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15 de maio de 2002
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"Sou uma locomotiva frenética"

Miguel Falabella domina os palcos da cidade
à frente de três espetáculos de sucesso

Maria Rita Alonso


Fotos Renato Chaui
Falabella com o elenco de Godspell (no alto) e cenas das duas outras badaladas peças que ele comanda: South American Way (à esq.) e Os Monólogos da Vagina (à dir.)


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Galeria de fotos de Miguel Falabella

Trimmmmmm... Soou o terceiro toque da campainha. A platéia de 700 lugares do Teatro Procópio Ferreira está lotada. Vai começar mais uma sessão de South American Way, musical sobre Carmen Miranda visto por 170.000 pessoas no Rio de Janeiro. Desenrola-se, então, um telão bem em frente do palco e surge a estrela das coxias: o diretor. Louro, alto, exibido, ele aparece em imagens de bastidores mandando e desmandando nos atores, técnicos, figurinistas, camareiras... Com toda essa encenação, o carioca Miguel Falabella nem precisa pisar no palco para dar seu show. Já faz seis anos que ele se transformou em personalidade teatral da cidade, com sete espetáculos que foram tremendo sucesso de bilheteria. Viveu também o esnobe Caco Antibes no programa Sai de Baixo, que era gravado em São Paulo. Agora, por trás das cortinas, arranca ainda mais aplausos. Ele assina a direção da comédia Os Monólogos da Vagina, na segunda temporada, e de Godspell, uma superprodução à la Broadway, sua atual menina dos olhos. "Minha carreira como ator nunca deu muito certo sozinha", afirma. "Foi impulsionada pelo que sou fora de cena."

Para produzir o musical Godspell, Falabella passou o chapéu para Deus e o mundo. Conseguiu 600.000 reais de patrocínio e está devendo outros 100.000. Em janeiro, alugou o Teatro Jardel Filho (18.000 reais por semana), fez testes, analisou 1.000 currículos e selecionou doze jovens atores. Um deles, Francisco Farinelli, teve na semana passada um problema nas cordas vocais. Quem quebra o galho até o fim do mês e faz o papel de Judas em seu lugar? O próprio Miguelito, como Falabella é chamado pelos íntimos. "Olham para mim e pensam: só uma criatura desequilibrada para cuidar de tantas coisas ao mesmo tempo", declara ele. "Mas detesto ficar parado. Sou uma locomotiva frenética." Um turbilhão de projetos passa por sua cabeça. Nas próximas semanas, roda O Redentor, filme de Cláudio Torres, ao lado de Fernanda Montenegro. Em agosto, dirige Ney Latorraca na peça Capitanias Hereditárias. Ainda neste ano, deve lançar um livro infantil. Tem planos para um novo musical sobre o imperador dom Pedro I e anda agitado com o sonho de fazer uma Broadway em São Paulo. Marcou um almoço com o secretário estadual da Educação, Gabriel Chalita, para apresentar seu projeto: Canta São Paulo.

"Miguel é um trabalhador compulsivo e se identifica muito com o ritmo acelerado dos paulistanos", diz o amigo José Wilker. Claro que não é só isso que faz Falabella passar mais tempo em seu apartamento na Rua Haddock Lobo que na mansão carioca de frente para o mar. "Há tempos ele está desgostoso com o Rio", entrega a autora Maria Carmen Barbosa. Na Globo, ele esquentou por quinze anos a cadeira de apresentador do Vídeo Show. O sitcom Batalha de Arroz num Ringue para Dois, escrito e protagonizado por ele e Claudia Jimenez, não tem data de estréia prevista. Desde 1998, a emissora guarda na gaveta uma novela de sua autoria, cuja trama principal se passa na redação de um jornal sensacionalista. "Miguel quer o mundo a seus pés, e em São Paulo encontrou seu grande mercado", acredita Maria Carmen, sua parceira em seis textos, entre eles South American Way e Loiro, Alto, Solteiro, Procura..., visto por 800.000 paulistanos.

