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15 de dezembro de 2004
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CRÔNICA

Papai Noel às avessas

Walcyr Carrasco


Eu tinha uns 8 anos. Minha mãe era dona de um pequeno bazar no interior. Vendia um pouco de tudo. Principalmente, brinquedos.

Ser filho da dona do bazar não era tão vantajoso assim. Meus pais viviam com dificuldades. Eu não podia nem abrir as caixas e tocar nos brinquedos. Durante a época das festas, ficava a maior parte do tempo na loja, vendo minha mãe trabalhar. Morávamos nos fundos. Dezembro não era, para mim, um mês tão especial. Mamãe não tinha ajudante. Cozinhava nos intervalos, quando não havia clientes (meu pai trabalhava fora). Em dezembro, com a loja cheia, era impossível. Passávamos o mês a sanduíches!

Naquele Natal, eu não pedira brinquedo algum. Meus sapatos estavam velhos. Apertados. O dedão fizera um buraco na ponta do pé direito. A moda do tênis ainda não existia. Meu maior desejo era ganhar um par de sapatos novos.

Nunca vou me esquecer. Em uma noite próxima ao Natal, quando o bazar ficava aberto até mais tarde, entrou um senhor alto, distinto, de terno. Mamãe o recebeu com sorrisos. Era um fiscal. Pediu para ver o livro-caixa. Examinou, examinou, enquanto minha mãe, assustada, atendia as freguesas. Ameaçou com multas horríveis. Em seguida, revelou: estava disposto a esquecê-las a troco de uma boneca para a netinha.

Naquele ano, mamãe fizera um grande investimento ao comprar uma boneca de porcelana, de cabelo loiro e olhos azuis. Enorme e caríssima. Pretendia alcançar um bom lucro. Foi justamente a que o homem escolheu.

– É muito grande para a sua netinha! – mamãe quis convencer.

Nada feito. Fez questão de levar a mais cara. Ou aplicaria tantas multas sobre o pequeno negócio da família que iríamos à falência. Ainda me lembro do riso nervoso de mamãe, se despedindo sem muita sinceridade:

– Feliz Natal!

Não nego que a loja tivesse irregularidades. Uma comerciante modesta, e com pouca escolaridade, como mamãe, não conseguia lidar com a selva de impostos e taxas. Nem lucrava o suficiente para pagar a um contador.

No Natal, não ganhei os sapatos. Apenas um brinquedo, retirado às pressas da prateleira. Meus sapatos novos só vieram em janeiro, quando mal podia andar com os antigos, de tão apertados! Confesso: fiquei encantado com aquele senhor, tão poderoso. Passei a sonhar em ser fiscal. Como seria bom entrar nas padarias, pegar quantos doces quisesse, sem pagar! Entrar nas lojas e sair levando brinquedos, roupas e, é claro, sapatos!

Um dia contei meu plano ao sapateiro, nosso vizinho:

– Quando crescer, quero ser fiscal.

Era um senhor ligado a um partido de esquerda, clandestino. Perguntou o motivo de tal escolha profissional. Contei. Por pouco não me puxou as orelhas, de tão bravo.

– É isso que você quer, roubar pessoas como sua mãe?

A seguir, completou:

– Sua mãe também estava errada, ao dar a boneca!

Levei um susto. Nunca imaginara que um ladrão poderia andar tão bem-vestido. Ser respeitado, como o senhor fiscal. Fui falar com mamãe.

– Foi por causa do prejuízo com a boneca que não pude comprar seus sapatos no Natal – explicou ela.

Levei um choque. Que os bons fiscais me perdoem – e já conheci muitos na vida –, mas nunca mais me esqueci daquele homem. Nem do sofrimento de mamãe, nem do meu dedão saindo pelo buraco do sapato velho. Foi meu Papai Noel às avessas.

Agora que o Natal se aproxima, a lembrança fica mais viva. Quando abro os jornais e revistas e vejo histórias de corrupção e processos que não acabam mais, penso em outros garotinhos como eu. Meninos que ficarão sem alguma coisa fundamental, como meu ambicionado par de sapatos.

     
   
 
 
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