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15 de maio de 2002
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CRÔNICA

Minha árvore

Há algo de pessoal no modo
de ela se relacionar comigo

Ivan Angelo


Começo com aquele antigo preceito chinês: "Para se sentir realizado, um homem precisa fazer três coisas: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho". Claro, sábios chineses só aparentemente são simples. Árvore, livro e filho estão aí representando simbolicamente coisas imensas, como a natureza, o conhecimento e a espécie. A cada homem caberia preservá-las. Esqueçamos por um momento a profundidade dos símbolos, falemos do simples, dos três elementos do preceito.

Filhas, tenho duas; livros, publiquei alguns; árvores, plantei várias. E sinto-me frustrado porque uma delas, plantada num momento de nostalgia há mais de vinte anos, não cumpriu ainda seu destino. Não tenho a desprendida grandeza humanitária do sábio chinês. Cultivei minhas árvores foi por puro sentimentalismo, saudade da infância ou carência egoísta.

Já contei aqui minhas atribulações atrás de jabuticabas e o plantio de um pé enxertado, que na primavera passada cumpriu sua obrigação pela primeira vez: deu três frutinhas. Neste ano, espero uma baciada. Nostalgia. Com paladar e olfato de menino, plantei no sítio pés de lima-da-pérsia, carambola, amora, jamelão, jambo, pitanga – incríveis pitangas gordas como ameixas! E cajazeiro, pé de banana-prata, pessegueiro, biribazeiro, cujo fruto, o biribá, andam chamando de atemóia nas feiras de São Paulo. Tem biribá no dicionário, mas não tem atemóia. Deve ser nome de relançamento.

Árvore de flor? Plantei avermelhado flamboaiã e sanguinolenta espatódea, bicolor quaresmeira branco-violeta e leitosa pata-de-vaca, escandalosa acácia-amarela cacheada e frívola extremosa rosada. Tudo para recuperar momentos, vistas de janelas, esquinas, colinas. Mas essas botei no campo, vivem na farra da natureza, entre abelhas e passarinhos, orvalhos e calores, umas preparando as cores que vão exibir na próxima florada, outras já juntando forças para sintetizar-se em sementes e criando carapaças para protegê-las, as mais generosas envolvendo-as em polpas, que se adoçam lentamente ao sol.

Meu problema é com a minha árvore urbana, uma magnólia.

Magnólias têm grandes copas frondosas, de folhas largas, flores de um branco cremoso tendendo para o amarelado no centro e muito, muito perfumadas, sobretudo à noite.

Havia, na Belo Horizonte de minha juventude, uma rua arborizada com magnólias, e na avenida que a cruzava morava uma namorada. Nas madrugadas frescas, o perfume passeava na brisa, tomava quarteirões em volta, intrometia-se nos hálitos, nos beijos, nos sonhos e muitos anos depois se enfiou nas lembranças em minha vida de neopaulistano. Quis então plantar um pé daquela árvore perturbadora na frente de minha casa, no Jardim Paulista. Secreta homenagem amorosa.

Deu trabalho. Fui buscar em Belo Horizonte uma igualzinha, muda viçosa e garantida. Sem espaço no terreno da casa, plantei-a na beira da calçada, protegi-a com grades, reguei-a de esperanças. Quando ficava a ler no jardim, podia vê-la ali em frente, pequenina; ainda era tempo de muros baixos e de bons-dias entre vizinhos. Árvores de metrópoles são sistemáticas, custam a agradecer. Mas ela foi afinal, rompeu com os anos. Saí da casa e do bairro antes que ela chegasse a 3 metros.

Ainda passo lá de vez em quando, para conferir. Está forte, copada, enorme, mas não deu uma flor nesses 24 anos. Chego a pensar que há algo de pessoal nisso. Será implicância comigo?

Melhor pensar que ela sente saudade de Minas.

         
     
 
 
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