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15 de outubro de 2003
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Mil e uma utilidades

Wlacyr Carrasco

Já não sei o que pensar. A palavra casamento está mudando de significado muito rapidamente. Encontrei com uma amiga minha, que me contou, feliz da vida:

– Estou casadíssima!

Cumprimentei, um tanto chateado por não ter sido convidado para a festa. Sou do tipo que adora comer bolo com dois noivinhos em cima. Lá pelas tantas, descobri. O casal estava junto havia três meses. Saía somente no fim de semana. Ela continuava na casa dos pais. Nada de papel, cerimônia.

– Ah, você está namorando.

– Nada disso. É casamento!

Fiquei na minha. Pensei: "Quando ela diz casamento, quer dizer namoro". É um problema de vocabulário. Aconteceu o mesmo com um amigo. Íamos fazer um curso juntos, bem cedo. Pedi que me ligasse, pois estava sem despertador. Para não esquecer, deixou um lembrete na cômoda. Saiu. Às 10 da noite, recebo o telefonema de uma jovem.

– Alô! Eu sou a esposa do Marquinhos! Eu vi seu telefone anotado, ele está aí?

Não estava. Depois do curso, conversei com ele:

– Puxa, você é meu amigo há tanto tempo, casou e nem me disse?

– Casei quando?

A namorada se apresentava como esposa. Ele ficou furioso.

– Não quero casar.

– Nesse caso, você está com um problema – refleti. – Ela já casou!

Tudo aquilo que eu entendia como casamento perdeu o significado. Para mim, era um compromisso assumido oficialmente. Até conheci quem fosse contra. Casais que preferiam viver juntos sem se casar. Era uma forma de rebeldia. Perfeitamente compreensível. Cada qual com sua opinião. Agora, acontece o oposto! Existem casais que passam por tudo: igreja, cartório. Na volta da lua-de-mel, cada qual vai para seu apartamento.

– Nós nos casamos, mas não vivemos juntos – conta uma amiga.

– Por quê?

– Ele acha mais confortável continuar no apartamento dele, e eu no meu. A gente se visita quando dá vontade.

Então, por que passar por todo o ritual? Pior: será que agora, com os convites, os casais vão pedir duas geladeiras, dois microondas? Céus! Espero não ser chamado para padrinho de uma dupla dessas! Por outro lado, há quem considere o simples fato de morar sob o mesmo teto um casamento oficial. Tenho um amigo que se "casou" três vezes nos últimos dois anos.

– Agora casei para valer! – diz ele, de cada vez.

Por medida de economia, desisti de dar presente a tal figura. Sempre que vou visitar o novo casal, em um novo lar, levo um vasinho de flores. Na hora da separação, um pode atirar na cabeça do outro.

O problema não termina aí. Quem é casado há muito tempo odeia o termo.

– Estamos namorando – diz uma conhecida.

– Vocês não são casados? Eu pensei que...

Ela retruca, irritada:

– Entramos em uma nova fase. Agora estamos namorando.

– Escuta, o namoro não vem antes do casamento?

Ouço um suspiro. Ela desiste, convencida de que sou um asno.

Claro que entendo. Quer dizer que o casamento está passando por uma nova fase, mais romântica. Já quem gosta de dizer que está casado pretende demonstrar que o relacionamento é sólido. Mesmo que troque de parceiro a cada mês. Faltam, é verdade, palavras adequadas. Ninguém vai apresentar a garota dizendo:

– Ela é minha amásia.

Ou:

– Estamos amancebados!

Horrendo! Embora sejam termos plenamente aceitos nos meios jurídicos. Pessoalmente, ainda prefiro o velho e bom "estamos juntos". Mas é duro entender o que está acontecendo sem fazer perguntas inconvenientes. O termo casamento ganhou, sim, mil e uma utilidades. E, quando uma palavra quer dizer muita coisa, acaba não dizendo coisa nenhuma.

 

         
     
 
 
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