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CRÔNICAS
Obras
e mais obras
IVAN
ANGELO
Sigo
de ônibus pela Rua Cardeal Arcoverde, no bairro de Pinheiros,
e o motorista irrita-se com o trânsito travado. Não vai
dar para cumprir o horário, teme a caneta do fiscal.
Por que o pessoal de carro particular não procura um caminho
melhor e deixa este aqui para quem não pode se desviar?
questiona um passageiro.
Se eu tivesse carro, era isso que eu ia fazer concorda outro.
A rua ficava mais livre.
Não tem caminho melhor, só pior retruca o motorista.
Tá tudo embaçado. São as obras.
Ontem aqui parou tudo lembra uma senhora. Tinha uma
mulher dando à luz num carro aí na frente e o marido
desceu desesperado. Aí foi que parou tudo mesmo. O homem
gritava, nossa, como ele gritava...
Ouvi falar disso aí confirma o motorista. Tava
lá para trás.
E não é que apareceu um médico para ajudar
ela? Vê que pessoa abençoada! continua a senhora.
Foi graça de Nossa Senhora.
Eu agora saio de casa quarenta minutos antes, senão não
chego na hora diz o homem sentado atrás dela.
Na primeira semana, o patrão perdoou uns e outros, agora
acabou. É o que ele falou: se eu que venho de carro saio
mais cedo de casa, por que é que vocês não podem?
Eu pago hora de trabalho, hora de ônibus não pago,
não.
Minha sobrinha entra na conversa a senhora a seu lado
trabalha no Shopping Ibirapuera. Precisa ver o que ela tá
penando para ir para casa. Capão Redondo, imagina. Pega aquela
confusão toda da Avenida Ibirapuera e depois ainda tem mais
confusão na Guarapiranga. Tem dia de levar mais de duas horas
indo para casa, no mesmo ônibus.
Uai, e eu? atalha a mulher que a ouvia, em pé no corredor.
Também fui premiada duas vezes. Pego esta agonia aqui,
para ir para o Largo da Batata, aí pego outro ônibus
para ir para Moema e no meio trava tudo de novo na esquina da Cidade
Jardim. Quando não dá para sentar, é cada solavanco
que eu chego no trabalho descadeirada.
Outro dia comenta com a amiga a mocinha que ouvia a conversa
perdi hora no dentista, entalada no trânsito. Não
me atendeu e ainda está querendo cobrar, pode?
Pior fui eu, que perdi um paquera lindo, lindo lindo! conta
a amiga, e ao perceber ouvidos interessados passa a cochichar de
maneira inaudível.
Busão tudo bem fala o rapaz de fone no ouvido para
o de dedos ágeis no videogame , o preço da passagem
é um só, demorando ou não. Agora, táxi,
meu? No começo do ano, entrega que eu fazia de táxi
dava 26 paus; hoje é 32, mano.
Que é que está acontecendo em São Paulo,
bróder? pergunta o rapaz, sotaque carioca.
Olha só. A tal da Nove de Julho, parece que passou
um furacão.
Um
homem de terno comenta com o vizinho: Diz que furacão
sempre tem nome de mulher, não é? Lá no Sul
chamaram o ciclone de Catarina. O daqui também é mulher.
Nove de Julho e Ibirapuera, vai ter corredor de ônibus lá,
é isso? quer saber o trocador.
É, Passa Rápido. Acho que é responde
o motorista.
Já andei no da São João. Bacana. Terminal da
Lapa e de Pirituba tão uma beleza. Só ônibus
novo, carro particular vai ficando para trás.
O
homem no assento isolado quase se levanta, bravo:
Quem é que paga o prejuízo das lojas? Não tem
acesso! Meu genro foi para a rua! A loja não vende!
O problema é que ela quer fazer de uma vez tudo o que os
outros deixaram de fazer. Aí complica tenta contemporizar
o homem ao lado da velhinha, tomando-a pela mão, preparando-se
para apear.
Ah, deixa falar, filho diz ela, já de saída.
Se é para melhorar para nós, tá bom.
Boa viagem, gente!
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