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MALHAÇÃO
Espelho, espelho meu Eles sabem de cor as medidas do
próprio corpo, seguem dietas radicais e passam até 35 horas
por semana na academia Marcella Centofanti e Rodrigo Brancatelli Fotos
Renata Ursaia
 |  | Daniel
Sirvente, 28 anos, administrador Recorde
de malhação em um dia: quatro horas | Mirella
Bergamini, 26 anos, analista de sistemas
Recorde de malhação em um dia: catorze horas |
A cada verão,
o número de alunos ávidos por queimar quilinhos extras nas 3 500
academias da cidade cresce 30%. Calcula-se que neste momento 700 000 pessoas estejam
matriculadas em um desses templos da boa forma. É um contingente e tanto.
Quatro em cada dez freqüentadores paulistanos, no entanto, abandonam a rotina
dos treinos no prazo de até três meses. Mas há um grupo de
malhadores que leva a atividade física beeeeem mais a sério. Pratica
esporte sem preocupação com os limites do corpo, sente culpa quando
não pode suar a camisa e está sempre insatisfeito diante do espelho.
"Algumas pessoas descontam suas frustrações na comida ou no isolamento
social", afirma o professor e consultor Fabio Saba, autor do livro Aderência
à Prática do Exercício Físico em Academias. "Outras
mergulham nas academias." A analista de sistemas
Mirella Bergamini, de 26 anos, é uma das que engrossam o time de marombeiros
compulsivos. Ela passa de três a quatro horas diárias na Companhia
Athletica do MorumbiShopping seja qual for o compromisso que tenha na agenda.
Faz musculação, escada, esteira, spinning (aula de bicicleta indoor),
power jump (saltos numa minicama elástica) e body combat (aula que mistura
várias técnicas de artes marciais) de domingo a domingo. "A ginástica
é minha droga", orgulha-se. "O prazer que ela me dá supera qualquer
outro." Como Mirella, a estudante Manoela Melo, de 19 anos, não suporta
a idéia de ficar longe dos aparelhos. Nas férias de julho passou
o mês inteiro enfurnada na Competition, no Paraíso. Exercitava-se
das 10h às 20h30 ia, e vai, do boxe à esteira , com
pequenas pausas para almoço e lanche. Filha de médicos, Manoela
tem consciência de seu exagero. "Sei que o excesso faz mal, mas me cobro
muito se falto", diz. Renata
Ursaia
 | Eduardo
Svezia
 | Marcelo
Pasquotto, 30 anos, administrador
Recorde de malhação em um dia: quatro horas e meia | Pedro
Fernandes, 18 anos, estudante Recorde
de malhação em um dia: cinco horas |
Adeptos
do exercício obsessivo como Mirella e Manoela são cada vez mais
comuns. Uma pesquisa com 413 freqüentadores de dezessete academias da capital,
realizada pela biomédica Carolina Ackel D'Elia, do Centro de Estudos de
Fisiologia do Exercício da Unifesp, chegou a uma constatação
surpreendente. A média de tempo gasto na academia é de onze horas
por semana, quatro a mais que o recomendável pelo Colégio Americano
de Medicina Esportiva. "A maioria sente sintomas de depressão se não
malha", afirma. "Sem falar nos efeitos no corpo, que podem variar daquela dorzinha
chata nos músculos a problemas sérios de pressão e nas articulações"
(veja quadro dos malefícios
da ginástica exacerbada).
A consultora de negócios Crystiane Zozzoro ficou tão viciada nos
exercícios que, em um ano, em vez de criar músculos, acabou perdendo
36 quilos. Passava nove horas diárias na academia, quase sem comer. "É
uma coisa inconsciente, eu só sentia prazer quando estava suando", conta.
