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CRÔNICA
Papai Noel às avessas
Walcyr Carrasco
Eu tinha uns 8 anos. Minha mãe era dona
de um pequeno bazar no interior. Vendia um pouco de tudo. Principalmente,
brinquedos.
Ser filho da dona do bazar não era
tão vantajoso assim. Meus pais viviam com dificuldades. Eu
não podia nem abrir as caixas e tocar nos brinquedos. Durante
a época das festas, ficava a maior parte do tempo na loja,
vendo minha mãe trabalhar. Morávamos nos fundos. Dezembro
não era, para mim, um mês tão especial. Mamãe
não tinha ajudante. Cozinhava nos intervalos, quando não
havia clientes (meu pai trabalhava fora). Em dezembro, com a loja
cheia, era impossível. Passávamos o mês a sanduíches!
Naquele Natal, eu não pedira brinquedo
algum. Meus sapatos estavam velhos. Apertados. O dedão fizera
um buraco na ponta do pé direito. A moda do tênis ainda
não existia. Meu maior desejo era ganhar um par de sapatos
novos.
Nunca vou me esquecer. Em uma noite próxima
ao Natal, quando o bazar ficava aberto até mais tarde, entrou
um senhor alto, distinto, de terno. Mamãe o recebeu com sorrisos.
Era um fiscal. Pediu para ver o livro-caixa. Examinou, examinou,
enquanto minha mãe, assustada, atendia as freguesas. Ameaçou
com multas horríveis. Em seguida, revelou: estava disposto
a esquecê-las a troco de uma boneca para a netinha.
Naquele ano, mamãe fizera um grande
investimento ao comprar uma boneca de porcelana, de cabelo loiro
e olhos azuis. Enorme e caríssima. Pretendia alcançar
um bom lucro. Foi justamente a que o homem escolheu.
É muito grande para a sua netinha!
mamãe quis convencer.
Nada feito. Fez questão de levar a
mais cara. Ou aplicaria tantas multas sobre o pequeno negócio
da família que iríamos à falência. Ainda
me lembro do riso nervoso de mamãe, se despedindo sem muita
sinceridade:
Feliz Natal!
Não nego que a loja tivesse irregularidades.
Uma comerciante modesta, e com pouca escolaridade, como mamãe,
não conseguia lidar com a selva de impostos e taxas. Nem
lucrava o suficiente para pagar a um contador.
No Natal, não ganhei os sapatos. Apenas
um brinquedo, retirado às pressas da prateleira. Meus sapatos
novos só vieram em janeiro, quando mal podia andar com os
antigos, de tão apertados! Confesso: fiquei encantado com
aquele senhor, tão poderoso. Passei a sonhar em ser fiscal.
Como seria bom entrar nas padarias, pegar quantos doces quisesse,
sem pagar! Entrar nas lojas e sair levando brinquedos, roupas e,
é claro, sapatos!
Um dia contei meu plano ao sapateiro, nosso
vizinho:
Quando crescer, quero ser fiscal.
Era um senhor ligado a um partido de esquerda,
clandestino. Perguntou o motivo de tal escolha profissional. Contei.
Por pouco não me puxou as orelhas, de tão bravo.
É isso que você quer,
roubar pessoas como sua mãe?
A seguir, completou:
Sua mãe também estava
errada, ao dar a boneca!
Levei um susto. Nunca imaginara que um ladrão
poderia andar tão bem-vestido. Ser respeitado, como o senhor
fiscal. Fui falar com mamãe.
Foi por causa do prejuízo com
a boneca que não pude comprar seus sapatos no Natal
explicou ela.
Levei um choque. Que os bons fiscais me perdoem
e já conheci muitos na vida , mas nunca mais
me esqueci daquele homem. Nem do sofrimento de mamãe, nem
do meu dedão saindo pelo buraco do sapato velho. Foi meu
Papai Noel às avessas.
Agora que o Natal se aproxima, a lembrança
fica mais viva. Quando abro os jornais e revistas e vejo histórias
de corrupção e processos que não acabam mais,
penso em outros garotinhos como eu. Meninos que ficarão sem
alguma coisa fundamental, como meu ambicionado par de sapatos.
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