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17 de dezembro de 2003
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CRÔNICA

Estamos a caminho

Ivan Angelo

Um novo ano, e nos dizem: "Feliz 2004".

Um casamento, e fazem votos: "Que vocês sejam muito felizes juntos".

Uma formatura: "Muito sucesso na sua carreira".

Um nascimento: "Que o bebê tenha toda a felicidade do mundo".

Um novo emprego: "Ah, tomara que tudo dê certo desta vez".

Pois é: passamos grande parte da vida voltados para o futuro, planejando-o, envolvendo-o em bons augúrios. Geralmente o colocamos num horizonte mais distante do que o simples amanhã ou o mês que vem. Mas quando começa o almejado futuro? Até quando vai?

Charles Kettering, um engenheiro americano que se dedicou a inventar, a criar patentes, a buscar pontes entre o que existia e o que deveria existir, disse certa vez: "Interesso-me pelo futuro porque é lá que vou passar o resto da minha vida". Outra pessoa, não sei quem, disse que o futuro era o melhor lugar para guardar sonhos. Sim, é lá que estão nossos planos e projetos.

É para lá que estamos indo.

Nascemos e nos pomos a caminho. Cada passo, um avanço. E, pequena ou grande, uma mudança. Mudamos quando incorporamos hábitos, modos de ver, habilidades, ousadias, cautelas, enquanto aprendemos, enquanto crescemos para dar espaço ao que cresce em nós, mudamos a cada acréscimo que transforma o bebê em menino, o menino em adolescente, o adolescente em adulto, o adulto em homem maduro, o maduro em velho – é para lá que nossas mudanças nos levam, para o futuro.

Deixamos algo pelo caminho? Em algum momento podemos ter deixado uma qualidade que teria feito de nós uma pessoa melhor, ou talvez tenhamos deixado um defeito que nos teria perdido. Um medo que nos teria inibido. Um amor que nos teria dado outro rumo na vida. Em cada uma de nossas decisões, nos preparamos às cegas para o futuro. O destino é o quê, senão o futuro revelado?

Na infância, somos passivos nas mudanças. Elas são-nos impostas ou apenas precisamos de estímulo para deixar a fralda e seguir em frente?

O escuro que nos amedronta com seus estalidos e suas sombras transforma-se um dia em simples falta de luz, e com isso crescemos. Fomos nós que mudamos, não o escuro.

Aquela mãe de quem éramos inteiramente dependentes de repente nos limita, vira uma pessoa que se preocupa de um jeito que ultrapassa nossa capacidade de compreendê-la. A força do pai, que nos dava confiança, um dia a vemos como poder e barreira. Eles não mudaram, fomos nós que mudamos, em busca de espaço, aventura, realizações: em busca de nós mesmos.

A escola amplia o mundo, é lugar de escolhas, tarefas, tempo dividido entre obrigações e descobertas. Comparações: chega o dia em que a mãe não é a mais linda das mulheres, o pai não é o mais forte dos homens. O futuro é incluído claramente nas nossas tarefas: o que você vai ser? O amor vem em meio a outras tantas mudanças, junto com os hormônios. E então, rapaz, o que você quer, o que vai ser na vida? E você, moça? Somos levados a assumir sozinhos o comando das mudanças, com vistas ao futuro: carreira, casamento, filhos, patrimônio, barriga.

É um longo período.

Existem aqueles que chegam à maturidade investidos de uma secreta superioridade, tocam a bola como um time que está ganhando na metade do segundo tempo. Não querem mais mudanças, sentem-se confortáveis dentro do futuro. Só têm uma preocupação: até quando ele vai?

Muitos se inquietam nessa fase – "É esse o meu futuro?", perguntam-se – e ensaiam novas mudanças, que não se fazem sem algum sofrimento, mesmo quando trazem melhoras. Há um velho ditado árabe que diz que os homens às vezes precisam ser sacudidos, como os tapetes.

Outros querem mudar mas deixam para segunda-feira.

         
     
 
 
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