| |
| |  | |
ESPORTE
A turma do pedal Pelo menos 300 000 paulistanos tiram
diariamente sua bicicleta da garagem. É a paixão pelo ciclismo,
numa cidade com 4 milhões de magrelas e crescimento de 5% ao ano
no setor Lúcia Monteiro* Mario
Rodrigues
 | | Passeio
Ciclístico, em 30 de janeiro, na Avenida Rubem Berta: 7 000 participantes |
Seis
da manhã de sábado. Ruas silenciosas, pontos de ônibus vazios,
pistas fartas para os paulistanos que voltam das baladas e um climão de
feriado no ar. Quando se cruza a portaria da Cidade Universitária, no Butantã,
a agitação e o vaivém surpreendem. Nota-se o movimento logo
na entrada, perto da raia olímpica. De repente, passam zunindo grupos de
vinte, trinta, quarenta pessoas. Usam capacete, vestem uniformes de cores chamativas
e pedalam em sincronia, a até 50 quilômetros por hora. Os mesmos
pelotões, num total de 1.000 ciclistas, voltam para lá às
terças e quintas. Na quarta-feira tem pedalada noturna pelo Itaim. No domingo,
o encontro é na Rodovia dos Bandeirantes. Ou então nas trilhas de
mountain bike da Serra da Cantareira. Isso quando não há competições
ou concorridos passeios ciclísticos como o Extra de Verão, que reuniu
7.000 pessoas no Obelisco do Ibirapuera no último domingo de janeiro. Para
essa animadíssima turma do pedal, todo dia é dia de sair por aí
com a magrela. Renata
Ursaia
 | | João
Paulo Diniz numa de suas seis bikes: até 300 quilômetros por semana |
São Paulo tem uma surpreendente frota de 4 milhões de bicicletas,
pouco abaixo da de carros (5,3 milhões). A esmagadora maioria delas, é
certo, fica encostada em algum canto da garagem ou só vai para a rua no
fim de semana. Ainda assim, calcula-se que pelo menos 300.000 bicicletas circulem
diariamente, segundo pesquisa realizada em 2004 pela Caloi e pela Associação
Nacional de Transportes Públicos. E olha que as condições
da cidade para quem curte a vida sobre duas rodas não são as melhores.
Há ladeiras de sobra, asfalto ruim, motoristas agressivos e apenas 30 quilômetros
de ciclovias que, em geral, ligam nada a lugar nenhum. Mais grave: cerca de cinqüenta
ciclistas morrem em acidentes de trânsito por ano na capital. Com tudo isso,
as vendas do setor crescem 5% ao ano desde 2000. No ano passado, 500.000 zero-quilômetro
foram compradas em São Paulo. Nesse universo, há desde modelos profissionais,
de 18.000 reais, até infantis, como o do pequeno Felipe Carelli, de 2 anos.
Apesar de ter bicicletinha própria, Felipe passeia mais na cadeira presa
à bike da mãe, a publicitária Juliana Carelli. "Vamos pedalando
à padaria, à farmácia ou à locadora", conta Juliana,
que adotou o hábito por influência do marido triatleta.
A bicicleta é mesmo uma paixão de muitos paulistanos e a
legião de aficionados não pára de se multiplicar. Em junho,
a Federação Paulista de Ciclismo criou a categoria de cicloturismo,
para atletas amadores. Desde então, registrou 1.200 adesões e recebe
dez novas inscrições por dia. A explosão do spinning nas
academias é uma das explicações para esse fenômeno.
No exercício, pedala-se numa bicicleta ergométrica especial, com
movimentos que simulam subidas e descidas. Um instrutor comanda e motiva os atletas
com um microfone. Quem curte a experiência fica com um gostinho de quero
mais. "O interesse é tanto que organizo pedaladas na rua com meus alunos
cinco vezes por semana", diz Roberto Liber, da Fórmula. Outras academias
de ginástica, como Reebok, Runner e Bio Ritmo, fazem o mesmo. Renata
Ursaia
 | Mario
Rodrigues
 | | A
estudante Kelly com seu personal biker, Oliveira, e, à direita, aula de
spinning da Reebok: algumas das portas de entrada para o ciclismo |
No ciclismo não existe melhor propaganda do que os pelotões de condutores
sarados. Funciona dessa forma com o Sampa Biker's, associação criada
há doze anos, que reúne atualmente 15.000 cadastrados. Nas noites
de quarta, cerca de 200 deles se encontram na Avenida Juscelino Kubitschek para
percorrer até 30 quilômetros. "As pessoas vêem o grupo e entram
no site para saber como participar do próximo encontro", afirma o arquiteto
Paulo de Tarso Martins, um dos fundadores. "Depois do primeiro contato, muitos
passam a levar a atividade a sério." O processo é parecido na Cidade
Universitária, onde esportistas acabam trocando a modalidade do maratonista
Vanderlei Cordeiro de Lima pela bicicleta. "Corredores passam a pedalar porque
o impacto para os joelhos é menor", explica o professor de educação
física Kim Cordeiro, coordenador da BK Sports, uma das quinze assessorias
esportivas de São Paulo especializadas em ciclismo.
Tem mais. Como os riscos de lesões nos músculos e nas articulações
ao pedalar são pequenos (sem contar a possibilidade de quedas), a bicicleta
é uma ótima opção em relação à
corrida para quem está muito acima do peso. "Uma hora queima em média
650 calorias", afirma Marcos Paulo Reis, ex-técnico da seleção
brasileira de triatlo. "Além disso, define a panturrilha e a coxa." Reis
está à frente de uma equipe de professores que treina 300 pedaladores
inveterados. São advogados, médicos e celebridades, como a modelo
Daniella Cicarelli, seu ex-marido, o empresário Guto Milano, e João
Paulo Diniz, um dos herdeiros do Grupo Pão de Açúcar. Diniz
é fanático por bikes. Tem seis modelos diferentes e, com eles, percorre
300 quilômetros por semana, sempre escoltado por seus seguranças.
