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15 de fevereiro de 2006
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MALHAÇÃO

Espelho, espelho meu

Eles sabem de cor as medidas
do próprio corpo, seguem dietas
radicais e passam até 35 horas
por semana na academia

Marcella Centofanti e Rodrigo Brancatelli

 
Fotos Renata Ursaia

Daniel Sirvente,
28 anos, administrador
Recorde de malhação em um dia: quatro horas

Mirella Bergamini,
26 anos, analista de sistemas
Recorde de malhação em um dia: catorze horas


Veja também
A rotina de um exagerado
Teste: você é viciado em malhação?
Quadro dos malefícios da ginástica exacerbada

A cada verão, o número de alunos ávidos por queimar quilinhos extras nas 3 500 academias da cidade cresce 30%. Calcula-se que neste momento 700 000 pessoas estejam matriculadas em um desses templos da boa forma. É um contingente e tanto. Quatro em cada dez freqüentadores paulistanos, no entanto, abandonam a rotina dos treinos no prazo de até três meses. Mas há um grupo de malhadores que leva a atividade física beeeeem mais a sério. Pratica esporte sem preocupação com os limites do corpo, sente culpa quando não pode suar a camisa e está sempre insatisfeito diante do espelho. "Algumas pessoas descontam suas frustrações na comida ou no isolamento social", afirma o professor e consultor Fabio Saba, autor do livro Aderência à Prática do Exercício Físico em Academias. "Outras mergulham nas academias."

A analista de sistemas Mirella Bergamini, de 26 anos, é uma das que engrossam o time de marombeiros compulsivos. Ela passa de três a quatro horas diárias na Companhia Athletica do MorumbiShopping seja qual for o compromisso que tenha na agenda. Faz musculação, escada, esteira, spinning (aula de bicicleta indoor), power jump (saltos numa minicama elástica) e body combat (aula que mistura várias técnicas de artes marciais) de domingo a domingo. "A ginástica é minha droga", orgulha-se. "O prazer que ela me dá supera qualquer outro." Como Mirella, a estudante Manoela Melo, de 19 anos, não suporta a idéia de ficar longe dos aparelhos. Nas férias de julho passou o mês inteiro enfurnada na Competition, no Paraíso. Exercitava-se das 10h às 20h30 ­ ia, e vai, do boxe à esteira ­, com pequenas pausas para almoço e lanche. Filha de médicos, Manoela tem consciência de seu exagero. "Sei que o excesso faz mal, mas me cobro muito se falto", diz.

Renata Ursaia
Eduardo Svezia
Marcelo Pasquotto,
30 anos, administrador
Recorde de malhação em um dia: quatro horas e meia
Pedro Fernandes,
18 anos, estudante
Recorde de malhação em um dia: cinco horas

Adeptos do exercício obsessivo como Mirella e Manoela são cada vez mais comuns. Uma pesquisa com 413 freqüentadores de dezessete academias da capital, realizada pela biomédica Carolina Ackel D'Elia, do Centro de Estudos de Fisiologia do Exercício da Unifesp, chegou a uma constatação surpreendente. A média de tempo gasto na academia é de onze horas por semana, quatro a mais que o recomendável pelo Colégio Americano de Medicina Esportiva. "A maioria sente sintomas de depressão se não malha", afirma. "Sem falar nos efeitos no corpo, que podem variar daquela dorzinha chata nos músculos a problemas sérios de pressão e nas articulações" (veja quadro dos malefícios da ginástica exacerbada).

A consultora de negócios Crystiane Zozzoro ficou tão viciada nos exercícios que, em um ano, em vez de criar músculos, acabou perdendo 36 quilos. Passava nove horas diárias na academia, quase sem comer. "É uma coisa inconsciente, eu só sentia prazer quando estava suando", conta. Em casos extremos, a compulsão por músculos inchados pode virar doença. Trata-se da vigorexia, um transtorno psíquico irmão da anorexia no qual as pessoas se exercitam de forma contínua com fanatismo quase religioso. Ainda não há estudos sobre o tema no país, mas recente pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mostra que 11% dos mais de 9 milhões de americanos que freqüentam regularmente academias de ginástica são acometidos pela vigorexia e precisam de acompanhamento psicológico. "Se não faço atividades fico louco", diz o analista de sistemas Laercio Falconi, de 48 anos. Matriculado na Monday, na Mooca, ele pratica quatro horas diárias de musculação, corrida, transport (aparelho que simula o movimento de esqui), futebol, futevôlei e natação. De 2002 a 2005, período em que não trabalhou, passava o dia na academia. "Para mim, fazer exercícios é como dormir, comer e beber", afirma.

 

Fotos Renata Ursaia
Manoela Melo,
19 anos, estudante
Recorde de malhação em um dia: dez horas

Apesar de trinta anos mais jovem, o estudante de publicidade Pedro de Castro Fernandes reza na mesma cartilha. Ele passa cinco horas diárias na academia Atlântida, na Água Rasa. Começou a puxar ferro há dois anos, empenhado em ganhar massa muscular. Com 1,90 metro de altura, na época pesava 70 quilos. Desde então, acumulou mais 17 quilos. "Meu objetivo é chegar a 93 quilos, mas acho que sempre vou querer mais." Entre os marombeiros, é raro encontrar quem esteja plenamente de bem com a própria imagem. "O espelho é sempre o maior inimigo", acredita a terapeuta corporal Hérica Sanfelice, 1,70 metro de altura, 62 quilos e silhueta de modelo. "A pessoa malha, malha, malha, mas sempre acha que não fez o suficiente", diz ela, que pratica musculação, futebol, iatismo, ioga e spinning.

 

Hérica Sanfelice,
28 anos, terapeuta corporal
Recorde de malhação em um dia: oito horas

Normalmente, o vício da atividade física vem acompanhado de uma preocupação permanente: dietas. Muitos recorrem ao auxílio de nutricionistas. Gordura e açúcar são terminantemente proibidos no cardápio dessa turma. E o mais incrível: para muitos deles, encarar um regime rigorosíssimo não é necessariamente uma tarefa árdua. "Há cinco anos não bebo refrigerante", garante o administrador de empresas Marcelo Pasquotto, de 30 anos. Para evitar acúmulo de calorias, ele chega a não comer frutas porque possuem açúcar. Marcelo alimenta-se pontualmente a cada três horas e calcula gastar cerca de 400 reais por mês em suplementos – consome 24 cápsulas de vitaminas e aminoácidos por dia. Com musculação, corrida, jiu-jítsu e surfe, ele conserva um corpão de 1,85 metro e 90 quilos.

 

Rafael Richter,
22 anos, estudante
Recorde de malhação em um dia: cinco horas

Saber de cor as medidas do próprio corpo e comparar com as dos amigos é outro mandamento desses devotos de academia. "Peso 103 quilos, mas já fui mais inchado", diz cheio de si o administrador de empresas Daniel Sirvente, de 28 anos. Marombeiro há treze anos e aluno da Fórmula desde 2004, ele cita sem titubear a circunferência de seus braços e pernas. São 45 centímetros de bíceps, que aumentam 2 centímetros depois do treino, e impressionantes 68 centímetros de coxa. Sua rotina de duas horas diárias de atividade, entre musculação e basquete, é sagrada, assim como o cardápio alimentar, idêntico nos sete dias da semana. Daniel admite que tomou anabolizantes, mas afirma que atualmente não os ingere mais. É do tipo que não resiste a passar em frente a um espelho sem admirar, ops, espiar, os próprios músculos. "Confesso que gosto de ficar inchado e de ver saltar minhas veias."

 

     
   
 
 
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