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17 de dezembro de 2003
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Como quem fica
parado é poste...

...José Simão, o colunista mais engraçado
da cidade, não pára um minuto em busca
da melhor piada. Dono de uma língua afiada
e uma gargalhada inconfundível, ele diverte
seus leitores há dezesseis anos com sátiras
hilárias sobre gente famosa

Erika Sallum
Fotos Mario Rodrigues

 

Buemba! Buemba! Buemba! Com vocês, o braço armado da gandaia nacional! O macaco mais engraçado da cidade! Aquele que chama a apresentadora Luciana Gimenez de Lucianta! Que deu a Marta Suplicy a alcunha de prefesteira! E apelidou o governador Geraldo Alckmin de picolé de chuchu! Rarará! Ora cruel, ora politicamente incorreto, às vezes com mão pesada, mas sempre divertido, o paulistano José Simão não poupa políticos, socialites, jogadores de futebol nem celebridades em sua coluna diária na Folha de S.Paulo, publicada em mais dezenove jornais brasileiros. Com humor escrachado e comentários inteligentes sobre fatos do dia-a-dia, ele há dezesseis anos mantém sua seção entre as mais lidas da Folha.

"O Simão é ótimo, pois criou um estilo próprio muito marcante", diz o humorista Jô Soares, que não costuma ser alvo de suas estocadas. "Por tratar de temas da atualidade, sua coluna nunca perde o vigor e está sempre na boca do povo." De fato: quer saber o que é notícia hoje? Quem falou a maior besteira na TV? E se o escândalo Michael Jackson ainda rende assunto entre os paulistanos? É só ler o Simão, uma máquina incansável que não pára um minuto na busca da melhor piada. Para escrever a curta coluna de 35 linhas, lê diariamente mais de 100 e-mails que recebe de leitores do país inteiro, devora no mínimo cinco jornais, conversa com uma eclética lista de conhecidos que vai da artista plástica Pinky Wainer ao porteiro do prédio e zapeia por diversos canais de televisão, hábito que considera seu esporte preferido. "Sou exatamente aquilo que escrevo, e o que me faz continuar produzindo é minha infinita curiosidade para saber what's going on neste incrível showbiz que é o planeta", diz, gesticulando e arregalando os enormes olhos. Sem falar na gargalhada escandalosa a cada fim de frase. "Na verdade, queria ser chargista. Mas, como não desenho bulhufas, faço caricatura escrita. Virei um jornalista-humorista. Intelectual, claro, mas com humor de sobra", afirma, modesto.

Desde 1987, quando a primeira coluna foi publicada, Simão já popularizou uma série de bordões que caíram no gosto dos leitores. A maioria deles, por sinal, não é criação própria. Do ídolo Ibrahim Sued (1924-1995), o mais famoso colunista social da história da imprensa brasileira, ele mexicanizou o bomba! bomba! bomba! "Já que o brasileiro é supermelodramático e eu adoro chamar atenção mesmo, nada melhor que um bom buemba! buemba! para começar o dia", explica. Atentíssimo a tudo, não esqueceu quando ouviu na Bahia uma mulher que gritava um sonoro "hoje, só amanhã!", outra de suas habituais expressões. Apaixonado por músicas brasileiras antigas, foi buscar no fundo do baú o refrão de uma marchinha de Carnaval que dizia "quem fica parado é poste". Um leitor presenteou-o com o "vou pingar meu colírio alucinógeno". Da Argentina, pegou emprestado o "vai indo que eu não vou", que o amigo e editor Samuel Leon certa vez lhe falou brincando. E, por fim, o infalível "nóis sofre, mas nóis goza" inspirou-se no nome de um bloco carnavalesco de Olinda. "É uma das expressões de que mais gosto, porque mostra a vingança do povo injustiçado."

