Publicidade
 

 
 


16 de fevereiro de 2005
ESPORTE
PERFIL
TRABALHO
VERÃO
DEZ MOTIVOS PARA...
AS BOAS COMPRAS
MISTÉRIOS DA CIDADE
TERRAÇO PAULISTANO
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
  

ESPORTE

A turma do pedal

Pelo menos 300 000 paulistanos
tiram diariamente sua bicicleta da
garagem. É a paixão pelo ciclismo,
numa cidade com 4 milhões de
magrelas e crescimento de 5%
ao ano no setor

Lúcia Monteiro*

 
Mario Rodrigues
Passeio Ciclístico, em 30 de janeiro, na Avenida Rubem Berta: 7 000 participantes


Veja também
Normas de conduta para pedalar em segurança
Mapa de rotas

Seis da manhã de sábado. Ruas silenciosas, pontos de ônibus vazios, pistas fartas para os paulistanos que voltam das baladas e um climão de feriado no ar. Quando se cruza a portaria da Cidade Universitária, no Butantã, a agitação e o vaivém surpreendem. Nota-se o movimento logo na entrada, perto da raia olímpica. De repente, passam zunindo grupos de vinte, trinta, quarenta pessoas. Usam capacete, vestem uniformes de cores chamativas e pedalam em sincronia, a até 50 quilômetros por hora. Os mesmos pelotões, num total de 1.000 ciclistas, voltam para lá às terças e quintas. Na quarta-feira tem pedalada noturna pelo Itaim. No domingo, o encontro é na Rodovia dos Bandeirantes. Ou então nas trilhas de mountain bike da Serra da Cantareira. Isso quando não há competições ou concorridos passeios ciclísticos como o Extra de Verão, que reuniu 7.000 pessoas no Obelisco do Ibirapuera no último domingo de janeiro. Para essa animadíssima turma do pedal, todo dia é dia de sair por aí com a magrela.

 
Renata Ursaia
João Paulo Diniz numa de suas seis bikes: até 300 quilômetros por semana

São Paulo tem uma surpreendente frota de 4 milhões de bicicletas, pouco abaixo da de carros (5,3 milhões). A esmagadora maioria delas, é certo, fica encostada em algum canto da garagem ou só vai para a rua no fim de semana. Ainda assim, calcula-se que pelo menos 300.000 bicicletas circulem diariamente, segundo pesquisa realizada em 2004 pela Caloi e pela Associação Nacional de Transportes Públicos. E olha que as condições da cidade para quem curte a vida sobre duas rodas não são as melhores. Há ladeiras de sobra, asfalto ruim, motoristas agressivos e apenas 30 quilômetros de ciclovias que, em geral, ligam nada a lugar nenhum. Mais grave: cerca de cinqüenta ciclistas morrem em acidentes de trânsito por ano na capital. Com tudo isso, as vendas do setor crescem 5% ao ano desde 2000. No ano passado, 500.000 zero-quilômetro foram compradas em São Paulo. Nesse universo, há desde modelos profissionais, de 18.000 reais, até infantis, como o do pequeno Felipe Carelli, de 2 anos. Apesar de ter bicicletinha própria, Felipe passeia mais na cadeira presa à bike da mãe, a publicitária Juliana Carelli. "Vamos pedalando à padaria, à farmácia ou à locadora", conta Juliana, que adotou o hábito por influência do marido triatleta.

A bicicleta é mesmo uma paixão de muitos paulistanos – e a legião de aficionados não pára de se multiplicar. Em junho, a Federação Paulista de Ciclismo criou a categoria de cicloturismo, para atletas amadores. Desde então, registrou 1.200 adesões e recebe dez novas inscrições por dia. A explosão do spinning nas academias é uma das explicações para esse fenômeno. No exercício, pedala-se numa bicicleta ergométrica especial, com movimentos que simulam subidas e descidas. Um instrutor comanda e motiva os atletas com um microfone. Quem curte a experiência fica com um gostinho de quero mais. "O interesse é tanto que organizo pedaladas na rua com meus alunos cinco vezes por semana", diz Roberto Liber, da Fórmula. Outras academias de ginástica, como Reebok, Runner e Bio Ritmo, fazem o mesmo.

