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CRÔNICA
Palavras gastas
Ivan Angelo
Estava meio distraído mas
ouvi distintamente o apresentador do telejornal dizer "em compasso
de espera", a propósito de não sei bem o quê.
Ainda tentava recuperar alguma parte do assunto perdido, só
pela curiosidade de saber o que havia merecido o lugar-comum, quando
a companheira de bancada do apresentador informou que alguma coisa
"caiu como uma bomba". Eu havia perdido também o sujeito
da frase dela. Naquela noite, meus ouvidos estavam muito sensíveis
para chavões.
Lugares-comuns são armadilhas
que um dia foram metáforas criativas, construções
elaboradas. Rolaram de boca em boca e de papel em papel durante
décadas, séculos, e tornaram-se gastas, perderam a
centelha que as colocou em circulação. Deterioraram-se.
Oscar Wilde disse que criar um lugar-comum é ter gênio.
Sim, e usar um lugar-comum é ser medíocre.
O lugar-comum é a idéia
feita, o troco miúdo, o cachorro sem dono, a vala comum da
linguagem. Pode até ser usado literariamente, para marcar
a fala de um personagem, para ironizar, caricaturar. Eça
de Queirós brincou com idéias feitas, Flaubert também.
Porém, o uso ingênuo ou a sério do chavão
desvaloriza um texto. A coisa fica pior quando o autor nem percebe
que está usando chavões. De tanto ouvir ruídos,
ficou ruim do ouvido.
Passei a prestar mais atenção
nos textos dos noticiários. Redatores, apresentadores, comentaristas,
repórteres, âncoras e locutores recorrem a essa linguagem
esfiapada para... para quê mesmo? Talvez pensem que estão
sendo criativos. Talvez acreditem que estão produzindo um
texto "leve", "coloquial". Repetem e repetem-se. O pior acontece
quando os repórteres procuram ilustrar a metáfora.
Um deles filmou uma vaca em um lamaçal para ilustrar
adivinhem! a expressão da vaca que foi para o brejo.
Constrangedor.
Exemplos de lugares-comuns que
a gente ouve a toda hora na televisão?
A "luz no fim do túnel"
é uma das expressões campeãs, a que os redatores
recorrem quando surge a possibilidade de uma solução
em situação complicada, geralmente envolvendo questões
econômicas ou políticas.
A "bola da vez" é sempre
a pessoa ou o país que se acha no caminho de uma seqüência
de acontecimentos que não consegue controlar. É alternativa
para uma expressão que os jornalistas talvez já achem
desgastada: "efeito dominó". Esta tem outro parentesco, "efeito
cascata".
A "lição de casa"
é algo que eles dizem que uma autoridade ou personalidade
tem de fazer, ou fez, ou não fez, para ter condições
de resolver um problema, geralmente político, administrativo
ou econômico.
"No olho do furacão" é
usada para dizer que alguém ou algo está no meio de
um perigo incontrolável.
"Colocou o dedo na ferida", dizem
toda vez que alguém toca exatamente no ponto de um assunto
ou situação que contraria interesses.
A "bala na agulha" é sempre
uma medida extrema que pode ser tomada a qualquer momento por uma
autoridade. Muito usada nos anos 90 para medidas econômicas.
"Falam a mesma linguagem" é
empregada quando alguém tem as mesmas idéias ou o
mesmo talento que a outra pessoa citada. Também é
usada na forma negativa, "não falam a mesma linguagem", para
dizer que há muita distância entre o talento de um
e o de outro.
"Bateu o martelo", dizem toda
vez que alguém toma uma decisão após uma negociação,
como uma contratação no futebol.
"Queda-de-braço" é
expressão usada sempre que há uma disputa de poder
entre duas autoridades.
O futuro disto ou daquilo sempre
"começa a ser definido" na reunião tal ou qual. Quando
acontece com uma pessoa alguma coisa que vem acontecendo com outras
é "a hora e a vez" de Fulano. Uma coisa indefinida está
sempre "em compasso de espera". Quando há alta do custo de
vida, nunca esquecem a expressão "apertar os cintos". Momentos
de decisão viram invariavelmente "a hora da verdade". Após
uma crise, diz-se do novo técnico de futebol ou do novo diretor
de um serviço público que ele começou a "pôr
a casa em ordem".
E por aí vão.
e-mail: ivan@abril.com.br
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