Em casos extremos, a compulsão por músculos inchados pode virar
doença. Trata-se da vigorexia, um transtorno psíquico irmão
da anorexia no qual as pessoas se exercitam de forma contínua com fanatismo
quase religioso. Ainda não há estudos sobre o tema no país,
mas recente pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, nos Estados
Unidos, mostra que 11% dos mais de 9 milhões de americanos que freqüentam
regularmente academias de ginástica são acometidos pela vigorexia
e precisam de acompanhamento psicológico. "Se não faço atividades
fico louco", diz o analista de sistemas Laercio Falconi, de 48 anos. Matriculado
na Monday, na Mooca, ele pratica quatro horas diárias de musculação,
corrida, transport (aparelho que simula o movimento de esqui), futebol, futevôlei
e natação. De 2002 a 2005, período em que não trabalhou,
passava o dia na academia. "Para mim, fazer exercícios é como dormir,
comer e beber", afirma. Fotos
Renata Ursaia
 | Manoela
Melo, 19 anos, estudante Recorde de
malhação em um dia: dez horas |
Apesar de trinta anos mais jovem, o estudante de publicidade Pedro de Castro Fernandes
reza na mesma cartilha. Ele passa cinco horas diárias na academia Atlântida,
na Água Rasa. Começou a puxar ferro há dois anos, empenhado
em ganhar massa muscular. Com 1,90 metro de altura, na época pesava 70
quilos. Desde então, acumulou mais 17 quilos. "Meu objetivo é chegar
a 93 quilos, mas acho que sempre vou querer mais." Entre os marombeiros, é
raro encontrar quem esteja plenamente de bem com a própria imagem. "O espelho
é sempre o maior inimigo", acredita a terapeuta corporal Hérica
Sanfelice, 1,70 metro de altura, 62 quilos e silhueta de modelo. "A pessoa malha,
malha, malha, mas sempre acha que não fez o suficiente", diz ela, que pratica
musculação, futebol, iatismo, ioga e spinning.  | Hérica
Sanfelice, 28 anos, terapeuta corporal
Recorde de malhação em um dia: oito horas |
Normalmente, o vício da atividade física vem acompanhado de uma
preocupação permanente: dietas. Muitos recorrem ao auxílio
de nutricionistas. Gordura e açúcar são terminantemente proibidos
no cardápio dessa turma. E o mais incrível: para muitos deles, encarar
um regime rigorosíssimo não é necessariamente uma tarefa
árdua. "Há cinco anos não bebo refrigerante", garante o administrador
de empresas Marcelo Pasquotto, de 30 anos. Para evitar acúmulo de calorias,
ele chega a não comer frutas porque possuem açúcar. Marcelo
alimenta-se pontualmente a cada três horas e calcula gastar cerca de 400
reais por mês em suplementos consome 24 cápsulas de vitaminas
e aminoácidos por dia. Com musculação, corrida, jiu-jítsu
e surfe, ele conserva um corpão de 1,85 metro e 90 quilos.  | Rafael
Richter, 22 anos, estudante Recorde
de malhação em um dia: cinco horas |
Saber
de cor as medidas do próprio corpo e comparar com as dos amigos é
outro mandamento desses devotos de academia. "Peso 103 quilos, mas já fui
mais inchado", diz cheio de si o administrador de empresas Daniel Sirvente, de
28 anos. Marombeiro há treze anos e aluno da Fórmula desde 2004,
ele cita sem titubear a circunferência de seus braços e pernas. São
45 centímetros de bíceps, que aumentam 2 centímetros depois
do treino, e impressionantes 68 centímetros de coxa. Sua rotina de duas
horas diárias de atividade, entre musculação e basquete,
é sagrada, assim como o cardápio alimentar, idêntico nos sete
dias da semana. Daniel admite que tomou anabolizantes, mas afirma que atualmente
não os ingere mais. É do tipo que não resiste a passar em
frente a um espelho sem admirar, ops, espiar, os próprios músculos.
"Confesso que gosto de ficar inchado e de ver saltar minhas veias." 
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