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16 de junho de 2004
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Se essa chimpanzé falasse...

Depois de ter perdido seu companheiro de quinze anos, um dos 73 bichos assassinados no zoológico, Fafá volta a ser exibida na mesma jaula, enquanto as investigações continuam a desafiar a polícia

Marcos Buarque de Gusmão

 
Evelson de Freitas/AE
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Em qualquer história de investigação policial, seja fruto da imaginação de um escritor, seja um fato ocorrido na vida real, a primeira preocupação do detetive é saber quem era a vítima. Ele começa então a esquadrinhar seu passado. Por meio de depoimentos de parentes, amigos e vizinhos, tenta reconstituir os últimos passos do morto. Um bom detetive junta tais elementos até descobrir a quem interessou o crime. Descartadas todas as hipóteses, como ensinava o americano Edgar Allan Poe, autor de Os Crimes da Rua Morgue, a que resta, mesmo que a princípio fosse inverossímil, pode ser a chave da solução. Foi assim, ouvindo funcionários da produtora de Luiz Rugai e parentes de sua mulher, Alessandra, que a polícia, por exemplo, acredita ter elucidado o homicídio do casal em abril. Vieram à tona as brigas envolvendo o empresário e seu filho mais velho, Gil Rugai, de 21 anos. O testemunho de um vigilante e provas materiais forneceram os indícios que faltavam para que Gil fosse preso sob a acusação de assassinato do pai e da madrasta, crime que ele nega haver cometido.

Fotos Mario Rodrigues
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Com 35 investigadores, número quatro vezes maior que o de agentes envolvidos no caso de Gil Rugai, o delegado Clóvis Ferreira de Araújo, chefe da unidade de inteligência da Polícia Civil, ainda não conseguiu chegar aos culpados pelas 73 mortes no Zoológico de São Paulo. O inquérito entra no seu quinto mês. Na semana passada, a chimpanzé "Fafá", que sobreviveu aos assassinatos em série, voltou a ser exibida ao público. Ela havia sido retirada da jaula após a morte do companheiro, "Felipe", com quem viveu os últimos quinze anos. Fafá possivelmente viu quem entrou na jaula, misturou a substância letal à comida e saiu às escondidas. Como testemunha ocular, a chimpanzé seria uma peça fundamental ao inquérito. Obviamente se... ela falasse. Parece piada, mas essa é uma das justificativas da polícia para explicar a lentidão nas investigações. Na vida policial há cerca de vinte anos, o delegado Ferreira de Araújo não cansa de dizer aos amigos que está diante de um dos casos mais intrigantes de sua carreira.

Chegou-se a especular que fezes de rato teriam contaminado a comida dos bichos ou que as águas poluídas dos lagos seriam capazes de causar as mortes. Depois de investigar 500 pessoas, ouvir quase 250 delas em interrogatórios e montar duas bases avançadas no zoológico, o delegado chegou a uma hipótese mais plausível. As mortes seriam obra de uma quadrilha de tráfico de aves, que pretendia enfraquecer os controles internos do parque para continuar comercializando os cerca de 5.000 animais apreendidos por ano e que eram levados para o zôo. O cerco foi fechado em treze suspeitos, na maioria funcionários do parque. Na próxima quinta-feira (17), o relatório final do delegado deve ser apresentado à Justiça. Isso se Araújo não pedir uma nova prorrogação do prazo para realizar mais diligências, como aconteceu em outras duas ocasiões.

Há dois meses, para alívio da direção do zoológico, dos freqüentadores do parque e da polícia, não ocorre um novo caso de intoxicação. Aos poucos, o parque retorna a sua rotina normal. Mensagens de solidariedade de visitantes continuam chegando. Já são mais de 700. Os paulistanos enviam orações, imagens de São Francisco e Nossa Senhora de Fátima, enquanto alguns prestam homenagem aos bichos mortos dedicando minutos de silêncio diante das jaulas vazias. Fafá fica por ali, assistindo a tudo. "Ela sofreu com a morte de Felipe", afirma o veterinário José Luiz Catão, diretor técnico do zoológico. A chimpanzé andou cabisbaixa, apesar de não ter perdido o apetite nem ter apresentado infecções que sugerissem manifestações de dor. Suas fezes, no entanto, estão sendo submetidas a exames de laboratório para saber quanto ela está estressada. Para evitar maiores complicações de adaptação a um período de solidão, vários brinquedos foram colocados na jaula. Em breve, pelo menos para Fafá, uma boa notícia está por vir. Resolvido ou não o mistério, o parque pretende arrumar um novo companheiro para ela.

         
     
 
 
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