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CRÔNICA
Strip-tease
de inverno
Uma
alegria para quem luta
com a balança: o que o calor revela,
o frio disfarça
Walcyr
Carrasco
Já
começaram as liquidações de inverno. Antes
mesmo do início oficial do frio, recebi vários avisos
de vendas promocionais, "sales" e outros epítetos
chiques para denominar as boas e velhas liquidações.
Para variar, não resisti. Como perder a oportunidade de comprar
uma malha de lã pela metade do preço? Mesmo grossa
a ponto de abrigar um esquimó em uma tempestade de neve?
A esperança é a última que morre, neste inverno
tropical. Explico: quem gosta de andar de barriga de fora é
surfista, personal trainer, corredor de maratona. Um pobre mortal
como eu, obrigado a pedir perdão ao endocrinologista cada
vez que come uma torta de chocolate, sonha com o frio. Sim, eu me
lembro de quando era jovenzinho. Certa vez fui ao Teatro Municipal
com a turma da escola. As garotas de minissaia (bons tempos, hein?)
e camisetinha olhavam com desprezo as damas da sociedade que chegavam
cozidas dentro de casaco de pele.
Que exibicionismo! dizia uma.
Onde já se viu, pele em país tropical? concordava
eu.
Nada
a ver com a luta para salvar as espécies ameaçadas.
As peles ainda não estavam no índex do politicamente
correto. Era o puro desprezo de quem não precisava pendurar
nada sobre os ossos para desfilar como um pavão. Mas o tempo
passa. Passou para mim, e passará para você, que está
rindo da minha barriga agora. A estação mais elegante
é o inverno. Quanto mais frio, melhor! Um bom casaco, a malha
folgada, os tons escuros... dão charme. Convenhamos: o verão
revela. O inverno disfarça!
Saí
da loja com duas sacolas. Acordei no dia seguinte, abri a janela,
esperançoso. Sim, havia um ventinho... Botei camiseta. Camisa.
Malha cinza bem grossa. Casaco. Meias de lã. Desci. Na rua,
algumas pessoas andavam em mangas de camisa.
São loucas pensei. Então não
sabem que chegou o inverno?
Fui
à luta. Banco. Dentista. Ao me ver abrigado como um alpinista
do Everest, o doutor Sérgio aumentou o ar-condicionado até
transformar o consultório em uma geleira. Notei a assistente
tremendo de frio enquanto ele escarafunchava minha boca. Ao sair,
ouvi suspiros de alívio, enquanto o ar era desligado rapidamente.
Já no corredor, fui bafejado por uma onda de ar quente.
É
horrível ter de tirar o casaco. A malha novinha em folha!
Que remédio? Tirei. Dali a pouco, foi a vez da camisa. Passei
a tarde suando e carregando a tralha. Na rua, percebi que não
era o único. Senhores arrancavam o paletó. Mulheres,
a blusa. Encontrei uma amiga. No carro, um guarda-roupa completo.
De manhã boto tudo o que posso. Faço uma espécie
de strip-tease durante o dia. Tiro casaco, blusa, echarpe, meias...
Troco sapatos por sandálias... confidenciou.
Carrega
uma capa de chuva no banco de trás. É que o dia começa
no inverno, continua no verão e às vezes pode terminar
com uma garoazinha. Se hoje faz frio, amanhã será
calor. Só mesmo se vestindo no estilo cabide, iniciando o
dia cheio de roupas e terminando seminu. Na televisão, o
meteorologista explica:
É o fenômeno El Niño.
Que
niño? Há tanto tempo infernizando o clima, já
deve ser bem adulto!
Arrumo,
desolado, minha pilha de malhas no armário. Todas sem uso.
Compradas ano após ano, liquidação após
liquidação. Espirro.
Será alergia?
Dou
mais um. Dois, três. Dúzias de espirros! Céus!
O inverno, não sei, não. Mas a gripe... Ah, já
chegou com tudo!
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