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PERFIL
As
artes do dinamarquês
Com
seu estilo de trator, o publicitário
Jens
Olesen organiza
eventos culturais como
a magnífica exposição de
Albert Eckhout
que chega nesta
semana a São Paulo
Lúcia
Monteiro
Mario Rodrigues
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| Olesen
no escritório, ao lado de seu retrato, à moda de Eckhout, pintado
por João Câmara: um pé na Escandinávia, outro no Brasil |
O
que faz este homem loiro, branquelo, 1,91 metro de altura, 120 quilos,
de calça social e barriga de fora, sandália num pé,
sapato no outro, todo pimpão ao lado de uma bananeira, com
instrumentos indígenas nas mãos? A tela do artista
paraibano João Câmara, que se inspirou nos índios
brasileiros pintados pelo holandês Albert Eckhout no século
XVII, retrata o publicitário dinamarquês Jens Olesen
assim, com um pé na neve da Escandinávia e outro nas
florestas brasileiras. Radicado há quase trinta anos em São
Paulo, ele é o responsável pela mostra que reúne,
a partir de terça-feira (14), na Pinacoteca, as 24 telas
produzidas por Eckhout no Brasil entre 1637 e 1644. Nesse período,
o pintor integrou a missão científica do conde Maurício
de Nassau, que governou as colônias holandesas do Brasil.
As obras pertencem ao Museu Nacional da Dinamarca e, desde que foram
doadas por Nassau ao rei Frederico III em 1654, nunca saíram
em conjunto de Copenhague.
Trata-se de uma das coleções mais valiosas do mundo.
São obras de preço inestimável (nunca foram
postas à venda), antigas (mais de 350 anos) e únicas
(não se conhecem outras telas do autor). Por
isso, as autoridades dinamarquesas sempre negaram os pedidos para
que as telas deixassem o país juntas. Convencer a rainha,
os curadores e especialistas no artista a permitir uma exposição
em outro continente parecia uma missão impossível.
Dom Pedro II tentou em duas ocasiões, sem sucesso. Olesen
foi o único a conseguir, graças a sua insistência
e ao bom relacionamento que cultiva com figuras influentes. Organizou
visitas da rainha e de príncipes da Dinamarca ao Brasil várias
vezes e receberá a rainha da Holanda, que até março
deverá visitar a Pinacoteca. O esforço para trazer
a coleção Eckhout começou em 1991, com uma
exposição no Masp. Outros quadros isolados vieram
para a Bienal de 1998 e para a Mostra do Redescobrimento
em 2000.
A mostra Albert Eckhout Volta ao Brasil 1644-2002 começou
no Recife, em setembro do ano passado, e foi para Brasília
antes de vir para cá. Até inaugurá-la, Olesen
enfrentou oito anos de duras negociações. Conta que
viajou quarenta vezes para Copenhague e acompanhou grupos de dinamarqueses
que avaliaram a infra-estrutura dos museus daqui. Investiu tempo
e dinheiro próprios sem nenhuma garantia. O patrocínio
de 2,5 milhões de dólares do ABN Amro Bank veio em
2001, quando a exposição foi confirmada. "Nunca aceito
não como resposta", afirma. "Era minha sonho, fiz
tudo para realizá-lo", diz ele, que ainda troca o gênero
de algumas palavras e pontua suas frases com termos do inglês,
como then e so. Com a mulher, a paulista Renata, fala
numa língua única, misto de dinamarquês, inglês
e português. Os dois moram num apartamento de 300 metros quadrados
no Alto de Pinheiros, abarrotado de quadros.
