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14 de setembro de 2005
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Crônica

Natural não é natural

Walcyr Carrasco


Chega! Já não suporto mais a ditadura do saudável, do orgânico e do natural. Perdeu-se o prazer de comer bem em razão de uma série de regras. As quais, no fundo, no fundo, nem mesmo sei se têm tanta comprovação. Confesso: às vezes acordo doido por um hambúrguer com fritas. Um daqueles bem gordos, de encher os olhos e a barriga. Quando ele chega a minha frente, sou acometido por um tremendo sentimento de culpa. "Estou fazendo mal a mim mesmo", penso. "Meu sangue vai ferver de tanto colesterol!"

Seja dita a verdade. Existe coisa mais falsa que os sanduíches naturais vendidos por aí? O recheio leva maionese, peito de peru... E mais: tudo é natural. As bactérias são naturais. A peste negra foi um fenômeno natural. A natureza é capaz de qualquer coisa! Enquanto isso, recorremos a produtos químicos para desinfetar, esterilizar... Portanto, nem sempre algo criado artificialmente faz mal. Outro dia aterrissei em um supermercado de luxo. Vi uns rabanetes mirrados a preço de caviar. O aviso: "Cultivados organicamente, sem a adição de adubos químicos". Ótimo. A humanidade estaria passando fome não fossem os produtos capazes de aumentar as colheitas. E assim por diante!

Houve uma época em que a macrobiótica se tornou moda. É um regime à base de arroz integral. Soube de duas pessoas que foram parar no hospital, com anemia. Sem contar as que ficavam magérrimas, com as faces escavadas. Horrendas. Estômago bom, mas a vida amorosa... que lástima! Existe todo um movimento para defender o arroz integral. Francamente: o sabor é horroroso. Há também uma guerra contra a carne vermelha. Não faria bem à saúde, segundo afirmam. Só desisto de um churrasco se for proibido por uma junta médica! Até gosto de salada. Existem limites, porém. Meu amigo Ricardo é sábio, ao argumentar, como bom advogado que é:

– Se verdura fosse gostosa, haveria rodízio.

Alguém, em algum lugar, já viu rodízio de brócolis, couve e pimentão? De carne, massas e pizzas não faltam!

Se desse ouvidos a todas as teorias da boa alimentação, não me sobraria nada para comer. Carne vermelha – incluindo os adoráveis torresmos – produz alto índice de colesterol. Frangos são tratados com hormônio. Não deveria me espantar se me caíssem os cabelos ou desenvolvesse duas belas saboneteiras! Devido à poluição, os peixes possuem alto índice de mercúrio. Alfaces, nabos e cenouras são contaminados quimicamente por adubos e inseticidas. Soja tornou-se um perigo: pode ser transgênica. Ninguém conhece ao certo os problemas causados pelos transgênicos, mas já foi ligado o alerta vermelho! Creme de leite, manteiga... tudo faz mal! Massas contêm carboidratos, um risco! Ovos em excesso, que medo! Açúcar nem se fala. Dizem que corrói o organismo. Além de engordar em excesso. Sal é perigoso. Mas a falta dele também é!

Sobrou o quê? Pedra? Sopa de areia? Ah... sobrou, sim, o vinho tinto! Os cardiologistas aconselham uma taça por dia. Não há quem discorde: faz bem. Diminui o colesterol, afasta o risco de doenças cardiovasculares. Beleza. Viva o vinho!

Mas, se eu viver à base de vinho, acabarei dançando em cima das mesas dos restaurantes! Dirão que me tornei um bêbado!

Tudo o que desejo é evitar tanta proibição, a ponto de não haver saída! Quero sentar-me à mesa e trucidar um pernil sem problema de consciência. Voltar aos bons tempos, quando comer não era uma atividade comparada ao suicídio. Saborear um bom prato, com a alma em paz!

e-mail: walcyr@abril.com.br

     
   
 
 
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