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"Estou
a 200 por hora"
Carlos
Maranhão, Alessandro Duarte e Caco de Paula
Leo Feltran

"De
repente, sentada na minha cadeira, me deu o estalo e disse
para mim mesma: "Pô, ser prefeita é
muito bom! Vou poder fazer muita coisa, mesmo amarrada
e engessada"" |
Na
terça-feira passada, durante uma entrevista de mais
de uma hora a Veja São Paulo, a prefeita Marta
Suplicy pronunciou 4.770 palavras e não citou
nem uma vez a sigla PT ou o nome Partido dos Trabalhadores.
Oposicionista nas duas últimas administrações
municipais, depois de pouco mais de cinco semanas no cargo
ela já percebeu que fazer é bem mais gratificante
que apenas criticar. "É mais gostoso", afirma, visivelmente
à vontade no poder da maior cidade brasileira. Embora
trabalhe duro e tenha de encontrar soluções
para os velhos e conhecidos problemas paulistanos, Marta conta
com satisfação que não abriu mão
de hábitos (caminhadas, sessões de ginástica),
pequenos deveres domésticos (fazer supermercado) e
prazeres (ir ao cinema e a shows). No meio da noite, rodeada
em seu gabinete por secretárias com olheiras e assessores
exaustos, ela ainda dá risadas e mantém o pique.
Caio Guatelli/Folha Imagem

"Já
fiquei escolada com os pichadores. Vou dar uma canseira
nessa turma e eles irão desistir" |
Veja São Paulo Governar é
mais difícil do que fazer oposição?
Marta Governar é muito mais gostoso.
Enquanto se é oposição, só dá
para dizer o que deveria ser feito. Agora posso fazer algumas
coisas. Nem tudo, é claro, pois existem limites, mas
tenho o poder da escolha. Estou gostando, sim. Neste momento
são 8 e meia da noite e, embora eu tenha começado
a trabalhar logo cedo, ainda estou a 200 por hora.
Veja
São Paulo Então é bom ser prefeita
de São Paulo?
Marta Até a terceira semana de
trabalho eu ainda não sabia. Estava na fase de reconhecimento
do terreno, descobrindo o que podia e não podia fazer,
qual era a abrangência do cargo, a dimensão dos
problemas. E todo dia tomava um susto com as finanças.
De repente, sentada ali na minha cadeira vermelha, me deu
o estalo e disse para mim mesma: "Pô, isso é
muito bom! Vou poder fazer muita coisa, mesmo amarrada e engessada".
Veja
São Paulo Por que engessada?
Marta Por causa da Lei de Responsabilidade
Fiscal. A lei é certa, moralizadora e necessária,
mas tem alguns erros. Ela nos proíbe de contrair novos
empréstimos. Sem tantas restrições, São
Paulo poderia sair do brejo em quatro anos. Vai demorar uns
dez.
Veja
São Paulo Alguma coisa mudou em São Paulo
depois de sua posse?
Marta Está mudando o espírito
das pessoas. No domingo fui visitar o ex-presidente Sarney,
que estava internado no Hospital Sírio Libanês,
e ele me disse: "Marta, vi uma coisa bonita na rua: está
todo mundo alegre". É verdade. As pessoas me mandam
beijos quando passo de carro. Sinto isso em qualquer lugar.
Veja
São Paulo E na sua vida pessoal, mudou o quê?
Marta A diferença é que
agora volto bem mais tarde para casa. Na segunda-feira, fiquei
no gabinete até 10 e pouco da noite.
Veja
São Paulo A senhora está se privando
de coisas que fazia antes?
Marta Não. Nem pretendo. Daqui
a quatro anos quero continuar bem inteira. Faço ginástica
em casa, ando três vezes por semana. Uma das coisas
que mais me impressionam na vida pública é o
jeito como as pessoas ficam envelhecidas. Observe o Bill Clinton,
a própria Hillary Clinton, o Fernando Henrique. Dá
para ver que não se cuidaram ou sucumbiram ao stress.
Lembro que, durante a campanha, uma mulher muito humilde veio
me falar, referindo-se aos políticos em geral: "A senhora
não vai ficar igual a eles, né?" Respondi que
não, de jeito nenhum, que no meu partido não
tem corrupção. E ela: "A senhora não
entendeu. Estou dizendo que, se não se cuidar, a senhora
vai ficar como eles: acabada fisicamente". Aí eu comecei
a repensar minha vida. Resolvi que, na prefeitura, mesmo trabalhando
mais, como está acontecendo, eu continuaria a me cuidar
e a fazer as coisas de que gosto.
