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15 de janeiro de 2003
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As artes do dinamarquês

Com seu estilo de trator, o publicitário Jens
Olesen
organiza eventos culturais como
a magnífica exposição
de Albert Eckhout
que chega
nesta semana a São Paulo

Lúcia Monteiro

 
Mario Rodrigues
Olesen no escritório, ao lado de seu retrato, à moda de Eckhout, pintado por João Câmara: um pé na Escandinávia, outro no Brasil

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O que faz este homem loiro, branquelo, 1,91 metro de altura, 120 quilos, de calça social e barriga de fora, sandália num pé, sapato no outro, todo pimpão ao lado de uma bananeira, com instrumentos indígenas nas mãos? A tela do artista paraibano João Câmara, que se inspirou nos índios brasileiros pintados pelo holandês Albert Eckhout no século XVII, retrata o publicitário dinamarquês Jens Olesen assim, com um pé na neve da Escandinávia e outro nas florestas brasileiras. Radicado há quase trinta anos em São Paulo, ele é o responsável pela mostra que reúne, a partir de terça-feira (14), na Pinacoteca, as 24 telas produzidas por Eckhout no Brasil entre 1637 e 1644. Nesse período, o pintor integrou a missão científica do conde Maurício de Nassau, que governou as colônias holandesas do Brasil. As obras pertencem ao Museu Nacional da Dinamarca e, desde que foram doadas por Nassau ao rei Frederico III em 1654, nunca saíram em conjunto de Copenhague.

Trata-se de uma das coleções mais valiosas do mundo. São obras de preço inestimável (nunca foram postas à venda), antigas (mais de 350 anos) e únicas (não se conhecem outras telas do autor). Por isso, as autoridades dinamarquesas sempre negaram os pedidos para que as telas deixassem o país juntas. Convencer a rainha, os curadores e especialistas no artista a permitir uma exposição em outro continente parecia uma missão impossível. Dom Pedro II tentou em duas ocasiões, sem sucesso. Olesen foi o único a conseguir, graças a sua insistência e ao bom relacionamento que cultiva com figuras influentes. Organizou visitas da rainha e de príncipes da Dinamarca ao Brasil várias vezes e receberá a rainha da Holanda, que até março deverá visitar a Pinacoteca. O esforço para trazer a coleção Eckhout começou em 1991, com uma exposição no Masp. Outros quadros isolados vieram para a Bienal de 1998 e para a Mostra do Redescobrimento em 2000.

A mostra Albert Eckhout Volta ao Brasil 1644-2002 começou no Recife, em setembro do ano passado, e foi para Brasília antes de vir para cá. Até inaugurá-la, Olesen enfrentou oito anos de duras negociações. Conta que viajou quarenta vezes para Copenhague e acompanhou grupos de dinamarqueses que avaliaram a infra-estrutura dos museus daqui. Investiu tempo e dinheiro próprios sem nenhuma garantia. O patrocínio de 2,5 milhões de dólares do ABN Amro Bank veio em 2001, quando a exposição foi confirmada. "Nunca aceito não como resposta", afirma. "Era minha sonho, fiz tudo para realizá-lo", diz ele, que ainda troca o gênero de algumas palavras e pontua suas frases com termos do inglês, como then e so. Com a mulher, a paulista Renata, fala numa língua única, misto de dinamarquês, inglês e português. Os dois moram num apartamento de 300 metros quadrados no Alto de Pinheiros, abarrotado de quadros.

E bota quadro nisso. Estão em todos os cômodos. Na cozinha, há dois enormes de Andy Warhol brincando com a imagem da rainha da Dinamarca. Na sala de jantar, meia dúzia de telas de Volpi e uma parede só de Cícero Dias. Ele mantém outros dois apartamentos em São Paulo e em Nova York para guardar suas quase 2.000 obras, entre as quais várias, valorizadíssimas, do uruguaio Joaquín Torres-García e dos mexicanos Frida Kahlo e Diego Rivera. Gravuras e pinturas menores espalham-se pelo corredor e nos banheiros. Algumas ficam amontoadas num canto, à espera de espaço. Sua idéia é criar uma fundação para que, um dia, o conjunto completo possa ser aberto a visitação. Numa saleta, acumula pôsteres e porta-retratos com fotos (a maioria autografada) de personalidades que conheceu, numa galeria que vai de Bush pai à princesa Diana. A parte mais importante da coleção de Olesen são as obras do grupo CoBrA, formado por artistas de Copenhague, Bruxelas e Amsterdã que produziram no pós-guerra.

No escritório da agência de publicidade McCann-Erickson, na Vila Mariana, a confusão se repete. Ele é o presidente da empresa para a América Latina e Caribe, comandando 7.000 funcionários. Além da enorme tela de João Câmara reproduzida na abertura desta reportagem, há prêmios de festivais de publicidade e cartazes de eventos, misturados com trabalhos de Manabu Mabe, Tomie Ohtake e tudo mais que ele encontra nas galerias ao redor do mundo. Costuma ser voraz em suas aquisições. "Certa vez, quando estávamos em Veneza, pedi sua opinião sobre um quadro que eu estava interessado em comprar", conta Júlio Landmann, que foi presidente da Bienal no período em que Olesen era vice. "Ele desconversou. Voltei à galeria decidido a comprar e, quando cheguei lá, o dono me disse que o quadro acabara de ser vendido para um senhor alto, loiro e forte. Olesen foi mais rápido do que eu." No serpentário das artes, comenta-se que ele costuma arrematar em primeira mão os destaques das exposições que organiza. Ele confirma. "Adquiri uma tela do chinês Zhang Xiogang, que veio para uma Bienal, por 10.000 dólares. Hoje, vale 200.000", conta, satisfeito.

