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15 de setembro de 2004
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EXPOSIÇÃO

Um século de moda

Chanel, Dior, Lacroix, Saint Laurent, Versace,
Gaultier, Alaïa, Pucci... Suas criações – e as
de outros dezoito estilistas internacionais
– estarão a partir de quarta-feira na Fashion
Passion.
Com investimento de 6 milhões de
reais, é a maior mostra do gênero já promovida no país. São 150 roupas e 800 fotografias reunidas na
Oca do Parque do Ibirapuera

Marcella Centofanti

 
Emiliano Grassi
  Divulgação
Modelo Chanel da coleção outono-inverno de 2003: as roupas expostas vão dos anos 20 aos dias atuais   Dior, por Galliano, também da coleção outono-inverno de 2003: maquiagens e cores em excesso nas passarelas



Veja também
Galeria de imagens Fashion Passion
O circuito das roupas

Nos últimos cinco anos, todas as exposições promovidas na Oca, o prédio em forma de concha invertida plantado no Parque do Ibirapuera, foram grande sucesso de público. Picasso na Oca, inaugurada em janeiro último, fez girar a catraca 905.000 vezes. Para conferir as obras de Guerreiros de Xi'an e os Tesouros da Cidade Proibida, em 2003, era necessário encarar filas de até 1 quilômetro. A partir da próxima quarta-feira (15), um novo evento deverá atrair legiões de paulistanos ao museu. Desta vez, não haverá telas, esculturas, gravuras ou estátuas milenares. A mostra Fashion Passion – 100 Anos de Moda na Oca exibirá 150 roupas originais de 26 estilistas estrangeiros que marcaram época nas passarelas do século XX e cerca de 800 fotografias que ajudam a contar sua história. De uma só vez, o visitante verá criações da maison francesa Chanel, desde os anos 20 até os dias atuais, do francês Paul Poiret, confeccionadas no início do século passado, e do inglês John Galliano, hoje um dos expoentes das passarelas internacionais. Looks excêntricos do francês Jean-Paul Gaultier, que vestiu Madonna nos anos 90, também estão lá, assim como as cores e os brilhos do italiano Gianni Versace.

 
Fotos Laurent Sully Jaulmes
Balenciaga: o estilista basco estava entre os favoritos de Jacqueline Kennedy Onassis Pucci: criadas nos anos 50 e 60, as estampas coloridas são sua marca registrada

Takashi Hatakeyama
  Takashi Hatakeyama
Watanabe: inovações na moda parisiense   Comme des Garçons: as criações
de vanguarda de Rei Kawakubo abalaram
a moda



Divulgação
Courrèges: viagens
espaciais da década
de 60 influenciaram seus looks


Mostras do gênero são, em primeiro lugar, um espetáculo para os olhos. Em segundo, uma forma de conhecer as mudanças de comportamento, a evolução dos costumes e a transformação do papel da mulher na sociedade moderna. Por sua importância sociocultural e econômica, a moda já chegou a grandes museus internacionais. O Guggenheim de Nova York, por exemplo, organizou em 2000 uma retrospectiva das roupas do estilista italiano Giorgio Armani, enquanto Londres e Paris têm espaços exclusivos dedicados a ela. Por aqui, no entanto, esta é uma exposição sem precedentes. Quem for à Oca verá como a francesa Madeleine Vionnet recriou o look nos anos 20, quando as mulheres se livravam dos sufocantes espartilhos. Ou saberá que foi o francês Yves Saint Laurent o responsável nos anos 60 por adaptar blazers, ternos e sobretudos masculinos ao guarda-roupa feminino. "Moda não é arte", afirma Jean-Louis Froment, fundador do Museu de Arte Contemporânea de Bordeaux e curador-geral da Fashion Passion. "Mas chega bem perto dela quando transgride as regras e transforma o futuro."

Froment e os outros organizadores levaram mais de um ano para reunir peças de alguns dos principais ícones da moda. No egocêntrico mundo da alta-costura, é quase um milagre convencer grandes maisons a apresentar suas criações lado a lado com os concorrentes. Eles conseguiram. Depois dos 26 estilistas ou das grifes com seus nomes, foram contatados museus, colecionadores particulares, fotógrafos e agências. As roupas e as fotos vêm de onze países: Brasil, Argentina, França, Itália, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Espanha, Japão, Bélgica e Canadá. Entre transporte, seguro, direitos, montagem, produção e pagamento de colaboradores, foram gastos perto de 6 milhões de reais, o equivalente ao custo de Picasso na Oca. "É a exposição mais trabalhosa que promovemos", acredita Emilio Kalil, presidente da BrasilConnects, responsável pela Fashion Passion. "Ela ficou tão boa que começo a pensar em levá-la para Paris", diz o banqueiro e colecionador de arte Edemar Cid Ferreira, presidente do conselho da empresa.

