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16 de março de 2005
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CRÔNICA

Direito à vaidade

Walcyr Carrasco

Meus pés têm a pele seca. Como um pergaminho. As unhas dos mindinhos são grossas, semelhantes às de galos velhos, decanos de terreiros. Garras, na verdade. Além do mais, são gordinhos. Iguais a dois pãezinhos saídos do forno. Esse conjunto de qualidades sempre me fez evitar as sandálias. Até recentemente. Há algumas semanas, estava em um shopping. Resolvi ir ao podólogo. Sempre é uma tortura. Quando ele passa a lixa na planta dos meus pés, fico me contorcendo, às gargalhadas. Apesar da vontade de chorar. Desta vez, após se divertir com a lixa, ele propôs:

– Que tal um banho de parafina?

Estranhei. Ele explicou: a tal parafina líquida envolveria minha pele, tornando-a macia. O único problema seria... a temperatura! Suspirei. Dali a pouco ele voltou com a parafina fervente.

– É só esfriar um pouquinho! Tem de ser posta enquanto está líquida.

Em um gesto rápido, enfiou dois saquinhos plásticos e moldou a parafina, dos calcanhares aos artelhos. Por um instante, aterrorizado, achei que minhas extremidades estavam fritando! Dali a pouco, adquiriram a aparência de uma enorme vela! Não acreditava muito no resultado. Mas ao tirar a parafina... surpresa! Nunca tivera pés tão suaves, bonitos e... leves! Saí caminhando nas nuvens!

Ando encantado com o arsenal de vaidades criadas especialmente para o homem. Um dos sinais da maturidade são os tufos que crescem de maneira horripilante em variadas regiões do corpo. Dentro das orelhas. Poderia fazer trancinhas rastafári com os pêlos do meu nariz. As sobrancelhas ficam espetadas como antenas de besouro! Há profissionais que arrancam os tais pelinhos com pinça. Dói, reconheço! Pior: espirro sem parar, quando atacam minhas narinas! Em outros lugares, são retirados com uma máquina semelhante à de cortar cabelo. Só que, nesse caso, é preciso caçá-los com mais constância, porque retornam com maior vigor!

Há um arsenal de cremes para evitar manchas na pele. Seis meses atrás, o dermatologista radicalizou: queimou duas manchas arroxeadas de minha testa.

– São perigosas? – perguntei.

– De jeito nenhum. Estão feias!

Não estou falando de tratamentos mais decisivos, como Botox. Particularmente, não confio muito em tal artifício. Um amigo meu, ator, botou tanto Botox que a pele parece de borracha! Mal consegue sorrir! Imagino que, se for chupar manga, vai travar o queixo! Aos poucos, eu me rendo a um creme que promete deter os efeitos do tempo. Já me avisaram que o ideal, em breve, é tingir as melenas. Quase não tenho cabelos brancos. Gosto dos que adornam minhas têmporas. Um conhecido aconselhou:

– Submeta-se ao acaju. Há um canal de televisão no qual ninguém tem cabelos brancos!

Quando olho no espelho, penso: "Acaju?"

Há duas semanas encontrei minha amiga Andrea. Para quem não a conhece, dou a ficha. Em um jantar, é a primeira a sentar-se à mesa e a última a se retirar. Estava esguia. Abracei-a, admirado:

– Fez lipo?

Dei um apertãozinho na cintura e me corrigi.

– Botou cinta?

Fugindo de meus tentáculos, ela confessou: era cinta.

– Emagrece mais depressa que lipo.

Mirei meu umbigo, logo abaixo. Ela continuou:

– É boa para a coluna.

Rendi-me.

– Se é boa para a coluna, também quero. Não por vaidade!

A encomenda está para chegar. Logo estarei caminhando pelas ruas com corpinho de atleta. Talvez sem fôlego, de tão apertado! Nada é perfeito. Reconheço. É bom cuidar de si mesmo. Que bons tempos, em que um homem tem o direito de ser vaidoso!

     
   
 
 
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