Por dentro da pedra

Cachoeiras, trilhas e muitas cavernas
fazem do Petar um bom passeio

Miguel Icassatti

Fotos Dorival Elze

Gruta do Morro Preto: entrada com 15 metros de altura e caminhada de quase 1 quilômetro


O que faz o paulistano quando sai da cidade em busca de aventuras? Pratica rappel em Brotas, salta de pára-quedas em Boituva e, cada vez mais, explora o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar), com mais de 200 cavernas cadastradas, dezenas de espécies animais, vegetais da Mata Atlântica, cachoeiras e rios. No ano passado, 17.000 moradores da capital encararam as cinco horas de viagem para enfiar-se cavernas e mato adentro. Isso corresponde a 41% do total de visitantes. São 320 quilômetros até o coração do parque, entre os municípios de Iporanga e Apiaí, no sul do Estado. A distância e certa dificuldade de acesso, por causa da má conservação das estradas secundárias, ajudam a manter preservados seus 357 quilômetros quadrados. Um fim de semana é pouco para aproveitar bem o local, considerado pela Unesco como Reserva da Biosfera e patrimônio da humanidade. O ideal é um feriado prolongado.

São quatro núcleos de visitação pública: Ouro Grosso, Caboclos, Santana e Casa de Pedra. Neste último, pode-se ver uma das maiores bocas de caverna do mundo, com 216 metros de altura. O núcleo Santana, que tem oito grutas, é o mais procurado. "Ele recebe 85% dos turistas", estima a bióloga Gisela Vianna Menezes, administradora-geral do parque. Não falta diversão nem para quem nunca desafiou uma trilha. Nos trechos mais difíceis – dentro da Caverna Santana, por exemplo –, crianças e vovôs atravessam passarelas, pinguelas e escadas. Seus 600 metros de abismos e galerias podem ser percorridos em cerca de duas horas. Ali se vêem curiosas formações minerais, como as que lembram um cavalo, uma pata de elefante, uma asa de anjo e o rosto de Jesus.

 

Cavernas Santana (à esq.) e Água Suja (acima): cortina de estalactites e queda-d'água subterrânea

No final de uma pequena trilha, com trecho de subida íngreme, ficam as cavernas Morro Preto e Couto. A Morro Preto tem um belíssimo pórtico com 15 metros de altura e 10 de largura, além de muitas estalactites e estalagmites (veja quadro). "Estudos científicos mostraram que a Morro Preto serviu de abrigo para nossos ancestrais", diz o espeleólogo (especialista em cavernas) Roberto Rodrigues. Já a Caverna do Couto tem uma abertura bem mais estreita. Ao entrar, é preciso agachar-se. O trajeto interno, de 471 metros, pode ser feito em cinqüenta minutos. "A sensação de andar no escuro, em um lugar apertado, dá certa fobia", descreve a estudante Juliana Veiga. "Mas não senti dificuldade."

O caminho para alcançar a Caverna Água Suja é um pouco mais difícil. Um grupo de dez pessoas gasta uma hora desde a entrada do parque. O ponto alto da trilha é a travessia do Rio Bethary, realizada com a ajuda de uma corda. Na chegada ao destino, três surpresas. A primeira é perceber que quase todos os 1.300 metros do percurso interno serão feitos com água pelas canelas. Na passagem entre dois salões, a segunda: um túnel de vento bem frio. Mais à frente, a melhor de todas: vencido um corredor estreito, em que quase dois terços do corpo de um adulto permanecem submersos, surge uma cachoeira subterrânea. O barulho e a beleza são de emocionar.

 
Uma das três cascatas do Sem Fim e correnteza no Rio Bethary: banhos e bóia-cross

Quem visita a Água Suja pode aproveitar para conhecer as cachoeiras das Andorinhas e das Samambaias, bem mais adiante. Ambas têm cerca de 20 metros de queda. Crianças e idosos exigem mais atenção, porque a trilha é complicada. Há cascatas com acessos mais fáceis, como as do Sem Fim, na estrada que liga Iporanga ao bairro da Serra. São três. Depois de dez minutos de trilha, avista-se a primeira, toda recortada em pequenas quedas. Na seguinte, vê-se uma piscina natural de 15 metros de diâmetro e 5 de profundidade. A mais afastada tem 6 metros de altura. Alguns se arriscam a saltar lá de cima para um mergulho.

Fora as cavernas e as cachoeiras, a atração mais procurada no Petar é o Rio Bethary, que cruza todo o parque. Boa parte dele corre ao lado da estrada. Pratica-se o bóia-cross em quatro de seus trechos. O mais freqüentado é o de nível 2, para quem já tem o mínimo de experiência. Vai da Ponte do Alambari à Ressurgência das Areias. Rio abaixo, há 2 quilômetros em que se alternam corredeiras e remansos. O trecho pode ser concluído em uma hora e meia.

Para visitar o Petar é indispensável estar acompanhado de guias ou monitores ambientais credenciados pelo Instituto Florestal. Eles podem ser encontrados por intermédio da administração do parque ou das pousadas próximas. Campistas preferem instalar-se no próprio núcleo Santana, que dispõe de área gramada, cozinha e chuveiros. No bairro da Serra, existe uma opção mais confortável. Pousadas, com acomodações simples, cobram de 30 a 40 reais a diária, em regime de meia pensão. Elas também alugam os equipamentos de segurança necessários, como capacete e kit de iluminação com carbureteira. Uma recomendação do espeleólogo Roberto Rodrigues: "Use calçados antiderrapantes e leve um lanche reforçado para a trilha".

 

Natureza esculpida

 
Travertino, cortina e estalactite: riqueza de formações

A luz que parte das lanternas e carbureteiras revela muitas surpresas. São os espeleotemas, depósitos minerais que compõem formas ou desenhos depois de milhares de anos de decomposição das rochas calcárias. "Na verdade, tudo está sempre mudando lentamente, mas nossos olhos não percebem", diz Roberto Rodrigues, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Espeleologia. As estalactites são os espeleotemas mais conhecidos. Pontiagudas, formam-se a partir do teto. Especula-se que, no Petar, elas cresçam 1 milímetro por ano. As cortinas nada mais são que estalactites bem finas, que se parecem com peças de pano. Presas ao solo, as estalagmites têm a ponta arredondada. Os travertinos, menos comuns, assemelham-se a diques. Eles represam a água que escorre das próprias pedras.

 

PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira) – Avenida Isidoro A. Santiago, 364, Apiaí, (15) 552-1875. Portaria núcleo Santana: (15) 552-1528. Ingresso: R$ 3,00. No site www.petar.com.br há dicas de passeios.

Como chegar: O melhor acesso é pela Rodovia Régis Bittencourt (BR-116). São 214 quilômetros até Jacupiranga. De lá, mais 27 quilômetros para Eldorado e outros 64 até Iporanga. Por fim, 14 quilômetros de estrada de terra até o bairro da Serra.

Onde ficar: Pousada do Quiririm, (15) 556-1273 e (11) 6693-3578 e 9226-1506 (reservas); Pousada das Cavernas, (11) 5543-3082; Pousada da Diva, (15) 556-1224.

 

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