De Galvão "Magdo" Bueno a "Dondoca" FHC, passando pela Paquita do Agreste (Rosane Collor), Clodovéia e Lourebe, quase ninguém com papel de destaque no cotidiano brasileiro escapou ileso de sua língua afiada. Ultimamente, tem pegado no pé da apresentadora Luciana Gimenez, crucificada dia sim, dia não por suas, digamos, improvisações diante das câmeras. "É só ficar três minutos vendo o programa dela que rende piada. Outro dia, no meio de uma entrevista com a cantora Ângela Maria, a Sapoti, ela perguntou: 'Então você é que é a famosa sapóti brasileira?'! Sapóti é muito bom...!", diverte-se. "A Lucianta é tão anta que deveria apresentar um humorístico tipo I Love Luciana! Rarará!"

 

Ao contrário do que se pode imaginar, as vítimas chegam a elogiá-lo – difícil saber se por admiração mesmo ou por receio de virar alvo recorrente. "Acho um privilégio ser citada", jura a apresentadora Ana Maria Brega, ops, Braga, mais uma que volta e meia é atingida por sua pena envenenada. "Ele sabe criticar com personalidade e entende do que faz", concede Gugu Liberato, muito mencionado depois que apresentou em seu programa uma entrevista forjada com supostos membros do PCC. Segundo Simão, os únicos a levar suas ironias ao tribunal foram a atriz Tereza Rachel, que se sentiu ofendida quando ele a tratou em um texto de Ipojeca, numa referência a seu marido na época, Ipojuca Pontes, que ocupava o cargo de secretário de Cultura no governo Collor; o deputado federal Enéas Carneiro, a quem Simão chamou de maluco; e a socialite-empresária Yara Baumgart, inconformada por ter sido mencionada como perua. "Yara ganhou o processo, mas a indenização foi tão pequena que não dava nem para comprar uma bolsinha Louis Vuitton...", lembra. "Como uma criança, eu posso ser cruel às vezes. Mas jamais baixo-astral. Nunca sou grosseiro nem escrevo sobre a vida pessoal de ninguém, a menos que ela tenha importância no noticiário do dia. Não suporto maldadezinha gratuita sem inteligência."

Por causa da coluna, que precisa entregar por volta das 14 horas, Simão acorda às 7h30. Se sobra tempo, faz seu "datapadaria", enquanto pede um pão com manteiga e uma média na lanchonete da esquina do prédio onde mora, no Jardim Paulista. E, lógico, aproveita para ouvir as fofocas e piadas da clientela. Ainda pela manhã pratica musculação e corre na esteira com o personal trainer três vezes por semana. Passa creminhos no rosto, vai ao cabeleireiro Mauro Freire e visita regularmente uma dermatologista da badalada clínica Ligia Kogos. "Odeio velho derrubado."

Nos inúmeros eventos para os quais é convidado (numa noite, pode aparecer em três lugares diferentes), usa roupas coloridas e transadas, em geral de grifes como Alexandre Herchcovitch, Marcelo Sommer e Daslu Homem. Ao posar para fotos, xisssssss: o sorriso de propaganda de creme dental está ali. "Quando minha mãe morreu, ele preparou uma festa de Natal e ficou me fazendo rir a noite toda", diz a jornalista Astrid Fontenelle, uma de suas amigas mais próximas, ao lado da consultora de moda Costanza Pascolato, da apresentadora Lorena Calábria e da artista plástica Pinky Wainer.

Desde pequeno, Simão acostumou-se às gargalhadas. Na casa no bairro da Vila Mariana onde cresceu, o clima era de liberdade e bom humor. O pai, um clínico geral bem de vida de ascendência árabe, e a mãe, uma dona-de-casa de família alemã, deixavam que ele e o irmão mais velho brincassem à vontade. Asmático, na juventude passava as tardes lendo obras de Proust, Eça de Queiroz e Nelson Rodrigues. "Criança, eu costumava subir num banquinho para conseguir pegar os livros proibidos da biblioteca de meu pai", recorda. "Nada escandaloso, só títulos como O Crime do Padre Amaro."

