| |
| |  | |
PERFIL O senhor
do tablado Paulo Autran esbanja vitalidade aos 83
anos e, entre as dezenas de cigarros que fuma por dia, prepara-se para estrear
O Avarento, nonagésimo espetáculo da carreira do maior
ator do teatro brasileiro Alvaro Leme e Katia Calsavara
Mario Rodrigues  |
| O carioca Paulo Autran, que vive em São Paulo
desde a infância: suas últimas nove montagens foram vistas por 675
000 espectadores | | Vestido com
um roupão azul, pijama de listras e pantufas, ele abre a porta de seu apartamento,
nos Jardins. Caminha devagar, usa óculos e aparelho auditivo no ouvido
direito. Nem parece o homem cheio de vigor que hipnotiza platéias há
seis décadas. Acionado o gravador para o início da entrevista, é
como se rejuvenescesse. Muda a postura, o jeito de olhar, a voz. Surge, então,
o Paulo Autran que o público conhece. A mesma transformação
deve acontecer a partir do próximo sábado (19), quando o maior ator
do teatro brasileiro estréia sua nonagésima peça. O respeitável
senhor de quase 84 anos ele nasceu no Rio de Janeiro em 7 de setembro de
1922, dia do centenário da Independência, e vive em São Paulo
desde criança vira um gigante em cena para representar as pão-durices
de Harpagon, protagonista de O Avarento. Com o texto de Molière,
Autran pretende lotar mais uma vez a sala principal do Teatro Cultura Artística,
que tem 1 156 lugares.
Quando uma peça
sua fracassa, é vista por pelo menos 30.000 pessoas, caso de A Tempestade,
de Shakespeare, que ficou em cartaz por seis meses, em 1995. Sucesso recente,
Visitando o Sr. Green, do americano Jeff Baron, atraiu quase 200.000 espectadores
em duas temporadas. Há quinze anos, Autran passou a anotar números
invejáveis como esses numa caderneta vermelha de capa dura. Está
tudo ali: quantas apresentações faz de cada espetáculo, o
público total e quanto a peça lhe rendeu. "Tenho uma injusta fama
de rico", diz ele. Para estrelar uma peça, o ator cobra dos produtores
um salário mensal entre 25 000 e 35 000 reais. Mais participação
nos lucros da bilheteria, em torno de 20% a 25%. "Recebo quatro propostas por
semana para estrelar comerciais", afirma. Mas, como dificilmente topam pagar o
que ele pede, cerca de 50.000 reais, é raro vê-lo na telinha. Aliás,
Autran quer distância da televisão. Em todos os sentidos. Não
dá a menor bola para o aparelho de 29 polegadas que mantém em casa
("Nem me lembro da última vez em que liguei a tevê") e garante que
não há dinheiro que o convença a voltar a trabalhar em novelas.
"Só fiz papéis de débeis mentais", diz. Sua última
atuação em novelas foi em 1987, interpretando o milionário
viúvo Aparício Varella, de Sassaricando.
Priscila Prade  |
| Em O Avarento: humor com o mão-de-vaca
criado por Molière | Longe da rotina
da TV, encontra tempo para fazer, além de teatro, cinema, um programa de
rádio em que interpreta textos literários, o Quadrante, transmitido
pela BandNews FM, e badalar. Muito. Adooora uma pré-estréia, seja
de filme, seja de teatro. Quando não está em cartaz, sai à
noite pelo menos três vezes por semana. Sempre acompanhado da atriz Karin
Rodrigues, com quem oficializou o casamento em 1999, e do cigarro. Fumante inveterado,
já chegou a dar cabo de quatro maços por dia. "Se estiver na rua
e o cigarro dele acabar, é capaz de filar o de algum desconhecido", conta
o ator Elias Andreato, amigo com quem dividirá o palco em O Avarento.
