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16 de junho de 2004
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COMPORTAMENTO

O dom da flechada

Sensibilidade, paciência e sutileza são
algumas
qualidades exigidas de um cupido
de sucesso. Seis craques
no quebra-cabeça
dos corações contam por que estão
tão
orgulhosos neste Dia do Namorados

Lúcia Monteiro


Heudes Regis
Secretário particular de Danielle Winits, Guilherme Oliveira foi peça fundamental na aproximação da atriz com Bruno Gagliasso, o Inácio de Celebridade. Além de apresentá-los, Oliveira fez todo o meio de campo, já que os dois tinham receio de expor publicamente a paquera. "Eles não ligavam diretamente um para o outro", conta. "Então, imagina quanto o meu telefone tocava!" Oliveira foi testemunha até do primeiro beijo do casal, trocado em dezembro durante um show da banda Jota Quest.


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A origem do Cupido

Encontrar o príncipe ou a princesa encantada nunca foi fácil. Menos provável ainda é trombar com eles por acaso, no meio da rua, numa cidade de 11 milhões de habitantes. Não é à toa que 32% dos casais paulistanos recebem a ajuda de algum tipo de cupido. Amigos, parentes e colegas normalmente exercem bem esse papel. Uma pesquisa coordenada pelo psicoterapeuta Ailton Amélio da Silva, professor da USP e autor do livro O Mapa do Amor, mostra que a apresentação é o segundo caminho mais usado no início de um relacionamento (37% começam a namorar alguém que já conheciam anteriormente). "Quem apresenta serve de fiador, pois empresta um pouco de sua credibilidade ao apresentado", diz Amélio da Silva. "Mostra pontos em comum e facilita a conversa entre duas pessoas que acabaram de se conhecer."

Juntar pessoas é uma arte. Não há uma receita pronta, mas alguns requisitos básicos são fundamentais no quebra-cabeça dos corações. Em primeiro lugar, é preciso ser sutil. Um empurrãozinho para o amor vale. Forçar a barra, jamais. "As mulheres se queixam principalmente da dificuldade de encontrar homens que queiram relacionamento sério", afirma a professora Magdalena Ramos, coordenadora do núcleo de casal e família da PUC. "O cupido é importante para colocar em contato pessoas dispostas a ter um namoro duradouro." Depois disso, cabe aos flechados decidir seu destino. É preciso saber aceitar quando a combinação não dá certo – e é isso mesmo que acontece na maioria das vezes. O caso da top Gisele Bündchen com o playboy Ricardinho Mansur, por exemplo, tinha tudo para funcionar. Os alcoviteiros eram Mônica Monteiro, a empresária da modelo, e seu marido, Aluisio Ribeiro de Lima, amigão de Mansur. Não adiantou: o romance se iniciou na temporada outono-inverno da São Paulo Fashion Week e, na primavera-verão, Leonardo DiCaprio voltava a ser o rei nas passarelas da musa.


Heudes Regis
A assessora de imprensa Camila Lamoglia conheceu por acaso no Parque do Ibirapuera sua futura sócia Fabiana Kherlakian, herdeira da Zoomp. Nem o fato de Camila ser casada com o ex-marido de Fabiana, Fábio Gurgel, atrapalhou a química entre elas. Viraram amigas. Camila planejou com requinte o primeiro encontro entre Fabiana e o ator Marcos Pasquim. Chamou os dois para ir a sua casa e vestiu Pasquim com as roupas do ex de Fabiana. "Ele chegou de tênis destruído e jeans rasgado", conta Camila. "Coloquei nele uma calça preta Armani, uma blusa de gola olímpica e um tênis Gucci." A produção mais do que convenceu. Allicia, filha de Pasquim e Fabiana, está prestes a completar 2 meses.

Antes de arrumar o partido ideal para Lucilia Diniz, do Grupo Pão de Açúcar, seu amigo e empresário William Barrington havia feito outras tentativas – nenhum dos dois fala quantas foram. Não desanimou com as negativas de Lucilia e continuou arriscando até que conseguiu uni-la ao advogado Márcio Bellocchi, 35 anos, cheio de disposição, inteligente, enfim... do jeitinho que ela pediu. "Não tive vergonha de falar que eu queria um namorado mais novo", conta Lucilia, 47 anos, dois casamentos no currículo. "Estou me sentindo jovem." Bastaram a apresentação, um pouco de propaganda e pronto! Os pombinhos se encantaram um com o outro, fizeram um tour pelo Oriente e desde setembro andam com um sorriso mais largo.