Veja
São Paulo Ainda vai ao cinema, por exemplo?
Marta Adoro cinema. Vejo tudo que tenho
vontade. Domingo passado fui à sessão das 2
da tarde assistir a Pão e Tulipas.
Veja
São Paulo Gostou?
Marta Médio.
Veja
São Paulo Que filme bom a senhora viu depois
que virou prefeita?
Marta Gostei bastante de Pão
e Rosas.
Milton Michida/AE

"Continuo
indo ao cinema e ao supermercado, como sempre fiz. Não
me privo de nada. A única coisa difícil
agora é andar no Ibirapuera, onde me param para
reclamar e pedir emprego" |
Veja
São Paulo Como algumas pessoas famosas, a senhora
espera as luzes se apagarem para entrar?
Marta Imagine! Ninguém me incomoda
no cinema ou quando vou a shows, como os do Roberto Carlos
e os de meus filhos, João e Supla. A única coisa
que se tornou complicada para mim é ir ao Parque do
Ibirapuera. Ficou desconfortável, porque tento dar
uma caminhada e a toda hora me param para reclamar, fazer
reivindicações e pedir emprego.
Veja
São Paulo O que a senhora está lendo?
Marta Só relatórios e
assuntos técnicos. Na campanha, comecei a ler uma biografia
do barão Haussmann (prefeito de Paris entre 1853
e 1870). Continuo patinando e até agora não
consegui avançar na leitura. Do livro que a vereadora
Aldaíza Sposati me mandou sobre a cidade, com todo
o mapa da exclusão social, li umas quinze páginas.
Veja
São Paulo Quando fica presa num congestionamento
de trânsito, o que a senhora faz?
Marta Pego o celular e adianto meu expediente.
Veja
São Paulo Há solução para
o trânsito de São Paulo?
Marta Nosso trânsito é
uma vergonha. As origens do problema estão nos anos
30, quando o prefeito Prestes Maia fez a meu ver a escolha
errada: em vez de metrô, privilegiou a construção
de grandes avenidas. Mais tarde, como governador e prefeito,
Maluf multiplicou o erro. Perdemos muito tempo com isso. O
metrô de São Paulo e o da Cidade do México
foram iniciados praticamente na mesma época, no começo
da década de 70. Nós temos 50 quilômetros.
A Cidade do México tem quase 200. Diante dessas escolhas
equivocadas, hoje o transporte público da cidade depende
basicamente dos ônibus e dos clandestinos. Dias atrás
propus ao governador em exercício, Geraldo Alckmin,
uma ação conjunta para a construção
da linha 4, que vai do centro à Vila Sônia. Eu
faço a desapropriação, ele faz a obra.
Essa é a solução.
Veja
São Paulo Só que vai demorar. O que dá
para fazer até lá?
Marta Corredores de ônibus. Não
como o de Santo Amaro, aberto sem critério algum, o
que provocou a destruição estética da
avenida. Precisamos de pelo menos oito corredores. Tenho dinheiro
para três, com verba que o BNDES não soltou para
o Pitta e prometeu liberar para a gente. Uma ailde;o soltou para
o Pitta e prometeu liberar para a gente. Uma alternativa é
criar novas faixas exclusivas para ônibus.
Cesar Diniz/AE

Enchente
na Zona Leste de São Paulo, no dia 30 de janeiro
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"Tenho
pensamentos vexaminosos na hora da chuva. Mal o céu
escurece e ouço os trovões, eu pergunto:
"'Está chovendo muito? Está alagando?
A chuva é nossa? Se me respondem que não,
que a chuva é de Barueri, digamos, eu falo: 'Que
bom'" |
Veja
São Paulo Não está em seus planos
aumentar o rodízio de automóveis?
Marta Não. O rodízio em
vigor já é suficiente para atazanar a vida do
cidadão. Estou estudando outras possibilidades. Mas
não quero adiantar porque serão polêmicas.
Veja
São Paulo Dizem respeito aos veículos
particulares?
Marta Sim.