Naturalmente, é comum a crítica de São Paulo torcer o nariz para alguns de seus trabalhos. O Submarino, comédia sobre uma conturbada relação amorosa que escreveu para atuar ao lado de Zezé Polessa, não agradou muito. Tampouco deram bola para sua performance em O Beijo da Mulher Aranha, musical em que cantou e dançou como coadjuvante de Cláudia Raia. "Seu desempenho depende da produção", considera o crítico Alberto Guzik. "Para South American Way, eu só tenho elogios, enquanto para outros espetáculos tive muitas restrições." De qualquer forma, foi aqui que Falabella protagonizou seus maiores sucessos de bilheteria – e vários de seus famosos pitis. Em 1999, ele e Tom Cavalcante tiveram ataques de ego nas gravações de Sai de Baixo. "Não vou servir de escada para o Tom", esbravejou Falabella na época. "A capacidade de criação de Miguel é indizível", ironizou o humorista na semana passada. Nas aventuras como empresário da noite, Falabella desentendeu-se com Gugu Liberato. Os dois eram sócios na boate Fabbrica 5, na Mooca, a última casa noturna de Falabella na cidade – a mais badalada foi a The Pool, ponto de encontro de seus amigos famosos em Pinheiros. "Tivemos desacordos administrativos", limitou-se a dizer Gugu quando decidiu vender sua parte.

"Criam-se lendas a meu respeito. Acham que sou encrenqueiro, milionário, grosso, que chuto fotógrafos na rua...", desembesta Falabella. "Tudo coisa desses jornalistas mentirosos que não têm respeito e hão de queimar no fogo do in-fer-no!", roga ele, boca-de-praga confesso. Tais rompantes não assustam os mais próximos. Estão acostumados. "Miguel tem esse jeitão, mas quando quer é simplesmente um gentleman", afirma Cláudia Raia. "Ele quase me leva à loucura, faz uma dúzia de atores abrir o berreiro nos ensaios", conta Cinthya Graber, produtora de South American Way, montado com investimentos de 1,2 milhão de reais. "Mas é a alma do espetáculo. Quando não está perto, nós nos sentimos sem pai nem mãe", afaga. "Sou bom para mandar e dirigir pessoas e egos", diz ele. "Às vezes me estresso, estouro, as pessoas choram... E daí? Eu também já chorei muito."

Filho de uma professora de francês e de um arquiteto, Falabella, aos 45 anos, adora falar de sua vida suburbana no início da carreira artística. "Eu ia de ônibus da Ilha do Governador até a Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde cursava letras", lembra. "Quando conheci Miguel, ele ainda era pobre, mas já era brilhante e generoso", derrete-se Stella Miranda, a estrela de South American Way, vencedora do Prêmio Shell de melhor atriz. Ela recorda que, quando foi convocada para o papel de Carmen Miranda, estava muito doente e pensou em desistir. "Eu ensaiava sentada e, se não fosse a força dele, eu não teria conseguido." A grande sacada de Falabella e de Maria Carmen Barbosa foi justamente poupar um pouco do fôlego de Stella colocando em cena, ao mesmo tempo, duas Carmens Mirandas, a mais jovem interpretada por Soraya Ravenle. Ambas fazem parte da turma de amiguinhas que o diretor cumprimenta com selinho na boca e trata a pão-de-ló. Na estréia paulistana, ele deu de presente um perfume Kenzo para uma e um Yves Saint Laurent para a outra. "Estrelas devem ser mimadas e dar pitis. Ou não seriam estrelas, seriam bancárias."

