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17 de dezembro de 2003
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O que eles têm na cabeça?

Os selvagens skinheads, que obrigaram
dois jovens a se jogar de um trem

"Ou pula, ou morre." A frase estarreceu os paulistanos na semana passada. Sem nenhum motivo aparente, os amigos Cleiton da Silva Leite, 20 anos, e Flávio Augusto Nascimento Cordeiro, 16, foram obrigados na noite de domingo (7) a saltar de um trem em movimento em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Ao caírem no vão que separa o veículo da plataforma, Cordeiro perdeu o braço direito e Leite sofreu traumatismo craniano. As vítimas, acompanhadas de duas garotas, se dirigiam a um shopping para jogar boliche. Seus cabelos espetados com gel e suas camisetas de bandas de rock foram suficientes para despertar a fúria de três rapazes armados de machadinha e tchaco, instrumento que consiste em dois bastões ligados por uma corrente. De cabeça raspada, coturnos e jaquetas com detalhes militares, os delinqüentes fazem parte do movimento skinhead, uma tribo surgida em São Paulo na década de 80 e que volta e meia protagoniza episódios covardes e de extrema violência.


Fotos reprodução Agência Estado
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Os skinheads compram bilhetes do trem antes de obrigar Leite e Cordeiro (abaixo) a saltar: barbárie

Não se sabe com exatidão quantos vivem na região metropolitana, mas calcula-se que não passem de 1.000. Inspirados por jovens operários da Inglaterra, eles hoje se dividem em facções, algumas delas rivais. Uns pregam o anti-semitismo, outros o patriotismo e ainda há os que nutrem profundo ódio pelos nordestinos, negros, punks... "Só são unânimes em não aceitar o homossexualismo", diz um antigo skinhead que se identifica como B.M. Entre os subgrupos mais conhecidos estão os Carecas do Subúrbio e os Carecas do ABC, estes seguidores das doutrinas de Plínio Salgado, criador nos anos 30 do integralismo brasileiro, movimento que se identificava com o fascismo italiano e com o nazismo. A maioria desses cultores de músculos, no entanto, mal conhece as teorias que defende e apenas repete bordões ouvidos de terceiros. Em geral, eles trabalham como office-boys, tatuadores, seguranças e auxiliares de escritório.


"Entre os que têm a cabeça raspada, alguns são nacionalistas, outros são neonazistas, outros apolíticos. Só são unânimes em não aceitar o homossexualismo."
B.M., skinhead

Foram membros dos Carecas do ABC que espancaram até a morte o adestrador de cães Edson Neris da Silva, que passeava de mãos dadas com o namorado na Praça da República, em 2000. "O assassinato do Edson mostra como essa gente é selvagem", diz Josué de Farias Filho, coordenador político da Associação da Parada do Orgulho Gay. "Após tanto tempo de luta em favor dos homossexuais, é inadmissível que grupos assim ainda existam." Dos dezoito acusados pelo assassinato, apenas sete estão na prisão. A invasão da Rádio Atual, no bairro do Limão, em setembro de 1992, faz parte da lista de arruaças que já provocaram. Especializada em forró, a emissora foi atingida por dois tiros e teve o saguão pichado com slogans antinordestinos. No ano seguinte, ocorreu o brutal assassinato do estudante negro Fábio Henrique Oliveira dos Santos, de 15 anos, em Santo André.

Os mais radicais entre os skinheads são os White Powers (força branca, em inglês), cuja linha de extrema direita exalta os princípios neonazistas. Acredita-se que os brutamontes que ameaçaram os dois garotos em Mogi sejam dessa facção. Na última quarta-feira, a Justiça decretou a prisão temporária de três acusados: Vinícius Parizatto, 24 anos, Danilo Gimenez Ramos, 18, e Juliano Aparecido de Freitas, 18. Na quinta, Parizatto e Freitas se apresentaram à polícia.


"Esse tipo de comportamento intolerante e cruel é típico de personalidades desequilibradas. Com uma visão deformada, usam a violência para ter sensação ilusória de poder."
Sueli Damergian,
professora de psicologia das relações humanas da USP

Não são apenas gays, negros e nordestinos que temem essas gangues. Donos de bares e casas noturnas ficam alarmados quando as vêem pelas redondezas. São conhecidas por causar prejuízo e quebradeira. Arrebentam portas, provocam brigas e muitas vezes saem sem pagar. "No começo, vinham para arrumar encrenca com os outros freqüentadores", afirma Marco Antônio Badin, dono do Hangar 110, casa de shows de música punk no Bom Retiro. "Agora, quando fico sabendo que eles vão aparecer, espalho seguranças pelo bairro e não deixo que entrem." No próximo sábado (20), os carecas devem fazer ainda mais barulho com a comemoração do Dezembro Oi!, no Jardim Shangrilá, na Zona Sul. O evento, uma espécie de convenção skinhead, contará com diversas apresentações musicais de bandas que adotam nomes emblemáticos como Tumulto 64, Expulsos do Bar e Infantaria.

Para Sueli Damergian, professora de psicologia das relações humanas da USP, os skinheads são pessoas desequilibradas que buscam, na crueldade e na intolerância, uma maneira de reagir contra suas precárias condições de vida. "Mas isso não quer dizer que a desculpa para tal desvio de conduta seja apenas a origem humilde", diz a psicóloga. "Eles já trazem consigo uma personalidade doente. Com uma visão deformada da realidade, usam a violência para ter uma sensação ilusória e momentânea de poder."

 

O truculento mundo dos skinheads

Quantos são
Cerca de 1000

Quando apareceram na Grande São Paulo
Nos anos 80. Contrários ao homossexualismo e ao comunismo, antigos integrantes do movimento punk e outros jovens de bairros operários criaram sua versão local do movimento skinhead inglês, pregando principalmente o ultranacionalismo

Lugares que costumam freqüentar
Bares da Rua Treze de Maio, Avenida Paulista e a Galeria do Rock. No próximo sábado (20), devem aparecer em peso no festival de música Dezembro Oi!, no Jardim Shangrilá, Zona Sul

Principais grupos
Carecas do Subúrbio (ultranacionalistas), Carecas do ABC (anticomunistas, seguidores de Plínio Salgado, fundador do integralismo) e White Power (neonazistas)

Visual
Cabeça raspada (para não terem os cabelos puxados pela polícia), coturno, suspensório (no caso dos White Powers, de cor branca), calças camufladas e tatuagens, freqüentemente com a bandeira do Brasil

Armas
Corrente, soco-inglês, taco de beisebol, machadinha e tchaco (dois bastões unidos por uma corrente)

O que ouvem
Reggae e punk dos anos 70 e 80. Em São Paulo, as bandas de maior sucesso são Locomotiva e Garotos Podres

 

 

         
     
 
 
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