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CRIME
Se essa chimpanzé falasse...
Depois de ter perdido seu companheiro
de quinze anos, um dos 73 bichos assassinados no zoológico,
Fafá volta a ser exibida na mesma jaula, enquanto as investigações
continuam a desafiar a polícia
Marcos Buarque de Gusmão
Evelson de Freitas/AE
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| "Fafá" num banho de sol: em baixo-astral |
Em qualquer história de
investigação policial, seja fruto da imaginação
de um escritor, seja um fato ocorrido na vida real, a primeira preocupação
do detetive é saber quem era a vítima. Ele começa
então a esquadrinhar seu passado. Por meio de depoimentos
de parentes, amigos e vizinhos, tenta reconstituir os últimos
passos do morto. Um bom detetive junta tais elementos até
descobrir a quem interessou o crime. Descartadas todas as hipóteses,
como ensinava o americano Edgar Allan Poe, autor de Os Crimes
da Rua Morgue, a que resta, mesmo que a princípio fosse
inverossímil, pode ser a chave da solução.
Foi assim, ouvindo funcionários da produtora de Luiz Rugai
e parentes de sua mulher, Alessandra, que a polícia, por
exemplo, acredita ter elucidado o homicídio do casal em abril.
Vieram à tona as brigas envolvendo o empresário e
seu filho mais velho, Gil Rugai, de 21 anos. O testemunho de um
vigilante e provas materiais forneceram os indícios que faltavam
para que Gil fosse preso sob a acusação de assassinato
do pai e da madrasta, crime que ele nega haver cometido.
Fotos Mario Rodrigues
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| "Terezita": sem vizinhança |
Dromedário: pais assassinados |
Com 35 investigadores, número
quatro vezes maior que o de agentes envolvidos no caso de Gil Rugai,
o delegado Clóvis Ferreira de Araújo, chefe da unidade
de inteligência da Polícia Civil, ainda não
conseguiu chegar aos culpados pelas 73 mortes no Zoológico
de São Paulo. O inquérito entra no seu quinto mês.
Na semana passada, a chimpanzé "Fafá", que sobreviveu
aos assassinatos em série, voltou a ser exibida ao público.
Ela havia sido retirada da jaula após a morte do companheiro,
"Felipe", com quem viveu os últimos quinze anos. Fafá
possivelmente viu quem entrou na jaula, misturou a substância
letal à comida e saiu às escondidas. Como testemunha
ocular, a chimpanzé seria uma peça fundamental ao
inquérito. Obviamente se... ela falasse. Parece piada, mas
essa é uma das justificativas da polícia para explicar
a lentidão nas investigações. Na vida policial
há cerca de vinte anos, o delegado Ferreira de Araújo
não cansa de dizer aos amigos que está diante de um
dos casos mais intrigantes de sua carreira.
Chegou-se a especular que fezes
de rato teriam contaminado a comida dos bichos ou que as águas
poluídas dos lagos seriam capazes de causar as mortes. Depois
de investigar 500 pessoas, ouvir quase 250 delas em interrogatórios
e montar duas bases avançadas no zoológico, o delegado
chegou a uma hipótese mais plausível. As mortes seriam
obra de uma quadrilha de tráfico de aves, que pretendia enfraquecer
os controles internos do parque para continuar comercializando os
cerca de 5.000 animais apreendidos por
ano e que eram levados para o zôo. O cerco foi fechado em
treze suspeitos, na maioria funcionários do parque. Na próxima
quinta-feira (17), o relatório final do delegado deve ser
apresentado à Justiça. Isso se Araújo não
pedir uma nova prorrogação do prazo para realizar
mais diligências, como aconteceu em outras duas ocasiões.
Há dois meses, para alívio
da direção do zoológico, dos freqüentadores
do parque e da polícia, não ocorre um novo caso de
intoxicação. Aos poucos, o parque retorna a sua rotina
normal. Mensagens de solidariedade de visitantes continuam chegando.
Já são mais de 700. Os paulistanos enviam orações,
imagens de São Francisco e Nossa Senhora de Fátima,
enquanto alguns prestam homenagem aos bichos mortos dedicando minutos
de silêncio diante das jaulas vazias. Fafá fica por
ali, assistindo a tudo. "Ela sofreu com a morte de Felipe", afirma
o veterinário José Luiz Catão, diretor técnico
do zoológico. A chimpanzé andou cabisbaixa, apesar
de não ter perdido o apetite nem ter apresentado infecções
que sugerissem manifestações de dor. Suas fezes, no
entanto, estão sendo submetidas a exames de laboratório
para saber quanto ela está estressada. Para evitar maiores
complicações de adaptação a um período
de solidão, vários brinquedos foram colocados na jaula.
Em breve, pelo menos para Fafá, uma boa notícia está
por vir. Resolvido ou não o mistério, o parque pretende
arrumar um novo companheiro para ela.
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