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17 de novembro de 2004
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CRÔNICA

Quebrou! Socorro!

Walcyr Carrasco

Tenho um lindo sofá de palha. Crivado de mordidas de meus cachorros. A vizinha indicou um empalhador. Marcamos para dali a dez dias, de acordo com sua agenda. Não apareceu. Liguei:

– Ah, hoje não posso!

Desisti. Se para fazer o orçamento nem aparece, como será para entregar? Busquei mais dois. Até hoje nenhum veio!

Um amigo precisava consertar a geladeira. Chamou a assistência técnica da marca. O rapaz examinou, examinou.

– Preciso trocar uma peça, mas não tenho aqui. Trago depois.

Veio mais duas vezes. Sem a peça. Na terceira vez trouxe a peça errada. Só depois é que consertou. Pessoalmente me arrepio ao falar de geladeira! Quando mudei, depois da instalação da minha, nada de gelo. Veio o técnico:

– Tem de trocar o filtro.

Mostrou o antigo, escuro. Topei. Partiu, explicando:

– Daqui a um dia começa a ter gelo...

Esperei duas semanas. Reclamei. Nunca mais apareceu. Chamei outro. O veredicto:

– Precisa trocar o filtro.

– Mas acabei de trocar.

Abanou a cabeça. Achei que tinha sido enganado pelo primeiro. Novo filtro. Avisou:

– Daqui a um dia...

Tremi! Foi pior. Depois da visita do segundo técnico, a geladeira tornou-se tão útil quanto uma chaminé. Se botava alguma coisa lá dentro, saía quente. Contei o drama a um rapaz que veio limpar os vidros. Não entendia nada de eletrodomésticos, mas arrancou as prateleiras e entrou dentro da geladeira! Corri para a sala, tentando não assistir à tragédia.

Ouvi uns ruídos estranhos. Voltei, assustado. Ele saiu da geladeira molhado. Percebi um barulhinho delicioso de motor funcionando. A geladeira gelava outra vez! Formava gelo!

– O que você fez?

– Sei lá. Mexi em todos os botões, virei para os lados e deu certo!

Ou seja, nenhum dos técnicos havia se preocupado em verificar. Ambos trataram é de vender filtros.

Médico marca hora. Dentista. Psicanalista. Diretor de banco, professor de línguas, acupunturista, todos têm horário. Assistência técnica jamais.

– O rapaz passa amanhã – diz a mocinha.

– A que horas?

– Durante o dia, mas não tem hora certa.

Fico plantado o dia inteiro. Se saio cinco minutos para ir à padaria, é inevitável. Ao voltar, a faxineira avisa:

– O rapaz que veio consertar a torneira passou aqui. Mas, como você não estava, foi embora. Disse que estava com pressa!

Aliás, o caso da torneira me deixou à beira da loucura! Certa noite, ao abrir a dita-cuja para escovar os dentes, senti uma cascata em meus pés. Um cano do misturador das águas quente e fria havia estourado. O encanador que instalou havia colocado uma caneta sem carga no lugar! Funcionou até ele descontar meu cheque, é claro. Veio outro.

– Só trocando o misturador inteiro. Ninguém vende peça separada.

Eu me lamentei. Era caro. Combinou:

– No prédio ao lado tem muito apartamento em reforma. Vou achar uma peça velha e pegar o caninho.

Dez dias depois, bateu na porta, cheio de razão:

– Não tem conserto porque não achei a peça.

– Mas se eu comprar um novo misturador... – resignei-me.

– Fica muito caro. Só faço questão que você me pague a visita!

Fiquei com água jorrando aos meus pés. Escovando os dentes na pia da cozinha. Tentei vários encanadores. Faziam a tal visita e sumiam! O vizinho teve pena e mandou um pintor de paredes para ajudar. Olhou, mediu... Ressurgiu com um caninho do tamanho certo. Funcionou!

Às vezes, em lugar de chamar um técnico, dá vontade de gritar socorro! Mas agora vem o pior. Se encontrar algum deles pela rua, é bem capaz de reclamar da falta de trabalho!

     
   
 
 
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