E bota quadro nisso. Estão em todos os cômodos. Na
cozinha, há dois enormes de Andy Warhol brincando com a imagem
da rainha da Dinamarca. Na sala de jantar, meia dúzia de
telas de Volpi e uma parede só de Cícero Dias. Ele
mantém outros dois apartamentos em São Paulo e em
Nova York para guardar suas quase 2.000 obras, entre as quais várias,
valorizadíssimas, do uruguaio Joaquín Torres-García
e dos mexicanos Frida Kahlo e Diego Rivera. Gravuras e pinturas
menores espalham-se pelo corredor e nos banheiros. Algumas ficam
amontoadas num canto, à espera de espaço. Sua idéia
é criar uma fundação para que, um dia, o conjunto
completo possa ser aberto a visitação. Numa saleta,
acumula pôsteres e porta-retratos com fotos (a maioria autografada)
de personalidades que conheceu, numa galeria que vai de Bush pai
à princesa Diana. A parte mais importante da coleção
de Olesen são as obras do grupo CoBrA, formado por artistas
de Copenhague, Bruxelas e Amsterdã que produziram no pós-guerra.
No escritório da agência de publicidade McCann-Erickson,
na Vila Mariana, a confusão se repete. Ele é o presidente
da empresa para a América Latina e Caribe, comandando 7.000
funcionários. Além da enorme tela de João Câmara
reproduzida na abertura desta reportagem, há prêmios
de festivais de publicidade e cartazes de eventos, misturados com
trabalhos de Manabu Mabe, Tomie Ohtake e tudo mais que ele encontra
nas galerias ao redor do mundo. Costuma ser voraz em suas aquisições.
"Certa vez, quando estávamos em Veneza, pedi sua opinião
sobre um quadro que eu estava interessado em comprar", conta Júlio
Landmann, que foi presidente da Bienal no período em que
Olesen era vice. "Ele desconversou. Voltei à galeria decidido
a comprar e, quando cheguei lá, o dono me disse que o quadro
acabara de ser vendido para um senhor alto, loiro e forte. Olesen
foi mais rápido do que eu." No serpentário das artes,
comenta-se que ele costuma arrematar em primeira mão os destaques
das exposições que organiza. Ele confirma. "Adquiri
uma tela do chinês Zhang Xiogang, que veio para uma Bienal,
por 10.000 dólares. Hoje, vale 200.000", conta, satisfeito.
Com esse jeitão de atropelar, é claro que o viking
volta e meia tromba com os egos do mundo dos pincéis. Ex-presidente
da Fundação Bienal, o arquiteto Carlos Bratke rompeu
relações com ele quando Olesen anunciou seu afastamento
da diretoria da Bienal, em 2000. "Olesen me chamou a seu escritório,
trancou-me numa sala e gritava comigo", declarou, à época,
Bratke, que não fala mais sobre o assunto. É dado
a explosões quando se trata de suas paixões. "Ele
é um grande trator. Às vezes um pouco sem breque",
afirma Edemar Cid Ferreira, dono do Banco Santos e presidente da
BrasilConnects. "Mas, com seu estilo obstinado, tem conseguido marcar
gols incríveis." Tanta energia, determinação
e teimosia permitiram aos paulistanos conhecer uma bela série
de eventos culturais de qualidade (veja
quadro).
Nenhum lhe deu tanto trabalho como a exposição que
agora chega à Pinacoteca. Foi uma verdadeira operação
militar transportar as preciosidades de mais de 2 metros de altura.
Dadas as dimensões e a necessidade de ficarem em pé
durante o vôo, foi difícil encontrar aeronaves com
espaço suficiente apenas quatro companhias preencheram
os requisitos. Vieram em dois aviões diferentes, para não
haver risco de tudo se perder em caso de acidente, embaladas em
caixas climatizadas. Os caminhões que as levaram de uma cidade
para outra tiveram escolta de policiais militares, do Exército
e de seguranças particulares. Olesen se envolve em cada detalhe
e, se algo dá errado, resolve o problema sozinho. "Ele já
me surpreendeu, de calça jeans, pregando quadros na parede
ou varrendo o chão do museu", diz o amigo Fábio Magalhães,
diretor do Memorial da América Latina e ex-diretor do Masp.
Em outros momentos, torna-se uma pessoa doce, bem-humorada e divertida.
