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CRÔNICA
Xixi na calça
Walcyr Carrasco
Aos 9 anos, eu tinha uma professora
muito brava. Não sem motivo. Boa parte dos alunos pedia para
ir ao banheiro somente para fugir. Eu era dos mais quietinhos. Certo
dia me deu uma vontade tremenda de fazer xixi. Ergui o braço.
Era o terceiro querendo sair. Ouvi um sonoro "não". Foi um
desespero. Tentava segurar a vontade. O final do período
se aproximava. Torcia as pernas e me remexia. Os minutos pareciam
mais lentos! De repente, aconteceu!
Senti um calorzinho nas pernas
e uma bruta sensação de alívio. Relaxei. Minhas
calças, minhas meias, molhadas! Ainda tive esperança.
Minha carteira era ao lado da parede. Talvez ninguém notasse
a enorme poça embaixo dos meus pés!
Que idéia! Dali a pouco
um colega gritou:
Ih, ele fez xixi na calça!
Não fiz, não!
retruquei.
Os outros olharam. A professora
se aproximou. Gritei:
Foi o menino da frente!
Eu, não!
defendeu-se ele. Olha, as meias dele estão molhadas!
Ela abanou a cabeça, incrédula.
Por que não pediu
para sair?
A senhora não deixou!
Devia ter insistido!
Tocou o sinal. Peguei a mochila.
Meias pingando, uma enorme roda úmida no bumbum!
A infância é cruel.
Saí da classe com a molecada gritando atrás:
Ele fez xixi na calça!
Ele fez xixi na calça!
Na frente do prédio, quis
esconder a mancha do traseiro com a mochila. Inútil.
Xixi, olha o xixi!
mostravam os alunos.
Todos riam! Morava a poucas quadras
dali. Corri, com a mochila batendo nas coxas. Ah, que vergonha!
No caminho, encontrei alguns
amigos, não informados da tragédia.
Ih, você está
todo molhado! comentou um deles.
Escorreguei no chão
quando a faxineira estava lavando! menti.
É nada, é
xixi! dedou outro.
Corri ainda mais depressa! Nunca,
nunca mais queria voltar às aulas!
Mamãe tinha um pequeno
bazar. Morávamos nos fundos. Entrei pela loja. Ela estava
sozinha no balcão. Lamentei-me, angustiado.
Fiz xixi na calça!
É brincadeira?
espantou-se.
Mostrei. Preparei-me para a bronca.
Minha sensação era de culpa, pavor! Mas mamãe
ficou calma.
Entra depressa. Toma um
banho! Ponha roupa limpa!
Deu uma fugidinha da loja. Botou
a calça de molho. Serviu o almoço. De tanta angústia,
eu quase chorava:
Nunca, nunca mais vou
para a escola! Vou parar de estudar!
Ela brincou com meus cabelos.
Isso não foi nada.
Se mexerem com você, não ligue. Só se esforce
para nunca mais acontecer.
Então vou morar
com a vovó, em outra cidade!
De jeito nenhum! Não
suportaria ficar longe de meu filho!
Aos poucos, me acalmou. Transformou
o drama em brincadeira. De noite, quando papai chegou, voltou ao
assunto. Até consegui dar risada.
Estava certa. Ninguém
continuou me infernizando. Não fui o primeiro, nem o último,
a fazer xixi em plena aula!
Agora, depois de tanto tempo,
lembro das vezes em que desabafava com ela. Também era ótimo
dividir os grandes momentos. Um novo emprego, por exemplo. No telefone,
sua voz animada.
Que bom! Você vai
ganhar melhor!
Às vezes, quando acontece
uma coisa importante, meu primeiro impulso é lhe telefonar.
Em seguida, meu coração se aperta. Lembro que não
está mais do outro lado. Como posso esquecer, até
por um instante? Descobri o motivo. Podia contar com mamãe,
como os filhos nunca deixam de contar. Ela ficaria do meu lado,
como no dia em que fiz xixi na calça! Não é
a memória que me trai, mas a saudade. Seu amor deixou uma
lacuna que nunca vou preencher. Seja algo bom ou ruim, sempre terei
vontade de compartilhar com ela.
e-mail: walcyr@abril.com.br
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