
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
  

CRÔNICA

Empadinhas de praia

Walcyr Carrasco

Passei alguns dias no Litoral Norte. Sol quase o tempo inteiro. Mergulhei em protetor solar fator 50 – um creme grosso que aderiu aos meus pêlos. Com a areia grudada no corpo, fiquei semelhante a um golfinho à milanesa. Abri os braços e declamei:

– Isto sim é vida!

Apesar da coceira nas pernas. Na praia, a obrigação é ser otimista. Um vulto branco aproximou-se. Era meu velho amigo Bob. Abraçamo-nos. Apresentou a mulher, as filhas, a sobrinha e a cunhada Sílvia. Mineira. Ela pediu:

– Bob, você me ajuda a fazer as contas para ver quanto lucrei?

– Lucrar? Aqui a gente só gasta! – surpreendi-me.

– Estou fazendo empadinhas e vendendo na praia!

Adorei a idéia.

– Quero provar!

Apareceu na manhã seguinte com uma cesta tão pesada que quase deslocava o ombro. Comprei quatro empadas, de tamanho generoso, com a intenção magnânima de estimulá-la. Enfiei as quatro na boca, rapidamente, uma após a outra. Lambi os beiços. A de frango era magnífica!

Sou louco por salgadinhos. Empadas e coxinhas bem-feitas, tem coisa melhor? Houve um tempo em que achei que o hambúrguer e o fast food iriam derrotar os salgadinhos. Coisa nenhuma. Os salgadinhos conseguem estar presentes tanto nos botecos como nas grandes festas. Empadinhas, especialmente, combinam com praia. Forram o estômago para o almoço tardio.

– Talvez não engordem tanto, são assadas! – refleti, otimista.

Sílvia saiu e voltou com outra cesta. Dali a pouco tinha vendido tudo!

– Faço todo tipo de comida. Mas estou pensando em me mudar para São Paulo e me especializar em empadas – contou.

Minhas pupilas, dois cifrões. Já pensava em me tornar sócio. Estimulei:

– As grandes multinacionais tiveram um início parecido. O McDonald's, por exemplo. Começou com alguém fazendo um bom hambúrguer.

– Bem, eu só pensava em fazer umas empadas... – defendeu-se ela.

– Você vai ficar rica! – decidi.

Deixei para fazer a proposta de sociedade mais tarde. Eu me via enchendo as praias de empadas do Norte ao Sul do país. Ela no forno e eu contabilizando os lucros! Um amigo, ao lado, contou da mãe de um amigo de um amigo:

– Vive de fazer empadas e coxinhas. O pai vende na praia, em Santos.

– Conheço uma mocinha que vende pamonha. Ficou rica! – acrescentou outro.

No dia seguinte, Sílvia voltou com mais empadas. Foi para perto dos rochedos. Quando abriu a boca para oferecer, uma argentina furiosa surgiu das pedras.

– Yo vendo acá! Mis empanadas!

Aquele era ponto dela.

– Mas a praia é livre. – disse a mineira.

– Livre o escambau! – avisou um vendedor de amendoim. – Não quero ver você na minha frente.

– Você tem licença? – agitou-se uma vendedora de sanduíches.

– Eu não, mas você também não tem!

– Sou caiçara, tenho direito adquirido! – revidou a outra, que era ruiva e de caiçara tinha apenas o namorado, um surfista.

– São só umas empadinhas – lamentou-se Sílvia.

Todos se insurgiram. Por causa das empadinhas, a freguesia das empanadas, sanduíches, amendoim torradinho e outras preciosidades estava se reduzindo. Nervosa, a "argentina" perdeu o sotaque – que era falso, mas ajudava a vender empanadas.

– Jogo você e as empadinhas no mar!

A mineira assustou-se. Restringiu seu campo de ação aos mais próximos. Nem formulei a idéia de sociedade. Uma futura multinacional das empadinhas terminou ali, na areia.

Ficou a pergunta-surpresa da empadeira:

– Quem loteou a praia?

     
   
 
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | VEJA Noite São Paulo
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados