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17 de julho de 2002
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Strip-tease de inverno

Uma alegria para quem luta
com a balança: o que o calor revela,
o frio disfarça

Walcyr Carrasco

 

Já começaram as liquidações de inverno. Antes mesmo do início oficial do frio, recebi vários avisos de vendas promocionais, "sales" e outros epítetos chiques para denominar as boas e velhas liquidações. Para variar, não resisti. Como perder a oportunidade de comprar uma malha de lã pela metade do preço? Mesmo grossa a ponto de abrigar um esquimó em uma tempestade de neve? A esperança é a última que morre, neste inverno tropical. Explico: quem gosta de andar de barriga de fora é surfista, personal trainer, corredor de maratona. Um pobre mortal como eu, obrigado a pedir perdão ao endocrinologista cada vez que come uma torta de chocolate, sonha com o frio. Sim, eu me lembro de quando era jovenzinho. Certa vez fui ao Teatro Municipal com a turma da escola. As garotas de minissaia (bons tempos, hein?) e camisetinha olhavam com desprezo as damas da sociedade que chegavam cozidas dentro de casaco de pele.

— Que exibicionismo! — dizia uma.

— Onde já se viu, pele em país tropical? — concordava eu.

Nada a ver com a luta para salvar as espécies ameaçadas. As peles ainda não estavam no índex do politicamente correto. Era o puro desprezo de quem não precisava pendurar nada sobre os ossos para desfilar como um pavão. Mas o tempo passa. Passou para mim, e passará para você, que está rindo da minha barriga agora. A estação mais elegante é o inverno. Quanto mais frio, melhor! Um bom casaco, a malha folgada, os tons escuros... dão charme. Convenhamos: o verão revela. O inverno disfarça!

Saí da loja com duas sacolas. Acordei no dia seguinte, abri a janela, esperançoso. Sim, havia um ventinho... Botei camiseta. Camisa. Malha cinza bem grossa. Casaco. Meias de lã. Desci. Na rua, algumas pessoas andavam em mangas de camisa.

— São loucas — pensei. — Então não sabem que chegou o inverno?

Fui à luta. Banco. Dentista. Ao me ver abrigado como um alpinista do Everest, o doutor Sérgio aumentou o ar-condicionado até transformar o consultório em uma geleira. Notei a assistente tremendo de frio enquanto ele escarafunchava minha boca. Ao sair, ouvi suspiros de alívio, enquanto o ar era desligado rapidamente. Já no corredor, fui bafejado por uma onda de ar quente.

É horrível ter de tirar o casaco. A malha novinha em folha! Que remédio? Tirei. Dali a pouco, foi a vez da camisa. Passei a tarde suando e carregando a tralha. Na rua, percebi que não era o único. Senhores arrancavam o paletó. Mulheres, a blusa. Encontrei uma amiga. No carro, um guarda-roupa completo.

— De manhã boto tudo o que posso. Faço uma espécie de strip-tease durante o dia. Tiro casaco, blusa, echarpe, meias... Troco sapatos por sandálias... — confidenciou.

Carrega uma capa de chuva no banco de trás. É que o dia começa no inverno, continua no verão e às vezes pode terminar com uma garoazinha. Se hoje faz frio, amanhã será calor. Só mesmo se vestindo no estilo cabide, iniciando o dia cheio de roupas e terminando seminu. Na televisão, o meteorologista explica:

— É o fenômeno El Niño.

Que niño? Há tanto tempo infernizando o clima, já deve ser bem adulto!

Arrumo, desolado, minha pilha de malhas no armário. Todas sem uso. Compradas ano após ano, liquidação após liquidação. Espirro.

— Será alergia?

Dou mais um. Dois, três. Dúzias de espirros! Céus! O inverno, não sei, não. Mas a gripe... Ah, já chegou com tudo!

         
     
 
 
 
   
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