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Crônica
Natural não é natural
Walcyr Carrasco
Chega! Já não suporto
mais a ditadura do saudável, do orgânico e do natural.
Perdeu-se o prazer de comer bem em razão de uma série
de regras. As quais, no fundo, no fundo, nem mesmo sei se têm
tanta comprovação. Confesso: às vezes acordo
doido por um hambúrguer com fritas. Um daqueles bem gordos,
de encher os olhos e a barriga. Quando ele chega a minha frente,
sou acometido por um tremendo sentimento de culpa. "Estou fazendo
mal a mim mesmo", penso. "Meu sangue vai ferver de tanto colesterol!"
Seja dita a verdade. Existe coisa
mais falsa que os sanduíches naturais vendidos por aí?
O recheio leva maionese, peito de peru... E mais: tudo é
natural. As bactérias são naturais. A peste negra
foi um fenômeno natural. A natureza é capaz de qualquer
coisa! Enquanto isso, recorremos a produtos químicos para
desinfetar, esterilizar... Portanto, nem sempre algo criado artificialmente
faz mal. Outro dia aterrissei em um supermercado de luxo. Vi uns
rabanetes mirrados a preço de caviar. O aviso: "Cultivados
organicamente, sem a adição de adubos químicos".
Ótimo. A humanidade estaria passando fome não fossem
os produtos capazes de aumentar as colheitas. E assim por diante!
Houve uma época em que
a macrobiótica se tornou moda. É um regime à
base de arroz integral. Soube de duas pessoas que foram parar no
hospital, com anemia. Sem contar as que ficavam magérrimas,
com as faces escavadas. Horrendas. Estômago bom, mas a vida
amorosa... que lástima! Existe todo um movimento para defender
o arroz integral. Francamente: o sabor é horroroso. Há
também uma guerra contra a carne vermelha. Não faria
bem à saúde, segundo afirmam. Só desisto de
um churrasco se for proibido por uma junta médica! Até
gosto de salada. Existem limites, porém. Meu amigo Ricardo
é sábio, ao argumentar, como bom advogado que é:
Se verdura fosse gostosa,
haveria rodízio.
Alguém, em algum lugar,
já viu rodízio de brócolis, couve e pimentão?
De carne, massas e pizzas não faltam!
Se desse ouvidos a todas as teorias
da boa alimentação, não me sobraria nada para
comer. Carne vermelha incluindo os adoráveis torresmos
produz alto índice de colesterol. Frangos são
tratados com hormônio. Não deveria me espantar se me
caíssem os cabelos ou desenvolvesse duas belas saboneteiras!
Devido à poluição, os peixes possuem alto índice
de mercúrio. Alfaces, nabos e cenouras são contaminados
quimicamente por adubos e inseticidas. Soja tornou-se um perigo:
pode ser transgênica. Ninguém conhece ao certo os problemas
causados pelos transgênicos, mas já foi ligado o alerta
vermelho! Creme de leite, manteiga... tudo faz mal! Massas contêm
carboidratos, um risco! Ovos em excesso, que medo! Açúcar
nem se fala. Dizem que corrói o organismo. Além de
engordar em excesso. Sal é perigoso. Mas a falta dele também
é!
Sobrou o quê? Pedra? Sopa
de areia? Ah... sobrou, sim, o vinho tinto! Os cardiologistas aconselham
uma taça por dia. Não há quem discorde: faz
bem. Diminui o colesterol, afasta o risco de doenças cardiovasculares.
Beleza. Viva o vinho!
Mas, se eu viver à base
de vinho, acabarei dançando em cima das mesas dos restaurantes!
Dirão que me tornei um bêbado!
Tudo o que desejo é evitar
tanta proibição, a ponto de não haver saída!
Quero sentar-me à mesa e trucidar um pernil sem problema
de consciência. Voltar aos bons tempos, quando comer não
era uma atividade comparada ao suicídio. Saborear um bom
prato, com a alma em paz!
e-mail: walcyr@abril.com.br
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