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CRÔNICA
Aprendiz
de cozinheiro
Walcyr
Carrasco
Minha
primeira experiência culinária aconteceu por volta
dos 7 anos. Mamãe havia saído. Cortei duas bananas
em pedacinhos, cobri com chocolate em pó e açúcar.
Exibi o resultado à noite, orgulhosíssimo, pouco antes
do jantar. Papai experimentou fazendo caretas enquanto o pó
do chocolate caía sobre seu queixo. A receita tinha uma aparência
espantosa. Recebi uma ordem.
Não faça mais bagunça na cozinha!
Nada
estimulante para um futuro gourmet! Devo reconhecer que minha primeira
tentativa deixou o piso coberto de açúcar e meus cabelos
marrons de chocolate. Consegui me conter por algum tempo. A tentativa
seguinte foi excêntrica: cocadas azul-marinho, tingidas com
anilina. Oferecia com ar misterioso.
Adivinhe o que é!
A
visita pegava apavorada. Olhava em torno, à procura de algum
lugar para fugir. Mordia. Vinha um sorriso aliviado.
Ah, é cocada!
Eu
me divertia. Mais com o susto do que com a cocada.
Alguns
anos depois eu me dediquei às omeletes. O momento de virá-las
sempre era trágico. Freqüentemente se despedaçavam.
Nesse caso mudava o cardápio para ovos mexidos. Durante a
faculdade, comia quase todo dia. Ou fritava dois ovos bem moles
e misturava com arroz. Ah, que delícia! Os médicos
americanos ainda não haviam descoberto todos os malefícios
da gema de ovo, e eu podia desfrutar à vontade!
Foram
os ovos fritos que me fizeram descobrir a mudança dos tempos.
Na minha infância, a culinária era atividade quase
exclusivamente feminina. Aos domingos, as mulheres se esfalfavam
na cozinha, enquanto os homens bebiam cerveja. Elas botavam a mesa
e eles comiam, muitas vezes reclamando do sal, do tempero, do ponto
da carne. Depois, é claro, elas lavavam a louça enquanto
os marmanjos descansavam. Quando, exaustas, terminavam de enxugar
a montanha de pratos, sempre havia alguém para perguntar:
O que vai ter de jantar?
Já
morando sozinho, recebi a visita de meu pai. Eu estava gripadíssimo.
Ele apanhou a frigideira e fritou ovos. Papai, que nunca se aproximara
de uma panela enquanto eu era criança! Surpreso, descobri:
O mundo está mudando!
Talvez
um dos maiores sinais das mudanças de comportamento das últimas
décadas seja justamente esse. O homem entrou na cozinha para
ficar. Em minhas primeiras incursões, sofri. Pegava uma cebola
e a espetava com a faca como se estivesse cometendo um assassinato.
Comprei livros de culinária. O problema é que nem
sempre os livros ensinam tudo. Morria de desespero quando via a
frase "sal a gosto". Aconselham a nunca experimentar uma receita
nova quando vem visita. Como saber se é boa, sem uma cobaia?
Há ocasiões em que a hipocrisia dos amigos é
até vantagem. Ainda me lembro de quando testei a sopa de
conhaque com pimenta, uma receita chilena.
Aceita mais um pouco?
Nããããooooo... gemeu meu convidado,
com o suor caindo pela testa e a voz igual a uma lixa. Massss...
estááááá... uma delíííííííícia!
Escalei
montanhas de queijo parmesão, nadei em rios de caldo de galinha,
chafurdei na maionese. Cheguei a lixar bolo para arrancar a parte
queimada e depois disfarcei cobrindo com chantilly. Mas gosto de
cozinhar. Relaxo, fico mais criativo. E como é bom sentar-se
em torno de uma mesa, oferecer um prato, bater papo!
Outro
dia, meu sobrinho resolveu fazer macarrão instantâneo
com molho de pimenta. Na primeira garfada, parecia um dragão
com o fogo saindo pela boca. Enquanto ele gargarejava, aconselhei,
otimista:
Insista! Um dia vai dar certo!
Na
culinária e na vida, o bom cozinheiro é sempre um
aprendiz.
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