O cupido não precisa suar tanto a camisa quando o tal do amor à primeira vista entra no jogo. "Quase não tive trabalho", lembra o diretor artístico Abelardo Figueiredo, que em 1952 flechou os atores Paulo Goulart e Nicete Bruno. Ela estava de casamento praticamente marcado com um fotógrafo carioca e ele, comprometido com uma moça no interior de São Paulo. "O noivo da Nicete era baixinho e pesava mais de 100 quilos. Ela acabou se apaixonando pelo Paulo, todo bonitão." O ator trabalhava na Rádio América e foi o galã escolhido por Figueiredo para contracenar com Nicete na peça Senhorita Minha Mãe. Quando os tios da namorada de Paulo Goulart souberam do romance e começaram a ameaçá-lo, ele fugiu (teve de abandonar a peça no fim do primeiro ato). Ficou abrigado na casa da mãe de Figueiredo, em Niterói. "A Nicete terminou o espetáculo sozinha, fazendo as falas dela e as dele", recorda o cupido. "Mas tudo terminou bem e eles estão casados há cinqüenta anos."


Heudes Regis
A soprano Rosana Lamosa e o tenor Fernando Portari se encontraram pela primeira vez em 1994, num concerto no Rio de Janeiro. Ele acabara de voltar da Alemanha e ela da Suíça. Como cada um estava comprometido, não rolou nada. Foi o maestro Luiz Fernando Malheiro quem teve a habilidade de convidar a dupla para protagonizar a inspiradora ópera O Elixir do Amor, no Teatro Municipal de São Paulo, bem no momento em que ambos terminavam os respectivos relacionamentos. "Já nos ensaios achei que aquela parceria estava dando certo demais", diz Malheiro. "A convivência antes de estrear uma montagem é muito intensa", explica Rosana, que viveu ao lado dele papéis românticos em seis óperas. A partir deste domingo (13), também no Municipal, eles interpretam juntos mais uma história de amor: Romeu e Julieta.

Paciência é outra qualidade fundamental dos bons cupidos. A assessora de imprensa Camila Lamoglia precisou de muita para promover a união de sua sócia, Fabiana Kherlakian, com o ator Marcos Pasquim. "Depois de apresentar os dois, continuei dando uma manutenção", diz Camila. Ela brigava quando alguém pisava na bola e, se um dos dois ameaçava desistir, reforçava a propaganda. "Meu trabalho durou uns seis meses, até o namoro engrenar mesmo." Compensou. Em fevereiro, Camila subiu no altar como madrinha de casamento dos dois. Mas Fabiana e Pasquim não foram os únicos alvos da mira precisa de Camila. Ela também é responsável pelo primeiro encontro da estudante de nutrição Andréa Santa Rosa com o ator Márcio Garcia e de vários outros amigos. "Eu me divirto fazendo isso."


Ricardo Fasanello
Se não fosse pelo diretor artístico Abelardo Figueiredo, o destino dos atores Nicete Bruno e Paulo Goulart seria bem diferente. Quando chegou a São Paulo, em 1952, a carioca Nicete estava noiva de um fotógrafo. O paulista Goulart, que tinha uma namorada no interior e trabalhava na Rádio América, foi escolhido por Figueiredo para o papel de galã na primeira peça de Nicete por aqui, Senhorita Minha Mãe. "O noivo dela era baixinho e pesava 100 quilos", lembra. "Acabou se apaixonando pelo Paulo Goulart, todo bonitão." O problema foi a família da namorada do ator, que ficou enfurecida e começou a ameaçá-lo. Bom cupido, Figueiredo escondeu o amigo na casa de sua mãe, em Niterói, até a poeira baixar. Depois, fez questão de organizar a festa de casamento de seus flechados, num teatro da Rua Vitória, no centro paulistano, há exatamente meio século.

Enquanto unir pessoas é uma brincadeira sem maiores compromissos para muita gente, alguns grupos encaram a atividade com bastante seriedade. É o caso da colônia japonesa e da comunidade judaica em São Paulo, que chegam a ter agências matrimoniais específicas para seus descendentes. O objetivo é manter vivas suas tradições culturais e religiosas. Entre os judeus, a figura do casamenteiro vem de séculos. Hoje, esse papel é exercido majoritariamente por rabinos como Yossi Schildkraut (veja quadro). Ele calcula que dez casamentos são realizados todos os anos graças a seus esforços. Mais informalmente, mães, avós e amigos da família acabam mexendo seus pauzinhos para que os jovens não busquem consortes fora da comunidade.

A idéia de flechar corações vem da Antiguidade clássica. Cupido, na mitologia romana, corresponde a Eros para os gregos. Trata-se de uma criança maliciosa, filha de Vênus ou Afrodite (deusa do amor e da beleza), que adorava deixar as pessoas apaixonadas. Em uma das narrativas mais conhecidas a seu respeito, Vênus, que morria de ciúme da beleza da mortal Psiquê, mandou Cupido castigá-la com seus poderes. No meio da missão, no entanto, ele também acabou se apaixonando por ela. Os dois se casam, mas com a condição de que ela não veja o rosto do amado. Em todos os seus momentos juntos, Cupido sempre conserva o rosto coberto. Quando Psiquê descobre sua identidade, Cupido rompe o relacionamento. Inconformada, ela vaga o mundo atrás dele e, ao encontrá-lo, ganha a imortalidade.


