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PERFIL
Como
quem fica
parado é poste...
...José
Simão, o colunista mais engraçado
da cidade, não pára um minuto em busca
da melhor piada. Dono de uma língua afiada
e uma gargalhada inconfundível, ele diverte
seus leitores há dezesseis anos com sátiras
hilárias sobre gente famosa
Erika
Sallum
Fotos
Mario Rodrigues
Buemba!
Buemba! Buemba! Com vocês, o braço armado da gandaia
nacional! O macaco mais engraçado da cidade! Aquele que chama
a apresentadora Luciana Gimenez de Lucianta! Que deu a Marta Suplicy
a alcunha de prefesteira! E apelidou o governador Geraldo Alckmin
de picolé de chuchu! Rarará! Ora cruel, ora politicamente
incorreto, às vezes com mão pesada, mas sempre divertido,
o paulistano José Simão não poupa políticos,
socialites, jogadores de futebol nem celebridades em sua coluna
diária na Folha de S.Paulo, publicada em mais dezenove
jornais brasileiros. Com humor escrachado e comentários inteligentes
sobre fatos do dia-a-dia, ele há dezesseis anos mantém
sua seção entre as mais lidas da Folha.
"O
Simão é ótimo, pois criou um estilo próprio
muito marcante", diz o humorista Jô Soares, que não
costuma ser alvo de suas estocadas. "Por tratar de temas da atualidade,
sua coluna nunca perde o vigor e está sempre na boca do povo."
De fato: quer saber o que é notícia hoje? Quem falou
a maior besteira na TV? E se o escândalo Michael Jackson ainda
rende assunto entre os paulistanos? É só ler o Simão,
uma máquina incansável que não pára
um minuto na busca da melhor piada. Para escrever a curta coluna
de 35 linhas, lê diariamente mais de 100 e-mails que recebe
de leitores do país inteiro, devora no mínimo cinco
jornais, conversa com uma eclética lista de conhecidos que
vai da artista plástica Pinky Wainer ao porteiro do prédio
e zapeia por diversos canais de televisão, hábito
que considera seu esporte preferido. "Sou exatamente aquilo que
escrevo, e o que me faz continuar produzindo é minha infinita
curiosidade para saber what's going on neste incrível
showbiz que é o planeta", diz, gesticulando e arregalando
os enormes olhos. Sem falar na gargalhada escandalosa a cada fim
de frase. "Na verdade, queria ser chargista. Mas, como não
desenho bulhufas, faço caricatura escrita. Virei um jornalista-humorista.
Intelectual, claro, mas com humor de sobra", afirma, modesto.
Desde
1987, quando a primeira coluna foi publicada, Simão já
popularizou uma série de bordões que caíram
no gosto dos leitores. A maioria deles, por sinal, não é
criação própria. Do ídolo Ibrahim Sued
(1924-1995), o mais famoso colunista social da história da
imprensa brasileira, ele mexicanizou o bomba! bomba! bomba! "Já
que o brasileiro é supermelodramático e eu adoro chamar
atenção mesmo, nada melhor que um bom buemba! buemba!
para começar o dia", explica. Atentíssimo a tudo,
não esqueceu quando ouviu na Bahia uma mulher que gritava
um sonoro "hoje, só amanhã!", outra de suas habituais
expressões. Apaixonado por músicas brasileiras antigas,
foi buscar no fundo do baú o refrão de uma marchinha
de Carnaval que dizia "quem fica parado é poste". Um leitor
presenteou-o com o "vou pingar meu colírio alucinógeno".
Da Argentina, pegou emprestado o "vai indo que eu não vou",
que o amigo e editor Samuel Leon certa vez lhe falou brincando.
E, por fim, o infalível "nóis sofre, mas nóis
goza" inspirou-se no nome de um bloco carnavalesco de Olinda. "É
uma das expressões de que mais gosto, porque mostra a vingança
do povo injustiçado."