Com as duas no palco, a montagem, que não respeita a ordem cronológica, ganha agilidade. Ao todo são dezenove atores-cantores que trocam de roupa o tempo inteiro e exibem em duas horas e meia quase 200 figurinos primorosos, bolados por Cláudio Tovar. As antigas marchinhas entoadas pela Pequena Notável, nos anos 30, 40 e 50, arrancam aplausos em cena aberta. As músicas são cantadas ao vivo sobre play-back e, em Godspell, foram traduzidas por Falabella, que é fluente em inglês e francês. Foi ele, igualmente, quem traduziu Os Monólogos da Vagina e transformou o texto praticamente recitativo, escrito pela jornalista americana Eve Ensler, em uma movimentada comédia. Dividiu as falas e colocou em cena três mulheres que conversam sobre sexo, sem cair na baixaria. Em sua segunda temporada, a peça sofreu duas modificações no elenco: Totia Meireles está no lugar de Zezé Polessa; Bia Nunes, no de Claudia Rodrigues. Continua lotando a casa de shows Tom Brasil, com 1.200 lugares. "Ele faz um teatro mercadológico, de consumo rápido, que agrada à classe média mais ligada à televisão", avalia o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa. "Eu admiro o descaramento maravilhoso que ele tem."

De quinta a domingo, Falabella confere o andamento de seus três espetáculos. É comum acabar a noite com parte do elenco no restaurante Quattrino, de Mary Nigri. Ela deu o nome de Falabella a seu prato preferido (massa com frango, alho-poró, tomate seco e catupiry). Os dois são amicíssimos. O loiro, que não fala sobre sua vida amorosa, vive para lá e para cá com Mary. É ela quem o acompanha às compras, quando ele está deprimido e resolve torrar dinheiro na Daslu. "Miguel é um homem vaidoso, gosta de se vestir bem e adora os sapatos da Prada", revela Mary. "Mas está numa fase superocupada, não consegue nem malhar direito." Tempos atrás, ele se submeteu a uma lipoaspiração nas dobrinhas das costas e mantém em forma seu corpão de 1,80 metro nas academias Competition e Bioritmo. Há cinco anos é o dorso marombado mais aplaudido do Sambódromo, no Anhembi, como passista fiel da escola de samba Nenê de Vila Matilde. Está com uma cara cada vez mais paulistana. "E pensar que em 1986, em minha primeira temporada na cidade, tive um surto porque achava que aqui ninguém gostava de mim", lembra ele, que encenava Batalha de Arroz num Ringue para Dois, no antigo Auditório Augusta. "Um belo dia peguei minhas coisas e fui-me embora do teatro jurando que nunca mais... Mas, Deus é pai, voltei e estou aqui até hoje."

 

Um carioca na Paulicéia

Arquivo pessoal
Everton Ballardin
Com a inseparável Mary Nigri, numa viagem ao litoral: "Vamos juntos à Daslu" Ao lado de Gisele Bündchen, na passarela do antigo MorumbiFashion: querido no mundinho

 

João Raposo
Flavio Torres
Numa festança a fantasia, em 1999, na finada The Pool: ex-ponto de encontro de famosos Na pele de Caco, o louro do Arouche: gravações no Teatro Procópio Ferreira

 

João Raposo
No desfile da escola de samba Nenê de Vila Matilde: cinco Carnavais no Anhembi

 

Na boca dos colegas

Oscar Cabral
Rodrigo Queiroz
Parceiros no programa Sai de Baixo, Tom Cavalcante e Falabella tiveram um ataque de egos. "A capacidade de criação de Miguel é indizível", ironiza Tom "Eu costumo dizer que Miguel é uma pizzaria de idéias. Ele tem um jeitão despachado, mas, quando quer, é simplesmente um gentleman."
CLÁUDIA RAIA
atriz

 

Renato Chaui
Pedro Rubens
"Seu teatro é mercadológico, de consumo rápido, que agrada à classe média ligada à TV. Eu admiro o fôlego e o descaramento maravilhoso que ele tem."
JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA
diretor teatral
Como empresário da noite, desentendeu-se com Gugu Liberato, seu sócio na boate Fabbrica 5. "Tivemos desacordos administrativos", limitou-se Gugu a dizer na época

 

         
     
 
 
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