O exagero com o cigarro lhe rendeu, em setembro de 1983, quatro pontes de safena
e uma mamária. Passou os nove meses seguintes longe do vício. Não
agüentou. "É burrice minha, mas não consigo parar", diz ele,
jurando que atualmente é raro passar de dez cigarros por dia.
Carlos Moscovics/Acervo Instituto Moreira Salles
 |
| A primeira peça profissional, Um Deus
Dormiu Lá em Casa: estréia com Tônia Carrero, em 1949
| Autran esbanja fôlego,
no entanto, para varar a madrugada pelo menos uma vez por semana no jogo de tranca.
Karin Rodrigues e as assessoras de imprensa Célia Forte e Selma Morente
são as parceiras oficiais. "Durante as partidas pedimos pizza (ele só
come margherita), estrogonofe ou beirute", conta Célia. Seus outros
hobbies são montar quebra-cabeças de mais de 1 000 peças
e ler os autores favoritos são Eça de Queiroz e Guimarães
Rosa. Enjoou do passatempo antigo de confeccionar tapetes (alguns, dizem as más
línguas, bem feios). Vez ou outra, recebe grupos de amigos em casa e prepara
suas especialidades: vatapá, picadinho de carne ou sopa de cebola. Aceita
que somente cinco pessoas estejam com ele nessas ocasiões. É uma
de suas poucas, digamos, manias. "Com muita gente, não dá para conversar
direito", explica. Outro costume inusitado é o de somar placas de carro
quando está na rua e ver se, noves fora, o resultado é igual a zero.
Claro que quando o seu motorista ou Karin está ao volante.
A relação com ela começou
no teatro, evidentemente. Ficaram amigos e, desde 1974, mantinham uma cumplicidade
muito grande. Casaram-se formalmente 25 anos depois, em parte para garantir que
ela herdasse seus bens. Não fosse a união, as beneficiadas seriam
as cinco meio-irmãs com quem o ator, que nunca teve filhos, mantém
pouco contato. Karin e Autran moram em casas separadas, mas se vêem todo
santo dia. Treze anos mais jovem, Karin afirma que as afinidades são o
segredo para a relação dar certo. "Nosso humor e jeito de pensar
são muito parecidos", diz. Ao contrário do personagem sovina que
está prestes a encarnar no palco, Autran gosta de lhe oferecer presentes
caros. No ano passado, deu a ela um carro de 70.000 reais.
Mario Rodrigues  |
| Na mesa de jogo: uma vez por semana, partidas de tranca
com as amigas | Duas grandes
estrelas dos palcos brilharam também no coração do ator:
Odete Lara, com quem viveu um caso, e Tônia Carrero, sua paixão por
dois anos. Por causa de Tônia, o sempre controlado Autran chegava a perder
as estribeiras. Em 1958, cuspiu no rosto do jornalista e crítico Paulo
Francis, que havia publicado um artigo ofensivo do qual mais tarde se arrependeria.
E passou duas décadas de relações cortadas com Raul Cortez,
que a destratou durante a temporada de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?,
em 1978. "Voltamos a nos falar quando ele se tornou o bom colega que deveria ter
sido desde o início. O Raul era terrível na juventude", diz, não
sem emendar: "Senti muito a morte dele". A forte ligação com Tônia
tem um quê de gratidão. Foi ela quem o descobriu num grupo amador
e fez questão de que trabalhassem juntos. "Quando o vi em cena pela primeira
vez, fiquei apaixonada", derrete-se a diva, chamada por Autran de Mariinha. Assim,
entraram em cena juntos na primeira peça profisional do currículo
dele, Um Deus Dormiu Lá em Casa, de Guilherme Figueiredo, em 1949.
Ser amável e respeitoso com
os colegas é uma espécie de mandamento não escrito que ele
segue. Nos ensaios, é comum vê-lo rodeado de jovens atores, contando
histórias. Assiste a até três montagens por semana. Inevitavelmente,
alguém pergunta o que ele achou. Aí, é quase sempre diplomático.