A paixão pela escrita levou-o a tentar o curso de direito. Garante que, na prova de redação, ficou em primeiro lugar em todas as faculdades em que prestou vestibular. Mas, diante da formalidade do Largo São Francisco, abandonou tudo e foi viver um ano em Londres. "Gente, eu no máximo daria um bom advogado do diabo e olhe lá!", admite. A temporada foi, como ele mesmo conta, de total desbunde. "Vi shows dos Rolling Stones no Hyde Park, fui a festivais onde tocavam Jimi Hendrix, Bob Dylan, um arraso." Na volta ao Brasil, passou uma fase riponga no Rio de Janeiro, que batizou de "orgia tropical". "Fazia macrobiótica, tinha de assistir ao pôr-do-sol, não via TV... Vida de hippie é dura, um stress!" Dali, partiu para a Bahia, uma das grandes paixões de sua vida. Em Salvador, foi dono de um bazar de discos, incensos e roupas chamado Talismã Tropical.

Quando a saudade do burburinho paulistano bateu, Simão decidiu regressar à cidade natal. Abriu com uns amigos no bairro de Pinheiros uma filial do bar-restaurante baiano Zanzibar. Foi quando conheceu uma "galera da Folha", da qual fazia parte o jornalista Matinas Suzuki Jr., e passou a trabalhar no suplemento "Casa & Companhia", junto com o iniciante Zeca Camargo, hoje apresentador do Fantástico. "Não entendia nada de reportagem, só gostava da gandaia da redação", diz Simão. "Quando me mandaram para o caderno 'Ilustrada', pedi as contas." A direção do jornal percebeu o potencial do hilário repórter e chamou-o para escrever uma coluna sobre televisão. "Simão tinha ótimas tiradas. Queríamos que ele reproduzisse isso no papel", conta Suzuki Jr., que se tornou um de seus amigos mais próximos. "O sucesso da coluna veio logo. O engraçado é que muita gente pensava que ele era uma criação, um personagem inventado por nós."

Além do espaço na Folha, Simão apresenta no UOL um programa sobre música latina e um noticiário ao lado do jornalista Paulo Henrique Amorim. Ele não revela cifras, mas comenta-se que seus rendimentos são da ordem de 30.000 reais por mês. Com exceção do Monkey News, título que deu ao jornal virtual gravado no edifício do UOL, o colunista trabalha em casa. "Sou muito dispersivo. Se tem gente do lado, começo a puxar papo, vira uma bagunça", afirma. A cobertura onde mora, dividida com o companheiro de mais de quinze anos e também colunista Antônio Salomão, é toda decorada com objetos coloridos e livros de arte. Se não está escrevendo, adora colocar um CD de música latina e dançar com o boxer "Billy", seu xodó. Quando sente que o stress de São Paulo começa a pesar, parte para o refúgio predileto: o apartamento que comprou há três anos em Salvador. Lá, fica pelo menos oito dias por mês, entre ensaios do Ara Ketu, visitas ao bloco Ilê-Aiyê e passeios em seu barco. "Tem vezes que faço tanta coisa na Bahia que volto precisando de férias", exagera. É esse o destino escolhido para passar o Natal e o réveillon. Como dia 31 é seu aniversário – não aparenta, mas vai fazer 60 anos –, a festança promete. E o que o macaco mais engraçado da cidade gostaria de ganhar de presente? "Nada... ou melhor, quero, sim. Um fígado autolimpante! Existe presente melhor que esse? Rarará!"

 

 

Os alvos preferidos do macaco

Os apelidos e as tiradas engraçadas que Simão
escreve sobre as celebridades mais assíduas em
sua coluna diária na Folha de S.Paulo

