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ESPECIAL
São Paulo japonesa
Em um levantamento surpreendente,
dezesseis pesquisadores da Fundação
Japão listam 1650 endereços ligados à
cultura nipônica na cidade. São 600
restaurantes, 100 associações de
karaokê, 600 praticantes de sumô,
doze escolas de origami...
Lúcia
Monteiro
Fotos Mario Rodrigues
Fotos Fabio Mangabeira
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Eles começam a ser vistos
antes do amanhecer. De segunda a sábado, uma legião
de 10 000 homens e mulheres de olhos puxados e roupas brancas se
dirige para áreas livres, como a Praça da Liberdade
e o Parque da Aclimação. Durante uma hora, alongam
braços e pernas, marcham sem sair do lugar e relaxam o pescoço,
debaixo de chuva ou sol. Quem passa por ali estranha. Não
há sequer um professor no comando da pequena multidão.
As instruções em japonês são reproduzidas
em um aparelho de som portátil. A ginástica, conhecida
como rádio taissô, surgiu no Japão em 1930.
Naquela época, era transmitida por rádio, no início
do expediente, para colégios e grandes empresas. Trata-se
da primeira atividade diária de parte dos integrantes da
comunidade nipônica, a segunda maior da cidade.
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Todos os domingos, realizam-se na cidade
até sete concursos de karaokê. Juntos, atraem cerca
de 2000 pessoas, como o estudante Douglas
Tatsumi, de 10 anos. Só vale cantar em japonês
União Paulista de Karaokê,
3191-0403 |
São
392 000 pessoas, contando 22 000 nascidos no Japão e cerca
de 370 000 descendentes (ou nikkeis), um contingente menor apenas
que o dos italianos, que somam 6 milhões. Foi dentro desse
universo que, numa pesquisa de um ano coordenada pela Fundação
Japão, acabam de ser mapeados 1 650 lugares em São
Paulo que oferecem produtos, serviços e atividades tipicamente
japoneses, como o rádio taissô. O resultado é
o Guia da Cultura Japonesa (610 páginas; 49 reais),
lançado há quinze dias pela Editora JBC.
É um levantamento surpreendente.
"Dezesseis pessoas trabalharam duro para que nenhum endereço
ficasse de fora", afirma Jo Takahashi, diretor de projetos culturais
da Fundação Japão. Um dos destaques é,
evidentemente, a culinária. Afinal, 600 restaurantes da cidade
servem sushis e sashimis, preparados por cerca de 1 200 sushimen.
Mas quem imaginaria que aproximadamente 2 000 cantores freqüentam
campeonatos de karaokê em japonês todo domingo? E que
existem 3 000 jogadores de beisebol e que quase 20 000 estudantes
aprendem matemática através dos métodos kumon
e soroban? Sem falar nos 600 lutadores de sumô. Aos domingos,
dia de competição, eles podem ser vistos na arena
do Estádio Municipal do Bom Retiro. De manhã, participam
as crianças e, depois do almoço (em geral preparado
pelas mães dos atletas), é a vez dos mais velhos.
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No Centro de Chado Urasenke do Brasil,
na Liberdade, são ensinados os rituais e a etiqueta da
cerimônia do chá.
O conhecimento valoriza o currículo das mulheres que
querem se casar na colônia
Centro de Chado Urasenke,
3815-3641 |
Alguns capítulos do guia
mostram o que há de mais tradicional, como a cerimônia
do chá (chado), um ritual silencioso e delicado, com até
quatro horas de duração, realizado semanalmente nesta
barulhenta metrópole da mesma maneira de 500 anos atrás,
quando foi criado. Antes de chegar à sala de chá do
Centro de Chado Urasenke do Brasil, na Liberdade, é preciso
atravessar um jardim sem flores, que marca a separação
do mundo exterior. Depois, lavam-se as mãos e enxágua-se
a boca em uma pia de pedra com função purificadora.
Durante a cerimônia, existe uma maneira certa para sentar,
levantar, segurar a xícara, beber o chá, agradecer
ao anfitrião... "É uma arte muito refinada, que preenche
bem o currículo de quem quer se casar", afirma a professora
Bertha Hoshi Nakao.
