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14 de abril de 2004
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CRÔNICA
   

CRÔNICAS

Obras e mais obras

IVAN ANGELO

 

Sigo
de ônibus pela Rua Cardeal Arcoverde, no bairro de Pinheiros, e o motorista irrita-se com o trânsito travado. Não vai dar para cumprir o horário, teme a caneta do fiscal.

– Por que o pessoal de carro particular não procura um caminho melhor e deixa este aqui para quem não pode se desviar? – questiona um passageiro.

– Se eu tivesse carro, era isso que eu ia fazer – concorda outro. – A rua ficava mais livre.

– Não tem caminho melhor, só pior – retruca o motorista. – Tá tudo embaçado. São as obras.

– Ontem aqui parou tudo – lembra uma senhora. – Tinha uma mulher dando à luz num carro aí na frente e o marido desceu desesperado. Aí foi que parou tudo mesmo. O homem gritava, nossa, como ele gritava...

– Ouvi falar disso aí – confirma o motorista. – Tava lá para trás.

– E não é que apareceu um médico para ajudar ela? Vê que pessoa abençoada! – continua a senhora. – Foi graça de Nossa Senhora.

– Eu agora saio de casa quarenta minutos antes, senão não chego na hora – diz o homem sentado atrás dela. – Na primeira semana, o patrão perdoou uns e outros, agora acabou. É o que ele falou: se eu que venho de carro saio mais cedo de casa, por que é que vocês não podem? Eu pago hora de trabalho, hora de ônibus não pago, não.

– Minha sobrinha – entra na conversa a senhora a seu lado – trabalha no Shopping Ibirapuera. Precisa ver o que ela tá penando para ir para casa. Capão Redondo, imagina. Pega aquela confusão toda da Avenida Ibirapuera e depois ainda tem mais confusão na Guarapiranga. Tem dia de levar mais de duas horas indo para casa, no mesmo ônibus.

– Uai, e eu? – atalha a mulher que a ouvia, em pé no corredor. – Também fui premiada duas vezes. Pego esta agonia aqui, para ir para o Largo da Batata, aí pego outro ônibus para ir para Moema e no meio trava tudo de novo na esquina da Cidade Jardim. Quando não dá para sentar, é cada solavanco que eu chego no trabalho descadeirada.

– Outro dia – comenta com a amiga a mocinha que ouvia a conversa – perdi hora no dentista, entalada no trânsito. Não me atendeu e ainda está querendo cobrar, pode?

– Pior fui eu, que perdi um paquera lindo, lindo lindo! – conta a amiga, e ao perceber ouvidos interessados passa a cochichar de maneira inaudível.

– Busão tudo bem – fala o rapaz de fone no ouvido para o de dedos ágeis no videogame –, o preço da passagem é um só, demorando ou não. Agora, táxi, meu? No começo do ano, entrega que eu fazia de táxi dava 26 paus; hoje é 32, mano.

– Que é que está acontecendo em São Paulo, bróder? – pergunta o rapaz, sotaque carioca. – Olha só. A tal da Nove de Julho, parece que passou um furacão.

Um homem de terno comenta com o vizinho: – Diz que furacão sempre tem nome de mulher, não é? Lá no Sul chamaram o ciclone de Catarina. O daqui também é mulher.

– Nove de Julho e Ibirapuera, vai ter corredor de ônibus lá, é isso? – quer saber o trocador.

– É, Passa Rápido. Acho que é – responde o motorista.

– Já andei no da São João. Bacana. Terminal da Lapa e de Pirituba tão uma beleza. Só ônibus novo, carro particular vai ficando para trás.

O homem no assento isolado quase se levanta, bravo:

– Quem é que paga o prejuízo das lojas? Não tem acesso! Meu genro foi para a rua! A loja não vende!

– O problema é que ela quer fazer de uma vez tudo o que os outros deixaram de fazer. Aí complica – tenta contemporizar o homem ao lado da velhinha, tomando-a pela mão, preparando-se para apear.

– Ah, deixa falar, filho – diz ela, já de saída. – Se é para melhorar para nós, tá bom. Boa viagem, gente!

         
   
     
 
 
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