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CRÔNICA
Mil
e uma utilidades
Wlacyr
Carrasco
Já
não sei o que pensar. A palavra casamento está mudando
de significado muito rapidamente. Encontrei com uma amiga minha,
que me contou, feliz da vida:
Estou casadíssima!
Cumprimentei,
um tanto chateado por não ter sido convidado para a festa.
Sou do tipo que adora comer bolo com dois noivinhos em cima. Lá
pelas tantas, descobri. O casal estava junto havia três meses.
Saía somente no fim de semana. Ela continuava na casa dos
pais. Nada de papel, cerimônia.
Ah, você está namorando.
Nada disso. É casamento!
Fiquei
na minha. Pensei: "Quando ela diz casamento, quer dizer namoro".
É um problema de vocabulário. Aconteceu o mesmo com
um amigo. Íamos fazer um curso juntos, bem cedo. Pedi que
me ligasse, pois estava sem despertador. Para não esquecer,
deixou um lembrete na cômoda. Saiu. Às 10 da noite,
recebo o telefonema de uma jovem.
Alô! Eu sou a esposa do Marquinhos! Eu vi seu telefone anotado,
ele está aí?
Não
estava. Depois do curso, conversei com ele:
Puxa, você é meu amigo há tanto tempo, casou
e nem me disse?
Casei quando?
A
namorada se apresentava como esposa. Ele ficou furioso.
Não quero casar.
Nesse caso, você está com um problema refleti.
Ela já casou!
Tudo
aquilo que eu entendia como casamento perdeu o significado. Para
mim, era um compromisso assumido oficialmente. Até conheci
quem fosse contra. Casais que preferiam viver juntos sem se casar.
Era uma forma de rebeldia. Perfeitamente compreensível. Cada
qual com sua opinião. Agora, acontece o oposto! Existem casais
que passam por tudo: igreja, cartório. Na volta da lua-de-mel,
cada qual vai para seu apartamento.
Nós nos casamos, mas não vivemos juntos conta
uma amiga.
Por quê?
Ele acha mais confortável continuar no apartamento dele,
e eu no meu. A gente se visita quando dá vontade.
Então,
por que passar por todo o ritual? Pior: será que agora, com
os convites, os casais vão pedir duas geladeiras, dois microondas?
Céus! Espero não ser chamado para padrinho de uma
dupla dessas! Por outro lado, há quem considere o simples
fato de morar sob o mesmo teto um casamento oficial. Tenho um amigo
que se "casou" três vezes nos últimos dois anos.
Agora casei para valer! diz ele, de cada vez.
Por
medida de economia, desisti de dar presente a tal figura. Sempre
que vou visitar o novo casal, em um novo lar, levo um vasinho de
flores. Na hora da separação, um pode atirar na cabeça
do outro.
O
problema não termina aí. Quem é casado há
muito tempo odeia o termo.
Estamos namorando diz uma conhecida.
Vocês não são casados? Eu pensei que...
Ela
retruca, irritada:
Entramos em uma nova fase. Agora estamos namorando.
Escuta, o namoro não vem antes do casamento?
Ouço
um suspiro. Ela desiste, convencida de que sou um asno.
Claro
que entendo. Quer dizer que o casamento está passando por
uma nova fase, mais romântica. Já quem gosta de dizer
que está casado pretende demonstrar que o relacionamento
é sólido. Mesmo que troque de parceiro a cada mês.
Faltam, é verdade, palavras adequadas. Ninguém vai
apresentar a garota dizendo:
Ela é minha amásia.
Ou:
Estamos amancebados!
Horrendo!
Embora sejam termos plenamente aceitos nos meios jurídicos.
Pessoalmente, ainda prefiro o velho e bom "estamos juntos". Mas
é duro entender o que está acontecendo sem fazer perguntas
inconvenientes. O termo casamento ganhou, sim, mil e uma utilidades.
E, quando uma palavra quer dizer muita coisa, acaba não dizendo
coisa nenhuma.
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