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POLÍCIA
O
que eles têm na cabeça?
Os
selvagens skinheads, que obrigaram
dois jovens a se jogar de um trem
"Ou
pula, ou morre." A frase estarreceu os paulistanos na semana passada.
Sem nenhum motivo aparente, os amigos Cleiton da Silva Leite, 20
anos, e Flávio Augusto Nascimento Cordeiro, 16, foram obrigados
na noite de domingo (7) a saltar de um trem em movimento em Mogi
das Cruzes, na Grande São Paulo. Ao caírem no vão
que separa o veículo da plataforma, Cordeiro perdeu o braço
direito e Leite sofreu traumatismo craniano. As vítimas,
acompanhadas de duas garotas, se dirigiam a um shopping para jogar
boliche. Seus cabelos espetados com gel e suas camisetas de bandas
de rock foram suficientes para despertar a fúria de três
rapazes armados de machadinha e tchaco, instrumento que consiste
em dois bastões ligados por uma corrente. De cabeça
raspada, coturnos e jaquetas com detalhes militares, os delinqüentes
fazem parte do movimento skinhead, uma tribo surgida em São
Paulo na década de 80 e que volta e meia protagoniza episódios
covardes e de extrema violência.
Fotos reprodução Agência
Estado
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tado
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| Os
skinheads compram bilhetes do trem antes de obrigar Leite e
Cordeiro (abaixo) a saltar: barbárie |
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Não
se sabe com exatidão quantos vivem na região metropolitana,
mas calcula-se que não passem de 1.000.
Inspirados por jovens operários da Inglaterra, eles hoje
se dividem em facções, algumas delas rivais. Uns pregam
o anti-semitismo, outros o patriotismo e ainda há os que
nutrem profundo ódio pelos nordestinos, negros, punks...
"Só são unânimes em não aceitar o homossexualismo",
diz um antigo skinhead que se identifica como B.M. Entre os subgrupos
mais conhecidos estão os Carecas do Subúrbio e os
Carecas do ABC, estes seguidores das doutrinas de Plínio
Salgado, criador nos anos 30 do integralismo brasileiro, movimento
que se identificava com o fascismo italiano e com o nazismo. A maioria
desses cultores de músculos, no entanto, mal conhece as teorias
que defende e apenas repete bordões ouvidos de terceiros.
Em geral, eles trabalham como office-boys, tatuadores, seguranças
e auxiliares de escritório.
"Entre
os que têm a cabeça raspada, alguns são
nacionalistas, outros são
neonazistas, outros apolíticos. Só
são unânimes em não aceitar o
homossexualismo."
B.M.,
skinhead
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Foram
membros dos Carecas do ABC que espancaram até a morte o adestrador
de cães Edson Neris da Silva, que passeava de mãos
dadas com o namorado na Praça da República, em 2000.
"O assassinato do Edson mostra como essa gente é selvagem",
diz Josué de Farias Filho, coordenador político da
Associação da Parada do Orgulho Gay. "Após
tanto tempo de luta em favor dos homossexuais, é inadmissível
que grupos assim ainda existam." Dos dezoito acusados pelo assassinato,
apenas sete estão na prisão. A invasão da Rádio
Atual, no bairro do Limão, em setembro de 1992, faz parte
da lista de arruaças que já provocaram. Especializada
em forró, a emissora foi atingida por dois tiros e teve o
saguão pichado com slogans antinordestinos. No ano seguinte,
ocorreu o brutal assassinato do estudante negro Fábio Henrique
Oliveira dos Santos, de 15 anos, em Santo André.
Os
mais radicais entre os skinheads são os White Powers (força
branca, em inglês), cuja linha de extrema direita exalta os
princípios neonazistas. Acredita-se que os brutamontes que
ameaçaram os dois garotos em Mogi sejam dessa facção.
Na última quarta-feira, a Justiça decretou a prisão
temporária de três acusados: Vinícius Parizatto,
24 anos, Danilo Gimenez Ramos, 18, e Juliano Aparecido de Freitas,
18. Na quinta, Parizatto e Freitas se apresentaram à polícia.
"Esse
tipo de comportamento intolerante e cruel é típico
de personalidades desequilibradas. Com uma visão deformada,
usam a violência para ter sensação ilusória
de poder."
Sueli Damergian, professora
de psicologia das relações humanas da USP
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Não
são apenas gays, negros e nordestinos que temem essas gangues.
Donos de bares e casas noturnas ficam alarmados quando as vêem
pelas redondezas. São conhecidas por causar prejuízo
e quebradeira. Arrebentam portas, provocam brigas e muitas vezes
saem sem pagar. "No começo, vinham para arrumar encrenca
com os outros freqüentadores", afirma Marco Antônio Badin,
dono do Hangar 110, casa de shows de música punk no Bom Retiro.
"Agora, quando fico sabendo que eles vão aparecer, espalho
seguranças pelo bairro e não deixo que entrem." No
próximo sábado (20), os carecas devem fazer ainda
mais barulho com a comemoração do Dezembro Oi!, no
Jardim Shangrilá, na Zona Sul. O evento, uma espécie
de convenção skinhead, contará com diversas
apresentações musicais de bandas que adotam nomes
emblemáticos como Tumulto 64, Expulsos do Bar e Infantaria.
Para
Sueli Damergian, professora de psicologia das relações
humanas da USP, os skinheads são pessoas desequilibradas
que buscam, na crueldade e na intolerância, uma maneira de
reagir contra suas precárias condições de vida.
"Mas isso não quer dizer que a desculpa para tal desvio de
conduta seja apenas a origem humilde", diz a psicóloga. "Eles
já trazem consigo uma personalidade doente. Com uma visão
deformada da realidade, usam a violência para ter uma sensação
ilusória e momentânea de poder."
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O
truculento mundo dos skinheads
Quantos
são
Cerca de 1000
Quando
apareceram na Grande São Paulo
Nos anos 80. Contrários ao homossexualismo e ao comunismo,
antigos integrantes do movimento punk e outros jovens de bairros
operários criaram sua versão local do movimento
skinhead inglês, pregando principalmente o ultranacionalismo
Lugares
que costumam freqüentar
Bares
da Rua Treze de Maio, Avenida Paulista e a Galeria do Rock.
No próximo sábado (20), devem aparecer em peso
no festival de música Dezembro Oi!, no Jardim Shangrilá,
Zona Sul
Principais
grupos
Carecas do Subúrbio (ultranacionalistas), Carecas do
ABC (anticomunistas, seguidores de Plínio Salgado,
fundador do integralismo) e White Power (neonazistas)
Visual
Cabeça raspada (para não terem os cabelos puxados
pela polícia), coturno, suspensório (no caso
dos White Powers, de cor branca), calças camufladas
e tatuagens, freqüentemente com a bandeira do Brasil
Armas
Corrente, soco-inglês, taco de beisebol, machadinha
e tchaco (dois bastões unidos por uma corrente)
O
que ouvem
Reggae e punk dos anos 70 e 80. Em São Paulo, as bandas
de maior sucesso são Locomotiva e Garotos Podres
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