Veja
São Paulo Seria o pedágio urbano, com
cobrança eletrônica para quem transitar em determinadas
áreas?
Marta Não sei, vamos ver. Como
disse, é algo polêmico. Não posso anunciar
nada por enquanto. Quando a idéia amadurecer, penso
em promover um plebiscito, o primeiro da história da
cidade, para que os eleitores decidam.
Veja
São Paulo O que lhe passa pela cabeça
quando começa a chover?
Marta Tenho pensamentos vexaminosos.
Mal o céu escurece e ouço os trovões,
eu pergunto: "Já está chovendo muito? Está
alagando? A chuva é nossa?" Se me respondem que não,
que a chuva é em Barueri, digamos, eu falo: "Que bom".
Veja
São Paulo A senhora acompanha a meteorologia?
Marta Acompanho toda noite pela TV,
depois de ver Os Maias. Aliás, estou gostando
muito da minissérie. Como qualquer paulistano, nesta
época do ano fico ansiosa com a possibilidade de uma
enchente. Com os buracos, tenho a mesma atitude. Sei que é
errado pensar assim, mas são tantos os nossos problemas,
tantas coisas a fazer, que quando aponto um buraco e me informam
que é da Sabesp eu digo de novo: "Que bom!" É
um vexame, é feio fazer isso, porque buraco é
buraco.
Veja
São Paulo O Palácio das Indústrias,
onde desde 1992 funciona o gabinete da prefeitura, tem sido
criticado por todos os prefeitos que o ocuparam. Ele é
tão ruim assim?
Marta É inadequado. Não
foi feito para isso.
Veja
São Paulo Está pensando em mudar a sede
da prefeitura?
Marta Estou.
Veja
São Paulo Para onde?
Marta Segredo.
Veja
São Paulo É no centro?
Marta Claro.
Veja
São Paulo Paulo Maluf tentou mudar, mas depois
desistiu.
Marta Quem sabe eu tenha mais sorte
ou mais capacidade.
Veja
São Paulo Já lhe ocorreu que provavelmente
a senhora não poderá cumprir todas as suas promessas
de campanha?
Marta Não. Eu disse para o secretário
das Finanças, João Sayad: "Olhe, Sayad, vou
começar todos os programas, você que se vire".
Posso até não concluir, mas vou começar.
Com a renda mínima, entrarei para valer. Vamos iniciar
com 60.000 famílias.
Arquivo pessoal

Com
o pai, Luiz Affonso Smith de Vasconcellos, no final dos
anos 70 |
Veja
São Paulo Um programa como esse, que se propõe
a complementar a renda das famílias que ganham menos
de três salários mínimos e tenham filhos
na escola, não irá atrair ainda mais gente para
a cidade, aumentando seus problemas?
Marta Não, porque serão
beneficiados apenas os que moram aqui há pelo menos
dois anos. Quem visita a pobreza de São Paulo, como
eu faço, não pode achar que o renda mínima
é secundário.
Veja
São Paulo Quanto vai custar?
Marta Sessenta milhões de reais
no primeiro ano.
Veja
São Paulo De onde virá o dinheiro?
Marta Para o renda mínima nós
temos. Só com a demissão de funcionários
fantasmas economizamos 78 milhões de reais. Para outros
programas sociais, há pouca verba e muita disposição
para realizar parcerias.
Veja
São Paulo Um projeto bem mais barato é
o chamado Belezura, lançado com um apelo para que os
comerciantes retirassem as placas irregulares de propaganda
que tanto enfeiam a cidade. Os resultados práticos
não estão demorando a aparecer?
Marta Estamos indo por etapas. Fiz o
apelo e a Central de Outdoors apresentou 200 painéis
irregulares. Devem existir uns 700. Numa primeira fase iremos
retirar os que se encontram em locais que pertencem à
prefeitura. A poluição visual mais agressiva
está em ruas de comércio. Vamos conversar com
os comerciantes, explicar, engajá-los, dar um prazo
e depois multar.
Veja
São Paulo Não seria mais fácil
simplesmente multar, pois se trata de transgressores da lei?
Marta As coisas não funcionam
assim. Antes de tudo, é preciso buscar o entendimento
e a cooperação.
Veja
São Paulo Isso resolve? A senhora ajudou a pintar
os muros do Estádio do Pacaembu e, mal virou as costas,
os pichadores voltaram a atacar.