De Galvão "Magdo" Bueno a "Dondoca" FHC, passando pela Paquita
do Agreste (Rosane Collor), Clodovéia e Lourebe, quase ninguém
com papel de destaque no cotidiano brasileiro escapou ileso de sua
língua afiada. Ultimamente, tem pegado no pé da apresentadora
Luciana Gimenez, crucificada dia sim, dia não por suas, digamos,
improvisações diante das câmeras. "É
só ficar três minutos vendo o programa dela que rende
piada. Outro dia, no meio de uma entrevista com a cantora Ângela
Maria, a Sapoti, ela perguntou: 'Então você é
que é a famosa sapóti brasileira?'! Sapóti
é muito bom...!", diverte-se. "A Lucianta é tão
anta que deveria apresentar um humorístico tipo I Love
Luciana! Rarará!"
Ao contrário do que se pode imaginar, as vítimas chegam
a elogiá-lo difícil saber se por admiração
mesmo ou por receio de virar alvo recorrente. "Acho um privilégio
ser citada", jura a apresentadora Ana Maria Brega, ops, Braga, mais
uma que volta e meia é atingida por sua pena envenenada.
"Ele sabe criticar com personalidade e entende do que faz", concede
Gugu Liberato, muito mencionado depois que apresentou em seu programa
uma entrevista forjada com supostos membros do PCC. Segundo Simão,
os únicos a levar suas ironias ao tribunal foram a atriz
Tereza Rachel, que se sentiu ofendida quando ele a tratou em um
texto de Ipojeca, numa referência a seu marido na época,
Ipojuca Pontes, que ocupava o cargo de secretário de Cultura
no governo Collor; o deputado federal Enéas Carneiro, a quem
Simão chamou de maluco; e a socialite-empresária Yara
Baumgart, inconformada por ter sido mencionada como perua. "Yara
ganhou o processo, mas a indenização foi tão
pequena que não dava nem para comprar uma bolsinha Louis
Vuitton...", lembra. "Como uma criança, eu posso ser cruel
às vezes. Mas jamais baixo-astral. Nunca sou grosseiro nem
escrevo sobre a vida pessoal de ninguém, a menos que ela
tenha importância no noticiário do dia. Não
suporto maldadezinha gratuita sem inteligência."
Por causa da coluna, que precisa entregar por volta das 14 horas,
Simão acorda às 7h30. Se sobra tempo, faz seu "datapadaria",
enquanto pede um pão com manteiga e uma média na lanchonete
da esquina do prédio onde mora, no Jardim Paulista. E, lógico,
aproveita para ouvir as fofocas e piadas da clientela. Ainda pela
manhã pratica musculação e corre na esteira
com o personal trainer três vezes por semana. Passa creminhos
no rosto, vai ao cabeleireiro Mauro Freire e visita regularmente
uma dermatologista da badalada clínica Ligia Kogos. "Odeio
velho derrubado."
Nos inúmeros eventos para os quais é convidado (numa
noite, pode aparecer em três lugares diferentes), usa roupas
coloridas e transadas, em geral de grifes como Alexandre Herchcovitch,
Marcelo Sommer e Daslu Homem. Ao posar para fotos, xisssssss: o
sorriso de propaganda de creme dental está ali. "Quando minha
mãe morreu, ele preparou uma festa de Natal e ficou me fazendo
rir a noite toda", diz a jornalista Astrid Fontenelle, uma de suas
amigas mais próximas, ao lado da consultora de moda Costanza
Pascolato, da apresentadora Lorena Calábria e da artista
plástica Pinky Wainer.
Desde pequeno, Simão acostumou-se às gargalhadas.
Na casa no bairro da Vila Mariana onde cresceu, o clima era de liberdade
e bom humor. O pai, um clínico geral bem de vida de ascendência
árabe, e a mãe, uma dona-de-casa de família
alemã, deixavam que ele e o irmão mais velho brincassem
à vontade. Asmático, na juventude passava as tardes
lendo obras de Proust, Eça de Queiroz e Nelson Rodrigues.
"Criança, eu costumava subir num banquinho para conseguir
pegar os livros proibidos da biblioteca de meu pai", recorda. "Nada
escandaloso, só títulos como O Crime do Padre Amaro."
A paixão pela escrita levou-o a tentar o curso de direito.