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Com 600 lutadores, os torneios dominicais
de sumô no Estádio do Bom Retiro duram oito horas.
Começam com lutadores mirins como Diogo
Uehara (à esq.), 8 anos, e Táccio
Yamamoto, 7. Os adultos competem no fim do dia
Confederação Brasileira de Sumô,
3277-9124 |
A etiqueta japonesa é complexa
e cheia de códigos. Brasileiros que trabalham para empresas
como a montadora Nissan e a fabricante de temperos Sakura procuram
conhecê-la para não cometer gafes nem indelicadezas.
"Um movimento errado pode ofender profundamente e estragar os negócios",
explica Lumi Toyoda, professora especializada no assunto. É
isso mesmo. Alguns dos requisitos básicos para evitar constrangimentos
são ensinados a brasileiros por uma professora particular
500 alunos por ano ouvem suas dicas. "Contar piada no local
de trabalho, por exemplo, é imperdoável", avisa Lumi.
Essas regras fazem parte da rotina de quem quer aprender a arte
de manipular a espada desenvolvida pelos samurais na Idade Média,
o kenjutsu. No Instituto Niten, escola com três endereços
na capital, deve-se, em primeiro lugar, respeitar o mestre, ou seja,
o sensei. Depois de qualquer palavra que o sensei Jorge Kishikawa
pronuncia, os alunos incluindo os 130 brasileiros, ou 50%
do total respondem com voz forte: "Hai, sensei!"
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O kenjutsu,
a arte da espada, surgiu na época dos samurais e é
considerado um dos caminhos para a elevação espiritual.
Em São Paulo, 260 alunos aprendem a técnica no
Instituto Niten
Instituto Niten,
5539-3587 |
Nas aulas de kenjutsu e em outros
ambientes que valorizam a tradição, é uma grave
falta de educação entrar na sala sem tirar o sapato
e deixar de cumprimentar os presentes em voz alta. Nascidos no Brasil,
filhos e netos de imigrantes japoneses, no entanto, não se
apegam tanto a formalidades. Alguns têm o cabelo pintado de
loiro ou vermelho e ajeitado com penteados modernosos, adoram lan
houses (casas de jogos em rede) e se encontram em baladas-japa,
noites de música eletrônica realizadas aos sábados
em lugares como o Clube Ipê, no Ibirapuera, a danceteria Onu,
em Pinheiros, e a Mansão Calipso, às margens da Guarapiranga,
sede da Festa dos Mortos Vivos, que chega a atrair 2 500 pessoas
(apesar do nome, é animadíssima). A juventude nikkei
também adora mangás, os gibis japoneses que viraram
febre no mundo. São lidos de trás para a frente. A
livraria Animanga, na Vila Mariana, tornou-se ponto de encontro
da tribo interessada em comprar quadrinhos, escrever roteiros para
suas histórias, desenhar e até criar roupas iguais
às de seus personagens prediletos para fantasiar-se em festivais.
Parece incrível, mas a paixão pelos mangás
provocou um aumento na procura pelo ensino de japonês nas
escolas e a própria Animanga passou a oferecer cursos
do idioma.
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Aos sábados, boa parte dos dezesseis
grupos de street dance da comunidade nipônica ensaia perto
do metrô Conceição. Um dos mais antigos,
o The Face participa, neste
ano, de um festival nos Estados Unidos
The Face,
9369-6667 |
Diferentemente de outras comunidades,
a japonesa não é ligada apenas a tradições
que existiam no início do século XX, época
em que os imigrantes começaram a chegar ao país (o
Kasato Maru, primeiro navio de emigrantes da Terra do Sol
Nascente, aportou em Santos em 1908). Graças aos decasséguis,
brasileiros de origem nipônica que trabalham no Japão
por alguns anos para juntar dinheiro, em pouco tempo o que é
moda em Tóquio vira moda por aqui. Os dezesseis grupos de
street dance que se formaram na colônia nos últimos
dez anos dão uma boa amostra disso. Surgida nos Estados Unidos,
a dança virou mania entre os descolados japoneses, que fizeram
fama com seus movimentos rápidos e precisos. Logo começaram
a surgir dançarinos paulistanos, que procuram aliar a ginga
brasileira ao perfeccionismo de seus antepassados nas competições
internacionais. Criado há onze anos, o The Face representará
o Brasil no festival de Los Angeles, em agosto.