 
Renata Ursaia
Mario Rodrigues
A estudante Kelly com seu personal biker, Oliveira, e, à direita, aula de spinning da Reebok: algumas das portas de entrada para o ciclismo

No ciclismo não existe melhor propaganda do que os pelotões de condutores sarados. Funciona dessa forma com o Sampa Biker's, associação criada há doze anos, que reúne atualmente 15.000 cadastrados. Nas noites de quarta, cerca de 200 deles se encontram na Avenida Juscelino Kubitschek para percorrer até 30 quilômetros. "As pessoas vêem o grupo e entram no site para saber como participar do próximo encontro", afirma o arquiteto Paulo de Tarso Martins, um dos fundadores. "Depois do primeiro contato, muitos passam a levar a atividade a sério." O processo é parecido na Cidade Universitária, onde esportistas acabam trocando a modalidade do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima pela bicicleta. "Corredores passam a pedalar porque o impacto para os joelhos é menor", explica o professor de educação física Kim Cordeiro, coordenador da BK Sports, uma das quinze assessorias esportivas de São Paulo especializadas em ciclismo.

Tem mais. Como os riscos de lesões nos músculos e nas articulações ao pedalar são pequenos (sem contar a possibilidade de quedas), a bicicleta é uma ótima opção em relação à corrida para quem está muito acima do peso. "Uma hora queima em média 650 calorias", afirma Marcos Paulo Reis, ex-técnico da seleção brasileira de triatlo. "Além disso, define a panturrilha e a coxa." Reis está à frente de uma equipe de professores que treina 300 pedaladores inveterados. São advogados, médicos e celebridades, como a modelo Daniella Cicarelli, seu ex-marido, o empresário Guto Milano, e João Paulo Diniz, um dos herdeiros do Grupo Pão de Açúcar. Diniz é fanático por bikes. Tem seis modelos diferentes e, com eles, percorre 300 quilômetros por semana, sempre escoltado por seus seguranças. "Quando chove, tiro a roda, apoio o quadro numa espécie de esteira e pedalo na frente da TV", diz. Em dezembro, ele participou do Extra Distance, competição de 800 quilômetros, no esquema de revezamento. "Fiz 75% da prova sozinho."

 
Fotos Mario Rodrigues
Eloisa, Alic, Alessandra e Graciella: mais mulheres nas pistas

A modalidade praticada por Diniz é a mesma do americano Lance Armstrong, que se recuperou de um câncer e venceu no ano passado a Volta da França, a mais importante competição do ciclismo internacional. As pulseirinhas amarelas da Nike, que beneficiam a fundação criada por Armstrong para combater a doença, são quase tão presentes no vestuário do ciclista quanto capacete, bermuda e sapatilhas nos pés, com encaixe para o pedal. Outro item obrigatório: barra de cereais ou gel à base de carboidratos para repor a energia perdida. As bicicletas ideais são leves e de pneus finos, diferentes das mountain bikes, criadas para terrenos acidentados, que tiveram seu auge nos anos 90. "Até quem não curtia trilha comprou", afirma Eduardo Romão, gerente de produto da Caloi. "É igual a ter um jipe para andar no asfalto."

