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15 de março de 2006
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CRÔNICA

Palavras gastas

Ivan Angelo

Estava meio distraído mas ouvi distintamente o apresentador do telejornal dizer "em compasso de espera", a propósito de não sei bem o quê. Ainda tentava recuperar alguma parte do assunto perdido, só pela curiosidade de saber o que havia merecido o lugar-comum, quando a companheira de bancada do apresentador informou que alguma coisa "caiu como uma bomba". Eu havia perdido também o sujeito da frase dela. Naquela noite, meus ouvidos estavam muito sensíveis para chavões.

Lugares-comuns são armadilhas que um dia foram metáforas criativas, construções elaboradas. Rolaram de boca em boca e de papel em papel durante décadas, séculos, e tornaram-se gastas, perderam a centelha que as colocou em circulação. Deterioraram-se. Oscar Wilde disse que criar um lugar-comum é ter gênio. Sim, e usar um lugar-comum é ser medíocre.

O lugar-comum é a idéia feita, o troco miúdo, o cachorro sem dono, a vala comum da linguagem. Pode até ser usado literariamente, para marcar a fala de um personagem, para ironizar, caricaturar. Eça de Queirós brincou com idéias feitas, Flaubert também. Porém, o uso ingênuo ou a sério do chavão desvaloriza um texto. A coisa fica pior quando o autor nem percebe que está usando chavões. De tanto ouvir ruídos, ficou ruim do ouvido.

Passei a prestar mais atenção nos textos dos noticiários. Redatores, apresentadores, comentaristas, repórteres, âncoras e locutores recorrem a essa linguagem esfiapada para... para quê mesmo? Talvez pensem que estão sendo criativos. Talvez acreditem que estão produzindo um texto "leve", "coloquial". Repetem e repetem-se. O pior acontece quando os repórteres procuram ilustrar a metáfora. Um deles filmou uma vaca em um lamaçal para ilustrar ­ adivinhem! ­ a expressão da vaca que foi para o brejo. Constrangedor.

Exemplos de lugares-comuns que a gente ouve a toda hora na televisão?

A "luz no fim do túnel" é uma das expressões campeãs, a que os redatores recorrem quando surge a possibilidade de uma solução em situação complicada, geralmente envolvendo questões econômicas ou políticas.

A "bola da vez" é sempre a pessoa ou o país que se acha no caminho de uma seqüência de acontecimentos que não consegue controlar. É alternativa para uma expressão que os jornalistas talvez já achem desgastada: "efeito dominó". Esta tem outro parentesco, "efeito cascata".

A "lição de casa" é algo que eles dizem que uma autoridade ou personalidade tem de fazer, ou fez, ou não fez, para ter condições de resolver um problema, geralmente político, administrativo ou econômico.

"No olho do furacão" é usada para dizer que alguém ou algo está no meio de um perigo incontrolável.

"Colocou o dedo na ferida", dizem toda vez que alguém toca exatamente no ponto de um assunto ou situação que contraria interesses.

A "bala na agulha" é sempre uma medida extrema que pode ser tomada a qualquer momento por uma autoridade. Muito usada nos anos 90 para medidas econômicas.

"Falam a mesma linguagem" é empregada quando alguém tem as mesmas idéias ou o mesmo talento que a outra pessoa citada. Também é usada na forma negativa, "não falam a mesma linguagem", para dizer que há muita distância entre o talento de um e o de outro.

"Bateu o martelo", dizem toda vez que alguém toma uma decisão após uma negociação, como uma contratação no futebol.

"Queda-de-braço" é expressão usada sempre que há uma disputa de poder entre duas autoridades.

O futuro disto ou daquilo sempre "começa a ser definido" na reunião tal ou qual. Quando acontece com uma pessoa alguma coisa que vem acontecendo com outras é "a hora e a vez" de Fulano. Uma coisa indefinida está sempre "em compasso de espera". Quando há alta do custo de vida, nunca esquecem a expressão "apertar os cintos". Momentos de decisão viram invariavelmente "a hora da verdade". Após uma crise, diz-se do novo técnico de futebol ou do novo diretor de um serviço público que ele começou a "pôr a casa em ordem".

E por aí vão.

 

e-mail: ivan@abril.com.br

     
   
 
 
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