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PERFIL
"Sou
uma locomotiva frenética"
Miguel
Falabella domina os palcos da cidade
à frente de três espetáculos de sucesso
Maria
Rita Alonso
Fotos Renato Chaui
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| Falabella
com o elenco de Godspell (no alto) e cenas das duas outras
badaladas peças que ele comanda: South American Way
(à esq.) e Os Monólogos da Vagina (à
dir.) |
Trimmmmmm...
Soou o terceiro toque da campainha. A platéia de 700 lugares
do Teatro Procópio Ferreira está lotada. Vai começar
mais uma sessão de South American Way, musical sobre
Carmen Miranda visto por 170.000 pessoas
no Rio de Janeiro. Desenrola-se, então, um telão bem
em frente do palco e surge a estrela das coxias: o diretor. Louro,
alto, exibido, ele aparece em imagens de bastidores mandando e desmandando
nos atores, técnicos, figurinistas, camareiras... Com toda
essa encenação, o carioca Miguel Falabella nem precisa
pisar no palco para dar seu show. Já faz seis anos que ele
se transformou em personalidade teatral da cidade, com sete espetáculos
que foram tremendo sucesso de bilheteria. Viveu também o
esnobe Caco Antibes no programa Sai de Baixo, que era gravado
em São Paulo. Agora, por trás das cortinas, arranca
ainda mais aplausos. Ele assina a direção da comédia
Os Monólogos da Vagina, na segunda temporada, e de Godspell,
uma superprodução à la Broadway, sua atual
menina dos olhos. "Minha carreira como ator nunca deu muito
certo sozinha", afirma. "Foi impulsionada pelo que sou fora de cena."
Para
produzir o musical Godspell, Falabella passou o chapéu
para Deus e o mundo. Conseguiu 600.000
reais de patrocínio e está devendo outros 100.000.
Em janeiro, alugou o Teatro Jardel Filho (18.000
reais por semana), fez testes, analisou 1.000
currículos e selecionou doze jovens atores. Um deles, Francisco
Farinelli, teve na semana passada um problema nas cordas vocais.
Quem quebra o galho até o fim do mês e faz o papel
de Judas em seu lugar? O próprio Miguelito, como Falabella
é chamado pelos íntimos. "Olham para mim e pensam:
só uma criatura desequilibrada para cuidar de tantas coisas
ao mesmo tempo", declara ele. "Mas detesto ficar parado. Sou uma
locomotiva frenética." Um turbilhão de projetos passa
por sua cabeça. Nas próximas semanas, roda O Redentor,
filme de Cláudio Torres, ao lado de Fernanda Montenegro.
Em agosto, dirige Ney Latorraca na peça Capitanias Hereditárias.
Ainda neste ano, deve lançar um livro infantil. Tem planos
para um novo musical sobre o imperador dom Pedro I e anda agitado
com o sonho de fazer uma Broadway em São Paulo. Marcou um
almoço com o secretário estadual da Educação,
Gabriel Chalita, para apresentar seu projeto: Canta São Paulo.
"Miguel
é um trabalhador compulsivo e se identifica muito com o ritmo
acelerado dos paulistanos", diz o amigo José Wilker. Claro
que não é só isso que faz Falabella passar
mais tempo em seu apartamento na Rua Haddock Lobo que na mansão
carioca de frente para o mar. "Há tempos ele está
desgostoso com o Rio", entrega a autora Maria Carmen Barbosa. Na
Globo, ele esquentou por quinze anos a cadeira de apresentador do
Vídeo Show. O sitcom Batalha de Arroz num Ringue
para Dois, escrito e protagonizado por ele e Claudia Jimenez,
não tem data de estréia prevista. Desde 1998, a emissora
guarda na gaveta uma novela de sua autoria, cuja trama principal
se passa na redação de um jornal sensacionalista.
"Miguel quer o mundo a seus pés, e em São Paulo encontrou
seu grande mercado", acredita Maria Carmen, sua parceira em seis
textos, entre eles South American Way e Loiro, Alto, Solteiro,
Procura..., visto por 800.000 paulistanos.
Naturalmente,
é comum a crítica de São Paulo torcer o nariz
para alguns de seus trabalhos. O Submarino, comédia
sobre uma conturbada relação amorosa que escreveu
para atuar ao lado de Zezé Polessa, não agradou muito.
Tampouco deram bola para sua performance em O Beijo da Mulher
Aranha, musical em que cantou e dançou como coadjuvante
de Cláudia Raia. "Seu desempenho depende da produção",
considera o crítico Alberto Guzik. "Para South American
Way, eu só tenho elogios, enquanto para outros espetáculos
tive muitas restrições." De qualquer forma, foi aqui
que Falabella protagonizou seus maiores sucessos de bilheteria
e vários de seus famosos pitis. Em 1999, ele e Tom Cavalcante
tiveram ataques de ego nas gravações de Sai de
Baixo. "Não vou servir de escada para o Tom", esbravejou
Falabella na época. "A capacidade de criação
de Miguel é indizível", ironizou o humorista na semana
passada. Nas aventuras como empresário da noite, Falabella
desentendeu-se com Gugu Liberato. Os dois eram sócios na
boate Fabbrica 5, na Mooca, a última casa noturna de Falabella
na cidade a mais badalada foi a The Pool, ponto de encontro
de seus amigos famosos em Pinheiros. "Tivemos desacordos administrativos",
limitou-se a dizer Gugu quando decidiu vender sua parte.
"Criam-se
lendas a meu respeito. Acham que sou encrenqueiro, milionário,
grosso, que chuto fotógrafos na rua...", desembesta Falabella.
