Walcyr Carrasco

O ponto X

Surras, queimaduras e promessas
na mesa de massagens

Massagem virou moda na cidade. Todo candidato a ser massageado se imagina como um imperador romano em fita de Hollywood. Deitado, com belas escravas núbias tocando suas costas, dá ordens para invadir um pedaço do mundo. Ai de mim! Nem sempre funciona desse jeito! Boa parte dos massagistas prefere é me dar uma boa surra!

Tive um fantástico, de Osasco. Eu morava na Granja Viana, e ele, de origem nipônica, ia em casa. Do-in. Dedões fortes, apertava todo meu corpo, segundo afirmava, para "reequilibrar" as energias. Na terceira semana, pediu algodão, álcool e uma toalha. Concedi. Ligou uma máquina cheia de bulbos de vidro. Prendeu vários deles em minhas costas e pernas.

– São ventosas – explicou.

Acionadas eletricamente, as ditas-cujas aspiraram o ar, formando bolhas em minha pele. Ele as retirou e picou o círculo marcado. Quando ia gritar, botou as ventosas de novo!

– Estou retirando seu sangue velho. Fiz isso em um cavalo contundido e foi muito bom.

Retribuí com um sorriso eqüino. Seria a solução dos meus problemas de ciático? Quando terminou, eu parecia uma jibóia, cheio de marcas redondas. Adorei. A cada quinze dias me aplicava as ventosas. Até no dedo mindinho! Minha vida social rareou, pois, reconheço, me tornei uma figura muito esquisita! Minha única alternativa teria sido virar punk! Parei quando insistiu em vir às 7 horas da manhã. Nada me faz acordar tão cedo, nem mesmo a perspectiva de ficar ágil como um cavalo do Jockey.

Outro decidiu me tornar uma pessoa melhor, dando um soco no meu peito.

– Isso vai abrir seu coração. A dor que está sentindo é por ser uma pessoa muito fechada.

Profissionais decididos a tratar a vida emocional não são raros. Houve um que na segunda sessão só conversou.

– O que está sentindo?

– Cansaço. O trânsito está horrível. Ainda por cima, a chuva...

– Você precisa se transformar.

– Preciso? Você... bem... será que eu... o que fiz?

– Tem de se tornar uma nova pessoa. Acabou o horário. Não deu tempo de tocar seu físico, mas foi importante para seu astral. Acerte com minha secretária e marque nova consulta.

Saí, carregado de culpa. Transformar, transformar... sem dúvida. Mas e a espinha cansada? E o ciático? Fugi.

Houve um ótimo, no Sumaré. Não podia contar onde estava doendo, porque nesse caso usava os cotovelos.

– Deixe eu desfazer esse nó.

– Aiiiiiiiiiiii!

– Daqui a pouco você vai se sentir melhor.

Quem não se sente? É o alívio do fim da surra. Outro aplica a moxibustão. É uma técnica de origem chinesa. Aproxima um bastão de incenso aceso da área dolorida. Vai esquentando o local até que...

– Está queimando, queimou, queimou, queimou!

Retira o incenso com ar sábio e aplica mais além. No ar, resta o cheirinho dos meus pêlos chamuscados!

Já ousei até a tal de "massagem express". Há uma tenda em frente ao Edifício Itália, nos domingos. É a massagem rápida, feita no torso, em uma cadeira especial. Fico de camiseta. Ele aperta, aperta. Quase durmo. Quando me levanto, um grupinho observa, curioso. Por falta do que fazer, resolveram assistir à sessão!? Que raiva!

O mais recente usa técnicas de shiatsu. Comprime pontos de tensão ou dor com os dedos.

– Veja, é como um botão. Eu aperto aqui e...

– Ui! Ui! Ui!

– Fique quieto, só estou ajudando. Agora só faltam os pés.

Segundo afirma, na planta dos pés estão concentrados todos os pontos necessários para as curas. E lá vai o dedo! Urro.

– Relaxe, relaxe!

– Como vou relaxar com um alicate no pé?

Queria ver se alguém tratava assim um imperador romano! Mas... que vida! Reclamo da boca para fora. Entra ano, sai ano, e estou sempre nas garras de um novo massagista!

 

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