O evento dividiu os quatro andares da Oca em onze pavilhões (veja quadro). É pelo subsolo que se começa a visita. Para chegar lá, passa-se por um lance de escada, especialmente construída. Essa disposição tem um motivo: na concepção de Froment, descer degraus é fashion. A partir daí, o espectador pode seguir a ordem dos pavilhões, com dois ou três estilistas num mesmo espaço. Os cenógrafos Daniela Thomas e Felipe Tassara, autores do projeto, separaram os ambientes por cores. O primeiro, batizado de Os Viajantes do Extremo, que abriga Galliano, Poiret e o francês Christian Lacroix, é laranja, vermelho e vinho. O seguinte, Chanel, a Lenda, é bege. Por sinal, a mitológica estilista francesa, que disseminou o pretinho básico, os sapatos abertos atrás e a bolsa a tiracolo, foi a única que ganhou um ambiente exclusivo. A viagem segue com Viktor & Rolf, Elsa Schiaparelli e Yves Saint Laurent, numa área pintada de preto e rosa. Isso tudo só no 1º pavimento. Percorrer esse e os outros três andares exige ao menos uma hora de caminhada – e um agasalho leve, mesmo em dias de calor, pois o ar-condicionado da Oca costuma funcionar a pleno vapor.

 
Emiliano Grassi
Fotos divulgação
Chanel: a maison francesa foi a única que ganhou um pavilhão exclusivo
na mostra
McQueen: até as araras amazônicas já serviram de inspiração para o inglês Vera Arruda: vestidos, jeans e biquínis representam o Brasil

Ao fim de cada pavilhão, há o que os curadores chamam de "resposta brasileira". A idéia inicial era expor roupas de estilistas nacionais. Mas a disparidade do trabalho fez com que se optasse por fotos e peças representativas da cultura popular. A resposta para o primeiro pavilhão é o Manto da Apresentação, uma veste com um emaranhado de bordados coloridos assinada pelo sergipano Arthur Bispo do Rosário. Para o nono, Dolce & Vita, uma estampa de chita faz contraponto às criações dos italianos Gianni Versace e Emilio Pucci. Já no décimo, Da Desconstrução à Reconstituição, que inclui Yohji Yamamoto, Martin Margiela e Comme des Garçons, exibe-se a foto Favela, dos irmãos Campana.

As roupas de estilistas brasileiros ficam no último andar. "Optamos pela moda jovem, de rua", explica a consultora e jornalista Gloria Kalil, que divide a curadoria brasileira com a editora de moda Regina Guerreiro. Entre os sessenta manequins, há os jeans de grifes como Zoomp, Forum e Iódice. Os biquínis de Rosa Chá e Blue Man ocupam um lugar de destaque. Podem ainda ser vistas peças de Alexandre Herchcovitch, Vera Arruda e Lino Villaventura. "Nada de carnaval", avisa Gloria. Para escolher os looks, ela e Regina passaram dias folheando revistas, revendo catálogos e conversando com especialistas na área. De bom grado, todos toparam participar. Ou melhor, quase todos. A exceção foi Ocimar Versolato. Ele teria ficado irritado com o texto de um site de notícias que o classificava como um estilista da "velha guarda", numa reportagem sobre a mostra. Versolato, único brasileiro que chegou a assumir uma maison francesa, em 1996, diz que, envolvido com a abertura de suas sete lojas, está sem tempo e preferiu ficar de fora.

Além das roupas nacionais e estrangeiras, o visitante encontrará na Oca cerca de 800 fotografias. É um acervo fascinante, que traça a evolução dos ensaios de moda ao longo dos últimos 100 anos. Poderão ser vistas fotografias feitas no início do século passado pelo alemão Barão de Meyer para revistas especializadas, cliques do inglês Cecil Beaton, que registrou em seus retratos as paredes aos pedaços da II Guerra Mundial, e trabalhos de celebridades das lentes como Cartier-Bresson, Richard Avedon, Man Ray e Helmut Newton. Na próxima terça, as imagens e as roupas estarão prontas para receber os convidados na festa de abertura. Entre as estrelas que devem comparecer, está confirmada a presença do estilista tunisiano Azzedine Alaïa. Até o fim da exposição, em dezembro, aguarda-se a vinda de John Galliano, Christian Lacroix, Jean-Paul Gaultier e Nicolas Ghesquière. Um de cada vez, é claro. Os 10.000 metros quadrados da Oca são pequenos para abrigar mais de um deles ao mesmo tempo.

Fashion Passion – 100 Anos de Moda na Oca. Parque do Ibirapuera, portão 2, 5049-0449. Terça a sexta, 9h às 20h; sábado e domingo, 10h às 20h. R$ 5,00 (estudantes) e R$ 10,00. Grátis para menores de 5 anos, pessoas com mais de 65, aposentados, deficientes físicos e grupos de escolas públicas pré-agendados (agendamento@brasilconnects.org ou 5082-2252). A partir de quarta (15). Até 5 de dezembro.

 

Cliques no túnel do tempo

As 800 fotografias registram a evolução das coleções e dos editoriais de revistas especializadas

 
Harcourt
O new look de Dior, de 1947, por
Willy Maywald: formas femininas
em saias compridas e acinturadas
Lacroix: suas cores e volumes recriaram a moda nos anos 80

A atriz Joan Crawford, fotografada por Horst P. Horst: vestindo Vionnet, em 1938 Criações de Charles James: sob as lentes de Louise Dahl-Wolfe

Retrato de 1937, para a revista Vogue: num jogo de espelhos, o fotógrafo inglês Cecil Beaton mostra modelo de Vionnet sob vários ângulos

     
   
 
 
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