"Tudo coisa desses jornalistas mentirosos que não têm
respeito e hão de queimar no fogo do in-fer-no!", roga ele,
boca-de-praga confesso. Tais rompantes não assustam os mais
próximos. Estão acostumados. "Miguel tem esse jeitão,
mas quando quer é simplesmente um gentleman", afirma
Cláudia Raia. "Ele quase me leva à loucura, faz uma
dúzia de atores abrir o berreiro nos ensaios", conta Cinthya
Graber, produtora de South American Way, montado com investimentos
de 1,2 milhão de reais. "Mas é a alma do espetáculo.
Quando não está perto, nós nos sentimos sem
pai nem mãe", afaga. "Sou bom para mandar e dirigir pessoas
e egos", diz ele. "Às vezes me estresso, estouro, as pessoas
choram... E daí? Eu também já chorei muito."
Filho
de uma professora de francês e de um arquiteto, Falabella,
aos 45 anos, adora falar de sua vida suburbana no início
da carreira artística. "Eu ia de ônibus da Ilha do
Governador até a Universidade Federal do Rio de Janeiro,
onde cursava letras", lembra. "Quando conheci Miguel, ele ainda
era pobre, mas já era brilhante e generoso", derrete-se Stella
Miranda, a estrela de South American Way, vencedora do Prêmio
Shell de melhor atriz. Ela recorda que, quando foi convocada para
o papel de Carmen Miranda, estava muito doente e pensou em desistir.
"Eu ensaiava sentada e, se não fosse a força dele,
eu não teria conseguido." A grande sacada de Falabella e
de Maria Carmen Barbosa foi justamente poupar um pouco do fôlego
de Stella colocando em cena, ao mesmo tempo, duas Carmens Mirandas,
a mais jovem interpretada por Soraya Ravenle. Ambas fazem parte
da turma de amiguinhas que o diretor cumprimenta com selinho na
boca e trata a pão-de-ló. Na estréia paulistana,
ele deu de presente um perfume Kenzo para uma e um Yves Saint Laurent
para a outra. "Estrelas devem ser mimadas e dar pitis. Ou não
seriam estrelas, seriam bancárias."
Com
as duas no palco, a montagem, que não respeita a ordem cronológica,
ganha agilidade. Ao todo são dezenove atores-cantores que
trocam de roupa o tempo inteiro e exibem em duas horas e meia quase
200 figurinos primorosos, bolados por Cláudio Tovar. As antigas
marchinhas entoadas pela Pequena Notável, nos anos 30, 40
e 50, arrancam aplausos em cena aberta. As músicas são
cantadas ao vivo sobre play-back e, em Godspell, foram traduzidas
por Falabella, que é fluente em inglês e francês.
Foi ele, igualmente, quem traduziu Os Monólogos da Vagina
e transformou o texto praticamente recitativo, escrito pela
jornalista americana Eve Ensler, em uma movimentada comédia.
Dividiu as falas e colocou em cena três mulheres que conversam
sobre sexo, sem cair na baixaria. Em sua segunda temporada, a peça
sofreu duas modificações no elenco: Totia Meireles
está no lugar de Zezé Polessa; Bia Nunes, no de Claudia
Rodrigues. Continua lotando a casa de shows Tom Brasil, com 1.200
lugares. "Ele faz um teatro mercadológico, de consumo rápido,
que agrada à classe média mais ligada à televisão",
avalia o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa. "Eu
admiro o descaramento maravilhoso que ele tem."
De
quinta a domingo, Falabella confere o andamento de seus três
espetáculos. É comum acabar a noite com parte do elenco
no restaurante Quattrino, de Mary Nigri. Ela deu o nome de Falabella
a seu prato preferido (massa com frango, alho-poró, tomate
seco e catupiry). Os dois são amicíssimos. O loiro,
que não fala sobre sua vida amorosa, vive para lá
e para cá com Mary. É ela quem o acompanha às
compras, quando ele está deprimido e resolve torrar dinheiro
na Daslu. "Miguel é um homem vaidoso, gosta de se vestir
bem e adora os sapatos da Prada", revela Mary. "Mas está
numa fase superocupada, não consegue nem malhar direito."
Tempos atrás, ele se submeteu a uma lipoaspiração
nas dobrinhas das costas e mantém em forma seu corpão
de 1,80 metro nas academias Competition e Bioritmo. Há cinco
anos é o dorso marombado mais aplaudido do Sambódromo,
no Anhembi, como passista fiel da escola de samba Nenê de
Vila Matilde. Está com uma cara cada vez mais paulistana.
"E pensar que em 1986, em minha primeira temporada na cidade, tive
um surto porque achava que aqui ninguém gostava de mim",
lembra ele, que encenava Batalha de Arroz num Ringue para Dois,
no antigo Auditório Augusta. "Um belo dia peguei minhas coisas
e fui-me embora do teatro jurando que nunca mais... Mas, Deus é
pai, voltei e estou aqui até hoje."
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Na
boca dos colegas
Oscar Cabral
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Rodrigo Queiroz
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| Parceiros
no programa Sai de Baixo, Tom Cavalcante e Falabella tiveram
um ataque de egos. "A capacidade de criação
de Miguel é indizível", ironiza Tom
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"Eu
costumo dizer que Miguel é uma pizzaria de idéias.
Ele tem um jeitão despachado, mas, quando quer,
é simplesmente um gentleman."
CLÁUDIA RAIA
atriz |
Renato Chaui
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Pedro Rubens
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"Seu
teatro é mercadológico, de consumo rápido,
que agrada à classe média ligada à
TV. Eu admiro o fôlego e o descaramento maravilhoso
que ele tem."
JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA
diretor teatral |
Como
empresário da noite, desentendeu-se com Gugu Liberato,
seu sócio na boate Fabbrica 5. "Tivemos desacordos
administrativos", limitou-se Gugu a dizer na época
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