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CRÔNICA
Estamos a caminho
Ivan Angelo
Um
novo ano, e nos dizem: "Feliz 2004".
Um casamento, e fazem votos: "Que vocês sejam muito felizes
juntos".
Uma formatura: "Muito sucesso na sua carreira".
Um nascimento: "Que o bebê tenha toda a felicidade do mundo".
Um novo emprego: "Ah, tomara que tudo dê certo desta vez".
Pois é: passamos grande parte da vida voltados para o futuro,
planejando-o, envolvendo-o em bons augúrios. Geralmente o
colocamos num horizonte mais distante do que o simples amanhã
ou o mês que vem. Mas quando começa o almejado futuro?
Até quando vai?
Charles Kettering, um engenheiro americano que se dedicou a inventar,
a criar patentes, a buscar pontes entre o que existia e o que deveria
existir, disse certa vez: "Interesso-me pelo futuro porque é
lá que vou passar o resto da minha vida". Outra pessoa, não
sei quem, disse que o futuro era o melhor lugar para guardar sonhos.
Sim, é lá que estão nossos planos e projetos.
É
para lá que estamos indo.
Nascemos
e nos pomos a caminho. Cada passo, um avanço. E, pequena
ou grande, uma mudança. Mudamos quando incorporamos hábitos,
modos de ver, habilidades, ousadias, cautelas, enquanto aprendemos,
enquanto crescemos para dar espaço ao que cresce em nós,
mudamos a cada acréscimo que transforma o bebê em menino,
o menino em adolescente, o adolescente em adulto, o adulto em homem
maduro, o maduro em velho é para lá que nossas
mudanças nos levam, para o futuro.
Deixamos algo pelo caminho? Em algum momento podemos ter deixado
uma qualidade que teria feito de nós uma pessoa melhor, ou
talvez tenhamos deixado um defeito que nos teria perdido. Um medo
que nos teria inibido. Um amor que nos teria dado outro rumo na
vida. Em cada uma de nossas decisões, nos preparamos às
cegas para o futuro. O destino é o quê, senão
o futuro revelado?
Na infância, somos passivos nas mudanças. Elas são-nos
impostas ou apenas precisamos de estímulo para deixar a fralda
e seguir em frente?
O escuro que nos amedronta com seus estalidos e suas sombras transforma-se
um dia em simples falta de luz, e com isso crescemos. Fomos nós
que mudamos, não o escuro.
Aquela mãe de quem éramos inteiramente dependentes
de repente nos limita, vira uma pessoa que se preocupa de um jeito
que ultrapassa nossa capacidade de compreendê-la. A força
do pai, que nos dava confiança, um dia a vemos como poder
e barreira. Eles não mudaram, fomos nós que mudamos,
em busca de espaço, aventura, realizações:
em busca de nós mesmos.
A escola amplia o mundo, é lugar de escolhas, tarefas, tempo
dividido entre obrigações e descobertas. Comparações:
chega o dia em que a mãe não é a mais linda
das mulheres, o pai não é o mais forte dos homens.
O futuro é incluído claramente nas nossas tarefas:
o que você vai ser? O amor vem em meio a outras tantas mudanças,
junto com os hormônios. E então, rapaz, o que você
quer, o que vai ser na vida? E você, moça? Somos levados
a assumir sozinhos o comando das mudanças, com vistas ao
futuro: carreira, casamento, filhos, patrimônio, barriga.
É
um longo período.
Existem aqueles que chegam à maturidade investidos de uma
secreta superioridade, tocam a bola como um time que está
ganhando na metade do segundo tempo. Não querem mais mudanças,
sentem-se confortáveis dentro do futuro. Só têm
uma preocupação: até quando ele vai?
Muitos se inquietam nessa fase "É esse o meu futuro?",
perguntam-se e ensaiam novas mudanças, que não
se fazem sem algum sofrimento, mesmo quando trazem melhoras. Há
um velho ditado árabe que diz que os homens às vezes
precisam ser sacudidos, como os tapetes.
Outros querem mudar mas deixam para segunda-feira.
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