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Walcyr
Carrasco
Por
água abaixo
As
promessas de Ano-Novo ficam para depois do Carnaval
Há
alguns meses, quando eu corria na esteira, aconteceu uma coisa
surpreendente. Um amigo observou o marcador do ritmo cardíaco
e comentou:
Seu ritmo está diminuindo, em vez de aumentar!
Devia ser o contrário!
Respondi, já me sentindo um superesportista:
Sou um alienígena.
Só se guardar a nave na barriga!
Cautelosamente, abaixei os olhos para minha cintura roliça.
Pela milésima vez, fiz o voto:
Vou emagrecer!
Bem, o fim de ano se aproximava. Transformei a decisão
na minha principal promessa, além das usuais: ser bom,
me apaixonar e escrever um grande livro. Entretanto, há
uma grande contradição entre as promessas de
Ano-Novo e o advento do próprio. Falando claramente:
quem faz regime na ceia de Natal, por exemplo?
Fui para a casa de meu irmão, em Campinas. Quando nos
encontramos, notei que o próprio estava com uns quilinhos
a mais que da última vez. Mau sinal. Eu estava decidido
a me comportar frugalmente. Foi só deixar a valise
no quarto de hóspedes para minha cunhada anunciar:
A fogaça está pronta!
Deliciosa fogaça, feita em casa. Meu irmão acendia
o forno a lenha. Abandonamos seu filho embaixo da árvore
de Natal e corremos para a mesa. Eram 7 horas. Só saímos
à meia-noite, depois de devorar a fogaça, um
vidro de conserva de pimentões, quatro pratos de gaspacho
cada um (para quem não conhece, uma sopa fria de tomate,
espanhola), três de risoto de escarola e umas oitenta
fatias de pernil de cordeiro assado, completados por pratos
de frutas secas, uma torta de maçã, um bolo
de pistache e outro de damasco. O pobre garoto tentou nos
interromper algumas vezes para mostrar os presentes e falar
sobre Papai Noel. Nós o calávamos enfiando pedaços
de pão em sua boca.
Voltei no dia seguinte, com o coração sereno.
Foi uma exceção... a partir do Ano-Novo,
tudo vai mudar!
Na estrada, parei para comprar 3 quilos de lingüiça,
três salames e dois queijos. Evitei o doce de leite,
que engorda muito.
Bem, o fato é que não podia deixar estragar
as compras. Passei os dias seguintes chafurdando em lingüiça
frita, fazendo sanduichinhos rápidos de salame etc.
Quando a noite de Ano-Novo se aproximou, prometi:
Agora começo o regime!
Mas existe um menu das boas-entradas. Itens essenciais no
cardápio, sem os quais o ano pode se tornar um desastre.
Lentilhas, por exemplo. Ficam deliciosas quando preparadas
com pedaços de carne de porco. Doces são essenciais,
para que o ano seja ameno. Uvas. Champanhe, e quanto mais
taças melhor! Ou seja, já estava quebrando a
promessa na própria virada do ano. Não durou
um mísero segundo!
Há um fator psicológico importante nos dias
que se seguem ao Ano-Novo. Muitas das compras estão
lá, intactas. Panetones. Bolos. Doces. Bebidas. Também,
há quem nos presenteie com mais... panetones, bolos,
doces e bebidas! Começar o ano desperdiçando,
nem pensar!
Dediquei as últimas duas semanas a aproveitar! Sempre
decidido a começar o regime no dia seguinte, pois promessa
de Ano-Novo é sagrada! Além do mais, minha vaidade
também conta. Havia prometido a mim mesmo estar esbelto
para ir à praia. Realmente, existe algo de irreconciliável
entre fazer bonito no verão e se divertir nas festas!
Suspiro. O Carnaval está aí. Carnaval sem cerveja
não dá. Cerveja sem batata frita não
dá. Batata frita sem lingüiça fritinha
no prato para acompanhar... E para que começar agora
se é para quebrar daqui a pouco?
Adiei minha promessa de Ano-Novo para depois do Carnaval.
Dizem que o país só funciona depois da passagem
das escolas de samba. Farei o mesmo com todas as minhas promessas.
Incluindo o tal grande livro, que nem comecei a escrever.
Depois de tanta orgia gastronômica... só agüento
dar um cochilo!
Enquanto isso, minha barriga... Se antes abrigava uma nave
alienígena, agora é capaz de guardar um aeroporto
inteiro!
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