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CRÔNICA
A lei do silêncio
Walcyr Carrasco
Três horas da manhã. O vizinho
está dando uma festa anos 70. Não fui convidado. Mas
é como se estivesse lá dentro. O som invade meu quarto.
Faço as contas: pela seleção musical, a turma
deve andar na maturidade. Quanto tempo um bando de cinqüentões
agüenta ficar saltitando na sala? Eis a resposta: muito! Muitíssimo!
A música só pára depois das 4. Volto às
cobertas. Inicia-se uma sucessão de barulhos de alarmes de
carros sendo desligados. Piiii. Pum. Uóóóóó.
Suporto, esperançoso. Os convidados partem! Oh, não!
Um grupo fica na minha esquina. Conversando em altos brados. Rindo.
Dá vontade de atirar uma bacia d'água! Reflito:
Impossível resistirem tanto
tempo no frio.
Quem disse? Fazem piadas. Flertam. Marcam
encontros. Finalmente, quando vão embora, meus olhos ardem.
Caio na cama. Acordo poucas horas depois com o ruído de uma
serra elétrica. É a obra do vizinho da frente. Em
pleno sábado. Cedo! Depois da 1 da tarde, vou falar com o
mestre-de-obras.
Vocês já deviam ter parado.
É que a gente está com
pressa de terminar.
Eu, como fico?
Uma outra casa tem um cachorrinho que late
e geme a noite toda. Noite após noite! Nunca ouvi os moradores
pedirem para ficar quieto. O cachorro não tem culpa. Os donos
deviam estar atentos! Soube de uma obra, recentemente, em um apartamento
gigantesco no centro da cidade, onde o morador de baixo chamou a
polícia para parar com as marteladas fora de horário.
O de cima, ofendidíssimo, ameaçou pular no seu pescoço,
porque estava atrapalhando a reforma! Sem falar nas obras públicas.
Alguém já enfrentou mudanças na tubulação
de gás, com a britadeira na calçada durante a noite
inteira? Já passei por isso, durante uns quinze dias. Depois
de me revirar na cama durante horas, eu me levantava. Impossível
ler. Sentava na sala, esperando o dia. Paravam de manhãzinha.
Era tão ruim que eu até ficava aliviado com o barulho
do congestionamento!
A questão do silêncio não
se restringe a obras, cães e festas. Outro dia dei carona
a um casal, depois de uma reunião de trabalho. O rapaz sentou
no banco de trás. Ligou o celular. Percorremos uns 10 quilômetros
até um shopping. Estacionei. Descemos. Entramos em uma doceria.
Ela pediu por ele. Sentamos. Ele continuava na ligação.
Esbravejando:
Veja lá o que está acontecendo!
Assim não dá!
Eu e a moça não conseguíamos
falar, tal a altura da conversa. Comemos o bolo à espera
para falarmos de nossos próprios negócios. Ele desligou.
Respirei fundo. Cedo demais! O marmanjo iniciou nova ligação!
Um amigo quase perdeu os tímpanos no
elevador. Três senhoras conversavam, uma tentando falar mais
alto que a outra.
Espera, deixa que eu tenho uma coisa
para contar...
Só quero terminar o que estava
dizendo...
Ih! Sabem do que me lembrei?
Ao chegar ao térreo, o rapaz estava
zonzo!
Há pessoas que falam alto até
no ambiente de trabalho. Em uma redação, havia uma
jornalista com voz tão estridente que o crítico de
cinema comentava:
A dublagem devia ser obrigatória!
Já presenciei dois vizinhos de apartamento
discutindo. O de cima tocava bateria.
Ensaio com meus filhos, é uma
forma de estarmos juntos, em família!
O outro nem sabia o que dizer: como impedir
a união entre pais e filhos?
Ninguém percebe que os outros precisam
dormir, que voz alta incomoda? Às vezes, tudo que quero na
vida é ficar em paz, bem quietinho. Diz o antigo ditado:
"A palavra é prata, o silêncio é ouro". Por
mais valioso que seja, o silêncio não costuma ser respeitado
como merece!
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