Se achou ruim, dá um jeito de comentar alguma qualidade do espetáculo.
"Só revelo o que não gostei aos mais amigos", afirma. Nunca age
como estrela, por mais que as décadas de sucesso lhe garantam privilégios
de primeira. Exige apenas que seu camarim tenha água, café e...
cinzeiros.
Luciana Cavalcanti/Folha Imagem  |
| Com Karin, numa pré-estréia: eles batem
cartão nos eventos culturais badalados da cidade | Segundo
seus amigos, Autran também se delicia com uma boa fofoca, coisa que ele
não assume. "Todo mundo gosta de contar novidades", diz. "Mas não
passo nada adiante se for desabonador para a pessoa." A fim de manter o bom humor,
um de seus traços marcantes, costuma cochilar com freqüência.
Na temporada da comédia dramática Adivinhe Quem Vem para Rezar,
encerrada em junho passado, levou uma cama dobrável para as coxias Brasil
afora. "Paulo tirava uma soneca até dez minutos antes de entrar em cena",
lembra Cláudio Fontana, produtor e ator do espetáculo.
Fotos Zeca Guimarães e Eliane Leme
 | | Multimídia:
no filme A Máquina e, acima, na rádio BandNews FM |
Boa-praça, paciente e bem-sucedido,
Autran tornou-se quase uma unanimidade. Dificilmente alguém o critica,
exceto quando ele parte para o ataque, como fez numa sabatina realizada pela Folha
de S.Paulo, no ano passado. No evento, falou mal do diretor José Celso
Martinez Corrêa, criador do Teatro Oficina. "O Zé Celso faz um teatro
muito específico. Entrar no teatro para ver dois rapazes se masturbando
não me interessa, absolutamente", afirmou, para delírio da platéia
lotada de estudantes e jornalistas. "Sempre o achei muito frio em cena. Uma coisa
européia, de 'sir'. Nunca vi uma entrega absoluta", rebate José
Celso. "Esse teatro que ele faz é para a terceira idade."
Ricardo Chaves  |
| Cena da novela Guerra do Sexos, de 1983: aversão
à televisão | Apesar
de rompantes eventuais, Autran cultivou muitos amigos ao longo da vida. Poucos
íntimos, é verdade. Entre estes, o lugar de destaque sempre foi
do advogado Fábio Vilaboim, que conheceu na Faculdade de Direito do Largo
de São Francisco (sim, o mestre do tablado formou-se lá). Dividiram
apartamento em São Paulo até a morte de Vilaboim, em 1989. "Só
tenho boas recordações dele. Foi um grande irmão", afirma
o ator, que mantém fotos do amigo na estante de casa. Os dois foram sócios
num dos seus raros investimentos fora do mundo das artes, a Pousada Pardieiro,
em Parati, no litoral do Rio de Janeiro, que fundaram em 1971. Atualmente ele
é sócio minoritário do negócio.
De olhos (um verde e outro castanho, coisa em que pouca gente repara) no futuro,
o senhor dos tablados alimenta projetos. Um deles é levar O Avarento
para Portugal no ano que vem: "Contra toda a lógica, continuo a fazer
planos como se fosse viver eternamente. Meu espírito continua jovem. Não
tenho medo da morte, mas viver é delicioso demais".
| "Tenho pena de quem pode trabalhar
e se aposenta. A família começa
a tratar você como um velhinho. Parar de fazer teatro e ficar
chateando os outros em casa? Eu, não! O palco é um recreio,
uma coisa que adoro" "Nunca
tomei Viagra nem nada parecido. Acho ridículo tentar continuar uma
coisa que seu corpo se recusa a fazer. Fiz muito sexo na minha vida,
apesar de não ter aproveitado a liberação sexual dos
anos 60" "Teatro é
a arte do ator. Cinema é a arte do diretor e TV, a arte do
anunciante. Não há dinheiro que me convença
a fazer novela outra vez" | |