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17 de setembro de 2003
CARTA AO LEITOR
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Aprendiz de cozinheiro

Walcyr Carrasco

Minha primeira experiência culinária aconteceu por volta dos 7 anos. Mamãe havia saído. Cortei duas bananas em pedacinhos, cobri com chocolate em pó e açúcar. Exibi o resultado à noite, orgulhosíssimo, pouco antes do jantar. Papai experimentou fazendo caretas enquanto o pó do chocolate caía sobre seu queixo. A receita tinha uma aparência espantosa. Recebi uma ordem.

– Não faça mais bagunça na cozinha!

Nada estimulante para um futuro gourmet! Devo reconhecer que minha primeira tentativa deixou o piso coberto de açúcar e meus cabelos marrons de chocolate. Consegui me conter por algum tempo. A tentativa seguinte foi excêntrica: cocadas azul-marinho, tingidas com anilina. Oferecia com ar misterioso.

– Adivinhe o que é!

A visita pegava apavorada. Olhava em torno, à procura de algum lugar para fugir. Mordia. Vinha um sorriso aliviado.

– Ah, é cocada!

Eu me divertia. Mais com o susto do que com a cocada.

Alguns anos depois eu me dediquei às omeletes. O momento de virá-las sempre era trágico. Freqüentemente se despedaçavam. Nesse caso mudava o cardápio para ovos mexidos. Durante a faculdade, comia quase todo dia. Ou fritava dois ovos bem moles e misturava com arroz. Ah, que delícia! Os médicos americanos ainda não haviam descoberto todos os malefícios da gema de ovo, e eu podia desfrutar à vontade!

Foram os ovos fritos que me fizeram descobrir a mudança dos tempos. Na minha infância, a culinária era atividade quase exclusivamente feminina. Aos domingos, as mulheres se esfalfavam na cozinha, enquanto os homens bebiam cerveja. Elas botavam a mesa e eles comiam, muitas vezes reclamando do sal, do tempero, do ponto da carne. Depois, é claro, elas lavavam a louça enquanto os marmanjos descansavam. Quando, exaustas, terminavam de enxugar a montanha de pratos, sempre havia alguém para perguntar:

– O que vai ter de jantar?

Já morando sozinho, recebi a visita de meu pai. Eu estava gripadíssimo. Ele apanhou a frigideira e fritou ovos. Papai, que nunca se aproximara de uma panela enquanto eu era criança! Surpreso, descobri:

– O mundo está mudando!

Talvez um dos maiores sinais das mudanças de comportamento das últimas décadas seja justamente esse. O homem entrou na cozinha para ficar. Em minhas primeiras incursões, sofri. Pegava uma cebola e a espetava com a faca como se estivesse cometendo um assassinato. Comprei livros de culinária. O problema é que nem sempre os livros ensinam tudo. Morria de desespero quando via a frase "sal a gosto". Aconselham a nunca experimentar uma receita nova quando vem visita. Como saber se é boa, sem uma cobaia? Há ocasiões em que a hipocrisia dos amigos é até vantagem. Ainda me lembro de quando testei a sopa de conhaque com pimenta, uma receita chilena.

– Aceita mais um pouco?

– Nããããooooo... – gemeu meu convidado, com o suor caindo pela testa e a voz igual a uma lixa. – Massss... estááááá... uma delíííííííícia!

Escalei montanhas de queijo parmesão, nadei em rios de caldo de galinha, chafurdei na maionese. Cheguei a lixar bolo para arrancar a parte queimada e depois disfarcei cobrindo com chantilly. Mas gosto de cozinhar. Relaxo, fico mais criativo. E como é bom sentar-se em torno de uma mesa, oferecer um prato, bater papo!

Outro dia, meu sobrinho resolveu fazer macarrão instantâneo com molho de pimenta. Na primeira garfada, parecia um dragão com o fogo saindo pela boca. Enquanto ele gargarejava, aconselhei, otimista:

– Insista! Um dia vai dar certo!

Na culinária e na vida, o bom cozinheiro é sempre um aprendiz.

         
     
 
 
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