 
Juliana, Felipe e Ricardo Carelli: sair de carro é coisa rara na família

De olho nos ciclistas urbanos, os fabricantes investem agora na linha de passeio, com as chamadas comfort bikes, que priorizam a comodidade. Por enquanto, as mountain bikes ainda têm a preferência de quem está começando. São maioria entre os 400 modelos oferecidos por Evangelista Bernardo Viana, o "Maisena", que há 29 anos aluga bicicletas no Parque do Ibirapuera. Um test-drive numa alugada (entre 4 e 8 reais por hora) é uma boa pedida antes da compra. Também vale a pena pedir ajuda a um personal biker, versão especializada do personal trainer. Há cinco anos, César Augusto de Oliveira ensina a trocar marchas, corrige a postura, comanda alongamentos e pedala junto com o iniciante. "Sou um tipo de coelho: vou na frente para aumentar o ritmo", diz ele, que cobra 70 reais por hora. "Eu me sinto mais segura sabendo que tenho o acompanhamento de um profissional", afirma a estudante Kelly Georges, aluna de Oliveira há um ano. "Além disso, César não me deixa faltar às aulas."

 

Maisena, há 29 anos no Ibirapuera: 400 modelos à disposição

Ciclistas mulheres como Kelly formam quase um terço do total de aficionados em São Paulo, mas a participação feminina tem aumentado 15% ao ano. A designer Graciella de Moraes deu as primeiras pedaladas por recomendação médica, passou a competir e pegou gosto. Faz parte do quarteto feminino da BK Sports e acorda às 5 da manhã, quatro dias por semana, para treinar. "Antes eu me sentia culpada por sair cedo de casa e deixar todos dormindo", diz Graciella. "Hoje, os amigos dos meus filhos adoram ver minha bicicleta e minhas medalhas. Virei o orgulho da família."

 

Onde praticar

• Na Cidade Universitária, os pelotões se encontram às terças e quintas, às 6h e às 19h. Aos sábados, os treinos começam por volta das 6h30.

• O dia preferido dos grupos que pedalam na Rodovia dos Bandeirantes é o domingo, perto das 8 da manhã. Eles se encontram no Rancho da Pamonha, no quilômetro 23.

• O Sampa Biker's organiza pedaladas noturnas às quartas-feiras, com saída às 21h da pizzaria Camelo (Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 151, Itaim Bibi). Informações, 3045-2722, www.sampabikers.com.br.

• Outra opção é a loja Bike Time (Rua Luís Góis, 1343, Saúde, 5072-3608), que organiza passeios de duas horas, às quintas-feiras, às 21h.

• Sites divulgam competições, eventos e passeios. Confira: www.andersonbicicletas.com.br, www.bikezone.com.br e www.nightbikers.com.br.

• Parques como o Villa-Lobos e o Ibirapuera são bons lugares para quem não tem bicicleta própria. Pode-se alugar uma nos portões de entrada (de 4 a 8 reais por hora).

• Atletas costumam se preparar para provas de alta velocidade no Velódromo de Caieiras, na Grande São Paulo.

 

O mundo dos aros e guidões

4 milhões
de bicicletas formam a frota total da cidade. Pelo menos 300 000 circulam diariamente  

70%
dos ciclistas são homens. A participação feminina aumenta num ritmo de 15% ao ano  

500 000
magrelas foram vendidas em São Paulo em 2004. O número cresce 5% ao ano desde 2000

290 a 18 000 reais
é o que pode custar uma bicicleta zero-quilômetro  

45%
das pessoas que pedalam usam a bicicleta para transporte, 30% por lazer, 20% são crianças e 5% usam por esporte  

650 calorias
são gastas em uma hora de pedalada de ritmo moderado  

15 000
paulistanos estão cadastrados no Sampa Biker's, um dos grupos mais tradicionais da capital

Fontes: Caloi, Associação Nacional de Transporte Público e Sampa Biker's

 

Uma magrela para cada modalidade

 
O câmbio, de 27 marchas, garante bom desempenho em trilhas e trechos com lama

 

 

Os modelos para corrida são mais leves e atingem altas velocidades, como esta Ricci Augusta (5 620 reais)

 

* Colaborou Luisa Alcantara e Silva

     
   
 
 
VEJA on-line | Veja São Paulo
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados