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14 de julho de 2004
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CRÔNICA

Intrigas profissionais

Walcyr Carrasco

Chamo um eletricista para fazer uma ligação doméstica. Ele examina o quadro de luz.

– Está uma porcaria. O senhor devia mudar toda a fiação.

– Como, se troquei há três meses?

Torce o nariz. Meu sistema deveria ser mais moderno, explica. Fios mais grossos. Mostra um como exemplo. Exatamente igual aos que botei da última vez. Peço um orçamento. Apresenta um valor suficiente para iluminar o estádio do Morumbi. Conclui:

– Quem fez o serviço meteu a mão. Aproveitou-se da boa vontade do senhor.

Eu me despeço preocupado. Ele avisa:

– Cuidado! Se der um curto-circuito, a casa pode pegar fogo!

Apavorado, chamo um amigo engenheiro. O coitado perde o fim de semana verificando a fiação. Sorri:

– Está tudo perfeito. Mexer é loucura.

Como eu suspeitava! Fico assustado com o número de profissionais especializados em detonar o trabalho de seus colegas. Só para enfiar a faca. Às vezes dá medo chamar alguém para um pequeno conserto. Muitos pedreiros e encanadores usam a mesma técnica. O último mestre-de-obras avisou que a laje podia ruir, se eu não fizesse um reforço. Antes de derrubar metade da casa, chamei um engenheiro calculista.

– A construção é sólida como um castelo – afirmou ele.

Já ia respirar aliviado, quando me apresentou a conta. Por hora! Tive vontade de ir cobrar do mestre-de-obras. Safado!

Oficina mecânica, então, arrepia. Certa vez deixei o carro para uma revisão geral. Paguei uma grana. Dois dias depois, voltou a parar sem motivo. Dei a partida a duras penas. Fui à oficina mais próxima.

– Ih... vai ser preciso dar uma mexida bem grande.

– Ei, o carro acaba de sair da revisão.

– Não sei o que fizeram. O motor está bem ruim. Pode até fundir!

Estacionei em outra. A explicação:

– Foi só uma sujeirinha na gasolina. Não é nada.

Desse último, virei freguês!

Dentistas são discretos, mas existem alguns que não se furtam a criticar o colega. Um amigo carioca mudou para São Paulo. Foi se consultar. A dentista examinou sua boca com ar crítico. Abanou a cabeça:

– O material colocado é de péssima qualidade. Vamos ter de trocar tudo.

– Quem fez foi meu tio, que era presidente da associação...

– Ah, devia ser bem velhinho! – concluiu ela, de broca na mão.

Advogados não gostam de falar mal um do outro. Alguns são sutis.

– Quanto a sua causa, eu teria ido por outro caminho...

Dá-lhe! Em segundos arrebenta com tudo o que o outro fez, com jeito de não querer falar mal! Atores e atrizes muitas vezes inoculam o veneno fingindo que elogiam. Já ouvi uma estrela falar da outra:

– O trabalho dela na peça é deslumbrante. Às vezes é um tanto melodramática, exagera nas lágrimas. Também, o ideal para a personagem seria uma atriz mais nova.

Ou seja: não sobra nada!

Há alguns anos senti umas dores. O médico não teve dúvidas.

– Hérnia. É melhor não perder tempo e marcar a operação.

Antes que abrisse a agenda, expliquei que precisava verificar algumas coisas no trabalho. Depois ligaria para definir a data. Corri ao consultório de outro.

– Que hérnia coisa nenhuma! Que médico é esse que você arrumou?

E me dispensou. Dúvida cruel. Operava ou não? Médicos não costumam detonar o trabalho de colegas. É uma categoria superética. Resolvi esperar. Se tinha hérnia ou não, jamais saberei. A dor passou. Não me operei até hoje. Concluí que, com tanta gente criticando o trabalho alheio, é bom sempre ter uma segunda opinião.

         
     
 
 
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