Com esse jeitão de atropelar, é claro que o viking volta e meia tromba com os egos do mundo dos pincéis. Ex-presidente da Fundação Bienal, o arquiteto Carlos Bratke rompeu relações com ele quando Olesen anunciou seu afastamento da diretoria da Bienal, em 2000. "Olesen me chamou a seu escritório, trancou-me numa sala e gritava comigo", declarou, à época, Bratke, que não fala mais sobre o assunto. É dado a explosões quando se trata de suas paixões. "Ele é um grande trator. Às vezes um pouco sem breque", afirma Edemar Cid Ferreira, dono do Banco Santos e presidente da BrasilConnects. "Mas, com seu estilo obstinado, tem conseguido marcar gols incríveis." Tanta energia, determinação e teimosia permitiram aos paulistanos conhecer uma bela série de eventos culturais de qualidade (veja quadro).

Nenhum lhe deu tanto trabalho como a exposição que agora chega à Pinacoteca. Foi uma verdadeira operação militar transportar as preciosidades de mais de 2 metros de altura. Dadas as dimensões e a necessidade de ficarem em pé durante o vôo, foi difícil encontrar aeronaves com espaço suficiente – apenas quatro companhias preencheram os requisitos. Vieram em dois aviões diferentes, para não haver risco de tudo se perder em caso de acidente, embaladas em caixas climatizadas. Os caminhões que as levaram de uma cidade para outra tiveram escolta de policiais militares, do Exército e de seguranças particulares. Olesen se envolve em cada detalhe e, se algo dá errado, resolve o problema sozinho. "Ele já me surpreendeu, de calça jeans, pregando quadros na parede ou varrendo o chão do museu", diz o amigo Fábio Magalhães, diretor do Memorial da América Latina e ex-diretor do Masp.

Em outros momentos, torna-se uma pessoa doce, bem-humorada e divertida. Surpresa: como se fosse um adolescente, Olesen, que tem 59 anos, confessa ser fã do quarteto inglês Spice Girls. Faz questão de levar pessoalmente flores para a secretária em seu aniversário. "Ele combina ataques bruscos com gestos atenciosos, mas é sempre uma pessoa justa", afirma a crítica Elly de Vries, que fez mestrado sobre Eckhout na Holanda e trabalha na organização dessa mostra desde o início. Diferente de outros mecenas, é um homem discreto. Não costuma promover jantares em sua casa, não vive aparecendo em colunas sociais e poucas pessoas conhecem sua coleção. Despreocupado com a elegância, às vezes usa sapato social sem meia – ou combina sapato marrom com meia cinza. É bem capaz que apareça assim na Pinacoteca, na abertura da mostra, quando completará um sonho de infância. Aos 5 anos de idade, ele se impressionou com as grandes pinturas de índios de Eckhout no dia em que o pai o levou com seu irmão gêmeo para a primeira visita ao Museu Nacional da Dinamarca. Mais de meio século depois, pôde trazer todas elas para o país que adotou.

 

Visões do Brasil colonial

Eckhout interpreta, com muita imaginação, o que
os invasores holandeses encontraram no Nordeste

 
Fotos divulgação

Com quase 3 metros de largura, Dança dos Tapuias é a maior obra da mostra. Retrata índios canibais nus, que chegaram a se apresentar em Haia, na Holanda


O florete usado pela nobreza
e a espingarda portuguesa de Homem Mulato são considerados irreais para quem costumava ocupar um patamar baixo na sociedade colonial
Mulher Mameluca, filha de português ou holandês com brasileira, aparece em pose delicada, com jóias asiáticas
e vestido branco, com porquinhos-da-índia

Estudiosos pesquisam a origem dos objetos de Mulher Negra. A cesta é africana, mas o chapéu
com penas de pavão parece asiático e pode ser outra criação do autor

Abacaxi, Melancia Etc., uma das doze naturezas-mortas provavelmente pintadas para o palácio de Nassau em Pernambuco: celebração do exótico




Tietagem de alto nível

Uma das salas do apartamento de Olesen
é lotada de
porta-retratos com fotos de
políticos, esportistas e artistas

 
Fotos arquivo pessoal
Com a princesa Diana na Bienal de Veneza de 1995: os dois participaram de projetos sociais juntos

Festa do American Council, em Nova York: bate-papo com o presidente Bush pai Drinque com o presidente americano Gerald Ford, nos anos 70: festa da agência McCann em Nova York




Do norte da Europa para São Paulo

Algumas iniciativas que Olesen
promoveu nos últimos quinze anos

 
Fotos divulgação
O Grito, do norueguês Edward Munch, exposto na 23ª Bienal, em 1996: como vice-presidente internacional da fundação, Olesen trouxe obras de grandes artistas

Fundação Escher/Holanda
Mostra sobre o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, em 1991, no Masp: gravuras e histórias Cascata, gravura fantástica do holandês M.C. Escher: no Masp em 1993, depois de mais uma dura negociação

Keiju Kobayashi
Cartaz de uma das quatro apresentações do Balé Real da Dinamarca que organizou: ele não perde um espetáculo de dança clássica Aquarela do holandês Karel Appel, do grupo CoBrA, no Masp: dono de uma das maiores coleções de pinturas desse movimento do pós-guerra

 

 
Albert Eckhout Volta ao Brasil 1644-2002. Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, 229-9844, Metrô Luz. Terça a domingo, 10h às 18h. Grátis. Até 30 de março. A partir de terça (14). Abertura para convidados na segunda (13).

         
     
 
 
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