Marta Eu mandei repintar no mesmo dia.
Estou escolada em relação aos pichadores. É
claro que eles querem agredir a sociedade. Mas a graça
maior para eles é que sua pichação seja
vista. Se o pichador suja o muro à noite e nós
limpamos de manhã, ele não vai se bacanear.
Em uma semana, desiste. Como os Estados Unidos e a França
enfrentam os pichadores? Com policiamento e limpeza rápida.
Vou dar uma canseira nessa turma e eles irão desistir.
Veja
São Paulo Como a senhora pretende recuperar
o centro da cidade?
Marta A Clara Ant, administradora regional
da Sé, tem 100 dias para me entregar um plano de revitalização
da área. Vamos tratar antes de mais nada dos ambulantes.
É preciso regulamentar sua atuação. Mas
não adianta eu dizer: "Vão embora, não
quero mais ninguém aí". Eles saem e depois voltam.
Evidentemente, não vou admitir que, na frente do Teatro
Municipal, fiquem aquelas barracas de alimentação
e camelôs vendendo CDs aos gritos. Teremos de negociar
quadra por quadra. O que eu não posso e não
quero é fazer factóides, ou achar que se resolve
tudo num passe de mágica.
Veja
São Paulo Quando o paulistano vai voltar a ter
orgulho de sua cidade?
Marta Acho que as pessoas já
não estão sentindo vergonha e começam
a ter esperança. Sinto que muita gente pensa assim:
"São Paulo está péssima, mas ela está
tentando. Vamos ajudar". Eu tenho de saber canalizar bem esse
espírito.
Veja
São Paulo Uma crítica que lhe faziam
durante a campanha é de que a senhora não tinha
experiência administrativa. Isso de alguma forma está
lhe fazendo falta?
Marta Qualquer um sem passado no serviço
público enfrentaria os mesmos problemas que eu. O importante
é estar informado e saber tomar decisões.
Veja
São Paulo É difícil?
Marta A dificuldade só existe
porque eu gostaria de fazer tudo e não posso. Então,
a solução é optar.
Veja
São Paulo A senhora se considera autoritária,
como muita gente diz?
Marta Normalmente pessoas assertivas
são confundidas com autoritárias. Se um homem
diz o que pensa, fala "não" e decide, é alvo
de elogios. Sendo mulher, fica com a imagem de autoritária
e mandona. Estou acostumada. Meu pai sempre brincava comigo:
"Filha, quando você crescer vou lhe comprar um convento
para você ser a madre superiora".
Veja
São Paulo Na sua casa, quem manda: a senhora
ou o senador Eduardo Suplicy?
Marta É dividido. No que interessa
a mim, mando eu, e, no que interessa ao Eduardo, manda ele.
Em matéria de decoração e arrumação
da casa, ele não dá o menor palpite. Eu adoro
arrumar mesas, comprar coisas.
Veja
São Paulo A senhora ainda vai ao supermercado?
Marta Continuo indo, pelo menos uma
vez por semana, perto de nossa casa, na Alameda Gabriel Monteiro
da Silva.
Veja
São Paulo Não a incomodam?
Marta Lá, não. Muito pouco.
Empurro meu carrinho em paz.
Veja
São Paulo Por que a senhora ficou tão
irritada com o pequeno tumulto no dia em que atravessou a
pé a Avenida Faria Lima para ir comprar um par de tênis
no Shopping Iguatemi?
Marta Aquilo foi um absurdo. Não
tem sentido a imprensa ficar me fotografando numa loja.
Veja
São Paulo Bem, quase tudo o que a prefeita da
maior cidade brasileira faz desperta curiosidade. A senhora
tem consciência disso?
Marta Tenho, e é por isso que
não reclamei mais.
Veja
São Paulo A senhora é candidata a um
novo mandato, ao governo do Estado ou à Presidência?
Marta Essa é a última
coisa com que estou preocupada. Meu compromisso é fazer
um bom governo. Depois de quatro anos irei pensar no futuro.
Ser política é minha opção agora,
mas eu não teria nenhum problema em deixar a vida pública
ao concluir o mandato. Além da política, adoro
minha profissão de psicanalista, adoro fazer televisão
e confesso que adoraria ter netos para cuidar.
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