"Quando chove, tiro a roda, apoio o quadro numa espécie de esteira e pedalo
na frente da TV", diz. Em dezembro, ele participou do Extra Distance, competição
de 800 quilômetros, no esquema de revezamento. "Fiz 75% da prova sozinho."
Fotos
Mario Rodrigues
 | | Eloisa,
Alic, Alessandra e Graciella: mais mulheres nas pistas |
A modalidade praticada por Diniz é a mesma do americano Lance Armstrong,
que se recuperou de um câncer e venceu no ano passado a Volta da França,
a mais importante competição do ciclismo internacional. As pulseirinhas
amarelas da Nike, que beneficiam a fundação criada por Armstrong
para combater a doença, são quase tão presentes no vestuário
do ciclista quanto capacete, bermuda e sapatilhas nos pés, com encaixe
para o pedal. Outro item obrigatório: barra de cereais ou gel à
base de carboidratos para repor a energia perdida. As bicicletas ideais são
leves e de pneus finos, diferentes das mountain bikes, criadas para terrenos acidentados,
que tiveram seu auge nos anos 90. "Até quem não curtia trilha comprou",
afirma Eduardo Romão, gerente de produto da Caloi. "É igual a ter
um jipe para andar no asfalto."  | | Juliana,
Felipe e Ricardo Carelli: sair de carro é coisa rara na família |
De olho nos ciclistas urbanos, os fabricantes investem agora na linha de passeio,
com as chamadas comfort bikes, que priorizam a comodidade. Por enquanto,
as mountain bikes ainda têm a preferência de quem está começando.
São maioria entre os 400 modelos oferecidos por Evangelista Bernardo Viana,
o "Maisena", que há 29 anos aluga bicicletas no Parque do Ibirapuera. Um
test-drive numa alugada (entre 4 e 8 reais por hora) é uma boa pedida antes
da compra. Também vale a pena pedir ajuda a um personal biker, versão
especializada do personal trainer. Há cinco anos, César Augusto
de Oliveira ensina a trocar marchas, corrige a postura, comanda alongamentos e
pedala junto com o iniciante. "Sou um tipo de coelho: vou na frente para aumentar
o ritmo", diz ele, que cobra 70 reais por hora. "Eu me sinto mais segura sabendo
que tenho o acompanhamento de um profissional", afirma a estudante Kelly Georges,
aluna de Oliveira há um ano. "Além disso, César não
me deixa faltar às aulas."  | | Maisena,
há 29 anos no Ibirapuera: 400 modelos à disposição |
Ciclistas mulheres como Kelly formam quase um terço do total de aficionados
em São Paulo, mas a participação feminina tem aumentado 15%
ao ano. A designer Graciella de Moraes deu as primeiras pedaladas por recomendação
médica, passou a competir e pegou gosto. Faz parte do quarteto feminino
da BK Sports e acorda às 5 da manhã, quatro dias por semana, para
treinar. "Antes eu me sentia culpada por sair cedo de casa e deixar todos dormindo",
diz Graciella. "Hoje, os amigos dos meus filhos adoram ver minha bicicleta e minhas
medalhas. Virei o orgulho da família." Onde
praticar • Na Cidade Universitária,
os pelotões se encontram às terças e quintas, às 6h
e às 19h. Aos sábados, os treinos começam por volta das 6h30.
• O dia preferido dos grupos que pedalam na Rodovia
dos Bandeirantes é o domingo, perto das 8 da manhã. Eles se encontram
no Rancho da Pamonha, no quilômetro 23. •
O Sampa Biker's organiza pedaladas noturnas às quartas-feiras, com saída
às 21h da pizzaria Camelo (Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 151,
Itaim Bibi). Informações,
3045-2722, www.sampabikers.com.br.
• Outra opção é a loja Bike
Time (Rua Luís Góis, 1343, Saúde,
5072-3608), que organiza passeios de duas horas, às quintas-feiras, às
21h. • Sites divulgam competições,
eventos e passeios. Confira: www.andersonbicicletas.com.br,
www.bikezone.com.br e
www.nightbikers.com.br.
• Parques como o Villa-Lobos e o Ibirapuera são
bons lugares para quem não tem bicicleta própria. Pode-se alugar
uma nos portões de entrada (de 4 a 8 reais por hora).
• Atletas costumam se preparar para provas de alta velocidade no Velódromo
de Caieiras, na Grande São Paulo. |
O
mundo dos aros e guidões 4 milhões de
bicicletas formam a frota total da cidade. Pelo menos 300 000 circulam diariamente
70% dos
ciclistas são homens. A participação feminina aumenta num
ritmo de 15% ao ano 500 000 magrelas
foram vendidas em São Paulo em 2004. O número cresce 5% ao ano desde
2000 290 a 18 000 reais é
o que pode custar uma bicicleta zero-quilômetro 45%
das pessoas que pedalam usam a bicicleta para transporte,
30% por lazer, 20% são crianças e 5% usam por esporte
650 calorias são
gastas em uma hora de pedalada de ritmo moderado 15
000 paulistanos estão cadastrados no Sampa
Biker's, um dos grupos mais tradicionais da capital
Fontes: Caloi, Associação Nacional de Transporte Público
e Sampa Biker's |
Uma
magrela para cada modalidade  | | O
câmbio, de 27 marchas, garante bom desempenho em trilhas e trechos com lama
|
 | | Os
modelos para corrida são mais leves e atingem altas velocidades, como esta Ricci
Augusta (5 620 reais) |
|
*
Colaborou Luisa Alcantara e Silva |