 
Radiobras/divulgação
LULATUR
"E o Lula vai viajar de novo? E quando ele faz escala técnica no Brasil? Ele viaja tanto que, quando tá na escadinha do avião, ele pergunta: 'Palófi, eu tô indo ou tô voltando?'. Eu acho que o Lula podia abrir uma agência de viagens: Tia Marisa!"
Ronaldo Ceravolo
LUCIANTA GIMENEZ
"E a Lucianta Gimenez não é transgênica, é antagênica. E ela vai apresentar um programa com todos os seus micos. Assumiu a antice! Vai ser um programa ANTAlógico. Antalogia da Lucianta. Só falta passar no Antaquistão!"
Bob Paulino
PREFESTEIRA
"E um amigo me disse que vai votar na Marta porque ela é PT: Perua de Tailleur! Databotox informa: a Marta subiu 14 pontos. Fez lifting! Foi pruma clínica e pediu: 'Daria pra fazer um lifting na minha popularidade?'."
Agliberto Lima/AE
PICOLÉ DE CHUCHU
"E o Alckmin picolé de chuchu (sem gosto, sem cor e sem cheiro) soltou verba para a polícia. Botou tranca depois da porta arrombada. E diz que vai comprar 400 algemas. Só se for algema de sex shop! Rarará!"
Rede Globo/divulgação
GALVÃO MAGDO BUENO
"E domingo é dia do Galvão! A Gralha Urucante! O Galvão é um espetáculo à parte, bônus track de domingo! E sabe qual é a diferença entre o Galvão e a torcida? É que o Galvão ganha pra torcer e a torcida paga pra assistir."
Divulgação
ANAMEBA BREGA
"E a Ana Maria Braga, ops, Anameba Brega lançou um CD. Entendi esse CD: quem compra é usuário e quem vende é traficante. Rarará!"
Wagner Santos
GUGUGATE
"E saiu uma enquete hilária no novo site colunatico.com: 'O que o Gugu deve fazer pra levantar o ibope?

 

A hora do contra-ataque:
cinco personagens assíduos
disparam perguntas a Simão

ADRIANE GALISTEU
Na sua vida, você também tem um colírio alucinógeno ou ele só existe para escrever sua coluna?
"Meu colírio alucinógeno na vida real é navegar pela Baía de Todos os Santos, em Salvador, onde vejo até submarino amarelo."


ANA MARIA BRAGA
Qual sua maior fonte de inspiração para escrever tantas bobagens inteligentes?
"Vendo as loiras na TV! Rarará! Minha inspiração vem dos telejornais, muito mais hilários e surpreendentes que as novelas, do bate-bola com os leitores pela internet, da vida que eu levo com os amigos que tenho. Eu levo a vida na salsa!"


GUGU LIBERATO
Sempre tive curiosidade de saber como nasceu o codinome Macaco Simão. Quem criou esse apelido? É algo de infância, foram seus colegas de escola?
"O pessoal na escola me chamava de Macaco Simão, que era um personagem da literatura infantil. E aí resolvi adotar como nome artístico. O macaco tem liberdade poética. O macaco tudo pode. Todo mundo gosta do macaco. Está no inconsciente infantil de todas as pessoas. E eu sou meio menino e meio macaco! Freud explica e o Macaco Simão complica!"


LUCIANA GIMENEZ
Macaco Simão, se você fosse fazer uma crítica ao próprio Macaco Simão, como a faria? Afinal não é só de elogios que se vive. São as críticas que muitas vezes ajudam um trabalho a ser aprimorado...
"Essa pergunta me causou um profundo stress. Peço ajuda aos universitários!"


HEBE CAMARGO
Pelo menos em sonho você é sério?
"Hoje eu sonhei que a Hebe era uma televisão!"

 

O jeito Simão de ser

 
"Aos 7 anos, de uniforme escolar e cara de primeiro da classe, na porta da minha casa em Vila Mariana, indo para a escola aprender a escrever colunas, 1951!!!!!"
"Em Ipanema, nas Dunas da Gal, o nosso paraíso tropical durante a ditadura, posando para foto da revista underground Navilouca, de cabelão Gal Costa e Ray-Ban fashion, 1972!"
"De terno branco Ópera do Malandro, ao lado da dupla elétrica e dinâmica Astrid Fontenelle e Antônio Salomão, esquentando o motor para mais uma balada noturna"
"Me recuperando de uma pneumonia, em 1999, sob a proteção do Super Billy, meu boxer que tem certeza de que é gente!"
"Em Londres, no Hyde Park, esperando o show dos Rolling Stones, 1969!"

 

         
     
 
 
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