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17 de maio de 2006
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CRÔNICA

Xixi na calça

Walcyr Carrasco


Aos 9 anos, eu tinha uma professora muito brava. Não sem motivo. Boa parte dos alunos pedia para ir ao banheiro somente para fugir. Eu era dos mais quietinhos. Certo dia me deu uma vontade tremenda de fazer xixi. Ergui o braço. Era o terceiro querendo sair. Ouvi um sonoro "não". Foi um desespero. Tentava segurar a vontade. O final do período se aproximava. Torcia as pernas e me remexia. Os minutos pareciam mais lentos! De repente, aconteceu!

Senti um calorzinho nas pernas e uma bruta sensação de alívio. Relaxei. Minhas calças, minhas meias, molhadas! Ainda tive esperança. Minha carteira era ao lado da parede. Talvez ninguém notasse a enorme poça embaixo dos meus pés!

Que idéia! Dali a pouco um colega gritou:

– Ih, ele fez xixi na calça!

– Não fiz, não! – retruquei.

Os outros olharam. A professora se aproximou. Gritei:

– Foi o menino da frente!

– Eu, não! – defendeu-se ele. – Olha, as meias dele estão molhadas!

Ela abanou a cabeça, incrédula.

– Por que não pediu para sair?

– A senhora não deixou!

– Devia ter insistido!

Tocou o sinal. Peguei a mochila. Meias pingando, uma enorme roda úmida no bumbum!

A infância é cruel. Saí da classe com a molecada gritando atrás:

– Ele fez xixi na calça! Ele fez xixi na calça!

Na frente do prédio, quis esconder a mancha do traseiro com a mochila. Inútil.

– Xixi, olha o xixi! – mostravam os alunos.

Todos riam! Morava a poucas quadras dali. Corri, com a mochila batendo nas coxas. Ah, que vergonha!

No caminho, encontrei alguns amigos, não informados da tragédia.

– Ih, você está todo molhado! – comentou um deles.

– Escorreguei no chão quando a faxineira estava lavando! – menti.

– É nada, é xixi! – dedou outro.

Corri ainda mais depressa! Nunca, nunca mais queria voltar às aulas!

Mamãe tinha um pequeno bazar. Morávamos nos fundos. Entrei pela loja. Ela estava sozinha no balcão. Lamentei-me, angustiado.

– Fiz xixi na calça!

– É brincadeira? – espantou-se.

Mostrei. Preparei-me para a bronca. Minha sensação era de culpa, pavor! Mas mamãe ficou calma.

– Entra depressa. Toma um banho! Ponha roupa limpa!

Deu uma fugidinha da loja. Botou a calça de molho. Serviu o almoço. De tanta angústia, eu quase chorava:

– Nunca, nunca mais vou para a escola! Vou parar de estudar!

Ela brincou com meus cabelos.

– Isso não foi nada. Se mexerem com você, não ligue. Só se esforce para nunca mais acontecer.

– Então vou morar com a vovó, em outra cidade!

– De jeito nenhum! Não suportaria ficar longe de meu filho!

Aos poucos, me acalmou. Transformou o drama em brincadeira. De noite, quando papai chegou, voltou ao assunto. Até consegui dar risada.

Estava certa. Ninguém continuou me infernizando. Não fui o primeiro, nem o último, a fazer xixi em plena aula!

Agora, depois de tanto tempo, lembro das vezes em que desabafava com ela. Também era ótimo dividir os grandes momentos. Um novo emprego, por exemplo. No telefone, sua voz animada.

– Que bom! Você vai ganhar melhor!

Às vezes, quando acontece uma coisa importante, meu primeiro impulso é lhe telefonar. Em seguida, meu coração se aperta. Lembro que não está mais do outro lado. Como posso esquecer, até por um instante? Descobri o motivo. Podia contar com mamãe, como os filhos nunca deixam de contar. Ela ficaria do meu lado, como no dia em que fiz xixi na calça! Não é a memória que me trai, mas a saudade. Seu amor deixou uma lacuna que nunca vou preencher. Seja algo bom ou ruim, sempre terei vontade de compartilhar com ela.

e-mail: walcyr@abril.com.br

     
   
 
 
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