Surpresa: como se fosse um adolescente, Olesen, que tem 59 anos,
confessa ser fã do quarteto inglês Spice Girls. Faz
questão de levar pessoalmente flores para a secretária
em seu aniversário. "Ele combina ataques bruscos com gestos
atenciosos, mas é sempre uma pessoa justa", afirma a crítica
Elly de Vries, que fez mestrado sobre Eckhout na Holanda e trabalha
na organização dessa mostra desde o início.
Diferente de outros mecenas, é um homem discreto. Não
costuma promover jantares em sua casa, não vive aparecendo
em colunas sociais e poucas pessoas conhecem sua coleção.
Despreocupado com a elegância, às vezes usa sapato
social sem meia ou combina sapato marrom com meia cinza.
É bem capaz que apareça assim na Pinacoteca, na abertura
da mostra, quando completará um sonho de infância.
Aos 5 anos de idade, ele se impressionou com as grandes pinturas
de índios de Eckhout no dia em que o pai o levou com seu
irmão gêmeo para a primeira visita ao Museu Nacional
da Dinamarca. Mais de meio século depois, pôde trazer
todas elas para o país que adotou.
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Visões
do Brasil colonial
Eckhout
interpreta, com muita imaginação, o que
os invasores holandeses encontraram no Nordeste
Fotos divulgação
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Com
quase 3 metros de largura, Dança dos Tapuias
é a maior obra da mostra. Retrata índios
canibais nus, que
chegaram a se apresentar em Haia, na Holanda
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O
florete usado pela nobreza
e a espingarda portuguesa de Homem Mulato são
considerados irreais para quem costumava ocupar um patamar
baixo na sociedade colonial |
Mulher
Mameluca, filha
de português ou
holandês com brasileira, aparece em
pose delicada, com
jóias asiáticas
e
vestido branco, com porquinhos-da-índia |
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Estudiosos
pesquisam a origem dos objetos de Mulher Negra.
A cesta é africana, mas o chapéu
com penas de pavão parece asiático e pode
ser outra criação do autor |
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| Abacaxi,
Melancia Etc., uma das doze naturezas-mortas provavelmente
pintadas para o palácio de Nassau em
Pernambuco: celebração do exótico
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Tietagem
de alto nível
Uma
das salas do apartamento de Olesen
é lotada de porta-retratos
com fotos de
políticos, esportistas e artistas
Fotos arquivo pessoal
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Com
a princesa Diana
na Bienal de Veneza de 1995: os dois participaram de projetos
sociais juntos |
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| Festa
do American Council, em Nova York: bate-papo com o presidente
Bush pai |
Drinque
com o presidente americano Gerald Ford, nos anos 70: festa
da agência McCann em Nova York |
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Do
norte da Europa
para São Paulo
Algumas
iniciativas que Olesen
promoveu nos últimos quinze anos
Fotos divulgação
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O
Grito, do norueguês Edward
Munch, exposto na 23ª Bienal, em 1996: como vice-presidente
internacional da fundação, Olesen trouxe
obras de
grandes artistas |
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Fundação Escher/Holanda
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| Mostra
sobre o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen,
em 1991, no Masp: gravuras e histórias |
Cascata,
gravura fantástica do holandês M.C. Escher:
no Masp em 1993, depois de mais uma dura negociação
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Keiju Kobayashi
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| Cartaz
de uma das quatro apresentações do Balé
Real da Dinamarca que organizou: ele não perde
um espetáculo de dança clássica
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Aquarela
do holandês Karel Appel, do grupo CoBrA, no Masp:
dono de uma das maiores coleções de pinturas
desse movimento do pós-guerra |
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Albert Eckhout Volta ao Brasil 1644-2002. Pinacoteca do Estado.
Praça da Luz, 2,
229-9844, Metrô Luz. Terça a domingo, 10h às
18h. Grátis. Até 30 de março. A partir
de terça (14). Abertura para convidados na segunda (13).
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