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Na livraria Animanga, na Vila Mariana,
há aulas de mangá, os
gibis japoneses que viraram mania no mundo e, por aqui, motivaram
um aumento na procura pelo ensino do idioma
Animanga,
5083-3180 |
Com o karaokê, a história
é parecida. "O hábito de cantar com o acompanhamento
de músicas gravadas surgiu por volta de 1980, mas nunca foi
tão forte como hoje", explica o professor de canto Roberto
Maeda. Ele tem cinqüenta alunos, de 5 a 70 anos de idade, todos
interessados em melhorar as performances em campeonatos de karaokê,
realizados aos domingos em sete lugares da cidade. Juntos, atraem
cerca de 2.000 pessoas por semana. "Em
nenhum outro lugar do mundo, fora do Japão, o karaokê
faz tanto sucesso como aqui", afirma Maeda. Há 100 associações
na capital. Para concorrer com uma música (em japonês,
claro), paga-se uma taxa de inscrição entre 10 e 15
reais. Aos 10 anos, Douglas Daichi Tatsumi é um dos mais
festejados cantores do momento. Campeão brasileiro da categoria
infantil em 2003, ele conquista troféus em todos os concursos
em que apresenta a canção Seikurabe, sobre
o crescimento de crianças, animais e plantas. Para vencer
a timidez, os adultos contam com a ajuda de garrafas de uísque
e saquê, discretamente colocadas atrás do palco.
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Além de 600 restaurantes
japoneses para almoçar ou jantar, é possível
provar um café-da-manhã
típico, com direito a salmão e sopa,
em hotéis como o Renaissance (acima), ou experimentar
os doces de feijão e os pães de melão da
padaria Itiriki, na Liberdade
Hotel Renaissance,
3069-2233;
Padaria Itiriki Bakery,
3277-4939 |
O músico Setsuo Kinoshita,
36 anos, é outro responsável por fazer o elo entre
o Japão atual e a colônia. Ele nasceu no Butantã,
montou uma banda na adolescência e há catorze anos
resolveu estudar na terra de seus ancestrais. Logo surgiu o interesse
por um grande tambor de som fortíssimo conhecido como taiko,
originalmente usado na comunicação entre vilas, em
batalhas e em templos budistas. Kinoshita tornou-se especialista
no assunto e hoje vive a metade do ano em Nara, no Japão,
onde dá aulas de samba e tem um conjunto profissional, o
Wadaiko Sho. Nos outros seis meses, ensina o taiko em uma escola
ao lado do metrô Ana Rosa e forma sua filial do grupo por
aqui. "Gosto de promover esse intercâmbio", diz ele.
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Criado pelo professor Setsuo Kinoshita
(à frente), o Wadaiko Sho é um dos seis
grupos paulistanos de taiko
(tambor japonês). Até 1950, o instrumento só
era tocado em templos
Setsuo Kinoshita,
5078-8430 |
O Festival do Japão, que
começa dia 23, na Assembléia Legislativa, será
uma boa oportunidade para conhecer o som contagiante do taiko. Em
sua sétima edição, é um evento promovido
por 47 associações que representam cada uma das províncias
japonesas. Desta vez, terá como tema os ensinamentos dos
samurais e, além de música, haverá demonstrações
de artes marciais, cerimônias do chá gratuitas, barracas
de alimentos e produtos típicos à venda. Numa área
de 12.000 metros quadrados, os mais de
300.000 visitantes esperados poderão
conferir um pouco da cultura e da forte presença japonesa
na cidade. Sayonara!
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Mari Kanegae
já ensinou origami a mais de 2 000 pessoas. Na primeira
lição, aprende-se a fazer o pássaro tsuru,
símbolo de longevidade surgido no século XVI
Atelier KamiArte,
5584-8291 |
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