Heudes Regis
A empresária Lucilia Diniz foi bem direta em seu pedido ao amigo e também empresário William Barrington: "Quero um namorado mais novo, que tenha disposição para caminhar comigo, goste de viajar, seja inteligente e tenha carreira própria". Após algumas tentativas frustradas, ele a apresentou ao advogado Márcio Bellocchi, doze anos mais jovem. Três meses depois do primeiro encontro, fizeram uma viagem de 35 dias pelo Oriente. "Barrington e o universo conspiraram a nosso favor", diz ela.

Outras histórias e poemas desde a Idade Antiga mostram esse ser alado como o propagador do amor. "Ele pode ter uma tocha de fogo ou um arco-e-flecha nas mãos, representando o amor que vem de repente e pega suas vítimas de surpresa", explica André Malta Campos, professor de língua e literatura grega da USP. Originalmente, esse amor simbolizava desejo e atração sexual. "Mais recentemente, a figura foi associada ao amor romântico, sem conotação carnal."

O fato é que, hoje em dia, os cupidos estão mais requisitados do que nunca. Por quem deseja um relacionamento passageiro, um companheiro para todas as horas ou uma mulher deslumbrante, como a modelo Isabeli Fontana, flechada pela colega Jeísa Chiminazzo para o amigo Alvaro Jacomossi. Depois de um jantar no apartamento de Jeísa, formou-se o casal mais lindo do mundo, segundo a revista Vogue americana. Outro caso exemplar é o dos atores Bruno Gagliasso e Danielle Winits. Gagliasso, o Inácio da novela Celebridade, infernizou o secretário particular da atriz, Guilherme Oliveira, o "Xu", para que o ajudasse a conquistar Danielle. Ligava todos os dias, armava encontros, mandava recados... De tanto que participou da história dos dois, Xu até presenciou o primeiro beijo do casal, num show, em dezembro. É por essas e por outras que cupidos bons de mira também merecem ganhar presentes caprichados neste Dia dos Namorados.


Divulgação
Apontados como o casal mais bonito do mundo pela revista Vogue americana, os modelos Isabeli Fontana e Alvaro Jacomossi se conheceram num jantar no apartamento de sua colega Jeísa Chiminazzo. "Ela tinha me dito que eu iria adorar o Alvaro", conta Isabeli, com 16 anos na época. "Mas eu era contra, queria conhecer sozinha uma pessoa que me agradasse." Tímido, Jacomossi demorou a ligar para Isabeli depois do jantar. Para encontrá-la, usava a desculpa de que queria malhar no prédio dela, onde havia uma academia. Acabaram ficando amigos e depois namoraram. Estão juntos há quatro anos e o filho deles, Zion, de 1 ano, já arranca suspiros. "Jeísa é a madrinha postiça dele", agradece Isabeli.

 

O casamenteiro do Jardim Europa

Heudes Regis
O rabino Schildkraut: dez matrimônios por ano


Uma passagem conhecida do Talmude, livro da tradição judaica, diz que juntar um casal é tão difícil quanto abrir o Mar Vermelho. No judaísmo, apresentar pessoas representa uma boa ação. Por isso, mesmo nos dias de hoje, valoriza-se o trabalho dos casamenteiros (matchmaker, em inglês, ou shadchan, em hebraico). Em São Paulo, o rabino Yossi Schildkraut, da sinagoga Beit Chabad, no Jardim Europa, é considerado o principal deles. Em 1986, ele fundou uma das primeiras agências matrimoniais da cidade, exclusiva para judeus. Atualmente, o serviço, gratuito, funciona através do site www.ahava.com.br (a palavra significa amor). Para se juntar aos mais de 2.000 cadastrados, é preciso preencher uma ficha e dar o nome de três pessoas da comunidade como referência. A aprovação pode levar até um mês, período em que o rabino e seus assistentes analisam o candidato. O motivo é simples: segurança. Pela mesma razão, recomenda-se que o primeiro encontro seja em local público.

O rabino, que conheceu sua mulher nos Estados Unidos graças à habilidade de um matchmaker, continua unindo casais informalmente. Ele calcula ser responsável por no mínimo dez casamentos por ano. "Recebo muitos pedidos", diz ele. "Uma mãe me liga todos os dias para que eu encontre mulheres para seus dois filhos." Os ortodoxos, que seguem a religião à risca, não devem ter nenhum contato com o sexo oposto antes do casamento. Tanto que, nas sinagogas e nas escolas, há espaços separados para homens e mulheres. Casar, só com a ajuda de alguém.

Mas a rede de contatos funciona também para os judeus mais jovens e descolados. É o caso do Agenda 18, um clube que promove encontros semanais para até 200 pessoas em restaurantes, bares e teatros. Na semana passada, o clube organizado pelo empresário Charles Tawil comemorou com um jantar em O Leopolldo seus doze anos de fundação. Não há taxa de adesão e, para saber onde será a reunião, basta ligar para o 3081-2038. Tawil não tem controle sobre os pares que são formados por seu trabalho de cupido voluntário, mas, vira e mexe, recebe agradecimentos. "Outro dia um senhor veio me mostrar a foto da netinha e disse que ela tinha nascido graças a mim", conta, todo orgulhoso.

         
     
 
 
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