Publicidade
 

 
 


19 de janeiro de 2005
ESTILO
EVENTO
CIDADE
CONSUMO
BARES
DEZ MOTIVOS PARA...
AS BOAS COMPRAS
MISTÉRIOS DA CIDADE
TERRAÇO PAULISTANO
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
  

CIDADE

O mico da Rebouças

Basta uma chuva forte para que o
túnel de 97,4 milhões de reais fique
interditado. Pior: suas galerias terão
de ser refeitas

Marcos Buarque de Gusmão

 
Clayton de Souza/AE
Inundação em novembro: seis carros submersos em 2 metros de água

O túnel sob a Avenida Faria Lima, que liga a Rebouças com a Eusébio Matoso, começou a causar polêmica quando ainda era um vistoso projeto. Mais tarde, sua construção criou gargalos no trânsito e prejudicou o comércio da região. Críticos apontavam a passagem subterrânea como uma obra eleitoreira, cara – custou 97,4 milhões de reais – e tocada às pressas. Imaginava-se que tudo seria resolvido após sua inauguração, em setembro do ano passado. Mas aí vieram as previsíveis chuvas de verão, e a principal marca viária do governo Marta Suplicy não passou no teste. Ultimamente, ao primeiro sinal de temporal, o túnel de 1 163 metros de extensão, contando os dois sentidos, é logo interditado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O abre-e-fecha virou rotina depois que seis carros ficaram submersos dentro dele em novembro. Desde então, houve dez bloqueios por precaução – um castigo para o motorista que circula por ali.

A primeira inundação teria sido motivada por bocas-de-lobo entupidas e por deficiência no sistema de drenagem, insuficiente para armazenar grandes quantidades de chuva. Na semana passada, falhas mais graves vieram à tona. Convocada pelo prefeito José Serra, uma comissão com especialistas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da Escola Politécnica da USP e do Instituto de Engenharia de São Paulo concluiu que o sistema de galerias se encontra em situação crítica. Na inspeção do subterrâneo das avenidas Rebouças e Eusébio Matoso, entre as ruas Pedroso de Moraes e Cardeal Arcoverde, foram constatadas deformações em 400 metros de tubulações. Nas proximidades da Rua Diogo Moreira, por exemplo, alguns canais precisaram ser escorados com pequenas pilastras de concreto. "Há risco de afundamento", diz Marcos Tadeu Pereira, diretor técnico do IPT. Segundo o secretário de Infra-Estrutura Urbana e Obras, Antonio Arnaldo de Queiroz e Silva, as galerias começarão a ser refeitas na segunda-feira (17). Ou seja, vêm aí novos transtornos que vão durar – se não voltar a chover forte – pelo menos mais um mês.

J.F.Diorio/Agência Estado/AE
Sexta-feira 7: uma das dez vezes em que a CET fechou a passagem


Queiroz e Silva afirma que não haverá custos adicionais aos cofres públicos, pois cerca de 100 milhões de reais (quantia referente também ao túnel que liga as avenidas Cidade Jardim, Europa e Nove de Julho) ainda não foram pagos às empreiteiras. "Os trechos dessas galerias não foram aceitos nem pagos porque a prefeitura havia solicitado que fossem refeitos", diz Montserrat Bevilaqua, assessora de imprensa da ex-prefeita. Como se explica que isso tenha acontecido? O arquiteto Julio Neves, a quem coube elaborar, junto com a Promon Engenharia, os primeiros planos da construção, considera-se impedido de comentar o trabalho. "Tenho um contrato de sigilo com a Empresa Municipal de Urbanização (Emurb)", justifica. A presidente da Emurb durante o governo petista, Nadia Somekh, não reconhece falhas no projeto nem na sua execução. "Não existem problemas técnicos", acredita. "A atual gestão critica porque desconhece todos os detalhes do projeto."

As novas intervenções na Rebouças serão realizadas nos corredores do chamado Passa-Rápido. Conseqüência: automóveis e ônibus terão de dividir apenas duas faixas. "Vamos tentar desviar 1 000 carros por hora em cada sentido da Rebouças", diz o presidente da CET, Roberto Scaringella. "Mas o ideal é que o motorista evite passar por lá." Será construída uma espécie de lombada com uma grelha na entrada do túnel para desviar a água. Em quatro meses de funcionamento, a passagem melhorou a vida de quem usa transporte público, mas não trouxe alívio para quem anda de carro. Diante desses problemas, os benefícios da obra estão indo literalmente por água abaixo. Um mico.

 

Buraco polêmico

Inaugurado em setembro, o túnel da Rebouças deixou seis carros submersos dois meses depois. Desde então, a passagem já foi interditada dez vezes por precaução

A obra consumiu 97,4 milhões de reais, 49% a mais em relação à previsão inicial de gastos da gestão Marta Suplicy

Laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas indica que trechos das galerias de drenagem pluvial do túnel já estão em péssimo estado. Algumas tubulações, como mostra a foto acima, precisaram ser escoradas

Cerca de 17 000 veículos passam por dia, nos horários de pico, pelo cruzamento das avenidas Rebouças e Faria Lima. Quando a passagem é interditada, a lentidão na avenida chega a 2 quilômetros

     
   
 
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | VEJA Noite São Paulo
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados