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15 de outubro de 2003
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Aeroporto

Histórias e personagens do surpreendente
mundo de Cumbica, da bióloga que controla
a proliferação de pássaros para evitar acidentes aos passageiros que jogam
fora aparelhos de som para não pagar
excesso de bagagem

Erika Sallum e Otávio Canecchio
Fotos Heudes Regis


Cumbica é um mundo de surpresas. A primeira delas está em seu próprio nome oficial: Aeroporto Internacional Governador André Franco Montoro. Mas, da mesma forma que ninguém conhece o gigante de Guarulhos por essa designação, as surpresas ficam escondidas ou raramente são notadas pelos 30 000 passageiros que todos os dias chegam e partem em 500 vôos operados por 39 companhias aéreas. Ou pelos 33 000 funcionários que lá trabalham. Entre eles, há uma bióloga que passa parte do dia com binóculos em busca de urubus e garças. Sua função é controlar a proliferação de pássaros, que podem entrar nas turbinas dos aviões e causar acidentes. Há um técnico em agricultura que cuida de um enorme viveiro com mais de 300 espécies de plantas, as mesmas que se vêem espalhadas pelos vasos nos saguões de embarque. Há uma mulher que tem a tarefa de atender reis, rainhas, presidentes e celebridades em geral, assegurando sua privacidade enquanto aguardam o momento do embarque. E há, sobretudo, profissionais que vivem sob tensão permanente, sem poder errar no desempenho da missão mais importante na operação do maior aeroporto da América do Sul: garantir a segurança dos viajantes e das aeronaves.

 

Um urubu na pista? Chame a Miriam


Não faz muito tempo, os radares instalados nas pistas começaram a apitar. Era uma família de capivaras que, com toda a tranqüilidade, passeava entre os aviões de carreira. Imediatamente a segurança acionou Miriam Farid Barakat. Os bichos foram capturados e encaminhados ao Ibama. Desde 2000 em Cumbica, ela é a primeira bióloga a trabalhar num aeroporto brasileiro. Sua função é monitorar os animais que circulam por lá, em especial os pássaros, capazes de causar acidentes aéreos. Uma vez por dia, Miriam e seus quatro ajudantes, munidos de binóculos, observam as pistas em busca de urubus, garças e quero-queros (como o filhote que ela segura nesta foto). "Tenho de tornar o espaço do aeroporto o mais desagradável possível para eles", diz. Anos atrás, os urubus eram espantados com rojões. Hoje são usadas técnicas menos barulhentas. O gramado próximo às aeronaves, por exemplo, é cortado em uma altura específica – nem muito baixa, para evitar que apetitosas minhocas sejam vistas, nem muito alta, para impedir que ele sirva de ninho.

 

O homem da torre


Posicionado numa sala futurista a 38 metros de altura, o supervisor da torre de controle, Myron José Coelho, tem um papel fundamental no aeroporto. Ele e sua equipe comandam os 500 pousos e decolagens diários de Cumbica. No pico noturno – das 21h30 às 22h30 –, chegam a monitorar 52 operações, o que dá quase um vôo por minuto. A habilidade e o sangue-frio do controlador de vôo são fundamentais para evitar qualquer tipo de erro. Em 1989, no começo de sua carreira, Coelho passou por uma prova de fogo. Durante a aterrissagem de uma esquadrilha, um urubu espatifou-se contra a cabine de um dos aviões. Em poucos segundos, ele foi obrigado a autorizar um pouso de emergência da aeronave atingida. "Tudo terminou bem, mas levamos uma semana para limpar os pedaços do bicho espalhados pelo avião", conta. O contato da torre com os pilotos estrangeiros é sempre feito em inglês. Ou algo próximo ao inglês, conforme acontece no diálogo com muitos pilotos asiáticos. "Em geral, eles têm uma pronúncia complicada", diz Coelho. "Certa vez, só fui entender que um avião seguiria para Los Angeles depois de muita conversa."

 

O culpado dos atrasos


O supervisor Délcio Cardoso da Silva trabalha há anos sob pressão. Por suas mãos passam turbinas, motores, asas e rodas tamanho-família. Ele é responsável pela manutenção da frota da TAM e cuida diretamente de 31 aviões, entre Fokker 100 e Airbus A320 e A330. Sabe quando um vôo é cancelado por problemas técnicos? "Culpa" do Délcio, que verifica todos os dias vazamentos de óleo, parafusos desregulados, faróis queimados, pneus carecas. Cada reparo é meticulosamente documentado, segundo leis internacionais de aviação. "Nada aqui é feito 'de cabeça'. Um pequeno deslize pode causar a morte de centenas de pessoas", afirma esse baiano de 36 anos. Seu currículo inclui cursos e treinamentos em diversos países, como Holanda e Alemanha. Recentemente ficou seis meses entre Frankfurt e Miami aprendendo a mexer nos modelos Airbus. Num único dia, dependendo da sorte, chega a precisar arrumar quatro aviões ao mesmo tempo. A maior frustração é quando tem de reter um vôo por falhas mecânicas. "Mas antes atrasar uma viagem que causar um acidente..."

 

O avião do Duty Free


Às 5 horas da manhã, ela já está pronta. E linda. Maquiagem no rosto, cabelo bem-arrumado, dificilmente passa despercebida por quem chega a São Paulo pelo Terminal 1 da ala internacional. Com 1,82 metro de altura e poderosos olhos azuis, a vendedora Rebeca Karpuk trabalha no setor de cosméticos do Duty Free. Seu turno, que vai até as 14 horas, é o mais movimentado. Não raro ela tem de se desdobrar para atender a quatro, cinco vôos. Gente de várias partes do mundo, quase sempre cansada e, muitas vezes, de mau humor. "Meu segredo? Manter o sorriso e ter jogo de cintura", diz ela. Rebeca faz parte de um quadro de 280 funcionários espalhados pelas cinco lojas do Duty Free em Cumbica. Após uma extensa reforma, a rede vende hoje 8.000 itens, o que inclui roupas das marcas Gap e Banana Republic, parafernálias eletrônicas, perfumes, bebidas, canetas, relógios... Cada passageiro que desembarca pode fazer compras no valor de até 500 dólares. Mesmo com novas opções, os dois campeões de venda se mantêm há anos: o uísque Johnnie Walker Red Label (16 dólares) e o perfume Polo Ralph Lauren feminino (37 dólares). Diante de tantas tentações, a bela Rebeca aprendeu a se controlar, já que, como todos os que trabalham no free shop, ela não pode comprar nada dali. "Pelo menos fico sabendo de antemão dos lançamentos de beleza", consola-se.

 

Guardião do verde


Existe um jardim botânico em Cumbica. Trata-se de um belíssimo viveiro de plantas localizado a alguns metros das pistas. Em horários de pouco movimento aéreo, quando há uma breve pausa no irritante barulho das turbinas, andar por ali faz lembrar um passeio na mata. Com 6,5 hectares e mais de 300 tipos de vegetal, esse imenso jardim conta com diversos exemplares de palmeira-imperial, pau-brasil, araribá, açaí... Construído numa antiga área de brejo, foi criado antes mesmo da inauguração das pistas, para dar um pouco de verde a esse mundo de concreto, granito e vidro. "É daqui que saem as 2.000 plantas que enfeitam todo o aeroporto", diz o técnico em agricultura Valnei Jorge, funcionário do viveiro há duas décadas. "Olha esta Sapindus saponaria, que linda!", aponta, referindo-se a uma árvore chamada popularmente de sabão-de-soldado. Ele sabe de cor o nome das espécies e cuida das pequenas mudas cultivadas nas estufas como se fossem suas filhas. "Quando cheguei, este terreno não passava de um lamaçal", lembra. "Hoje isto aqui parece uma floresta de tanto mato." Uma pena: o viveiro não está aberto ao público. Mas visitas podem ser agendadas pelo 6445-2827.

 

Para ele, só existe tempo ruim


Nebulosidades, fluxos de vento, frentes frias, tempestades e até possíveis furacões. A cada vôo, o gaúcho Mauro Neutzling Lehn traça um mapa meteorológico detalhado para os aviões que decolam de Guarulhos. O relatório aponta as adversidades de tempo que poderão ser enfrentadas durante a viagem. É um documento essencial para os pilotos. "Passo todas as informações, mas a responsabilidade de voar é exclusiva do comandante", explica Lehn. Seu índice de acertos supera os 80%. "O padrão internacional determina um mínimo de 70% de previsões corretas", afirma. Apesar da eficiência dos estudos, suas recomendações nem sempre são acatadas. O piloto de um cargueiro que seguia para Cascavel, no Paraná, ignorou certa vez uma linha de instabilidade que havia sido identificada em sua rota. "Avisei que seria um vôo difícil por causa das péssimas condições climáticas", conta. Ele não lhe deu atenção e resolveu seguir viagem. Horas mais tarde, a aeronave enfrentou uma tempestade e caiu. A tripulação morreu no acidente.

 

As elegantes salas onde poucos entram


Para poderosos e endinheirados dispostos a pagar por conforto e privacidade, o aeroporto de Guarulhos oferece as chamadas salas vip. A Varig tem duas na ala internacional. Uma delas para os passageiros da classe executiva e outra, uma das mais luxuosas de Cumbica, para os que viajam de primeira classe. Esta última oferece macias poltronas de couro, sala de massagem, toaletes com chuveiros e taças de champanhe. Quem aguarda o embarque lá instalado é porque comprou uma passagem caríssima. A de ida e volta para Paris, por exemplo, custa 3.016 dólares na executiva e 6.632 dólares na primeira classe. Na classe econômica, pode-se fazer a mesma viagem por 824 dólares. "O clima é tão agradável que muitas vezes precisamos acordar um passageiro que cochilou para ele não perder o vôo", conta o discreto supervisor Reinaldo Marchesano, que já recepcionou figuras como Roberto Carlos, Pelé, Ronaldinho e Gisele Bündchen.

Além das salas vip das empresas aéreas, existe uma outra, ainda mais exclusiva. Ela pertence à Infraero, a estatal que administra o aeroporto, e destina-se a acolher, antes do embarque, autoridades políticas e celebridades. Sob o comando da coordenadora de comunicação social Vera Biojone, essa sala recebeu, por exemplo, Margaret Thatcher e Fidel Castro. Há dezoito anos na Infraero, Vera presenciou cenas marcantes – e algumas um tanto hilárias. Ao chegar para uma visita oficial ao Brasil, uma princesa da Tailândia sentou-se no sofá. Poucos segundos depois, seu marido e a consulesa daquele país começaram a andar de joelhos. "Pensei que estivessem procurando algo no chão", conta Vera. "Que nada! Pelas regras oficiais, ninguém pode ficar acima da Coroa. Ou seja, quando a princesa senta, todos são obrigados a se abaixar..." Faz parte do trabalho de Vera atender as personalidades que passam pelo aeroporto, como o Dalai Lama. "Eu caminhava a seu lado quando de repente escorreguei", lembra-se. "Ele imediatamente pegou meu braço e me salvou da queda."

 

Perdeu uma prancha de windsurfe por aí?

Passageiros esquecem de tudo pelos saguões, banheiros e restaurantes de Cumbica. As duas pequenas salas de achados e perdidos da Infraero estão lotadas dos mais variados objetos: prancha de windsurfe, berimbau, muletas, bengalas, tacos de golfe, quadros a óleo, cadeira de rodas, dentadura... Os pertences são guardados pelos funcionários Paulo Martins Faria e João Aparecido Soares Gonçalves. Cerca de 1.700 itens estão no local esperando por seus donos. Alguns nunca virão. São aqueles que abandonaram num canto qualquer do aeroporto, propositadamente, compras das quais se arrependeram ou que não conseguiram carregar. Outros esquecem mesmo e só se dão conta da distração quando chegam ao destino. Há pouco tempo foi encontrada no banheiro uma boneca velha. Não demorou para a dona, que mora em São Luís, no Maranhão, telefonar para Cumbica. "Era uma mãe desesperada, pois sua filha ficou doente pela falta do brinquedo", conta Faria. Em uma viagem para o Nordeste, o humorista Tom Cavalcante esqueceu uma mala lotada de perucas e roupas. "Despachamos para ele no mesmo dia", diz Gonçalves. Existe ainda o passageiro que prefere deixar algo pesado no aeroporto para não pagar excesso de bagagem. É o caso de um aparelho de som que ocupa uma das prateleiras dos depósitos há várias semanas, sem que ninguém tenha aparecido para reclamar.

 

"Do you want a taxi, sir?"