Garante que, na prova de redação, ficou em primeiro
lugar em todas as faculdades em que prestou vestibular. Mas, diante
da formalidade do Largo São Francisco, abandonou tudo e foi
viver um ano em Londres. "Gente, eu no máximo daria um bom
advogado do diabo e olhe lá!", admite. A temporada foi, como
ele mesmo conta, de total desbunde. "Vi shows dos Rolling Stones
no Hyde Park, fui a festivais onde tocavam Jimi Hendrix, Bob Dylan,
um arraso." Na volta ao Brasil, passou uma fase riponga no Rio de
Janeiro, que batizou de "orgia tropical". "Fazia macrobiótica,
tinha de assistir ao pôr-do-sol, não via TV... Vida
de hippie é dura, um stress!" Dali, partiu para a Bahia,
uma das grandes paixões de sua vida. Em Salvador, foi dono
de um bazar de discos, incensos e roupas chamado Talismã
Tropical.
Quando a saudade do burburinho paulistano bateu, Simão decidiu
regressar à cidade natal. Abriu com uns amigos no bairro
de Pinheiros uma filial do bar-restaurante baiano Zanzibar. Foi
quando conheceu uma "galera da Folha", da qual fazia parte
o jornalista Matinas Suzuki Jr., e passou a trabalhar no suplemento
"Casa & Companhia", junto com o iniciante Zeca Camargo, hoje
apresentador do Fantástico. "Não entendia nada
de reportagem, só gostava da gandaia da redação",
diz Simão. "Quando me mandaram para o caderno 'Ilustrada',
pedi as contas." A direção do jornal percebeu o potencial
do hilário repórter e chamou-o para escrever uma coluna
sobre televisão. "Simão tinha ótimas tiradas.
Queríamos que ele reproduzisse isso no papel", conta Suzuki
Jr., que se tornou um de seus amigos mais próximos. "O sucesso
da coluna veio logo. O engraçado é que muita gente
pensava que ele era uma criação, um personagem inventado
por nós."
Além do espaço na Folha, Simão apresenta
no UOL um programa sobre música latina e um noticiário
ao lado do jornalista Paulo Henrique Amorim. Ele não revela
cifras, mas comenta-se que seus rendimentos são da ordem
de 30.000 reais por mês. Com exceção do Monkey
News, título que deu ao jornal virtual gravado no edifício
do UOL, o colunista trabalha em casa. "Sou muito dispersivo. Se
tem gente do lado, começo a puxar papo, vira uma bagunça",
afirma. A cobertura onde mora, dividida com o companheiro de mais
de quinze anos e também colunista Antônio Salomão,
é toda decorada com objetos coloridos e livros de arte. Se
não está escrevendo, adora colocar um CD de música
latina e dançar com o boxer "Billy", seu xodó. Quando
sente que o stress de São Paulo começa a pesar, parte
para o refúgio predileto: o apartamento que comprou há
três anos em Salvador. Lá, fica pelo menos oito dias
por mês, entre ensaios do Ara Ketu, visitas ao bloco Ilê-Aiyê
e passeios em seu barco. "Tem vezes que faço tanta coisa
na Bahia que volto precisando de férias", exagera. É
esse o destino escolhido para passar o Natal e o réveillon.
Como dia 31 é seu aniversário não aparenta,
mas vai fazer 60 anos , a festança promete. E o que
o macaco mais engraçado da cidade gostaria de ganhar de presente?
"Nada... ou melhor, quero, sim. Um fígado autolimpante! Existe
presente melhor que esse? Rarará!"
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A
hora do contra-ataque:
cinco personagens assíduos
disparam perguntas a Simão
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O
jeito Simão de ser
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"Aos
7 anos, de uniforme escolar e cara de primeiro da classe,
na porta da minha casa em Vila Mariana, indo para a escola
aprender a escrever colunas, 1951!!!!!" |
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"Em
Ipanema, nas Dunas da Gal, o nosso paraíso tropical
durante a ditadura, posando para foto da revista underground
Navilouca, de cabelão Gal Costa e Ray-Ban
fashion, 1972!" |
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"De
terno branco Ópera do Malandro, ao lado
da dupla elétrica e dinâmica Astrid Fontenelle
e Antônio Salomão, esquentando o motor para
mais uma balada noturna" |
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"Me
recuperando de uma pneumonia, em 1999, sob a proteção
do Super Billy, meu boxer que tem certeza de que é
gente!" |
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"Em
Londres, no Hyde Park, esperando o show dos Rolling Stones,
1969!" |
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