Com essa frase e um jeitão simpático, o taxista Hermínio Silva recebe estrangeiros que desembarcam em Cumbica. Dono de um Omega, ele é veterano no pedaço: começou a trabalhar ali um mês após a inauguração de Guarulhos, em 1985. Já transportou muita gente famosa, como Fausto Silva, Fafá de Belém e Cauby Peixoto. Para entender os estrangeiros, fez curso de inglês e se comunica com desenvoltura razoável, apesar do sotaque carregado. "Hoje converso com americano, japonês, alemão e árabe numa boa", conta. Composta de 653 táxis, a Guarucoop, cooperativa que administra o serviço no aeroporto, desfrutou dias melhores. A principal causa da queda do movimento são as pesadas tarifas impostas aos passageiros. Uma corrida para Pinheiros, por exemplo, custa 72 reais. Para o Morumbi, 86 reais. Em vista disso, foi criado um sistema de rodízio em que cada motorista pode fazer apenas duas corridas diárias e folga algumas vezes por semana. Mesmo assim, Silva garante que o ponto vale a pena. Em um mês bom, chega a tirar quase 3.500 reais brutos. "Aqui é uma delícia", afirma. "Conheço pessoas de todo canto, faço amizades e tenho segurança para trabalhar. E ainda aproveito para praticar meu inglês, right?"

 

O quebra-cabeça da pista

Parece um daqueles tabuleiros de jogos ou um imenso quebra-cabeça. Na verdade, trata-se de uma complexa planilha de vôos, na qual ficam dispostas várias peças. Cada uma delas representa um avião. Debruçado sobre o quadro, o programador Valter Roberto de Andrade distribui atentamente as 24 posições disponíveis para o estacionamento das aeronaves. Em cada uma dessas "garagens", os aviões são abastecidos e recebem os passageiros. Com um olho no tabuleiro e outro nos seis monitores que estão à sua frente, Andrade acompanha, no Centro de Operações da Infraero, todas as manobras que ocorrem no pátio. O minucioso trabalho requer conhecimentos técnicos sobre os aviões e o espaço geográfico do aeroporto. Basta um simples tocar das asas de duas aeronaves para provocar atrasos nas viagens. "Se eu colocar lado a lado dois modelos de grande porte, posso causar um acidente", explica. No quebra-cabeça real de Andrade, tudo tem de se encaixar perfeitamente. Do contrário, a pista irá parar. "Não posso errar", diz ele.

 

Outro nome, outra personalidade


Toda semana, quando chega a Cumbica para fazer mais uma viagem ao exterior, a ex-professora de judô Daniela Sciarra transforma-se em uma nova pessoa. É só cruzar o saguão do Terminal 1 para ela virar a comissária de bordo Naomi. É seu nome de guerra no trabalho. "Não é só o nome que muda, eu assumo outra personalidade", afirma. "Preciso ser mais sorridente e gentil, deixar a timidez de lado e transmitir confiança." Há oito anos na TAM, ela começou na profissão quando uma colega comentou sobre um concurso para aeromoça. "Fiz o teste sem muitas pretensões", conta. "Já a minha amiga, que sonhava com a carreira, não passou." Durante o segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ela fez parte da tripulação que o acompanhava nas viagens oficiais. "Tive a oportunidade de conhecer o mundo inteiro", diz. Atualmente, ela é a chefe dos comissários de bordo nos vôos para Buenos Aires, Miami e Paris. Numa viagem nacional entre Brasília e São Paulo, passou pelo maior sufoco de sua vida. Enquanto fazia o serviço de bordo, o avião enfrentou uma forte turbulência. "A comida caiu no chão e as garrafas quebraram", conta. "Foi o único dia em que senti medo de voar."

 

Um senhor pombo-correio

Tudo acontece na madrugada. Em um enorme galpão vizinho às pistas, um batalhão de quase 200 pessoas trabalha ininterruptamente entre 23 e 3 horas para separar as 300 toneladas de correspondências que todas as noites passam pelo aeroporto. "Recebemos aqui 60% das cartas e encomendas que circulam por via aérea no Brasil", diz Sérgio Pereira, 52 anos, gerente do Terminal de Cargas dos Correios em Guarulhos. Muitas delas fazem apenas conexão em São Paulo e têm de ser redespachadas a seu destino em poucas horas. Assim que o turno começa, empilhadeiras, carregadores, caminhões e aviões cargueiros tomam o galpão. Com o inseparável walkie-talkie, Pereira supervisiona cada detalhe de perto para que nenhuma das gigantescas montanhas de cartas seja entregue em endereço incorreto. "Gosto do que faço e sei que, com atenção e uma equipe bem treinada, dificilmente algo sai errado."

 

         
     
 
 
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